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Qualificação profissional e transferência de locus de poder no SAMU

4 RESULTADOS E DISCUSSÃO

4.2 Gerenciamento da diferença: as relações de poder na perspectiva dos

4.3.1 Qualificação profissional e transferência de locus de poder no SAMU

A qualificação profissional passa, certamente, pelo exercício de práticas de saber vivenciadas pelos profissionais do SAMU. A toda relação de poder, correlaciona-se um campo de saber. O poder é, pressupostamente, a causa do saber, já que este “consiste em entrelaçar o visível e o enunciável” (DELEUZE, 2005a, p.48). Se por um lado, o saber se refere a matérias formadas e a funções formalizadas, por outro, o poder é diagramático e mobiliza matérias e funções não-estratificadas, de forma que “tudo é prática; mas a prática do poder permanece irredutível a toda prática do saber” (DELEUZE, 2005b, p. 81-82).

Assim, nas entrevistas, a relação dos profissionais com as práticas de saber no SAMU foi analisada considerando-se sua percepção da qualificação da equipe para o desempenho das atividades próprias do atendimento de urgência pré-hospitalar. Esse questionamento gerou respostas divergentes e, até mesmo, controversas.

Em uma entrevista com um auxiliar de enfermagem, está presente essa aparente contradição. Num primeiro momento, o entrevistado pontua que, embora não haja um investimento institucional na formação e qualificação da equipe, os profissionais, movidos por motivações pessoais, têm buscado se qualificar, através de cursos de graduação. Num segundo momento, admite a importância da instituição em sua qualificação específica para o atendimento em urgências, já que à época de sua admissão no Serviço, não tinha experiência nesse tipo de atendimento. Por fim, assume que há responsabilidade compartilhada entre profissionais e instituição no que tange à qualificação dos profissionais, haja vista o limitado investimento institucional e a baixa participação dos trabalhadores nas atividades disponibilizadas.

[...] eu acho que a prefeitura não fornece prá gente essa qualificação, sabe? Só que, assim, no sistema, no SAMU, em geral, tá tendo uma, uma coisa muito interessante, [...] a maioria dos técnicos que estão aqui, eles tão se graduando. (AE1)

A prefeitura, desde quando eu entrei, eu fiz, sim, alguns cursos. Realmente, assim, foram muito bons prá mim, porque eu não tinha experiência na urgência e... mas, no início, quando nós entramos, foram muito bom, mas, assim, agora, já deu uma parada, sabe? (AE1) [...] eu vejo assim, falta de interesse também de alguns servidores, de alguns dos meus colegas. Porque, às vezes, quando tem essas palestras, essas reuniões, esses cursos, são poucas as pessoas que vão, sabe? [...] Mas eles tão, tão tentando, né? E isso é muito bom, né? (AE1)

Assim, é possível observar que há reconhecimento da necessidade de conhecimentos específicos para o trabalho de atendimento a urgências. Mas, embora os trechos do discurso apontem para uma convergência explicita no que tange à responsabilização da instituição pela capacitação dos profissionais, não está excluída a importância da busca individual de qualificação justificada por motivações diversas.

Dentre essas várias motivações que levam os indivíduos a aprimorarem seu conhecimento, é importante ressaltar a possibilidade que isso gera de mudança na posição que se ocupa na rede de relações de poder estabelecidas, tendo em vista que poder e saber estão diretamente relacionados entre si. Nesse sentido, Deleuze (2005a, p. 81) afirma que “entre o poder e o saber, há diferença de natureza, heterogeneidade; mas há também pressuposição

recíproca e capturas mútuas e há, enfim, primado de um sobre o outro”. Apropriar-se de novos conhecimentos abre caminhos para a ocupação de posições privilegiadas nas práticas de poder exercidas cotidianamente, ainda que não signifique, necessariamente, ocupar posições de formalmente estabelecidas pela instituição, como é o caso dos cargos que envolvem o gerenciamento do Serviço.

Essas posições apontam para o funcionalismo das relações de poder proposto por Foucault, no qual, considera-se uma topografia moderna, a qual não assinala um lugar privilegiado como fonte de poder, de forma que não é possível localizá-lo pontualmente, mas sim, identificá-lo difusamente. Assim, o “poder é local porque nunca é global, mas ele não é local nem localizável porque é difuso”. Na verdade, as relações de poder são um conjunto de relações de forças, onde há dominantes e dominados, cujas localizações na estrutura são variáveis a cada momento (DELEUZE, 2005b, p.36-37).

Nesse sentido, ao atribuir a responsabilidade de treinamentos e qualificação à esfera institucional, representada pela figura de gerentes e supervisores, o profissional posiciona o poder sobre essas atividades fora de sua própria governabilidade. Essa atitude de submissão ao poder do outro faz com que o próprio sujeito da ação tenha como justificar situações em que seu trabalho não corresponde à expectativa institucional, uma vez que a instituição, detentora do poder de decisão sobre participação dos trabalhadores em treinamentos, não oferece condições satisfatórias para isso. Nesse contexto, abrir mão do exercício do poder torna-se conveniente.

Entretanto, se todo o poder de decisão sobre o profissional estivesse constantemente posicionado na instituição, a atitude de submissão completa reduziria o valor individual do profissional. Ele teria todo o seu desenvolvimento pessoal atrelado, exclusivamente, à esfera institucional, a qual gozaria de autonomia para posicioná-lo em determinado ponto da estrutura e, mesmo que essa posição divergisse das expectativas do profissional, ele teria que submeter a ela, inquestionavelmente. Por isso, a variação de conteúdo dos discursos, que transitam da responsabilização institucional total à responsabilidade compartilhada entre trabalhadores e instituição. Nessa segunda condição, a de compartilhamento, é que surge a possibilidade de transferência do locus de poder, de acordo com o investimento de cada profissional em sua qualificação. E é esse grau de investimento que vai definir a

condição de dominação de cada indivíduo, em cada momento. Entretanto, é importante ressaltar que não é intenção, aqui, considerar que as pessoas assumam essas posições sempre de forma premeditada com o intuito de usufruir de seus resultados, mas que elas fazem parte do cotidiano e das práticas sociais de forma natural.

Além da análise do locus do poder na rede social, há que se considerar, a forma como os sujeitos reagem às atividades institucionais propostas. A não participação de treinamentos oferecidos aos profissionais pode ser entendida como uma forma de resistência ao poder. Parece haver uma compreensão de que o contrato de trabalho está relacionado às atividades de trabalho propriamente ditas e que os treinamentos são uma exigência a mais, à qual cabe resistência, restringindo as perspectivas de poder por meio do acúmulo de informações.

Na perspectiva Foucaultiana, faz parte do estudo das relações de poder a investigação das resistências contra os dispositivos de poder, o que seria o único caminho para a compreensão da história do funcionamento do maquinário do poder. A análise das resistências ao poder é relevante, pois o que permite o entendimento, de forma adequada das estruturas sociais é o conhecimento do que está à margem, do que está interdito e que se coloca contra a ação do poder. Assim, para que se compreendam os dispositivos do poder, há se observar, anteriormente, estratégias antagônicas que, de uma forma ou de outra, se colocam contra os mesmos (ALVIM, 2010).