3. DOS TERMOS DE COMPROMISSO REALIZADOS PELA POLÍCIA
3.2. DA ANÁLISE DOS TERMOS DE COMPROMISSO REALIZADOS PELA
3.2.7. Quanto aos compromissos
Dos vinte e oito termos analisados, verifica-se que os compromissos foram firmados tanto pelo agressor quanto pela mulher vitimizada, que procurou a autoridade policial para relatar a violência doméstica, a fim de que se respeitem, vivam em harmonia e paz, sem ofensas morais, ameaças, agressões físicas,
atentados à dignidade humana, à honra e à intimidade dos compromissados e de seus familiares. A autoridade policial, desconsiderando o delito praticado contra a mulher, fez com que os envolvidos firmassem determinado compromisso desprovido de relação com a situação de violência que motivou a ida da mulher ao distrito, consolidando, desta feita, sua revitimização. Ora, a mulher foi vítima da violência e assume um pacto de não mais agredir/ofender aquele que lhe agrediu/ofendeu. Nada mais contraditório e paradoxal. Ademais, o termo de compromisso é um formulário padrão que se repetiu nos vinte e oito termos analisados, independente do crime praticado, ou seja, sem nenhuma conexão com o caso concreto.
CONSIDERAÇÕES FINAIS
A violência de gênero tem sido definida, como aquela exercida pelos homens contra as mulheres, em que o gênero do agressor e da vítima está intimamente unido à explicação desta violência. Portanto, a violência de gênero contra mulher, nada mais é, do que um reflexo da relação de dominação masculina, dos padrões de comportamentos ditados pela cultura e da desigual divisão de poder nas relações sociais.
Em assim sendo, percebe-se que a construção de uma sociedade igualitária acaba por emperrar, por encontrar obstáculos nessas práticas discriminatórias em relação à mulher, baseadas no gênero e em estereótipos construídos durante séculos no seio de uma sociedade patriarcal e capitalista.
Contudo, a série de atrocidades cometidas durante a Segunda Guerra Mundial, evidenciou a importância da tutela dos direitos do ser humano, passando- se a lutar pela proteção dos direitos humanos para além das fronteiras do Estado- Nação, o que veio a ensejar o reconhecimento de uma nova vertente dentro do Direito Internacional Público, isto é, uma concepção contemporânea dos Direitos Humanos - o Direito Internacional dos Direitos Humanos.
Esta nova concepção é fruto do movimento recente na história de internacionalização dos direitos humanos, surgindo, a partir do pós-guerra, onde o Estado se apresentou como o grande violador dos direitos humanos. É neste cenário que se desenha o esforço de efetivação dos direitos humanos, como paradigma e referencial ético a orientar a ordem internacional contemporânea. Dessa forma, se a II Guerra significou a ruptura com os direitos humanos, o Pós-Guerra deveria significar a sua reconstrução.
Dentro desse contexto, consolida-se, tanto no Direito Internacional como no Direito Pátrio, o valor da igualdade, com respeito à diferença e à diversidade. Nessa ótica contemporânea, ressalta-se, a nova concepção da igualdade apresenta duas vertentes, a saber: o combate à discriminação e a promoção da igualdade.
Temos assim a Convenção da ONU sobre a Eliminação de todas as Formas de Discriminação contra a Mulher, que, aliás, em seu artigo 1°, afirma que a discriminação contra a mulher significa toda distinção, exclusão ou restrição baseada no sexo e que tenha por objeto ou resultado prejudicar ou anular o reconhecimento,
gozo, exercício pela mulher, independentemente de seu estado civil, com base na igualdade do homem e da mulher, dos direitos humanos e das liberdades fundamentais nos campos político, econômico, social, cultural e civil ou em qualquer outro campo.
Ademais, o Brasil, por meio da Convenção de “Belém do Pará” assumiu a obrigação internacional de investigar e punir a violência doméstica e familiar contra a mulher. Desta feita, editou-se em terras tupiniquins a Lei 11.340/06, determinando dentre outras medidas, que a autoridade policial, feito o registro da ocorrência criminosa, deverá, imediatamente, ouvir a vítima, o agressor, as testemunhas, determinar a realização de perícias, colher todas as provas, remeter no prazo de 48 horas expediente para concessão pelo juiz de medidas protetivas de urgência, bem como encaminhar, no prazo legal, o inquérito policial ao magistrado e ao Ministério Público.
