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CONCLUSÃO 321 REFERÊNCIAS

2 SERTÕES ADENTRO: A PLURISSIGNIFICAÇÃO E OS SENTIDOS DESSE ESPAÇO

2.2 SERTÃO, SEMIÁRIDO, CAATINGA, NORDESTE: LADOS DA MESMA MOEDA

O Brasil possui 26 estados e um Distrito Federal distribuídos nas regiões Sul, Sudeste, Centro Oeste, Norte e Nordeste. Formado por nove estados13 e ocupando 1.542.000 km2 de

13 Os nove estados que compõem a Região Nordeste são: Bahia, Sergipe, Alagoas, Paraíba, Rio Grande do Norte,

área, o Nordeste, em função da variação pluviométrica e das diferentes características físicas que apresenta, foi subdividido em meio norte14, uma zona de transição para a Amazônia, zona

do agreste, cuja precipitação pluviométrica oscila entre 800 a 1.200 mm e é uma zona de

transição entre o litoral e o sertão; zona da mata, estreita faixa litorânea que concentra a maior parte das grandes cidades e a maioria da população, na qual estão localizados extensos canaviais, plantações de coqueiros e cacaueiros e onde chove 1.500 a 2.000 mm por ano; e a

região semiárida ou sertão, com isoieta entre 300 e 800 mm por ano (SABOURIN; CARON,

2003; TONNEAU; CLOUET; CARON, 2003).

O sertão geralmente é associado à seca, ao Nordeste, ao semiárido e à caatinga, termos utilizados, às vezes, para designar a mesma coisa o que pode, inclusive, gerar confusão. A caatinga, por exemplo, não é sinônimo de seca, visto que esta se trata de um fenômeno decorrente da escassez ou ausência prolongada de chuvas, fato que também incide na Amazônia, no Sul do Brasil e até em países de clima temperado.

O clima semiárido, no Brasil, ocorre no chamado “polígono das secas” e terminou por designar esse espaço como “região semiárida”; contudo, o “semiárido” refere-se a um tipo de clima não circunscrito ao Nordeste brasileiro, pois se estende também ao Sudeste do Brasil. Ao ser tratado não apenas como clima, mas como “região semiárida”, passou a abranger partes de oito dos nove estados nordestinos15 e a parte setentrional de Minas Gerais, no Sudeste do país, ocupando área total de 974.752 km² (DIAGNÓSTICOS..., 2008).

A caatinga, bioma genuinamente brasileiro e principal ecossistema existente no interior da Região Nordeste oriental, estende-se pelo semiárido brasileiro, em uma área de 844.453 km² (cerca de 10% do território nacional e 70% do Nordeste), compreendendo partes dos Estados da Bahia, Sergipe, Alagoas, Rio Grande do Norte, Paraíba, Pernambuco, Ceará, chegando ao sul e leste do Piauí e ao norte de Minas Gerais (CASTELLETTI et al., 2003).

Também expresso no plural como “caatingas brasileiras” é considerado um dos três espaços semiáridos da América do Sul. Com solos rasos e pedregosos, mas relativamente férteis, a caatinga apresenta expressiva variedade de paisagens e seu relevo, apesar de altitudes modestas, tem uma disposição para o sentido norte-sul, com corredores de vento que dificultam a ocorrência de chuvas. Em consequência, as secas estacionais e periódicas estabelecem procedimentos intermitentes aos rios e deixa a vegetação sem folhas, uma forma que esta

14 Dentre os estados nordestinos, localiza-se apenas no Maranhão. 15 Com exceção do Estado do Maranhão.

encontrou para se proteger e adaptar-se ao clima semiárido. Possivelmente, por isso, recebeu o nome de caatinga que, em tupi-guarani, quer dizer “mata branca” (ABI’SÁBER, 1994-95).

Para o autor, nesse bioma crescem plantas hiperxerófilas, como os cactos, que armazenam água, além de outras que se caracterizam por terem raízes praticamente na superfície do solo para absorverem o máximo de água no período das chuvas. Quando chove, toda a região ganha vida e explode em biodiversidade: a paisagem muda rapidamente, as folhas das árvores voltam a brotar e ficam verdes enquanto o solo fica coberto de pequenas e coloridas plantas. Cunha (2010, p. 38) já havia observado que “ao tornar da travessia o viajante, pasmo, não vê mais o deserto. Sobre o solo, que as amarílis atapetam, ressurge triunfalmente a flora tropical. É uma mutação de apoteose”.

Portanto, a caatinga é aparentemente adusta. Segundo Abi’Sáber (1994-95), é um bioma frágil e, em virtude da forte ação antrópica ao longo dos anos, clima e solo se encontram bastante alterados e desequilibrados, com a substituição de espécies vegetais nativas por cultivos e pastagens, com a destruição de sua cobertura vegetal, a poluição das águas e as práticas de desmatamento e queimadas no preparo da terra. Para Maia (2004), é difícil encontrar áreas com o ecossistema virgem, sem intervenção humana ou de animais domésticos, enquanto a manutenção da vegetação protegeria os solos e a água e amenizaria os extremos do clima.

É nos sertões secos que imperam climas muito quentes, chuvas escassas, periódicas e irregulares. Para dar uma ideia, os cerrados têm média anual de precipitações entre 1.500 e 1.800 milímetros, já essa medida no Nordeste seco está entre 268 e 800 milímetros, de forma que as irregularidades climáticas periódicas que assolam esse espaço social são o fator mais grave para o cotidiano do sertanejo e sobrevivência de sua família (ABI’SÁBER, 1994-95).

