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QUALIDADE DE VIDA E IMPACTO DAS FERIDAS NOS INDIVÍDUOS

CAPÍTULO I – O estado da arte no tratamento de feridas

1. GENERALIDADES SOBRE FERIDAS

1.2. QUALIDADE DE VIDA E IMPACTO DAS FERIDAS NOS INDIVÍDUOS

Para a Organização Mundial da Saúde (1998: 28), a definição de qualidade de vida é a “… perceção que um indivíduo tem sobre a sua posição na vida, dentro do contexto dos sistemas de cultura e valores em que está inserido e em relação aos seus objetivos, expectativas, padrões e preocupações”.

Trata-se de um conceito amplo e complexo que aglomera a influência, não só, da saúde física, mas também da saúde psicológica, do nível de independência, das relações sociais, das crenças pessoais e das relações estabelecidas com o respetivo meio ambiente em que está inserido. Em suma, pode-se afirmar que a qualidade de vida de um indivíduo é a satisfação que este apresenta relativamente à sua vida diária, comparativamente ao que ele espera ser possível fazer na fase da vida em que se encontra. Sendo subjetiva e qualitativa, cobre geralmente vários domínios: bem-estar físico, mental, psicológico e emocional, sintomas e efeitos colaterais, os relacionamentos sociais (família e amigos) e também a saúde, a educação e outros parâmetros que podem afetar a vida humana (OMS, 1998).

Quando falamos em qualidade de vida é muito comum associá-la ao conceito de saúde, sendo que muitas vezes é difícil distinguir uma coisa da outra. Apesar de a saúde não ser o único fator que influencia a nossa qualidade de vida, contribui enormemente para a melhorar, assumindo por isso, uma importância fulcral. Contudo qualidade de vida não significa apenas deter saúde física e/ou mental, mas também que essas pessoas estejam de bem com elas próprias, com a vida, com as pessoas que as cercam, enfim, ter qualidade de vida é estar em harmonia com vários e múltiplos fatores.

Relativamente à problemática das feridas, a qualidade de vida das pessoas portadoras de feridas (mesmo de diferentes tipologias) tem sido, ao longo dos tempos, uma preocupação para os profissionais que cuidam destas pessoas e para os investigadores que intervêm na área.

Existe atualmente a consciência de que ser portador de uma ferida implica grandes alterações, não só físicas, mas também no âmbito psicossocial. Inúmeros são os estudos realizados pela comunidade científica quer na perspetiva de conhecer melhor os fatores que condicionam a qualidade de vida nestas situações, quer no desenvolvimento de conhecimento a nível das intervenções necessárias para prevenir, remediar ou melhorar qualquer deterioração da qualidade de vida.

Entendendo a pessoa doente como um ser holístico, onde o bem-estar físico, social e mental assume especial importância, ser portador de uma ferida pode ter grande impacto no desempenho das atividades de vida diárias, sendo que a qualidade de vida dependerá de múltiplos fatores, como sejam a perceção que a pessoa tem da sua ferida e a forma como

reage à mesma, a perceção do nível de dor, o entendimento/aceitação sobre o tratamento que lhe é instituído, o relacionamento com os outros (nomeadamente com os profissionais, família e amigos), o estado emocional, o contexto familiar, social, profissional e económico (Waidman, Rocha, Correa, Brischilian, & Marcon, 2011).

Efetivamente, concluem os autores acima indicados (2011), que a presença de uma ferida crónica pode induzir “perda da autoestima, dor, deficit na qualidade do sono, inaptidão para o trabalho, vergonha e constrangimento para se relacionar socialmente, levando à propensão de problemas de ordem emocional”. (p. 691)

O processo de consciencialização da pessoa é algo que pode ser moroso e cada indivíduo tem o seu tempo e as suas estratégias de adaptação. Ao mesmo tempo, a prática clínica demonstra-nos que uma vasta percentagem de indivíduos não segue as intervenções terapêuticas que lhes são prescritas, assim como não atuam na prevenção ou diminuição do risco de complicações ligadas às suas doenças, originando, também, mas não só por esse motivo, que os processos de cicatrização de uma ferida, muitas vezes, se prolonguem no tempo.

A úlcera venosa é uma realidade cada vez mais frequente, sendo mesmo considerada um problema de saúde pública (Abbade & Lastória, 2005). Esta tipologia de feridas favorece um impacto adverso na qualidade de vida dos utentes, já que requer quase sempre tratamento a longo prazo (Etufugh & Phillips, 2007).

Price e Harding (2004) referem que a cura completa no menor tempo possível é o foco principal do tratamento dos utentes com feridas crónicas, nomeadamente no caso das úlceras venosas, contudo, até chegar a essa fase, existe uma série de situações que colocam o utente numa posição vulnerável, onde este vê a sua saúde alterada, com consequente impacto na sua qualidade de vida, como sejam (Herber, Schnepp & Rieger, 2007):

 O défice de conhecimento e informação sobre a doença;

 As sucessivas mudanças de penso e a satisfação (ou não) com os cuidados prestados;

 As deslocações à unidade de saúde e o tempo despendido;

 Os frequentes episódios de infeção;

 O desconforto (prurido, edema, exsudado e odores);

 As dores e o seu impacto no sono;

 O medo de a ferida não cicatrizar ou por outro lado, o medo de possível recidiva;

 A diminuição da mobilidade e, por vezes, da capacidade de trabalho, de higiene pessoal;

 As alterações da imagem corporal e o isolamento social e solidão;

 A restrição nas ocupações de vida diária;

Cabe ao profissional de saúde conhecer os sentimentos, frustrações, expectativas e o impacto que a ferida possa ter na vida do utente, para que o possa cuidar de forma mais eficaz baseando-se numa decisão terapêutica mais individualizada e centrada nos problemas do utente.

