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lauane Paula l/d u n Universidade de São Paulo (IP-USP) Marcus Bt»ntes de Carvalho Nelo Universidade Federal do Pará (Uf PA) John B, Watson, considerado o fundador do Behaviorismo, sugeria a psicolo­ gia como um ramo da ciôncia natural, cujo objetivo seria previsão e controlo do compor­ tamento (Watson, 1913). O seu conceito de comportamento englobava tudo o que o organismo fizesse, sendo acessível à observação pública ou não (Watson, 1930). Uma parcela significativa de sua obra foi dirigida ao estudo das emoções. Este trabalho pretende retomar a elaboração watsoniana sobre emoções, analisando seus aspectos experimentais, teóricos e aplicados.

I. Experimentação: o condicionamento e reversão do medo

A produção inicial de Watson foi marcada pela utilização de animais como sujeitos de pesquisa. Entretanto, após 1914 ele voltou-se cada vez mais para o trabalho com humanos, sobretudo infantes (para uma discussão mais dotalhada, ver Samelson, 1994). Nos experimentos inicias com emoções, seus sujeitos eram, om grande parte, crianças saudáveis das malernidades dos hospitais.

Watson (1919/1929) descreve testes realizados com bebôs do Harriet Lane Hospital. Essas crianças nunca haviam deixado o hospital nem visto animais antes. Thorne, uma menina de 165 dias no inicio dos testes, foi exposta a um gato preto, a um pombo, a um coelho, a um rato branco e a um cachorro. Nenhuma reação de medo foi observada. Manipulações expeiirnentais mais audaciosas foram então feitas por Watson, como permitir que o cachorro entrasse correndo na sala onde a infante estava, ou que um pombo batesse suas asas perto dela. Ainda assim, nenhuma reação de medo foi observada. A exposição da criança a um jornal pegando fogo também não produziu reações emocionais. Com 178 dias ela foi, então, levada ao zoológico. Era a primeira vez que deixava o hospital. Foi exposta aos animais e, ainda que alguns deles apresen­ tassem reações violentas, nenhuma reação de medo foi produzida om Thomo. Nixon, uma menina de 126 dias, foi exposta aos mesmos testes que Thorne, apresentando pequenas diferenças comportamentais, como chorar no colo de um estranho e sorrir em algumas situações, mas isso não impediu a replicação dos resultados.

O comportamento de Lee, uma menina de 200 dias, foi também objeto de estudo. Lee diferia das outras duas por ser criada em uma cidade sob condições ambientais normais e por ser alguns dias mais velha. Obtiveram-se resultados simila­ res frente aos testes, com pequenas variações. Com esses exporimentos, Watson

demonstrou que, distintamente do que se acreditava na época, o medo a tais animais não ó inato.

Essas manipulações experimentais ganharam um novo sentido no estudo do pequeno Albert B., um famoso caso descrito por Watson e Rayner em 1920. Embora o trabalho do Watson e Morgan (1917) já apontasse para a possibilidade do condiciona­ mento do respostas emocionais, não havia evidências experimentais suficientes de que o processo se desse assim. Os experimentos com crianças poderiam responder a essa e a outras questões

Albert tinha sido criado, desde o nascimento, em um ambiente hospitalar Era uma criança saudável. Apresentava uma grande estabilidade emocional, o que foi uma das principais razões de sua escolha para o experimento. Testes experimentais como apresentação de um rato branco, um coelho, um cachorro, máscaras e algodão foram aplicados para verificar se estímulos diforentes de sons acentuados ou perda de supor­ te poderiam provocar reações de medo no infante. A reação mais usual de Albert era a manipulação dos estímulos apresentados, não demonstrando medo em qualquer situ­ ação.

Aos 8 meses e 26 dias, ele foi testado frente a um alto estimulo sonoro produ­ zido por um golpe de martelo em uma barra de aço. Na primeira estimulação, a reação de Albert já foi violenta. O choro aconteceu na terceira estimulação. Tendo em vista que o estimulo sonoro produzia medo, possivelmente inato, os autores colocaram algumas questões: (1) Poder-se-ia condicionar uma reaçáo emocional de medo a um animal pela apresentação visual deste e, simultaneamente, golpeando uma barra de aço?; (2) Se o condicionamento fosse estabelecido, ele poderia ser transferido para outros ani­ mais e objetos?; (3) Quais seriam os efeitos do tempo sobre este condicionamento?; e (4) So a emoção condicionada não fosse removida pelo tempo, quo métodos laboratoriais poderiam removô-la?