No entanto, o que se verificou na presente pesquisa, foi que a autoridade policial, ao invés de adotar as providências determinadas pelo direito interno e pelo direito internacional dos direitos humanos, continua a utilizar uma prática discriminatória contra as mulheres vítimas de violência doméstica e familiar, que remonta à época do Código de Processo Criminal do Império, através da simples confecção de Termos de Ajustamento de Conduta.
Logo, por omissão de seus agentes estatais, o Brasil vem sistematicamente desrespeitando e violando os tratados internacionais que visam proteger os direitos humanos das mulheres.
Ora, a responsabilidade internacional do Estado é, em regra, uma obrigação internacional de reparação, em face de violação de norma internacional. É o dever de reparar o dano causado pela violação, pelo descumprimento de acordo, tratado ou convenção internacional, previamente pactuada, ou seja, é o dever de indenizar o lesado, quando não mais possível o restabelecimento ao status quo ante.
Ainda, não se pode negar que, com o processo de universalização dos direitos humanos formou-se um sistema internacional de proteção, que visa dar efetividade a desses direitos. Este sistema é integrado por tratados internacionais de proteção que refletem, sobretudo, a consciência ética contemporânea compartilhada pelos Estados, na medida em que busca na salvaguarda de parâmetros protetivos mínimos – do “mínimo ético irredutível”.
proteção aos direitos humanos. E, ao lado do sistema normativo global, surgiram os sistemas regionais de proteção, que buscam internacionalizar os direitos humanos nos planos regionais, particularmente na Europa, América e África.
Consolidou-se, portanto, a convivência do sistema global da ONU com instrumentos do sistema regional de proteção aos direitos humanos. Logo, cabe ao indivíduo que sofreu uma violação de direito, tendo em vista esse complexo universo de instrumentos internacionais, a escolha do aparato mais favorável, já que direitos idênticos são tutelados por dois ou mais instrumentos de alcance geral ou específico, ou, ainda, de alcance global ou regional.
Pois bem, exsurge de maneira cristalina que as mulheres vítimas de violência doméstica, que sofreram com a omissão estatal brasileira na persecução criminal dos agressores, ante a formalização dos aludidos Termos de Compromisso, poderão por meio de Petição individual demandar o Brasil na Comissão Interamericana de Direitos Humanos, desde que preenchidos os requisitos de admissibilidade e, caso o Brasil não solucione a problemática decorrente das reiteradas violações aos direitos humanos das mulheres, poderemos chegar a uma condenação imposta pela Corte Interamericana de Direitos Humanos, como já se deu no passado, no emblemático e inédito caso Maria da Penha.
E, caso não bastasse à censura e pressão política internacional, o Brasil, tendo em vista essa postura constante de desrespeito aos direitos humanos da mulher, poderá vir a sofrer, inclusive, prejuízos econômicos, pois segundo o Tratado de Amsterdã, os Estados que não fazem parte da União Européia, mas que pretendam celebrar acordos de cooperação com ela, ou dela receber auxílio, benefícios ou preferências comerciais, devem necessariamente respeitar os direitos humanos. E, ainda, ante a fragilidade nas execuções das sentenças da Corte Interamericana de Direitos Humanos, propomos que, nos moldes do sistema europeu, os Estados-partes da OEA que sistematicamente descumprirem as medidas reparatórias fixadas na decisão, sofram embargos econômicos, podendo, inclusive, serem suspensos ou expulsos de seus quadros. O que, talvez, no futuro poderá acontecer com o Brasil. Isto porque, para que possamos minorar os efeitos nefastos da globalização econômica e caminharmos para além de uma integração regional econômica até alcançarmos uma desejada integração política, mister se faz a efetivação dos direitos humanos, a exemplo da União Européia.
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