A voz dos socioespacialmente atingidos
QUADRO 05: UHE BELO MONTE, UMA RADIOGRAFIA ESCALAR (5)
Elementos de análise Situação/implicações
Conflito de Interesse entre o Empreendedor de Belo Monte e Estado
Brasileiro
Onde acaba o público e começa o privado em
Belo Monte?
1) Belo Monte é uma obra controlada por estatais (são as maiores acionistas);
2) Financiada por Banco Público (o financiamento via BNDES são majoritários em relação a outras fontes de financiamento); 3) As implicações jurídicas “mais densas” destinadas à empresa
“Norte Energia S/A” são defendidas pela Advocacia-Geral da União;
4) O governo é o responsável, por meio do IBAMA e da FUNAI por fiscalizar o cumprimento dos acordos e o respeito aos direitos das populações atingidas;
5) As informações sobre as ações e o impacto da construção de Belo Monte vem dos relatórios feitos e enviados periodicamente pela Norte Energia (NESA). O IBAMA, órgão fiscalizador, age com base no que é dito pelo objeto de sua fiscalização a NESA;
6) Ao longo do processo de licenciamento e implantação de Belo Monte, a Norte Energia foi autuada 27 oportunidades pelo IBAMA, as multas somam mais de 76 milhões de reais (dos quais 33 milhões por ocasião da morte de mais de 16 toneladas de peixes, quando do funcionamento experimental da Usina; e 7,5 milhões pelo atraso na entrega das obras relacionadas à construção e distribuição da rede de água e esgoto que atenderá a cidade de Altamira)65;
7) Em síntese, trata-se de obra pertencente ao Governo Federal, a 65 Não se tem informações sobre o pagamento das multas.
um só tempo, executada, financiada e fiscalizada pelo próprio governo.
Fonte: Jornal El País https://brasil.elpais.com/brasil/2015/07/06/opinion/1436195768_857181.html; Portal de Notícias G1 http://g1.globo.com/pa/para/noticia/ibama-autua-norte-energia-em-r-75- milhoes-por-descumprir-exigencias-no-licenciamento-de-belo-monte.ghtml.
Quadro elaborado/atualizado pelo autor. Grifo nosso.
Os quadros acima trazem vários elementos analíticos para podermos pensar o “grande projeto” UHE Belo Monte em diversas perspectivas escalares. Que vão desde as acusações sobre a existência de casos de corrupção, envolvendo políticos e empreiteiras, passando por denúncias de “vícios” em contratos firmados entre empresas privadas e empresas públicas, até a denúncia de casos (graves) de violação de direitos socioambientais. Além da adoção de um conjunto de medidas que, nos permitem pensar o objeto UHE Belo Monte dentro de um contexto que lembra, sobre muitos aspectos, um “estado de exceção” (AGAMBEN, 2004). Expresso na utilização deliberada do mecanismo de “suspensão de segurança” e do uso da Força Nacional66 para reprimir greves nos canteiros de obra e manifestações dos socioespacialmente atingidos.
Em que pese todas as aberrações e arbitrariedades presentes nos quadros acima, os efeitos do conjunto de ações impetradas pelo empreendedor de Belo Monte (a Norte Energia S/A) e o Estado Brasileiro sobre as populações atingidas são profundos e de difícil mensuração. As transformações causadas pelas obras e ou dinâmica da UHE Belo Monte, bem como os impactos à escala da vida das pessoas direta e indiretamente atingidas pela Obra, vem sendo denunciados por organizações socioambientais, movimentos sociais, lideranças da região da Transamazônica e Xingu e pesquisadores independentes.
Denúncias que são diversas, tendo em vista as várias problemáticas causadas em virtude da implantação da UHE Belo Monte, aos não menos diversos agentes e/ou sujeitos socioespacialmente atingidos pelo empreendimento. A partir da consideração da escala é possível criar diferentes tipologias para interpretação e análise da realidade em observação-estudo. Tipologias estas que variam da “escala do corpo” ao “mundo”, sem que isso implique de maneira mecânica o estabelecimento de hierarquias ou níveis analíticos. Garantindo assim a pertinência do sentido atribuído ao objeto de análise, tendo 66 A Força Nacional de Segurança Pública é um programa de cooperação do governo federal, criado para executar atividades e serviços imprescindíveis à preservação da ordem pública, à segurança das pessoas e do patrimônio, atuando também em situações de emergência e calamidades públicas. […] Seu trabalho consiste em apoiar operações de segurança pública, que podem ser realizadas em qualquer ponto do país. […] A Diretoria da Força Nacional de Segurança Pública está subordinado à Secretaria Nacional de Segurança Pública do Ministério da Justiça (Senasp/MJSP). (Fonte: Portal do Ministério da Justiça).