Para responder à primeira pergunta, o trabalho foi inicludo quando Albert estava com 11 meses. Primeiramente, foi apresentado um rato o no momento em que Albert o tocou, um golpe foi dado na barra. O bebé saltou violentamente Um segundo agrupa­ mento entre o tocar e o barulho da barra foi feito e a reação do infante foi saltar violenta­ mente e soluçar. Na semana seguinte, o rato foi apresentado sem o som e, posterior­ mente, colocado próximo a Albert. Quando o rato cheirou a mão do infante, ele imediata­ mente a retirou. Logo em seguida, Albert foi testado com blocos e sua reação foi positiva frente a eles, não se comparando à reação de modo diante do rato. Ao todo, foram dadas sete estimulações do conjunto som-rato nas duas sessões. Na sétima estimulação, as reações foram mais fortes e Albert começou a chorar. Logo em seguida, o ralo foi apresentado sozinho e também produziu uma reação de choro. Watson e Rayner con­ cluíram, então, que se tratava de um caso convincente de condicionamento de uma resposta de modo.

A segunda pergunta, referente à transferência de uma resposta emocional con­ dicionada, foi respondida através dos resultados obtidos com Albert alguns dias de­ pois. Quando exposto a blocos, o bebê brincava prontamente. Quando exposto ao rato, a reação de medo se mantinha Um coelho foi, então, apresentado sozinho e Albert reagiu negativamente, inclinando-se para longo e chorando. Reações um pouco me­ nos violentas foram obtidas com a apresentação de um cachorro. O infante foi também testado com casaco do pele, algodão, o cabelo de Watson, o cabelo de dois observado­ res e com uma máscara de Papai Noel. Exceto com o cabelo de dois observadores, o bebê apresentou reações de medo mais ou menos acentuadas frente a todos os estl-

mulos. Isso comprovou a possibilidado de transferência para outros objetos da roaçào emocional condicionada.

A terceira proposta dos autores era verificar o efeito do tempo sobre as respos­ tas de medo condicionadas. Realizou-se um intervalo de 31 dias ontre os testes emo­ cionais. Apresentou-se primeiramente a máscara de Papai Noel e, quando se forçou o menino a tocá-la, ele chorou. O teste foi realizado também com casaco de pele, blocos, rato branco, coelho e cão Os blocos continuavam náo produzindo reações de medo. Watson e Rayner concluíram que a reação emocional persistia após um período de tempo, ainda que de forma um pouco menos intensa. Os autores apontam que tais reações poderiam, talvez, permanecer ao longo da vida. Foi observado que a reação era mais acentuada após o toque. Atualmente é possível pensar que se tratasse de uma relação de punição positiva, em um esquema operante, uma vez que o som era conse­ qüente à resposta de Albert de tocar o objeto. Entretanto, Watson não utilizou tal conceito ao longo de sua obra, cabendo a Skinner seu desenvolvimento (Skinner, 1953/1965).

Um dia antes dos experimentadores realizarem procedimentos para respon­ der à quarta pergunta, Albert foi retirado do hospital. Sendo assim, a remoção das respostas de medo condicionadas não pode ser testada. Entretanto, estudos sobre reversão do condicionamento de emoções foram realizados posteriormente por Mary Cover Jones (1924), com auxilio de Watson.

Os sujeitos de Jones eram setenta crianças saudáveis, com idades entre três meses e sete anos e que eram mantidas em uma instituição para cuidado temporário de crianças. Os infantes chegavam à instituição em casos de, por exemplo, doença na família, ou separação entre mãe o pai. Os procedimentos empregados por Jones ti­ nham limitações, uma vez que não era a ela permitido interferir em aspectos da rotina das crianças como alimentação ou sono.

As crianças foram expostas a estímulos como quarto escuro, rato branco, coe­ lho e sapo para verificar condicionamentos pré-existentes. Quando medos especificos eram detectados por tal exposição, o próximo passo era a tentativa de romovê-los. O primeiro método descrito por Jones (1924) foi o de oliminação por desuso, consistindo em proteger por algum tempo a criança do estímulo que produzia medo. Foram descri­ tos os seguintes casos: Rose D., de 21 meses; Dobby G., 30 meses e Eleanor J., 21 meses. As crianças ficaram, respectivamente, duas semanas, dois meses e dois me­ ses sem contato com o estímulo que provocava medo, mas a reação permaneceu após o intervalo. O método, então, mostrou-so falho na eliminação da reação emocional.

Um segundo procedimento foi o do recurso verbal. Como a maioria dos sujei­ tos possuía menos de 4 anos, o método não pode ser amplamente emprogado. Jean E., de 5 anos, apresentava reações de medo frente a coelhos. Diariamente conversava- se cerca de dez minutos com a criança sobre o animal. Utilizaram-se recursos lúdicos nessas conversas, como livros com figuras de coelhos. Jean chegou, inclusive, a per­ guntar sobre o coelho, demonstrando interesse em voltar a vê-lo. Ao final de uma sema­ na, o animal foi apresentado novamente, mas as reações da criança foram semelhan­ tes àquelas de medo anteriormente apresentadas.