O enfermeiro tem um papel preponderante na vida destes indivíduos, uma vez que é quem os acompanha mais de perto, durante todo o processo de tratamento e cicatrização e, muitas vezes, pós cicatrização, cabendo-lhe apresentar ao utente um conjunto de estratégias facilitadoras, por forma a desenvolver uma boa adaptação ao seu estado de saúde atual. O utente vê neste profissional um apoio e um exemplo, o que torna, por vezes, mais facilitador o trabalho do enfermeiro nas intervenções ao utente.

Coloca-se então aos prestadores de cuidados de saúde o desafio de poderem utilizar ferramentas que lhes permitam perceber e compreender as necessidades específicas dos indivíduos portadores de ferida, possibilitando-lhes respostas mais adequadas e promotoras de uma maior qualidade de vida.

Existem atualmente diferentes instrumentos científicos que são utilizados para medir a qualidade de vida das pessoas, no geral.

O Medical Outcomes Study Questionaire 36-Item Short Form Health Survey (SF-36) para avaliação da qualidade de vida relacionada à saúde e o World Health Organization Quality of Life (WHOQOL-100) para avaliação da qualidade de vida geral são tentativas de padronização das medidas, permitindo comparação entre estudos e culturas (Fleck, 2000; Pereira, Teixeira & Santos, 2012). Também para verificar o nível da qualidade de vida dos diferentes grupos sociais, de diferentes países e culturas, a OMS elaborou um questionário (IDH – Índice de Desenvolvimento Humano) composto por seis domínios centrais: o físico, o psicológico, o do nível de independência, o das relações sociais, o do meio ambiente e o dos aspetos religiosos, em que se pretende medir a qualidade de vida nos países, comparando a riqueza, a qualidade do processo de alfabetização, a educação, a expectativa média de vida, o índice de natalidade e mortalidade, entre outros fatores.

Mas podemos referir outros como sejam:

 IQVFP (Índice de Qualidade de Vida de Ferrans e Powers) (Yamada & Santos, 2009);

 Escala de Qualidade de Vida de Flanagan (Dantas, Góis, & Silva, 2005);

 EQ-5D (EuroQol-5 Dimensions) (Aguiar, Vieira, Carvalho, & Montenegro-Junior, 2008);

 QWBS (Quality of Well-Being Scale) (Aguiar et al, 2008);

Desenvolveram-se também outros instrumentos, direcionados para casos mais específicos como seja, por exemplo, a avaliação da qualidade de vida do utente portador de HIV/Sida, com Diabetes Mellitus, com Alzheimer, entre outras, permitindo estudar mais objetivamente e particularmente estas populações.

Este facto assume importância pois ao selecionarmos um instrumento de avaliação da qualidade de vida e tendo em conta a necessidade de obter resultados fidedignos, deveremos considerar as suas características básicas de reprodutibilidade, validade e sensibilidade (Campos & Neto, 2008; Coutinho, 2013).

No caso particular do tratamento de feridas, existem instrumentos específicos que foram desenvolvidos para avaliar uma determinada patologia e/ou tratamento e que incidem essencialmente nos sintomas de determinada doença ou problema. Permitem comparar indivíduos com doenças idênticas e/ou resultados de determinados tratamentos, mas não podem ser utilizados na comparação de diferentes doenças (Gottrup, Apelqvist, Price, & European Wound Management Association Patient Outcome Group, 2010; International Consensus, 2012).

Neste caso, podemos referir o questionário de qualidade de vida na úlcera venosa crónica (Charing Cross Venous Ulcer Questionnaire – CCVUQ-Brasil) ou o Esquema Cardiff de Impacto nas Feridas (CWIS).

No presente estudo foi considerado importante utilizar o Esquema Cardiff de Impacto na Ferida (CWIS), instrumento especifico de colheita de dados direcionado para o utente com ferida crónica nos membros inferiores, validado para a população portuguesa por Ferreira, Miguéns, Gouveia, & Furtado, 2007). Optou-se por este instrumento tendo em conta que uma revisão da literatura efetuada com o objetivo de comparar a NHP e o CWIS quanto à capacidade de melhor avaliar a qualidade de vida relacionada com a saúde em utentes com feridas crónicas nos membros inferiores, concluiu que a opção está dependente da questão de investigação e do tema a abordar, reforçando a ideia da interligação do CWIS com outros instrumentos, que permitam avaliar outros pormenores, enriquecendo a investigação (Weissman et al., 2013).

O CWIS é um instrumento específico de avaliação da qualidade de vida de utentes com feridas crónicas nos membros inferiores (Price & Harding, 2004; Price & Krasner 2012; Weissman et al., 2013) e, apesar da existência de outros instrumentos específicos, é recomendado como válido em utentes com pé diabético (International Best Practice Guidelines, 2013).

É composto pelas seguintes dimensões: bem-estar, sintomas físicos e vida diária e vida social, e no final surgem duas perguntas relacionadas com a qualidade de vida e satisfação em geral, sendo descrito mais a pormenor em capítulo à frente.

CAPÍTULO

II

A FORMAÇÃO PARA O TRATAMENTO DE FERIDAS

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