Nas quatro últimas décadas a oncologia teve o seu desenvolvimento impulsionado pela incidência crescente de novos casos de câncer, provocados não somente pela ampliação da vida média da população mundial, mas, sobretudo pela ocorrência da doença nas faixas etárias mais jovens. O câncer tem se tornado assim um problema de saúde pública e um diagnóstico precoce bem como meios de reabilitação física, social e psicológica, são pontos fundamentais da luta contra a doença. Quando não é possível curar, o alivio do sofrimento torna-se o alvo de intervenção (GANS, 1994; GOZZANI; SAKATA, 1994; SHERMAN, 1993).
Segundo Gans (l994), a maioria dos especialistas aborda qualidade de vida como um construto multidimensional. Estas dimensões incluem funcionamento físico (desempenho de atividades de cuidados pessoais, categoria funcional, movimento, atividades físicas e sociais, como trabalho ou responsabilidades caseiras), sintomas relacionados à doença e tratamento (sintomas específicos da doença como dor ou diminuição da capacidade respiratória, ou efeitos colaterais da quimioterapia, como náuseas, vômito, mucosite, perda de cabelo, impotência ou sedação), funcionamento psicológico (ansiedade ou depressão, que podem ser secundários à doença ou ao tratamento) e funcionamento social.
A qualidade de vida é considerada de forma multidimensional, incluindo interrupção das atividades sociais normais. Considerações adicionais na avaliação de qualidade de vida podem incluir relações espirituais e existenciais, funcionamento sexual e satisfação com cuidados de saúde e auto-imagem (GANS, 1994).
O câncer pode produzir conseqüências como dor, desconforto, incerteza quanto ao futuro, idéias suicidas, medo excessivo, dificuldades de relacionamento familiar e interpessoal, ansiedade e depressão, entre outros (MIYAZAKI; AMARAL, 1995; RIBEIRO DOS SANTOS et al., 1999). Estes aspectos, se ignorados, podem acarretar uma redução significativa na qualidade de vida dos pacientes e seus familiares, afetando de forma adversa o tratamento e reabilitação. Assim, diversos estudos têm sido realizados acerca de estratégias que visam manter, tanto quanto possível, a qualidade de vida de pacientes portadores de câncer.
O crescente interesse na manutenção da qualidade de vida tem beneficiado a pesquisa interdisciplinar em oncologia. Entretanto, ainda existe necessidade de melhores modelos teóricos, que permitam entender com maior clareza a influência dos fatores relacionados a este fator, como também o delineamento de estratégias de prevenção necessárias para sua obtenção e manutenção. Ao realizar um tratamento oncológico, o paciente busca cura e sobrevivência, mas necessita resultados positivos que possam auxiliá-lo a manter a adesão a tratamentos com alto número de efeitos colaterais. Prejuízos na forma de viver o cotidiano podem comprometer a adesão e efetividade destes tratamentos e devem, portanto ser cuidadosamente descritos e avaliados (GANS, 1994; RIBEIRO DOS SANTOS et al., 1999).
A quimioterapia antineoplásica e os seus efeitos colaterais são considerados “estressores” severos, capazes de interferir significamente no funcionamento psicossocial e outras categorias da qualidade de vida de diversos pacientes (HASSAN,, 1993; GANZ, 1994). O controle da sintomatologia e alívio do sofrimento destes doentes constitui parte importante do compromisso profissional.
Sintomas experimentados pelo paciente com câncer sejam estes associados à ansiedade e/ou depressão, podem estar associados ao diagnóstico inicial, e podem causar limitações no funcionamento físico (GIVEN, 1994). Sintomas associados ao tratamento quimioterápico, como náuseas, vômito, mucosite oral e intestinal, diarréia, constipação, fraqueza, anorexia, ansiedade, agitação e medo da morte, devem ser abordados para garantir a qualidade de vida.