por intuito melhor observar, mensurar e dimensionar um dado fenômeno (CASTRO; 1995; 2014). Segundo Castro,
[…] mudança de escala implica transformações qualitativas não hierárquicas do fenômeno observado que precisam ser explicitadas. Nunca é demais realçar que considerar a escala na geografia é basicamente pensar em recortes significativos para a análise dos fenômenos. Nesta perspectiva, Le Moigne (1991 apud CASTRO, 2014) aponta o significado heurístico da escala como recurso para fazer face às múltiplas possibilidades de medidas de um mesmo fenômeno. Para ele, a escala, além de ser um operador de correspondência com o real, é também percepção, concepção e um operador de complexidade (2014, p. 91-92, grifo nosso).
Dito isto e a partir da consideração do que representa a UHE Belo Monte para os socioespacialmente atingidos, verifica-se que por meio da escala é possível considerar diferentes perspectivas de análise e de apresentação/representação de aspectos da realidade. Tais como: os impactos à territorialidade/identidade dos grupos indígena presentes na região do Xingu; os efeitos desestruturadores sobre a vida de ribeirinhos e camponeses, fruto da espoliação destes de seus locais, de seu lugar.
Além das implicações socioespaciais causadas aos moradores da cidade de Altamira, em espacial, aos que moravam nas porções sujeitas a alagamentos periódicos do rio Xingu (e que foram obrigados a sair de suas casas para ir morar nos novos bairros construídos, os chamados RUCs – Reassentamento Urbano Coletivo – estes, muito distantes do centro da cidade), os chamados “baixões da cidade” que, embora possuíssem precárias condições de infraestrutura eram, não obstante, excelentes do ponto de vista da localização na cidade, estando próximos à rede comercial e de serviços. Há um completo desencontro entre o discurso do Estado e do empreendedor de Belo Monte e o das populações socioespacialmente atingidas pelo “grande projeto”. Para os primeiros Belo Monte é progresso, é o caminho para o desenvolvimento. Já os segundos a tem como destruidoras de espacialidades, violadora de direitos, o avesso do desenvolvimento, a natureza insana do quê se autointitula progresso.
Trata-se de duas concepções de espaço em conflito, uma que o trata como “instrumental”, “um meio geográfico passivo”, “um meio geométrico vazio” (LEFEBVRE, 2016). E outra que o concebe como sendo a “morada do homem”. Sobre estes “repousa o futuro do princípio segundo o qual o espaço tem um valor de uso e não apenas um valor de troca” (LEFEBVRE, 2016, p. 147). Essas duas concepções de espaço que são, concomitantemente, concepções de mundo, travam uma verdadeira guerra nesta porção da amazônia.
A concepção de mundo das classes dominantes e a concepção de mundo das classes subordinadas. Sobre isso refletiu Lefebvre da seguinte forma:
Hoje as classes dominantes se servem do espaço como de um instrumento. Instrumento para vários fins: dispersar a classe operária, reparti-la nos lugares prescritos; organizar os fluxos diversos subordinando-os a regras institucionais; subordinar, por conseguinte, o espaço ao poder; controlar o espaço e reger, tecnocraticamente, a sociedade inteira, conservando as relações de produção capitalistas. As classes dominantes conseguem isso? Eu digo que não, pois contradições novas aparecem. São as que chamo de contradições do espaço, e que não são mais exatamente aquelas do tempo histórico analisado por Marx, depois de Hegel. Há uma contradição entre a
capacidade técnica de tratar o espaço globalmente e o esmigalhamento do espaço em parcelas para a venda e a troca. Essa
é a forma tomada, atualmente, pela contradição entre as forças produtivas e as relações de propriedade. Uma outra contradição do espaço, que apenas se começa a descobrir, é a contradição entre o movimento, os
fluxos, o efêmero, de um lado e, de outro, as fixidades, as estabilidades, os equilíbrios pretendidos (LEFEBVRE, 2016, p. 145,
grifo nosso).