Efetivamente, é muito grande a variabilidade [da precipitação de chuvas] no domínio das caatingas. Em alguns anos as chuvas chegam no tempo esperado, totalizando, às vezes, até dois tantos a mais do que a média das precipitações da área considerada. Entretanto, na sequência dos anos, acontecem alguns dentre eles em que as chuvas atrasam ou mesmo não chegam, criando os mais diferentes tipos de impactos para a economia e as comunidades viventes dos sertões. Nesse sentido, a literatura de ensaios e de ficção – elaborada por alguns dos mais sensíveis intelectuais de nossa terra – vem apresentando aos olhos da nação brasileira, o diabólico drama social que impera nos sertões secos do Nordeste brasileiro.(ABI’SÁBER, 1994-95, p. 37).

Até Abi’Sáber, geógrafo e referência na pesquisa sobre meio ambiente e impactos ambientais no Brasil, ao tratar do sertão, reporta-se ao papel fundamental da literatura na representação dessa região e de seus habitantes. Isso porque a partir do clima semiárido, da baixa pluviosidade e do invariável prolongamento da estação seca, como apresentado alhures,

surgiu um discurso hegemônico relacionado a essa região que unifica natureza agreste versus sociedade e institui a perspectiva de um povo vitimado por seu meio (CASTRO, 2001).

Sob essa premissa, se o sertão é delimitado geograficamente como território ou região, o sertanejo não é apenas o seu habitante, mas uma construção sociocultural elaborada ao longo do século XX, com representação firmada, sobremaneira, preconceituosa, mediante um “discurso regionalista de inferioridade” (ALBUQUERQUE JÚNIOR, 2011). Além disso, dentre os temas definidores da região são escolhidos elementos como o cangaço, o messianismo e o coronelismo, de modo que a criação e a percepção dominante desse imaginário repercutiram em seus moradores e na formação de suas identidades. A identidade sertaneja, ao se mostrar como construção discursiva sobre a região, consolidou sertão e sertanejo como uma identidade intrínseca, forjada através do tempo.

Apesar do estigma das secas periódicas e de tratar-se da região mais pobre e desfavorecida do Brasil, onde ocorreram formas de controle político que fizeram uso das históricas migrações em direção ao Sudeste e ao Norte do país; cerca de 40% da população do Nordeste ainda está no sertão nordestino, a região de mais alta taxa de fertilidade humana das Américas, durante décadas geradora e redistribuidora de homens e mulheres, sobretudo, em face das pressões das secas prolongadas, da pobreza e da miséria por meio de uma dinâmica migratória mais conhecida como êxodo rural (ABI’SÁBER, 1994-95; SABOURIN; CARON, 2003; TONNEAU; CLOUET; CARON, 2003).

O crescimento demográfico sertanejo possui um viés cultural, pois, como na antiga tradição hebraica, os colonizadores do sertão tinham a convicção de estarem cumprindo a missão sagrada de proliferar em dezenas, em centenas e, se possível, em milhares, seus descendentes (ARAÚJO, 2009)16.

A existência de gente povoando todos os recantos dos sertões secos é o principal fator de diferenciação do Nordeste interior em relação às demais regiões áridas ou semiáridas do mundo. Indubitavelmente, o sertão brasileiro se configura como a região semiárida mais povoada e, talvez, aquela que possui a estrutura agrária mais rígida no mundo, na qual o homem – convivendo com o ambiente seco e tentando garantir a sobrevivência de famílias numerosas – está presente quase por toda parte. Há pessoas nos retiros das grandes fazendas; morando e labutando com lavouras anuais e pequenos pastos, por entre cercas e cercados; pontilhando os setores das colinas e baixos terraços dos sertões secos; em pequenas casas rurais construídas à

16 Observação de Araújo (2009), ao tratar sobre história da colonização do Seridó potiguar, considerado como

beira dos córregos que secam; nos altos das serras úmidas, assim como em todos os tipos de brejos ou setores abrejados das caatingas. A isso se acresce a presença de um expressivo número de pequenas e médias cidades sertanejas, de apoio direto ao mundo rural. Algumas delas são pequenas e rústicas; outras, maiores e em pleno desenvolvimento de suas funções sociais, administrativas e religiosas. As feiras livres desses núcleos urbanos distribuídos nos sertões funcionam como um tradicional ponto de compras e vendas. Com o aumento de rodovias, estradas e caminhos municipais, houve a consolidação de uma rede urbana no conjunto dos sertões secos, comportando uma hierarquia própria, onde existem as denominadas capitais regionais(ABI’SÁBER, 1994-95).

Conquanto nessa região haja limitação no abastecimento de água potável, algumas das cidades nascidas e desenvolvidas em função de seu comércio, inclusive feiras, têm adquirido uma admirável conjuntura urbana e se convertido em importantes polos regionais. Cidades como Campina Grande, Feira de Santana, Mossoró, Crato, Sobral, Garanhuns, Petrolina, Serra Talhada, Patos, Sousa, Juazeiro, Jequié, Picos e Juazeiro do Norte representam alguns destaques desses centros urbanos do sertão brasileiro que conformam seis regiões metropolitanas oficiais, das quais a mais relevante é a de Fortaleza (ABI’SