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Seguindo viagem: Lamento, dor e revolta no Xingu

“E

u falo sempre assim, que eu não estou vivendo, eu estou vivenciando os outros viverem” (Raimunda Gomes)

— O amigo viu o quanto que Belo Monte “melhorou” a vida do povo? Sentiu o quanto as pessoas que, compulsoriamente, tiveram que sair de suas casas, de seus lugares, estão “contentes” e são “gratos” por este “projeto de desenvolvimento”?

— Olha… eu estou até agora pensando na última frase dele, de seu Otávio.

— Há muita violência expressa naquela frase mesmo. Quando ele afirma que é na beira do rio que deseja viver “Porque na beira do rio nós sabemos! E nós não compramos o peixe e essas coisas” isso é muito violento para mim. Como podemos naturalizar o fato de milhares de pessoas serem forçadas, obrigadas a deixar suas casas, sua rede de vizinhança, de parentesco, suas vidas, seus

80 Neste momento do depoimento, da entrevista de seu Otávio, os olhos dele lacrimejaram e a tristeza se instalou.

lugares para proporcionar a outros, a estrangeiros, a desconhecidos o tal “desenvolvimento”, a tal “segurança energética”. Por que temos que aceitar como natural a forma como se pensa, concebe e conduz os “grandes projetos” de geração de energia no país. Quem ou o quê nos dar esse direito de provocar estranhamento nas pessoas? De arrancá-las de suas terras, de seus territórios? De torná-las ignorantes e pobres da noite pro dia. Por que devemos arrancá-las do local onde estas “sabem”; onde elas “são” e delegá-las à ignorância, ao “não ser”. Que lâmpada acessa no país vale mais do que a fome de um sujeito, de uma família, de uma comunidade, de uma rua inteira? Como a fome de centenas, ou mesmo milhares de pessoas, pode funcionar como um fator qualquer, na análise dos custos e/ou benefícios de outrem? O que nos dar o direito de dizer, de decidir que o sofrimento, a dor e a fome desses sujeitos são um mal necessário. A forma como se produz e gera, majoritariamente, energia no Brasil nos impõe a necessidade de esquecer. Esquecer dos outros. E, esquecendo dos outros esquecemos de nós. Quando esquecemos quem são os humanos. Já esquecemos que somos (ou seria fomos?) humanos.

— Forte o que dizes. Muito forte.

— Vou apresentar o amigo a mais um sujeito socioespacialmente atingido. Mais um que foi compulsoriamente deslocado. Vamos conversar, vamos ouvir o que tem a dizer Raimunda. Se o amigo pensa que já ouviu tudo que tinha que ouvir de violência, descasco e arbitrariedades está enganado. Raimunda, essa mulher que está em sua frente neste momento teve a casa queimada durante o processo de remoção, ou melhor, durante o deslocamento compulsório, desterritorializante/desterritorializador comandado pela empresa Norte Energia, a partir de suas dezenas de empresas terceirizadas.

— Queimaram sua casa?!

— Sim. Queimaram minha casa. Sou a única que foi queimada no beiradão81 que eu me lembre. Por

conta que eu não me calo. Eu falei foi na cara do advogado deles (refere-se a um advogado da empresa Diagonal, terceirizada da Norte Energia), quem fez curso pra mentiroso aqui foi você, não foi eu não, cê me respeite, deu até vontade de dar uma mãozada na cara dele aí na Norte Energia, pra ele criar vergonha, esse safado. […] Eles queimaram, se eles disserem que não queimaram, é mentira, está aqui a foto (mostra várias fotos no aparelho celular), eu sei o dia, eles queimaram no dia 31, eles queimaram dia 30, me ligaram dia 31 (de agosto de 2015) e eu fui lá dia primeiro, deu tudo de polêmica para lá, e eu fui na Polícia Federal, porque a Polícia Civil não quis me atender, pois não era competência deles, eles que me mandaram para a Polícia Federal, por isso que eu fui. — Onde estava localizada sua casa Raimunda?

— No Pau Rolado. Estava embargado, então eu pensei: “eles vão respeita a justiça”.

— O amigo está entendendo o que Raimunda diz? O processo de remoção compulsória na região das ilhas estava suspenso pela IBAMA.

— Que absurdo!

