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Quadro legal - institucional: desafios e perspectivas

A referência está no ano de 1934, quando foram promulgados os seguintes documentos relativos à gestão dos recursos naturais: Código de Caça (Decreto 23.672 de 2 de janeiro de 1934); Código Florestal (Decreto 23.793 de 23 de janeiro de 1934); Código de Minas (Decreto 24.642 de 10 de julho de 1934); e Código das Águas (Decreto 24. 643 de 10 de julho de 1934).

As políticas públicas dessa fase procuravam alcançar efeitos sobre os recursos naturais por meio de gestões setoriais. Até meados da década de 1970, o modelo de desenvolvimento era confundido com o crescimento econômico, essa percepção perdurou até as implicações se tornarem evidentes, fundamentando-se na exploração de mão-de-obra desqualificada, barata, e na exploração excessiva dos recursos naturais, considerados até então infinitos (BRAGA, 2005).

Desse modo, as primeiras iniciativas relacionadas à política pública ambiental têm início com a Conferência de Estocolmo, em 1972, quando as preocupações ambientais se tornaram uma constante. Embora nessa ocasião o governo brasileiro não reconhecesse a gravidade das questões ambientais da nação e defendesse a ideia de desenvolvimento econômico, os efeitos ambientais e discussões planetárias exigiram do poder público uma mudança de postura.

Como um dos primeiros instrumentos de conscientização a respeito da proteção ambiental, a Declaração de Estocolmo de 1972, tratou das questões relativas ao desenvolvimento e ao ambiente e consagrou como direito fundamental do ser humano o desfrute de condições adequadas de vida em um ambiente com qualidade (BRAGA, 2005).

Assim, o controle da poluição apresentou como foco, no cenário mundial, a proteção do trabalhador no ambiente de trabalho, por meio do desenvolvimento de normas de saúde e segurança ocupacional, cujas primeiras discussões ocorreram nos Estados Unidos, no início do século XX (BRAGA, 2005). Posteriormente, as preocupações envolveram populações situadas no entorno de indústrias e empreendimentos responsáveis pela alteração na paisagem local, sobretudo quando se considera as mudanças nas condições de vida desses indivíduos.

O início do século XX é marcado por discussões ambientais, principalmente com relação à poluição e, dentre as principais formas de poluição em pauta, a atmosférica recebeu maior destaque, levando à necessidade do estabelecimento de normas de controle. Em 1970, nos Estados Unidos, foi criada a norma de controle da poluição do ar, resultado de esforços iniciados em 1955. Após esses eventos, outras formas de controle da poluição ambiental foram editadas, de maneira a abranger as demais fontes de poluição do ambiente (BRAGA, 2005).

A evolução da legislação ambiental brasileira se estabelece a partir da criação de uma estrutura complexa para seu desenvolvimento e implantação, considerando os três níveis hierárquicos: à União cabe o estabelecimentos de normas gerais válidas em todo o território nacional; aos Estados cabe o estabelecimento de normas peculiares; enquanto os Municípios se responsabilizam pelo estabelecimento de normas que visem atender aos interesses locais (MACHADO, 1996).

No Brasil, a mineração, de um modo geral, está submetida a um conjunto de regulamentações, em que os três níveis de poder possuem atribuições com relação à mineração e ao ambiente.

Em nível federal, os órgãos que têm a responsabilidade de definir as diretrizes e regulamentações, bem como atuar na concessão, fiscalização e cumprimento da legislação mineral e ambiental para o aproveitamento dos recursos minerais são os seguintes:

a) Ministério de Minas e Energia (MME): responsável por formular e coordenar as políticas dos setores mineral, elétrico e de petróleo/gás;

b) Ministério do Meio Ambiente (MMA): responsável por formular e coordenar as políticas ambientais, assim como acompanhar e superintender sua execução;

c) Secretaria de Geologia, Mineração e Transformação Mineral (SGM/MME):

responsável por formular e coordenar a implementação das políticas do setor mineral;

d) Departamento Nacional de Produção Mineral (DNPM): responsável pelo planejamento e fomento do aproveitamento dos recursos minerais, preservação e estudo do patrimônio paleontológico, cabendo-lhe também superintender as pesquisas geológicas e minerais, conceder, controlar e fiscalizar o exercício das atividades de mineração em todo o território nacional, de acordo o Código de Mineração;

e) Companhia de Pesquisa de Recursos Minerais (CPRM): responsável pelo serviço geológico do Brasil por gerar e difundir conhecimento geológico e hidrológico básico,

