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6 O SENTIDO DA ESCOLARIZAÇÃO E DO PAPEL DA ESCOLA

6.15 O QUE SE APRENDE NA ESCOLA E O DIA A DIA NO CAMPO

Eu posso passar o que aprendi para outras pessoas, porque eu gosto de fazer isso e a matéria que eu estou mais gostando no terceiro ano é biologia. Achei o assunto bem interessante e sempre que aprendo uma coisa nova sobre as leis de Mendel eu chego em casa falando para minha mãe (Moça, Nossa Senhora da Glória, 2015).

Foi esta a resposta que uma das estudantes pesquisadas deu à seguinte questão: “Com o que aprendeu na escola, o que você pode fazer no seu dia a dia, na sua casa, no seu trabalho?”, elaborada com a intenção de investigar se o que os jovens aprendem na escola urbana é utilizado em atividades no cotidiano rural. No entanto, as respostas obtidas, em sua maioria, de igual modo como aconteceu em pesquisa conduzida por esta autora para seu mestrado, foram bastante genéricas, por exemplo: “Em casa eu sou mais educado”.

Observou-se que os jovens rurais, assim como nos resultados de pesquisa de Menezes (2012), não percebem uma relação de praticidade entre o que se aprende na escola urbana e as atividades que porventura desenvolvem no campo. Com 27,5% das respostas57, em particular as mulheres de Nossa Senhora da Glória (38,9% das respostas de seu estrato), os jovens ressaltaram que aprendem na escola para ajudar e ensinar aos que não sabem e “passar para os outros”, como os irmãos mais novos, cunhados e pai analfabeto; 13% das respostas enfatizaram “ser mais educado” (principalmente as jovens de Poço Redondo, com 23,8% das respostas do seu estrato); enquanto quase 10% das respostas foram ainda mais vagas: fazer “muitas coisas”, “várias coisas”, “as melhores coisas” e “tudo”, nomeadamente as respostas das moças de Nossa Senhora da Glória, com 16,7% das respostas do seu estrato. Este resultado, ao menos com

relação à classificação das respostas, aproximou-se muito da pesquisa desenvolvida por Menezes (2012).

Algumas respostas dadas pelas estudantes em escolas dos dois municípios em estudo: “Várias coisas, ensinar a minha irmã, transmitir conhecimentos”; “As porcentagens (matemática), como sentar direito (educação física)”; “Passar novas informações para os demais”; “A língua culta, questões financeiras”; “Ter um melhor comportamento de boa convivência com meus pais, melhor desenvolvimento no meu trabalho”; “Ajudar as minhas irmãs nas atividades da escola”; “O que eu aprendo tento passar para meus pais e irmãos”; “Ser uma pessoa educada e passar um pouco do que sei para os outros”; “Ajudar as pessoas honestamente, aprofundar-se mais nos estudos etc.”; “Ajudar as pessoas que não sabem do que falamos e explicar”; “Tudo, pois a escola está envolvida em tudo”; “Os bons modos, passar meus novos conhecimentos”; “Ajudar minha mãe, meu companheiro e minhas cunhadas e também vou ajudar meu filho um dia. Também fica fácil de resolver algumas coisas quando se sabe ler, escrever e contar”; “Posso fazer várias coisas no dia a dia mesmo, posso ler um livro, posso fazer alguma conta se precisar na casa também e no trabalho é onde mais precisamos para fazer conta para várias outras coisas”; “Posso ensinar algumas coisas aos meus irmãos que estudam e ao meu pai que é analfabeto”; “Aprender muito mais e passar o que aprendi para outros jovens, seja em casa ou no trabalho” (mulheres de Nossa Senhora da Glória).

“Uma pessoa mais informada e posso passar isso sempre que posso”; “Ter respeito com todos, respeitar o próximo”; “A gente aprende a cuidar mais da saúde e a prevenir muitas doenças etc.”; “Inúmeras coisas, como passar para meus pais valores que consegui aqui”; “As melhores coisas que eu aprendi”; “Dependendo da situação, a gente aplica o que aprende em casa”; “Coisas como ler, escrever, tirar dúvidas e se adaptar etc.”; “Posso ajudar no trabalho dos meus pais, porque eles são negociantes, também me ajudou a conhecer meu próprio corpo e minha saúde etc.”; “Eu posso ficar mais atenta com alguns sintomas de doenças, ter e ajudar as pessoas da minha família a ter hábitos alimentares melhores”; “Ser organizada, não falar palavrões etc.”; “A trabalhar em grupo, ter mais paciência, porque aqui exige muito essas coisas” (mulheres de Poço Redondo).