81 Ou seja, foi a única ribeirinha a ter a casa queimada. A única moradora da beira do rio (beiradão) que teve sua casa queimada durante o processo de deslocamento compulsório da UHE Belo Monte.

— A empresa não poderia fazer nada durante este período, porque o Ministério Público Federal entrou com uma ação na justiça solicitando a revisão de alguns casos de desapropriações.

— É, pediu pra rever o expulsório das famílias. Eu me acomodei achando que eles respeitariam a justiça, mas foi isso que eles não fizeram.

— Quando você chegou lá no Pau Rolado, a casa estava queimado?

— Não meu amigo, foi pior. No domingo eles queimaram a casa, na segunda eles me ligam e eu vou na terça, porque eles me ligaram segunda perguntando se eu tinha retirado “meus resíduos”. Eu falei: “eu vou cedo, tiro a madeira que eu quero pego minhas coisas e boto no barco, quando eles chegarem lá, está desocupada a casa para eles tomarem de conta né?” Mas estava embargado (refere-se ao processo de desapropriação), só que quando eu cheguei lá, eles já tinham queimado. Eles queimaram no domingo e me ligaram na segunda.

— Raimunda, como você explica o que aconteceu com você?

— É por conta, que eu sou bagunceira, não vou mentir não. Eu não me calo não. Eu digo o que eu sinto, nem que eu apanhe, na cara. Embora que eu apanhe, mas eu falo o que eu penso.

— A empresa pediu para Raimunda retirar “os resíduos” dela da casa. Na verdade do “barraco”. A empresa disse que Raimunda tinha um “barraco” na ilha. Ou seja, classificou a casa de Raimunda de “barraco” e seus pertences de “resíduos”. Sensível não?

— E como você fez após ter tido a casa incendiada Raimunda? — Por sorte tinha outra casa na cidade.

— Entendo. E, onde se localizava a casa da cidade? — Em uma comunidade chamada “Invasão dos Padres”.

— Eu ainda estou imaginando a casa queimando. E estou tentando me colocar em seu lugar. Você é forte Raimunda.

— Tu não viu que eu sou uma Pindoca? Que quanto mais cascas de mim arrancam, mais eu me renovo?

— E você gostava de lá do Pau Rolado? Gostavas da vida lá? — Isso ali era a minha vida, o Xingu. Entendeu? (grifo nosso). — E a casa da cidade Raimunda?

— Raimunda teve que ser indenizada pela casa da cidade também. Pois, o local onde morava na cidade de Altamira, segundo a empresa, seria inundado tal qual a ilha do Pau Rolado, quando do momento do enchimento do reservatório da Usina.

— Entendo. E a casa da cidade? Julgas que foste justamente indenizada?

— Não. E fui roubada também, porque eles me pagaram 84 mil (R$ 84.000,00 MIL REAIS) em uma casa construída 10 por 14, entendeu? Eles me deram 84 mil na minha casa, e não pude reclamar, porque eu não tinha para quem. Para quem eu iria falar? Se a justiça está aí, fazendo injustiça cada vez mais. A justiça está feita, é só a justiça se manifestar e ela acha defeito. O defeito está na justiça, porque a injustiça no mundo e aqui em Altamira está total, veja, estamos há oito dias sem água. E eu queria empurrar isso na minha cabeça? A casa que eu queria era de alvenaria, eles me deram? Não me deram!

— E a propriedade do Pau Rolado? A empresa ao menos indenizou vocês pela propriedade?

— Essa é a burocracia meu querido, foi 23 mil, eu entrei na justiça porque eu não estava satisfeita. Eu só assinei isso, porque este daqui estava quase morto (referência ao marido João acometido por um derrame após uma discussão tensa, junto a equipe responsável pelo processo de desapropriação da Norte Energia), e está aí a prova, porque ainda está doente até hoje o homem.

— 23 mil reais?

— 23 mil por uma história!

— Como era a propriedade de vocês lá no Pau Rolado?

