3. Métodos
3.2 Análise das experiências das mulheres que usaram PEP sexual no âmbito do
3.2.2 Procedimentos de análise dos dados
3.2.2.3 Quadro de Análise
A interpretação baseou-se na articulação dos dois quadros teórico-metodológicos que guiam o estudo: o da compreensão construcionista da sexualidade e a perspectiva sobre o processo saúde-doença à luz da vulnerabilidade e dos direitos humanos. Como previamente discutido, essas duas tradições se encontram no campo dos estudos sobre a aids no Brasil e se desenvolvem com base em duas unidades de análise – a pessoa em cena (Paiva, 1999; 2006; 2012) e as dinâmicas do Cuidado (Ayres, 2004; 2007).
Considerando essas duas unidades de análise, buscamos compreender, por comparação e contraste, as experiências das mulheres com a PEP sexual conforme os cenários culturais que as estruturam. Derivamos assim, as categorias empíricas do estudo: cenários que estruturam a sexualidade na vida cotidiana; nesses cenários sexuais, as cenas típicas que levaram à PEP sexual; cenários programáticos que estruturam o acesso à PEP e o cuidado nos serviços de saúde; e cenários que estruturam o uso da PEP na vida cotidiana. Caracterizamos, ainda, as cenas sexuais que levaram à PEP em três subcategorias, conforme emergiram da nossa análise das narrativas: cenário de trabalho sexual; cenário de sexo casual; e cenário de relações sorodiferentes.
Ao analisar cada cenário, então, buscamos articular a compreensão de três conceitos centrais nas análises que articulam construcionismo e V&DH. O primeiro deles é o de sujeito sexual, concepção que reconhece que nas ações de prevenção e de Cuidado deve-se fortalecer e apoiar as pessoas para exercerem sua cidadania e autonomia como sujeitos de direitos em seus encontros sexuais, o que implica não apenas apoiá-los para negociar o uso deste ou daquele método preventivo, mas também para exercitar seus desejos, escolher práticas e parceiros, ter suas decisões sobre o próprio corpo respeitadas e de acessar os meios necessários para cuidar da sua saúde sexual (Paiva, 2012).
O segundo conceito é o de roteiros e scripts de gênero (Heilborn, 1993; Paiva, 1999), entendidos como “roteiros pré estabelecidos que orientam as condutas sexuais” (Heilborn, 2006, p.36) e que uma análise das relações de gênero em cena permite compreender. Presumindo a centralidade do gênero na organização social das experiências sexuais e na produção de contextos de vulnerabilidade das mulheres, buscamos compreender como as normas acerca do que é aceitável sexualmente para homens e mulheres se expressam nas cenas relatadas e vividas por nossas entrevistadas em todos os cenários.
O terceiro conceito é o de estigma e discriminação como processos sociais (Parker, 2013; Parker e Aggelton, 2001). Tendo em vista que esses processos afetam de maneira importante a prevenção e o tratamento das pessoas que vivem com HIV, buscamos analisar como são engendrados nos diferentes cenários e como diferentes sujeitos participam desses processos, recriando ou superando a exclusão em cada cenário. Consideramos a estigmatização da aids como um processo amplo, que se refere não apenas à doença em si, mas que engloba os mecanismos sociais de estigmatização e discriminação sexual e de gênero, sustentando a desigualdade historicamente produzida e que coproduz diferentes cenários para a prevenção e o cuidado (por exemplo, o cenário do trabalho sexual e o cenário das relações estáveis).
