9. A crítica de Scotus à teoria tomasiana da subordinação
9.2 Cinco objeções à tese da nossa teologia como ciência
9.2.4 Quarto contra-argumento: a teologia do peregrino e a
o mesmo88
(4) Na quarta objeção, expõe-se o seguinte argumento:
– Premissa maior: A ciência subordinante não se relaciona, em sentido primeiro, com as mesmas verdades ou os mesmos predicados conhecidos com os quais a ciência subordinada se relaciona89.
Na premissa maior, Scotus não trata da relação entre a teologia de Deus ou a dos bem-aventurados e a nossa teologia, mas sim, em geral, da relação de subordinação entre duas ciências. Aqui, pressupõe-se que o objeto da ciência subordinante e o da subordinada pertencem ao mesmo gênero-sujeito, ainda que um seja o objeto em si e o outro seja o objeto per accidens90. Por essa razão, ambas as ciências são também diferentes, com base em princípios diferentes91. Um motivo posterior – que aparece em Rep. par. prol. q. 2 n. 4, como argumento específico, mas, em Ord. prol. n. 216, textus interpolatus a, e Rep. I A prol. q. 2 n. 151, pertence a este mesmo argumento – consiste em que as conclusões da ciência subordinante e
88 Ordinatio prol. n. 216, textus interpolatus a; Reportata parisiensia prol. p. 2, n. 4; Reportatio parisiensis I A prol., q. 2, n. 151.
89 Cf. Ordinatio. prol. n. 216, textus interpolatus a, p. 149: “- Praeterea, scientia subalternans non est primo de eisdem veritatibus vel praedicatis scitis, [...]”.
90 Cf. acima na Introdução e sob 1.
91 Cf. Reportata parisiensia prol. q. 2, n. 4, p. 15: “Item secundo sic: scientia subalternata & subalternans non se extendunt ad aequalia scibilia, quia principia subalternatae sunt conclusiones in subalternante. Dicit etiam Philosophus I. Poster. text. 69. & in 1. Phys. & Commentator ibid. comment. 18. quod subiectum subalternatae se habet per additionem ratione scientiae subalternantis”.
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as da subordinada são, a cada vez, diferentes92. Que ambos os motivos para a diferenciação entre ciência subordinante e subordinada são vistos, em Ord. prol. n. 216, textus interpolatus a, no mesmo argumento, isso fica manifesto, quando Scotus afirma que a ciência subordinada começa onde a ciência subordinante termina. Desse modo, afirma-se que, entre os princípios da ciência subordinada, afirma-se encontra uma conclusão da ciência subordinante, a qual, ela mesma, não pode ser conclusão alguma da ciência subordinada93.
– Premissa menor: A teologia do peregrino pode se relacionar com as mesmas coisas (às mesmas verdades ou aos mesmos predicados conhecidos) com as quais a teologia dos bem-aventurados se relaciona94.
Em Rep. I A prol. q. 2 n. 151, Scotus afirma que a nossa teologia trata das mesmas verdades que a teologia dos bem-aventurados, mesmo que, talvez, não de todas95. Quando, de fato, não de todas – o que tem de significar que os bem-aventurados, segundo o conteúdo específico, não segundo o primeiro objeto sob a sua razão própria, conhecem outras verdades sobre Deus –, isso ainda não
92 Ibid.: “Similiter tertio sic, vt prius scientia subalternans & subalternata non sunt primo de eisdem conclusionibus; quia conclusiones in scientia subalternante sunt principia in scientia subalternata: sed Theologia nostra est de eisdem primo, de quibus est scientia Beatorum: [...]”.
93 Cf. Ordinatio. prol. n. 216, textus interpolatus a, p. 149: “[...], quia ibi incipit subalterna ubi desinit subalternans; [...]”. Cf. Reportatio parisiensis I A prol. q. 2, n. 151, p. 54: “Item, scientia subalternans et subalternata non sunt primo de eisdem veritatibus praecise nec conclusionibus scitis quia conclusiones scientiae subalternantis sunt principia subalternatae”. Cf. Josef Finkenzeller, op. cit., p. 214.
94 Cf. Ordinatio. prol. n. 216, textus interpolatus a, p. 149: “[...]; sed haec potest esse de eisdem de quibus est scientia beatorum; igitur etc.”.
95 Cf. Reportatio parisiensis I A prol. q. 2, n. 151, p. 54: “Sed theologia nostra est primo de eisdem de quibus est scientia beatorum, licet forte non de omnibus illis”.
significa que existe entre a nossa teologia e a dos bem-aventurados uma relação de subordinação. Nesse caso, exige-se outro argumento para a recusa da pretendida relação. Quando, portanto, um sujeito cognoscente conhece dez livros sobre assuntos da geometria – poder-se-ia formular o argumento dizendo: “quando ele conhece dez livros de Tomás de Aquino”96 – e outro sujeito cognoscente conhece apenas cinco livros sobre tais matérias, não é de modo algum o caso que a ciência da geometria do segundo é subordinada à ciência da geometria do primeiro97. Houvesse entre os dois hábitos, como partes demonstráveis da geometria toda, uma relação de subordinação, então, de qualquer maneira, isso teria de significar que a geometria subordinada seria conhecida por um idêntico sujeito cognoscente que, ao mesmo tempo, conheceria a ciência subordinante. Do contrário, o suposto hábito subordinado não seria, para este sujeito – e nele –, ciência subordinada alguma.