— Era um sítio. No meio da Amazônia eles alegaram que na argila não dá nada, eu provei para eles, dá sim senhor! Nós regávamos a terra botávamos estrume de gado, merda de boi, de galinha, e está aqui: banana, mandioca. Eu tenho prova onde eu entregava o meu material, na Panela de Barro (um restaurante tradicional da cidade de Altamira), no Alvorada (referência a um supermercado de grande porte que havia em Altamira). Eu tenho o documento da SPU (referência a Secretaria de Patrimônio da União) eu era assentada lá, eu vivia de extrativismo lá na terra, eu não estava lá por acaso, chega lá que nem um jarro, eu estava lá porque ali era onde eu vivia, e tudo isso.

— E quantos anos você, seu marido, sua família passaram lá no Pau Rolado?

— Olha, na área, para ficar fixo, nós começamos lá em 2005, mas desde 1995 que a gente frequentava, entendeu? De 2005, nós ficamos em definitivo.

— Desde 95?

— Lá era um ponto de apoio, mas aí, como a história da pesca estava ficando escassa, nós começamos a cultivar a terra, a plantar. Lá não tem um toco, até hoje pode ir lá, a terra era cultivada, deixa eu te mostrar a foto aqui e você vai ver (mostra no aparelho celular algumas fotos de sua antiga propriedade), para não dizer assim, vocês são doidos, mas nós não somos não. Nós limpávamos, tinha rastelo de vassoura, quatro tarefa de terra, não é para qualquer um não. Olha o plantio de milho, plantei dentro da água. Desde o abacaxi, a gente cultivava. Olha o tanto de macaxeira. Era aguado no balde. Pegava no rio e ia aguando. Começava às 5 da manhã e 9 horas tinha aguado a roça todinha. Muito serviço, cara, te juro, dá raiva até de pensar. Pepino, tudo

zerado, tudo piverado, aguado. É isso (aqui houve uma longa pausa no relato de Raimunda, um longo silêncio acompanhado de tristeza e choro).

— Durante vinte anos? De 1995 até o momento do incêndio. — Durante vinte anos.

— Como vocês faziam para trazer a produção da ilha? Para comercializar todos esses produtos que você mostrou pra gente?

— Era de barco, trazia no barco. — Com que frequência? Todos os dias?

— Todo fim semana. É, todo sábado. Na sexta. No sábado. Trazia no barco. Chegava lá, encostava o barco, botava o motor na poupa da canoinha e ia pescar. Na época que estava proibido, eu parava. Nós parávamos 15 de novembro a 15 de março (referência ao período em que a pesca é proibida, período do defeso), esse período a gente cultivava mais a terra, vivia dela. Nós mudamos para a ilha lá, no mês de março (de 2005) e para a casa da invasão dos padres em novembro, porque a invasão fez um ano dia 2 de novembro e nós nos mudamos dia 17, eu não invadi, eu comprei o direito de alguém, entendeu, aí, a gente se mudou para lá. Então as duas coisas andavam juntas. A moradia era a ilha e a moradia era o bairro.

— Raimunda, permita-me fazer uma última pergunta, como é viver sem uma rotina construída ao longo de 20 anos? Como é que vocês vivem hoje?

— Hoje eu tirei assim uma frase do nada, assim, uma frase que ninguém escreveu, eu falo sempre assim, que eu não estou vivendo, eu estou vivenciando os outros viverem, é diferente, vivendo eu estaria quando eu tinha a minha vida, o meu dinheiro do peixe, meu dinheiro, quando eu ia na feira todo domingo, na feira vendendo e comprando o que eu tinha por direito, hoje eu nem vendo e nem compro, então eu não estou vivendo, estou vivenciando os outros viverem, da maneira que eu já vivi um dia. É isso, porque, eu imagino que se eu tivesse lá, da minha casa para o rio eu levava as coisas no colo, que era pertinho. Então, a minha vida ali era, eu já estava acostumada naquela rotina. No sábado eu já sabia que eu tinha dinheiro, oitocentos, mil, mil e duzentos por semana, era o que eu vivia. Em uma fase na história, eu cheguei a fazer até mil e quatrocentos em uma venda de sábado para domingo, fazia a feira, deixava pra mim levar quando ia em casa para onde ele (referência ao marido), ele sempre mais na roça e eu na rua (refere-se a cidade), porque eu sou mais cricri na cidade mesmo, mas sempre eu não deixava ele abandonado. Estava sempre indo lá, dormia, passava uns dois dias e voltava de novo para a cidade. Então, hoje, eu não vivo, eu vivencio os outros viver. Pode abrir a minha geladeira aí e vê se tem um pepino, se tem uma folha, mas de tudo isso eu gosto, eu sou quase vegetariana, eu gosto de muita folha como eu não gosto de carne, mas hoje eu não tenho mais, o que eu comprava a rodo, o que eu comprava mais era a alface, o pepino, a cebola, essas coisas para mim já foram extintas.