A mucosite oral e intestinal, enquanto efeito indesejado, pode constituir-se em algo capaz de comprometer a relação risco benefício da terapêutica implementada, podendo, por vezes, representar perigo iminente à vida do paciente ou dano direto a sua qualidade de vida. Em seus diferentes graus a mucosite, de acordo com Hassan (1993), tem incidência de 40% em pacientes submetidos a diferentes protocolos quimioterápicos e em torno de 70% naqueles pacientes em uso de protocolos que exijam infusão contínua de drogas ou em regimes de indução para transplante de medula óssea.
A utilização de avaliações de fatores que traduzam a manutenção do cotidiano do paciente devem estar incluídas no treinamento das equipes interdisciplinares de oncologia. Com um treinamento específico, a avaliação e classificação das dimensões, serão melhor administradas e interpretadas. O uso de instrumentos de avaliação em qualidade de vida viabiliza, através do estudo de caso único, a ampliação desse conhecimento para grandes grupos, tornando possível à incorporação deste aspecto na prática clínica diária, permitindo
identificar problemas que possam ser diretamente abordados pelos membros da equipe oncológica (GANS, 1994).
Tanto a radiação como a quimioterapia podem causar lesões na boca e/ou esófago. O tratamento medicamentoso pode também irritar o estômago. Estas lesões podem evoluir desde uma discreta vermelhidão, edema (inchaço) e úlceras dolorosas com possível sangramento. As úlceras podem aparecer na segunda semana de tratamento e desaparecem gradualmente após completar o mesmo.
A mucosite prejudica a qualidade de vida do paciente por ser muito dolorosa e dificultar as funções do dia-a-dia como alimentação, fala e uso de aparelhos protéticos (pontes e dentaduras). (WEYMULLER et al., 2000).
A severidade desta varia conforme a sensibilidade de cada paciente, a dose aplicada e a duração do tratamento. A mucosite pode ter início na segunda ou terceira semana de tratamento podendo se apresentar também sob formas clínicas leves como um discreto eritema (vermelhidão) na mucosa (RIDER; HARWOOD, 1982).
Outro efeito que acompanha a mucosite é a atrofia das papilas gustativas do dorso da língua com a conseqüente perda ou diminuição do paladar. Alteração da percepção gustativa também ocorre, havendo pacientes que relatam gosto metálico, salgado ou doce em demasia (GRAEFF et al., 1999).
As alterações nos hábitos diários dos pacientes acometidos por mucosite são perceptíveis até em pequenos gestos como, por exemplo, na escolha do creme dental. Estudos recentes indicam que o SLS (Lauril Sulfato de Sódio) substância contida nos cremes dentais, produz ou exacerba a descamação da mucosa, fato que se torna altamente indesejável para os pacientes com mucosite. Portanto, sugere-se que os pacientes utilizem-se de cremes dentais que não contenham SLS para não piorar as ulcerações decorrentes do processo descamativo (GILL; FEINSTEIN, 1994).
Karnofsky et al. (1948) criaram uma escala de avaliação do estado funcional para pacientes com câncer de pulmão. Esta escala continua sendo adotada para avaliação do estado funcional de pacientes com câncer em geral até hoje.
Atualmente, os pesquisadores dispõem de vários questionários para avaliação da Qualidade de Vida. Gill e Feinstein apresentaram numa recente revisão, cerca de 159 questionários utilizáveis para este propósito. Os principais questionários de avaliação geral da QV são: FACT-G, MOS SF-36 e o EORTC. O FACT-G (Funcional Assessment of Cancer
Therapy- General), já validado em língua portuguesa no padrão brasileiro (GILL
;
FEINSTEIN, 1994).
O questionário da EORTC versão 3 (European Organization for Research and Treatment of Cancer), validado em língua portuguesa, padrão de Portugal, contém 5 escalas de avaliação funcional: cognitiva, social, física, emocional e geral; três escalas de avaliação de sintomas: fadiga, dor, náuseas e vômitos; seis itens para avaliação de sintomas ou problemas adicionais: dispnéia, insônia, perda de apetite, constipação, diarréia, dificuldade financeira; uma escala de avaliação global da QV (CELLA; THLSKY; GRAY, 1998).