Outro método empregado consistiu na aplicação freqüente do estímulo. Um menino de 3 anos, Godfried foi utilizado como sujeito. Com a repetida apresentação, as reações negativas frente a um rato branco diminuíram. Entretanto, o experimento não chegou ao ponto de produzir respostas positivas, como a de aproximação, no menino.

O método da repressão utilizava-se do fator social. Baseava-se na noção de que se uma criança evidencia medo em relação a algum estimulo sobre o qual o grupo

é indiferente, esta podo ser, por exemplo, rapidamente chamada de inedrosa. Arthur G., de 4 anos, tinha medo de sapo. Apesar da reação do grupo negativa frente à sua emo­ ção, não ocorreu diminuição da mesma. O método não pareceu muito seguro, pois possibilitava uma multiplicação das reações negativas: a criança poderia começar a agir negativamente não apenas frente ao animal, mas também à sociedade em geral.

O método da distração foi sugerido através do oferecimento de atividades subs­ titutas. Alguns lápis foram colocados próximos a um sapo, de forma que Arthur pudesse expor-se para pegá-los Ele agarrou os lápis e o papel e correu para longe do sapo. Ainda assim, Jones relata que a experiência pareceu tranqüilizá-lo.

A experimentadora descreveu também o método do recondicionamento direto. Consistia em associar a um objeto de medo um estimulo capaz de suscitar reações positivas, como a comida. Ao mesmo tempo em que se apresentava alimento, o objeto de medo era aproximado até que as reações emocionais aparecessem. Nas tentativas seguintes, aproximava-se o estimulo mais e mais até que ele pudesse ser colocado bem próximo à criança. Jones ressaltou que o procedimento deveria ser empregado com cautela, uma vez que pode tanto produzir reações positivas frente ao objeto de medo, quando reações negativas frente à comida associada.

Por último, Jones apresentou o método da imitação social. Bobby G, de 30 meses, tinha medo de coelhos. O animal foi mostrado quando ele estava com duas meninas. Embora sua primeira reação tivesse caráter negativo, após a aproximação das meninas ao coelho, Bobby se aproximou também. Esse procedimento também apresentaria uma dificuldade: um possível condicionamento das crianças destituídas de modo, de forma que apresentassem reações emocionais frente ao comportamento de outro. A imitação resultante, assim, poderia ser contrária à esperada.

Após a pesquisa de tais procedimentos.Jones concluiu que os únicos procedi­ mentos que apresentaram algum resultado positivo foram o método de recondicionamento direto e o método de imitação social.

Na obra watsoniaria, o caso mais famoso após Albort talvez seja o de Peter Ele era um menino de 3 anos que tinha medo de uma ampla gama de estímulos, entre eles ratos brancos, coelhos, sacos de pele, plumas, algodão, sapo e jogos mecânicos. Colocou-se um rato branco em sua cama, enquanto ele brincava com alguns jogos e Peter gritou. Retirou-se o menino da cama e Bárbara, de dois anos, foi colocada no lugar. Esta não demonstrou qualquer reação de medo. Peter observou tranquilamente Bárbara e o rato. O método primeiramente empregado no caso foi, portanto, o social. O menino apresentou algumas melhoras. Entretanto, antes de terminar a experimenta­ ção, Peter adoeceu e foi internado durante dois meses em um hospital. Ao receber alta, no momento em que subia no taxi, um cachorro começou a ladrar. Peter e a babá assustaram-se muito.

Alguns dias depois, foi novamente submetido a testes experimentais. As reações emocionais haviam reaparecido de forma exagerada. Empregou-se, então, o método de recondicionamento direto do objeto coelho, utilizando-se o alimento. Aos poucos, o medo deu lugar á tolerância e, posteriormente, a reações positivas. De acordo com os relatos de Watson Peter chegou a comer com uma mão e, com a outra, brincar com um coelho. Os resultados frente a outros estimulos também melhoraram muito, ainda quo no caso de ratos brancos o menino não apresentasse tentativas de manipulação do animal (Watson, 1930).

Em um relato, Jones (1974) afirma que Watson acompanhou o progresso de Peter, a reversão e a libertação de seu medo até o final. Watson teria, segundo ela, se

negado a ser co-autor do seus artigos, alegando que seu nome era bem conhecido e que Jones tinha uma reputação a construir.

Os testes experimentais abriram espaço para que Watson formulasse e tes­ tasse considerações teóricas sobre as emoções, como poderá ser visto em seguida.

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