— Sete! Todas mulheres, o único homem morreu. De sete filhos eu tenho seis filhos, mas eu criei mais uma, dá a mesma coisa.

— Você deve sentir muita falta de suas casas. Como você se sente sem suas antigas casas, sem os vizinhos de antes?

— Eu estou perdida! Digamos que eu fui para uma cidade grande que eu não conhecia, fui assaltada e fiquei sem nada, digamos assim. Lá eu tinha a farmácia perto, tinha o açougue, tinha a parada do mototáxi, tinha ponto de táxi, aqui eu não tenho nada disso, estou no meio do nada (referência ao local onde está localizada a nova moradia, onde o dinheiro deu pra comprar). Aqui são aproximadamente sete quilômetros para que eu chegue no centro, lá eu estava no mesmo em dez minutos. Eu estou tentando me achar, para te falar a verdade, eu fiz assim, eu estou perdida, não de consciência, mas perdida de endereço. Eu, nem a casa, eu botei a porta na frente, coloquei de lado, para que eu tire a metade do que eu sinto, sei lá, eu estou isolada aqui (referência ao novo local onde mora com o marido), é isso. Eu não me sinto bem aqui, eu não vou mentir, aqui é meu, eu posso chegar, abrir, entrar, é meu, mas não era isso aqui que eu pensei em ter um dia, não era para está aqui. Não fui eu que escolhi está aqui, aconteceu! Eu não planejei morar no Bacana (novo bairro fruto da expansão urbana de Altamira, a partir da dinâmica imposta por Belo Monte), mas aqui foi onde eu encontrei uma forma de comprar e fazer a minha casa. Eu não queria ficar inadimplente, comprar um lote e demorar um bocado de tempo para pagar, não era isso, eu queria comprar um e ficar igual ao que eu tinha lá e poder falar é meu! Aqui, eu comprei o lote por 20 mil, isso aqui foi 20 mil, dei 25 mil para o homem deixar no jeito está aqui e 39 de material, acabou-se aí o dinheiro. Então é assim, eu não me encontrei, ainda, de verdade aqui nessa casa, as vezes eu me acordo procurando a porta do quarto, eu já peguei moto lá no centro achando que ainda morava lá, me perdi para lá, chegando lá percebo que não morava mais lá. A última vez que eu fiz isso, não tem nem um mês ainda, não sei o que aconteceu comigo, estava conversando com a dona Graça, peguei um mototáxi e mandei ele me lavar para a Invasão dos Padres, então o homem me disse que lá não morava mais ninguém e o que eu iria fazer lá, eu disse: desculpa aí eu estou maluca. Eu até brinquei com ele, eu estou perdida em Hollywood, eu moro é no Bacana na Airton Sena. Então é assim, eu ainda não me sinto assim, como uma planta que foi tirada do seu lugar e ainda não pegou, é isso (grifo nosso). Estou tentando viver onde eu estou.

— E, mas do que você sente mais falta de lá? Porque que você se agarrou lá? O que permitiu que tu te enraizasses lá? Que aqui essa planta ainda não se firmou. Porque que vingou lá e aqui ainda não? — Lá, foi uma coisa desejada. Lá, eu queria estar lá. Lá, eu imaginei que eu iria morar na terra firme, pois eu morava em palafita na peixaria. Lá, eu estava sonhando com a terra firme. Lá, eu me vi naquele lugar antes mesmo de morar nele e aqui, eu estou morando e ainda não consegui me encontrar. […] Ali, eu me encontrei antes mesmo de chegar, ali eu já fui uma planta pronta para tirar da saca e ser plantada no chão. Aqui não, eu estou tentando, sei lá, eu nem se te explicar como é que me sinto aqui, para te falar a verdade eu me sinto bem na rua, lá pelo menos eu fico conversando com as pessoas, quando chega a hora de vir para casa eu logo penso se quero vir ou se quero ficar.

