• Nenhum resultado encontrado

Quinto contra-argumento: intuição evidente do objeto e

9. A crítica de Scotus à teoria tomasiana da subordinação

9.2 Cinco objeções à tese da nossa teologia como ciência

9.2.5 Quinto contra-argumento: intuição evidente do objeto e

(5) Na quinta e última objeção, Scotus parte da seguinte premissa:

– Premissa maior: O que tem a ciência subordinada104 pode ter também a subordinante105, como o que tem a ciência subordinante pode também ter a subordinada106.

103 Ordinatio prol. n. 216, textus interpolatus a; Reportatio parisiensis I A prol. q. 2, n. 153; Lectura III d. 24, q. un., n. 22; Reportata parisiensia III d. 24, q. un., n. 6.

104 Isto é, toda e qualquer ciência subordinada natural.

105 Isto é, toda e qualquer ciência subordinante natural. Cf. Ordinatio prol. p. 4, q. 1-2, n. 216, textus interpolatus a, p. 149: “– Praeterea, habens scientiam subalternatam potest habere subalternantem; [...]”.

106 Cf. Reportatio parisiensis I A prol. q. 2, n. 153, p. 55: “Item, omnis habens scientiam subalternantem stante illa potest habere scientiam subalternatam, et econverso, habens subalternatam potest habere,

Volume I

Em princípio, não é afirmado que o sujeito cognoscente pode possuir – ou vir a possuir – cada um dos hábitos em diferentes momentos, embora isso seja verdadeiro. Antes, afirma-se que, de acordo com a concepção comum de ciência subordinada e subordinante, é evidente que ambos os hábitos são conhecíveis ao mesmo sujeito cognoscente. Aquele que pode conhecer os princípios da ciência subordinante, esse pode também conhecer a conclusão no mesmo hábito e, por conseguinte, um dos princípios da ciência subordinada: ele pode, com isso, conhecer propter quid as conclusões da ciência subordinada107. Além disso, como já sugerido, nada se opõe à ideia de que aquele que (primeiramente) conhece a ciência subordinada pode conhecer (somente depois) a ciência subordinante. A razão para tanto é específica: em comparação com os princípios da ciência subordinada, os princípios da ciência subordinante são anteriores e “confusos” (mais universais), e princípios anteriores e “confusos” são conhecidos, na ordem de natureza do conhecimento intelectual, tanto “pura e simplesmente” (simpliciter) quanto “ao ser humano” (nobis), primeiramente. Na ordem de surgimento do conhecimento, eles são conhecidos, porém, somente depois108.

stante illa, scientiam subalternantem”. Cf. Reportata parisiensia III d. 24,

q. un., n. 6, p. 517. Cf. Josef Finkenzeller, op. cit., p. 213.

107 Cf. Reportatio parisiensis I A prol. q. 2, n. 153, p. 55: “Prima pars maioris probatur. Quia si habet subalternantem, habet principia et propter quid subalternatae tamquam conclusionum, ergo potest scire ista propter quid”.

108 Ibid.: “Secunda pars maioris probatur. Quia sciens subalternatam scientiam potest naturaliter scire subalternantem, quia principia subalternantis sunt priora. Et in intelligibilibus priora et confusa sunt nobis notiora et prius nota: secundum Avicennam, I Metaphysicae, ens est nobis primo notum. In sensibilibus econverso quia ibi posteriora sunt nobis magis nota. Ergo habens hanc scientiam subalternatam de intelligibili potest naturaliter habere scientiam subalternantem, tamquam priorem naturaliter. Sed hoc falsum est quia tunc idem esset

A segunda premissa do quinto e último argumento é a seguinte:

– Premissa menor: O que tem a suposta ciência subordinada da teologia do peregrino não pode ter a suposta ciência subordinante da teologia de Deus ou a dos bem-aventurados, como o que tem esta última também não pode ter aquela primeira109.