além de disponibilizar informações e conhecimento sobre o meio físico para a gestão territorial;

f) Agência Nacional de Águas (ANA): Responsável pela execução da Política Nacional de Recursos Hídricos, sua principal competência é implementar o gerenciamento dos recursos hídricos no país. É responsável também pela outorga de água superficial e subterrânea, inclusive aquelas que são utilizadas na mineração;

g) Conselho Nacional do Meio Ambiente (CONAMA): responsável por formular as políticas ambientais, cujas Resoluções têm poder normativo, com força de lei, desde que, o Poder Legislativo não tenha aprovada legislação específica;

h) Conselho Nacional de Recursos Hídricos (CNRH): responsável por formular as políticas de recursos hídricos, promover a articulação do planejamento de recursos hídricos e estabelecer critérios gerais para a outorga de direito de uso dos recursos hídricos e para a cobrança pelo seu uso;

i) Instituto Brasileiro de Meio Ambiente Recursos Naturais Renováveis (IBAMA):

responsável, em nível federal, pelo licenciamento e fiscalização ambiental; e

j) Centro de Estudos de Cavernas (CECAV): responsável pelo patrimônio espeleológico.

Os estados, respeitadas as suas competências e jurisdições, podem legislar supletivamente e complementarmente quanto a padrões relacionados ao meio ambiente, observando-se as determinações do CONAMA.

Segundo MMA (2001), dada a extensão e a complexidade da questão ambiental, em algumas Unidades da Federação o arranjo administrativo para a gestão ambiental reproduz, dentro de cada estado, a estrutura do Sistema Nacional do Meio Ambiente (SISNAMA), o que torna a gestão efetiva.

Na década de 1990, as agências estaduais de ambiente passaram a transferir suas atribuições referentes à gestão ambiental, destaque para o licenciamento de atividades econômicas que causem danos locais, para os municípios. Essa descentralização ocasiona uma reprodução em nível municipal da estrutura administrativa ambiental já existente no âmbito federal e estadual (BARRETO, 2001, p. 56).

Tal descentralização se concretiza, sobretudo, através dos Conselhos Municipais de Meio Ambiente (CMMA), espaços para a negociação de demandas e conflitos, bem como a mediação

dos interesses locais. Por isso, o conselho deve reunir representantes legítimos de todos os segmentos da sociedade local interessados na qualidade ambiental.

No entanto, a criação de conselhos não representa que sua finalidade seja cumprida; a sua composição também não representa a participação dos atores, nesse sentido, Carlo (2006) defende o papel dos municípios na implementação da gestão ambiental, tendo em vista que, somente no âmbito local, é possível obter uma imagem precisa dos problemas ambientais, bem como, das necessidades da população. A autora indica a falta de empoderamento dos municípios como interlocutores do SISNAMA, apesar de um aparente esforço para gerar estruturas administrativas e articulações institucionais.

Com efeito, os números indicam um fortalecimento significativo da gestão ambiental municipal. Segundo Pesquisa de Informações Básicas Municipais mais de 4.300 municípios no Brasil possuem órgãos de meio ambiente, com mais de 40 mil pessoas trabalhando e em média 1.800 conselhos se reuniram nos 12 meses anteriores à pesquisa, bem como, mais de dois mil municípios receberam recursos específicos para meio ambiente (IBGE, 2009).

Embora os percentuais apresentem aumento na estrutura do ambiente, na esfera municipal existem elementos que devem ser considerados a partir das particularidades, uma vez que, os recursos, pessoas e instituições podem caminhar de forma fragmentada e subutilizada, pois as iniciativas de diálogos Interfederativos são precárias e, como consequência, pode-se vislumbrar um subaproveitamento de recursos públicos, sejam eles financeiros ou humanos.

Nessa conjuntura, segundo Scliar (1996), a mineração, é considerada como atividade potencialmente poluidora do ambiente e, portanto, recebe um tratamento da gestão pública ambiental comum a todas as atividades que efetiva ou potencialmente degradam a qualidade ambiental. Desse modo, temas voltados à mineração também são tratados no âmbito municipal através do Código de Meio Ambiente, sobretudo minerais que segundo o Código de Mineração Brasileiro (Decreto no 62.934, de 2 de julho de 1968) compõem a classe II (jazidas de substâncias minerais de emprego imediato na construção civil) sobre a exploração de minerais específicos, como Urânio (alvo desse estudo) a competência quanto ao licenciamento e fiscalização cabe ao IBAMA e CNEN, aspectos que serão apontados no decorrer dessa seção.