Que, porém, a premissa menor do argumento deve ser aceita, isso se prova até mesmo pela determinação formal do primeiro objeto da teologia e da sua razão, a cada vez com respeito a uma diferente constituição do intelecto, daí a um diferente hábito em termos psicológico-cognitivos98. Em um diferente modo cognitivo, daí como em um diferente tipo de
96 Cf. Reportata parisiensia prol. q. 2, n. 4, p. 15: “[...]: licet forte non de omnibus illis, sed hoc non facit quod ei subalternetur, si enim vnus sciat decem libros Thomae, & alius quinque, non propter hoc scientia sua subalternatur scientiae alterius: ergo, &c.”.
97 Cf. Reportatio parisiensis I A prol. q. 2, n. 151, p. 54: “Sed hoc non facit quod ei subalternetur. Si enim unus sciat decem libros geometriae et alius quinque, non propter hoc scientia scientis quinque subalternatur scientiae scientis decem. Similiter est in proposito, ut quod Deus est trinus et unus, et aliis convenientibus illi Deitati inquantum Deitas. Ergo haec scientia nostra non est subalternata scientiae Dei et beatorum”.
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conhecimento, a teologia de Deus (não por demonstrações), a teologia dos bem-aventurados (por demonstrações, talvez em uma forma não usual de discurso silogístico)99 e a nossa teologia (por demonstrações e por movimento do entendimento ou discurso silogístico comum, com base nas verdades reveladas) se relacionam com os mesmos predicados sobre o objeto “Deus” e as suas “partes subjetivas”100. O mesmo é afirmado, de acordo com Scotus em Rep. par. prol. q. 2 n. 4, pelo próprio Tomás de Aquino – Scotus, assim, argumenta, pela terceira vez, ad hominem –, a saber, que o primeiro sujeito da nossa teologia é Deus sob a razão de deidade, não sob uma razão especial101, motivo pelo qual também a nossa teologia, como a teologia de Deus e a dos bem-aventurados, considera todas as verdades contidas virtualmente sob o primeiro sujeito assim apreendido102.
– Finalmente, resulta a conclusão evidente: A teologia do peregrino não é subordinada à teologia dos bem-aventurados.
99 Cf. Ordinatio prol. n. 209; Lectura prol. n. 108-110. Cf. Roberto Hofmeister Pich, Der Begriff der wissenschaftlichen Erkenntnis nach Johannes Duns Scotus, Capítulo VI, sob 6.3.
100 Cf. Franciscus Lychetus, Commentarius, op. cit., n. 4, p. 110: “[...], sed Theologia Dei, beatorum, & nostra, est praecise de eisdem praedicatis (licet nostra sit de eisdem per reuelationem, illa vero beatorum per demonstrationem, & forte etiam per discursum, sed illa quae est Dei, licet sit de eisdem simpliciter praedicatis, non tamen per demonstrationem, vt supra patuit) modo si nostra esset subalternata, non posset esse primo de eisdem praedicatis, siue proprietatibus”.
101 Cf. Ordinatio prol. n. 158-167; Lectura prol. n. 77-86; Reportata parisiensia prol. q. 1, a. 4, n. 38-51; Reportatio parisiensis I A prol. q. 1, a. 4.
102 Cf. Reportata parisiensia prol. q. 2, n. 4, p. 15: “Sed secundum Thomam, subiectum in Theologia nostra est Deus, non sub speciali ratione, sed sub ratione deitatis, sic autem est subiectum Theologiae Beatorum; igitur Theologia nostra considerat omnia, quae virtualiter continentur in Deo, sicut scientia beatorum, igitur ad aequalia extenduntur, ergo, &c.”.
O segundo e o quarto contra-argumento provam essencialmente o mesmo: logicamente, a unidade de uma ciência depende do seu objeto formal primeiro. Ele não é distinto nas teologias envolvidas, portanto tampouco o são as proposições científicas conclusivas. Caso se fale de uma não unidade de hábitos, essa será psicológico-cognitiva. E sugeri-la tem como consequência necessária a não inteligibilidade da subordinação pretendida. Ponto específico do quarto contra-argumento é a ideia de que, mesmo havendo entre o hábito teológico dos bem-aventurados e o do peregrino uma diferença formal nas verdades conhecidas, isso não implica subordinação, nem logicamente (não é preciso haver relação causal entre as proposições obtidas), nem, é claro, pela impossível relação de dependência epistêmica externa para com o conhecimento de um intelecto como de um outro.
9.2.5 Quinto contra-argumento: intuição evidente do