Para as análises dos cenários sexuais, nos apoiamos no recurso analítico da roteirização da sexualidade proposto por Simon e Gagnon (Gagnon, 1998; Simon e Gagnon, 1999), considerando seus três níveis: o script intrapsíquico; o script interpessoal; e o script cultural. A discriminação desses três níveis ajuda a compreender que, embora aprendido culturalmente e no processo estruturado de socialização, o script não é uma amarra que determina a conduta de todas as pessoas. Ou, dito de outro modo, as pessoas não são meras réplicas das instruções culturais aprendidas nos scripts culturais. Mais do que atores que os interpretam, cada pessoa é também autora e age transformando e adaptando (intrapsíquico) os roteiros sexuais disponíveis (culturais) às situações sexuais concretas, na interação (interpessoal). Assim, as pessoas estão sempre operando, no nível intrapsíquico, a mediação entre a cultura e a interação, que pode acontecer em grau menor - quando aquilo que a situação concreta requer é altamente congruente com o culturalmente esperado - ou maior - por exemplo, quando nos encontramos em situações radicalmente inéditas, que exigem que inventemos a conduta, ainda que sempre com alguma base nos materiais roteirizados de que dispomos. Este recurso analítico nos permite analisar a prevenção do HIV como uma construção psicossocial e intersubjetiva que se realiza nas diversas interações que, por sua vez, se desenvolvem em cenários específicos, no interior dos quais se cruzam discursos sobre saúde, prevenção, aids, gênero e sexualidade, entre outros (Paiva, 2008).
Considerando especificamente os cenários programáticos de acesso à PEP sexual, guiamos a análise pelas proposições de Gruskin e Tarantola (2012) acerca dos três elementos centrais das abordagens em saúde baseadas nos direitos humanos:
O exame do contexto legal em que políticas e programas se desenvolvem; A integração sistemática de direitos humanos fundamentais às políticas de
saúde pública; e
O foco nos quatro elementos-chave para a consecução do direito à saúde: o Disponibilidade: bens e serviços devem ser oferecidos com a máxima
disponibilidade de recursos, em quantidades suficientes para a população;
o Acessibilidade: os serviços devem estar ao alcance de todas as pessoas, o que implica em respeitar os princípios de não discriminação, acessibilidade física, acessibilidade econômica e acessibilidade da informação;
o Aceitabilidade: as instalações, bens e serviços devem respeitar a ética médica e ser culturalmente apropriados;
o Qualidade das ações e serviços: os serviços devem se basear em conhecimentos científicos, assegurando profissionais adequadamente capacitados, assim como medicamentos e equipamentos cientificamente aprovados e condições seguras para realização dos cuidados em saúde. Aliado a essas dimensões, guiou-nos o conceito de Cuidado, que é, no quadro da V&DH, a categoria reconstrutiva das práticas operadas nos encontros intersubjetivos entre profissionais e usuários ou entre serviços de saúde e cidadãos (Ayres et al, 2012). O Cuidado, assim grafado com inicial maiúscula, é um conceito que se formula como resposta à excessiva tecnicidade das práticas de saúde contemporâneas e que busca
recuperar a dimensão existencial do adoecimento, seja no plano individual ou no coletivo, no interior dessas práticas (Ayres, 2004). Essa reconstrução das práticas a partir de uma concepção hermenêutica da saúde (Ayres, 2007) não nega os conhecimentos biomédicos, mas aponta a insuficiência deles e a consequente necessidade de que a eles sejam articulados outros saberes científicos e práticos, a fim de construir as soluções possíveis para quem busca ser cuidado. Nos encontros guiados pelo Cuidado, os momentos assistenciais não têm fins pré-estabelecidos, tampouco unilateralmente definidos pelos agentes de saúde. O Cuidado é, antes de tudo, uma ação dialógica por meio do qual quem cuida e quem é cuidado constroem, em um processo de fusão de horizontes, os objetos da intervenção e as finalidades visadas e decidem, de maneira compartilhada, as maneiras mais adequadas e aceitáveis de operá-la (Ayres et
al, 2012, p 15). Neste diálogo, cada qual contribui com os saberes científicos e práticos que carrega. O horizonte normativo do Cuidado é, portanto, o sucesso prático: um processo de construção da compreensão sobre o problema de saúde que obstaculiza os projetos de felicidade de quem é cuidado e de decisão compartilhada dos recursos a serem mobilizados para superá-lo (Ayres et al 2012).