— Prometo que esta é minha última pergunta. E aquelas pessoas que você tinha contato, semanalmente ou até diariamente? Fossem estas do beiradão ou da rua, há quanto tempo que você não tem um encontro com essas pessoas? Os amigos do peito, os vizinhos queridos.

— Não sei nem onde eles moram. Eu sei o rumo em que eles moram. Só sei porque alguém me disse que eles foram, não os vi mais e o único que eu ainda vi depois de toda essa história da mudança, de queima e de tudo, foi uma senhora que está com o filho internado. A minha vizinha mesmo, ela está morando no São Joaquim, uma, a outra mora aqui no Casa Nova e o resto mora no Jatobá, mas eu não sei onde ninguém mora, sei o rumo, mas não os vi mais.

— Obrigado Raimunda por ter compartilhado sua experiência conosco. E espero que dias melhores não tardem para você e sua família.

— De nada. Assim… você desabafar é muito bom. Você contar sua história e ser uma história assim que foi vivida na pele… é bom. Você se sente mais leve.

— Essa é Raimunda… Sua força e sua história me lembram o poema “Aninha e suas pedras” de Cora Coralina82.

— Obrigado Raimunda.

— Estamos chegando na cidade de Novo Repartimento. A cidade trevo desta região. É ela quem liga por terra as três cidades mais importantes do sudeste e sudoeste do Pará: Marabá – Tucuruí e Altamira.

— Cidade trevo (risos). Interessante metáfora. Metáfora que me faz pensar, mais um pouco, sobre os casos de seu Otávio e Raimunda. Se estou em uma cidade trevo tenho opções de escolha a minha frente. Escolhas estas que podem ter diferentes “determinantes”, por exemplo: posso escolher por voltar ou continuar próximo da família, posso escolher uma oportunidade de trabalho, posso escolher

82 Aninha e suas

pedras”

Ana Lins dos Guimarães Peixoto Bretas ou

Cora Coralina (1889-1985)

Não te deixes destruir… Ajuntando novas pedras e construindo novos poemas. Recria tua vida, sempre, sempre. Remove pedras e planta roseiras e faz doces. Recomeça. Faz de tua vida mesquinha um poema. E viverás no coração dos jovens e na memória das gerações que hão de vir. Esta fonte é para uso de todos os sedentos.

Toma a tua parte. Vem a estas páginas e não entraves seu uso aos que têm sede.

onde julgo ser melhor para continuar e/ou iniciar os estudos, ou ainda escolher onde financeiramente é mais adequado as minhas condições materiais de existência, etc.

— Onde o amigo deseja chegar?

— Em todas ou para todas as situações que apresentei nesta estória conjectural afirmei que se tratava de uma “escolha”. Ninguém me impôs nada. Ninguém me forçou a nada. Eu tive o “poder” de escolher.

— Já entendi…

— Já né? A pessoas como seu Otávio e Raimunda e tantas outras, milhares de outras, foi apresentada uma “opção de caderno”, não uma escolha. A escolha pressupõem uma decisão individual e/ou coletiva construída acima de tudo. E não “apresentada”, ou seja, imposta. Esses grandes projetos, essas grandes obras, esses empreendimentos são por natureza autoritários. Por isso “atingem” as pessoas; por isso a necessidade de “realocar” expressivos contingentes humanos; por isso muitos atingidos e realocados são vítimas de uma “migração forçada”; o “reassentado” é, sobretudo, um desterritorializado, um deslugarizado. Quando o arrancam de seu território há um profundo abalo em sua “identidade territorial”; a “transferência de população”, é na verdade a transferência de corpos números, a-históricos, implica em transferir abstrações; o “remanejamento” de pessoas significa, concretamente, remanejar sonhos, projetos, vidas, vidas concretas, prenhe de historicidade, de espacialidade. Os “deslocamentos forçados”, “os deslocamentos compulsórios” embora nos leve a pensar sobre o quão agressivo é esse processo, posto se configurar como um componente quase que obrigatório dos grandes projetos, ainda sim, não são, e nunca serão, capazes de mensurar o “lamento e dor” destes sujeitos atingidos. Nunca pois, o trauma de toda essa mudança vivida, mudança imposta sobre vidas, tem um indissociável componente espacial. A “condição espacial” de diferentes sujeitos