Algumas respostas dos homens, foram: “Falar bem, conversar, interagir”; “Até o momento nada ainda, só me empenhar mais”; “Distribuo o meu conhecimento com os outros”; “Em casa eu sou mais educado etc.”; “Ter bastante respeito em casa ou, então, no trabalho com os outros”; “Ajudar meus irmãos mais novos nas tarefas escolares”; “Passar para as pessoas que não tiveram a oportunidade que tive”; “Para ter mais facilidade para trabalhar” (homens de Poço Redondo). “Tudo que tem a ver com matemática”; “Várias coisas que não tinha a

oportunidade de ver”; “Respeitar mais as pessoas, ter mais educação. Passar algo de bom para aqueles que não aprenderam”; “Muitas coisas, como ter um bom diálogo familiar etc.”; “Ser mais educado, respeitar meu próximo, ajudar nas contas de casa” (homens de Nossa Senhora da Glória). Vale ainda ressaltar duas respostas: “Não. A escola é um bem fundamental, mas ninguém usa fórmula matemática – o verbo – para cuidar de vacas” (homem, Poço Redondo).

Nada. Pois meu serviço é cuidar dos animais e trabalhar no campo. Observação: é algo que não somos forçados pelos pais, mas é algo que é necessário e percebe-se com facilidade isso. Meus pais me pedem para ajudá-los, de ver a necessidade e devido também ao costume de ver meus pais na ‘lida’ do trabalho sempre (Rapaz, Nossa Senhora da Glória, 2015).

Tabela 39 – Respostas dos jovens rurais, estudantes do ensino médio regular em escolas urbanas do sertão sergipano, à pergunta “Com o que aprende na escola o que você pode fazer no seu dia a dia, na sua casa, no seu trabalho?”, 2015

Respostas Poço Redondo Nossa Senhora da Glória Total %

H % M % H % M %

Ajudar, ensinar, passar para os outros o conhecimento que aprendeu, ser um exemplo

4 33,3 5 23,8 2 9,1 14 38,9 25 27,5 Ser educado(a), respeitoso, ter

bom comportamento

2 16,7 5 23,8 2 9,1 3 8,3 12 13,2 Fazer contas, somas, orçamento

do mês

2 16,7 6 27,3 4 11,1 12 13,2

Muitas coisas, várias coisas, tudo, as melhores coisas

1 4,8 2 9,1 6 16,7 9 9,9

Escrever, ler, estudar 1 4,8 3 13,6 4 11,1 8 8,8

Comunicação: falar corretamente, saber se comunicar mais

1 8,3 2 9,1 2 5,6 5 5,5

Cuidados pessoais, com a saúde, com a alimentação

3 14,3 3 3,3

Nada, quase nada 2 16,7 1 4,5 3 3,3

Ser organizado e disciplinado 3 14,3 3 3,3

Conhecimento aplicado 1 4,8 2 9,1 1 2,8 4 4,4

Sociabilidade 1 4,8 1 4,5 2 2,2

Postura, sentar corretamente 1 2,8 1 1,1

Entender o meio onde vive 1 2,8 1 1,1

Obter emprego, trabalhar 1 8,3 1 1,1

Resposta vaga 1 4,8 1 4,5 2 2,2

Total 12 100,0 21 100,0 22 100,0 36 100,0 91 100,0

Fonte: Dados da pesquisa, 2015 / Legenda: H: Homens / M: Mulheres. Obs.: alguns jovens pesquisados deram mais de uma resposta.

Assim como realçado por Menezes (2012), retoma-se a análise elaborada por Dayrell (2007) sobre a crítica dos estudantes feitas a distância entre o currículo escolar e sua realidade, quando requerem professores para ajudá-los a perceber o que certo conteúdo tem a ver com sua vida cotidiana, pode ser relacionada ao que os inquiridos responderam: com o que aprendem na escola podem fazer “pouco”, “pouca coisa”, “nada” e “quase nada”; sendo, em relação a seu estrato, 14,3% o percentual de respostas dos rapazes de Poço Redondo (dois rapazes) e um

rapaz de Nossa Senhora da Glória (Tabela 39). Além disso, 10% dos jovens pesquisados se abstiveram de responder, que suscita a interrogação se não responderam porque não veem uma relação entre o que aprendem na escola e o seu dia a dia.

É intrigante o fato de que os jovens rurais precisam ter acesso à escola de ensino médio, mas a escola urbana não trabalha conteúdos importantes para aqueles que vivem no campo. Além disso, esses jovens enfrentam diversas dificuldades, como a distância entre casa e escola e, portanto, perdem um tempo que poderia reverter para o estudo individual e para as tarefas escolares; a necessidade de transporte público que garanta a frequência à escola diariamente e o acesso a bibliotecas e internet no meio rural, imprescindíveis para que os estudantes façam pesquisas e alguns trabalhos escolares (MENEZES, 2012).