Assumindo-se que a teologia dos bem-aventurados é a teologia subordinante e a teologia do peregrino é a subordinada, essa acepção tem então de ser testada por meio da premissa necessária de que é epistemicamente impossível que o bem-aventurado e o peregrino tenham, ao mesmo tempo, habitualmente, a cada vez, o outro conhecimento, mais exatamente a intuição evidente das verdades teológicas e a fé nas mesmas: tanto o bem-aventurado quanto o peregrino seriam, assim, “um que compreende [que tem saber proposicional evidente do seu

viator et comprehensor”. Cf. Lectura III d. 24, q. un., n. 22, p. 131:

“Item, omnis sciens scientiam subalternatam, quae est de intelligibili, potest scire subalternantem, quia principia subalternantis sunt priora, et in intelligibilibus simpliciter sunt etiam priora nobis, quamvis in sensibilibus non sint eadem priora et simpliciter nobis, quia sensibilia posteriora sunt nobis magis nota; [...]”. Cf. Reportata parisiensia III d. 24, q. un., n. 6, p. 517: “Alia pars probatur, vt hic sciens subalternatam naturaliter potest scire subalternantem, quia principia subalternantis naturaliter sunt priora, & notiora nobis: in sensibilibus est e conuerso, quia sensibilia posteriora sunt nobis notiora”. Cf. Ordinatio prol. p. 4, q. 1-2, n. 216, textus interpolatus a, p. 149: “Maior patet quoad utrumque: primo, quia habens principia de conclusione potest scire conclusionem; similiter patet secundum, quia principia subalternantis sunt universaliora, et sic ordine cognitionis intellectualis prius nota, quia ibi secundum huiusmodi non proceditur a magis notis sed a sensu”.

109 Ibid.: “[...]; in proposito utrumque est impossibile; ergo etc.”. Cf. Reportatio parisiensis I A prol. q. 2, n. 153, p. 55: “Sed habens scientiam beatorum ut visionem de Deo non potest habere fidem de eo nec theologiam nostram. Ergo haec non subalternatur illi”.

Volume I

objeto110] com fé” (comprehensor cum fide)111. A acepção acima é, por isso mesmo, falsa. E ela é ademais falsa porque o hábito dos bem-aventurados e o do peregrino pressupõem processos cognitivos diferentes, segundo os quais é impossível que sejam, segundo a natureza e/ou o tempo, tanto transferíveis um ao outro como de um e de outro quanto copresentes em uma relação de subordinação. O bem-aventurado não pode, primeiramente, possuir a ciência subordinante pela intuição evidente e, então, também, pela fé, a “ciência” subordinada, em um conhecimento não distinto e não evidente do objeto teológico, conhecimento que, segundo o surgimento, é causado pela espécie sensível e pelo intelecto ativo112. Por sua vez, o peregrino não pode possuir a “ciência” subordinada pela fé e, então, também a ciência subordinante pela intuição evidente, assim como os

110 Sobre esse sentido de “compreender”, cf. Roberto Hofmeister Pich, William E. Mann sobre a doutrina scotista da necessidade do conhecimento revelado: primeira consideração, Dissertatio, 185-220.

111 Cf. Lectura III d. 24, q. un., n. 22, p. 131: “[...]; sed si haec scientia potest simul stare cum fide, sequitur quod aliquis potest scire scientiam subalternatam cum fide, et ita potest esse comprehensor ratione scientiae et viator simul, ratione fidei simul stantis”. Cf. Reportatio parisiensis I A prol. q. 2, n. 153, p. 55: “Sed hoc falsum est quia tunc idem esset viator et comprehensor”. Cf. Reportata parisiensia III d. 24, q. un., n. 6, p. 517. A descrição da premissa menor deste argumento em Edward D. O’Connor, The Scientific Character of Theology according to Scotus, op. cit., Vol. III, p. 46, nota 159, é incorreta. A exatidão da interpretação de Edward D. O’Connor da crítica scotista à teoria da subordinação de Tomás de Aquino e ao caráter científico da “nossa teologia” é prejudicada pelo fato de que o autor confunde os argumentos scotistas contra as teses de Tomás de Aquino com aqueles apresentados contra a doutrina de Henrique de Gand sobre a “luz intermediária” do conhecimento teológico; cf. ibid., p. 42-45.

112 Cf. Franciscus Lychetus, Commentarius, op. cit., n. 5, p. 110: “[...], sed Deus, & beatus non potest habere nostram Theologiam, quia nos solum obscure, & fide credimus, & Deus & beati clare vident, modo fides repugnant visioni, [...]”.

bem-aventurados a possuem113. O que possui um dos dois hábitos envolvidos não pode, pura e simplesmente, possuir também o outro. Tampouco pode dizer, com sentido, que um é subordinado ao outro, como aquele que possui o hábito da geometria e o da óptica pode, sim, dizer que o hábito da óptica é subordinado ao da geometria.

Novamente, resulta a conclusão evidente: A teologia do peregrino não é subordinada à teologia dos bem-aventurados.

Documentos relacionados