Embora este filósofo tenha produzido suas reflexões/inflexões a partir da consideração de outras realidades diferentes da brasileira, em especial, da realidade amazônida, suas contribuições teóricas nos ajudam em demasia. Há de fato, forte contradição(ões) quando da consideração da relação escalar global-local, por exemplo. O global tende a eliminar o local, o transformando em caricatura de um mundo que não mais existe. Não obstante, o local, por meio de inúmeras formas de resistência e de luta por (re) existência, tende a negar a velocidade, a mudança imposta pelo global.
Esse conflito, produto de uma economia política renovada do espaço, guarda em seu seio a disseminação do velho, expresso na expansão do capital a partir de seus “ajustes” e, do novo. Este defensor de uma nova ideia, a que advoga a “qualidade do espaço”. Mas, o que isso quer dizer? “[…] trata-se da ideia de um espaço social elaborado, complexo e exitoso, numa palavra, apropriado, e não somente dominado pela técnica e pelo poder político; o que estaria associado com o ‘mudar a vida’” (LEFEBVRE, 2016, p. 136-137, grifo do autor).
Esse “mudar a vida” não se relaciona, ou refere-se, ao que existe nas diferentes culturas mundo afora. Mas, a capacidade necessidade, de negar o modo de vida ocidental hegemônico, consumista e predador usado pelos agentes do capitalismo. As práticas socioespaciais de grupos “tradicionais” como os indígenas, os ribeirinhos, revelam as formas mais “avançadas” existente, no que concerne a relação sociedade-natureza. A compreensão deste “mudar a vida” requer de nós uma mudança de mentalidade. Que, na
escala do tempo cronológico, pode durar décadas ou mesmo centenas de anos. Desenvolver uma relação com o ambiente capaz de o utilizar sem o destruir exige uma radical mudança de pensamento e comportamento. Que, embora pareça utópica é, necessariamente, “utopiana”67 (LEFEBVRE, 2016, p. 147).
Da (in)visibilidade do real: os impactos aos povos indígenas.
O indígena é um sujeito territorial por excelência. A UHE Belo Monte significou para este a completa descaraterização de seus modos de vida.. A alteração em seu território, o impacta diretamente. A implantação de Belo Monte, implicou na dependência destes em relação ao empreendedor. Tornando-os pedintes de sestas básicas e consumidores de produtos industrializados. Prática essa que, antes de Belo Monte, não existia. A obra fragmentou grupos indígenas, desintegrou aldeias, tornando-os mais fracos politicamente e os deixou doentes. Segundo Garzón,
A usina hidrelétrica (UHE) de Belo Monte trouxe impactos significativos, de longa duração ou mesmo irreversíveis, para os povos que habitam Terras Indígenas (TIs) do médio rio Xingu, já historicamente afetados pelos diversos ciclos de exploração de recursos naturais na região (seringa, peles, madeira, garimpo etc.), bem como pela ocupação desordenada da mesma após a abertura da rodovia Transamazônica, nos anos de 1970. Os Estudos de Impacto Ambiental (EIA) da UHE previram, em 2009, que o impacto mais grave derivaria do adensamento populacional e da ocupação desordenada do território no entorno das TIs, com a chegada de milhares de pessoas para trabalhar na obra. Como consequência, haveria um aumento de atividades, dentro e fora das TIs, que poderia comprometer a sobrevivência física e cultural dos povos da região. Atividades como garimpo, extração ilegal de madeira, pesca, caça, abertura de estradas e de novas áreas agrícolas floresceriam em um ambiente caracterizado pela precariedade da situação fundiária das TIs e da estrutura de fiscalização da Fundação Nacional do Índio (Funai) e demais órgãos competentes (GARZÓN, 2015 In: DOSSIÊ BELO MONTE, 2015).
Mas para etnias Arara e Juruna, os impactos previstos foram mais intensos, tendo em vista essas comunidades estarem localizadas no trecho de “vazão reduzida”, ou seja, no trecho interrompido do rio. Dos 100% de água que corria rio abaixo antes de Belo Monte, reduziu-se esse percentual para somente 30%. Impactando de forma acentuada as comunidades indígenas localizadas nesta porção, fortemente modificada, do rio. Estas comunidades são 100% dependentes do rio, seja para locomoção até a cidade de Altamira, seja para fazer suas atividades diárias e para alimentação (a prática da pesca). As Terras indígenas Arara da Volta Grande do Xingu e Paquiçamba sofreram profundas alterações no que concerne às condições ambientais encontradas antes da implantação da UHE Belo 67 “[…] Chamo de utopiano, opondo a utópico, o que não é possível hoje, mas pode ser amanhã” (LEFEBVRE, 2016, p. 147, grifo nosso).
Monte. Como houve mudança do regime hidrológico, essa impactou fortemente a pesca. A tal ponto de não se ter garantia se essas comunidades conseguirão manter-se em seus locais ancestrais.
A chegada do grande projeto UHE Belo Monte promoveu a desestruturação dos territórios indígenas.
De acordo com a Funai, durante os últimos cinco anos têm acontecido aumento de invasões por caçadores e expansão dos loteamentos rurais nas TIs Arara, Koatinemo e Ituna/Itatá; aumento de invasão de pescadores comerciais nas TIs Trincheira Bacajá, Paquiçamba e Arara da Volta Grande do Xingu; crescimento de abertura irregular de estradas e extração ilegal de madeira nas TIs Cachoeira Seca, Paquiçamba, Arara, Trincheira Bacajá, Xipaya e Kuruaya; e intensificação da presença de garimpos ilegais nas TIs Xipaya e Kuruaya, e no entorno da TI Arara (GARZÓN, 2015 In: DOSSIÊ BELO MONTE, 2015).
Essas ações intrusivas sobre as terras indígenas, fez com que os índices de exploração ilegal de madeira disparassem na área de influência da obra e, a Terra Indígena Cachoeira Seca, foi uma das mais afetadas pela presença do objeto técnico UHE Belo Monte no território. Foram extraídos mais de 200.000 metros cúbicos de madeira só no ano de 2014. Quantia suficiente para encher mais de 13.000 caminhões madeireiros, e atribuir a TI Cachoeira Seca o título de mais desmatada do Brasil.
Processo este que delega ao indígena
[...] um lugar como alegoria no imaginário nacional, como um componente de formação cristalizado no passado, quase uma gravura. Mas sua existência concreta, sua história em movimento, e, principalmente, sua resistência como protagonista histórico, o torna perturbador. A ideia dos povos indígenas como “entraves”, agora não mais ao progresso, mas ao “desenvolvimento”, persiste no senso comum. E “entraves” precisam ser “removidos”. Seja pelo extermínio direto, o que já não é possível numa democracia (será?), seja pelo extermínio cultural, como a Norte Energia e o governo fizeram – e estão fazendo – em Belo Monte (ELIANE BRUM, Jornal El País, 7 de julho de 2015, grifo nosso).
Tratar os povos indígenas como entraves ao “desenvolvimento” é a expressão concreta do poder derramado sobre os territórios destes. Mas, de que poder estamos a falar? É possível afirmar que existem três grandes formas de manifestação do “poder” (FOUCAULT, 2008). O “poder soberano”, representativo do poder do (de um) Estado Nacional, que o exerce tendo por objetivo salvaguardar e proteger suas fronteiras (seus limites territoriais) e, ao mesmo tempo, impor sua autoridade internamente. O “poder disciplinar” reproduzido por meio das instituições e suas normas. Poder este que está para além do “poder formal” do Estado, manifestando-se em escalas outras (em escalas
“microfísicas”), nas mais diferentes instituições existentes (escolas, hospitais, prisões etc.).
E o “biopoder”, o que rege “a sociedade de controle e segurança”. Expresso no poder sobre a vida (genérico/abstrato) e sobre as populações (genérico/abstrato), o que “animaliza o homem”, tendo em vista o conceber a partir de sua natureza física, de sua reprodução biológica. Segundo Haesbaert “Foucault faz uma relação interessante entre cada um desses (tipos de poder) e o tipo de espacialidade, um tipo de geografia que se desenha a partir de cada um dessas manifestações do poder” (2010, p. 08, grifo nosso).
A partir da proposição de poder de Foucault, é possível afirmar que os indígenas impactados, desterritorializados, pelo “grande projeto”, pelo projeto de hegemonia que este representa, são expressões do que foi negado, marginalizado, não considerado. Seja pelo poder soberano, que os ver como entrave; pelo poder disciplinar, que os marginaliza, tendo em vista o estado brasileiro ter passado por cima de determinações jurídicas nacionais e internacionais, específicas, da causa indígena; seja, ainda, pelo biopoder já que, o indígena é tratado como espécie primitiva, perdido ou deslocado no tempo histórico, fadado, portanto, a desaparecer, a ser incorporado pela cultura dominante, o modo de vida ocidental (capitalista).
Biopoder este expresso, em sua agressividade, em várias escalas. Da escala do território à escala do corpo. Não é simples a eleição da melhor maneira de tratar o assunto. É importante destacar que, para os indígenas, ou seja, para os hegemonizados,
[…] o território adquire muitas vezes tamanha força que combina com intensidades iguais funcionalidade (“recurso”) e identidade (“símbolo”). Assim, para eles, literalmente, retomando Bonnemaison e Cambrèzy (1996), “perder seu território é desaparecer”. O território, neste caso, “não diz respeito apenas à função ou ao ter, mas ao ser”. É interessante como estas dimensões aparecem geminadas, sem nenhuma lógica a priori para indicar a preponderância de uma sobre a outra: muitas vezes, por exemplo, é entre aqueles que estão mais destituídos de seus recursos materiais que aparecem formas as mais radicais de apego às identidades territoriais (HAESBAERT, 2005, p. 6777, grifo nosso).
A situação/contexto dos diferentes povos indígenas que vivem em Altamira e região é representativa do que se apresenta na citação acima. De um lado preocupa de outro traz esperança, a esperança na força dos fracos (SANTOS, 2004b) em vencer este biopoder a partir da articulação desses (os indígenas), junto a mais grupos de resistência, em diferentes escalas.
Da (in)visibilidade do real: o Estado brasileiro e as Empreiteiras.
As empreiteiras são agentes de territorialidade antiga na Amazônia. Chegaram a região com função definida, qual seja servir de braço direito ao Estado como viabilizadoras do território para o Capital. Os grandes eixos rodoviários e os grandes projetos/grandes objetos são expressão deste tempo-espaço marcado pela associação quase sempre problemática entre empresas (as empreiteiras) e o Estado.
A efetivação do processo de ocupação “moderno” da Amazônia, ocorrido a partir da segunda metade do século XX, e todo o rastro de violências deixado por essa experiência, marcado pelo extermínio de indígenas e colonos/posseiros não poderia ter sido consumado sem a associação do capital privado nacional (entenda-se grandes conglomerados da construção civil, bancos e trustes), grandes proprietários de terras (em especial: madeireiros, pecuaristas e sojeiros) e o Estado brasileiro. A riqueza de um punhado de empresas se deu a partir da condenação de milhares de pessoas as mais representativas mazelas sociais.
Não bastasse isso, políticos de partidos diversos seguem sendo acusados de corrupção por conta de possíveis desvios de dinheiro e tráfico de influência em Belo Monte. Por meio da leitura do boxe abaixo, de autoria do Jornalista Lúcio Flávio Pinto, é possível constatar que papel coube a UHE Belo Monte exercer junto ao cenário político brasileiro.
BOX 02: Quando a “prática suja” dá origem a “energia limpa”: a UHE Belo Monte sob denúncias de Corrupção.
Os ministros da Casa Civil, Erenice Guerra, que foi uma das principais conselheiras da presidente Dilma Rousseff desde 2013, da Fazenda, Antônio Palocci, e das Minas e Energia, Silas Rondeau, desviaram 45 milhões de reais das obras da hidrelétrica de Belo Monte, no Pará, diretamente para as campanhas eleitorais do PT e do PMDB em 2010 e 2014. Os três ministros tiveram acesso aos R$ 25 bilhões aplicados na obra durante o período em que integraram o governo. A informação consta do documento de delação premiada do senador Delcídio do Amaral, que foi líder do governo petista no Senado e no Congresso Nacional (...). Nas duas disputas presidenciais os partidos estavam coligados na chapa liderada por Dilma Rousseff. “A propina de Belo Monte serviu como contribuição decisiva para as campanhas eleitorais de 2010 e 2014”, afirmou o senador aos procuradores. [...] Os relatos feitos pelo senador (...) mostram que a operação montada para desviar dinheiro público de Belo Monte foi complexa e contínua. “Começou a ser arquitetada ainda no leilão para a escolha do consórcio que tocaria a empreitada, em 2010, e se desenrolou até pelo menos o início do ano passado, quando a Lava Jato já estava em andamento. Tida como obra prioritária do governo e carro chefe do PAC (Programa de Aceleração do Crescimento), Belo Monte era acompanhado de perto pela chefia da Casa Civil (...). Em sua delação, o senador explicou que os desvios de recursos do projeto da usina vieram tanto do pacote de obras civis como da compra de equipamentos. Ele afirmou que as obras civis consumiram cerca de R$ 19 bilhões e a compra de equipamentos chegou a R$ 4,5 bilhões.
Delcídio (...) chefiou as obras da hidrelétrica de Tucuruí, no rio Tocantins, também no Pará, entre