Ao contrário da visão dos rapazes citados anteriormente, algumas respostas se aproximaram mais à vivência no campo, sobretudo dadas pelos homens e relataram a importância de fazer contabilidade e contas do que a unidade familiar produz: “Fazer alguma soma, matemática etc.”; “Contas, como vai o orçamento do mês”; “Muitas coisas. Ler, realizar operações matemáticas ligadas ao campo porque no momento não consegui emprego fixo”; “Resolver contas em casa, da roça, ajudar meus irmãos e trabalhar em um bom emprego”; “Fazer contas, conhecimento sobre as substâncias que uso etc.”.

Nesta pesquisa, nenhum dos jovens fez menção sobre a possibilidade de utilizar o que aprenderam na escola para cuidar do meio ambiente e não poluí-lo, diferentemente do que foi observado na investigação conduzida por Menezes (2012), quando ao menos quatro jovens se reportaram a esse aspecto. Apenas uma moça deu uma resposta bastante interessante que com o que aprendeu na escola pode conhecer o meio em que vive, “a terra, os animais, os recursos naturais”, já que, ao “estudar você vê o meio onde vive com outros olhos”.

Algumas questões abordadas pelos jovens rurais na pesquisa de Menezes (2012) não surgiram desta vez, tais como “ficar informada”, “lutar pelos direitos”, “exercer a cidadania”, “evitar as drogas”, “ajudar a família”, “utilizar o inglês” e “crescimento pessoal”. Porém, um tipo de resposta, muito curta por sinal, apenas o termo “disciplina”, foi apresentada por duas moças de Poço Redondo e vale ser relacionada a tema tratado por Filipouski e Nunes, ao abordarem dois espaços relevantes de socialização para os jovens: a família e a escola por serem territórios onde são “formados valores, construídas identidades, desenvolvidas competências que preparam para o trabalho e a vida adulta” (FILIPOUSKI; NUNES, 2012, p. 34). Um dos aspectos que consideram é justamente a disciplina que surge em ambos os contextos.

Para Filipouski e Nunes (2012), ainda que os modos de educar se flexibilizem, a escola requer dos alunos um corpo “disciplinado”, pois espera que permaneçam sentados em “seu”

lugar, que sempre estejam atentos e que gravem as lições, respondam às solicitações quando demandados, revelando controle sobre si mesmos, autodisciplina e concentração. Como tais posições não são características nem valor em todos os grupos e circunstâncias sociais, em decorrência, na sala de aula, os jovens são convidados a atuar conforme critérios de respeito, organização e domínio corporal que nem sempre têm costume de adotar, não reconhecem como valor tampouco recebem no convívio social. Atitudes rebeldes, violência ou de apatia, reação ao contexto da atividade escolar, terminam aprofundando a distância entre a lógica na qual o controle escolar se baseia e a cultura familiar.

Quando as duas alunas se reportam à disciplina aprendida na escola que pode ser levada para casa e para o trabalho, isso leva à dedução de que teria sido trabalhada durante o percurso escolar das jovens, outra aluna lembrou que leva da escola para casa e para o trabalho o aprendido na aula de educação física: “como sentar direito”, ou seja, um corpo disciplinado, descoberto como objeto e alvo do poder: corpos dóceis e obedientes que se permitem instruir perante o poder da disciplina, uma nova anatomia política trabalhada por Foucault (2009), como um processo que se consolida no ambiente escolar e na prática pedagógica.

Até este ponto da pesquisa, o ideário liberal lockeano – que os homens empregassem todo esforço de pensamento para aperfeiçoar os meios de conhecer a verdade (LOCKE, 1983) e que conhecimento é poder –, praticamente não se apresenta nas falas de jovens rurais pesquisados. Com base nas respostas obtidas, pode-se observar que, em relação ao conhecimento vinculado a atividades práticas, os jovens relacionam o que aprendem na escola a coisas muito vagas. Desse modo, a ideia de conhecimento e poder praticamente não se observou. Porém, retomando análise já apresentada sobre individualizações juvenis, algumas respostas, mesmo que não fortemente, poderão ser relacionadas à liberdade de conduzir-se por si mesmo, mas se ressalta mais uma liberdade para autonomia financeira e a possibilidade de saída do meio rural. Não foram observadas respostas nos questionários que enfatizassem um protagonismo juvenil pelo conhecimento, o exercício do poder para se posicionar ou reivindicar políticas públicas para sua região e para a sua categoria social, a não ser nos grupos focais e entrevistas, quando foram solicitados a se posicionar.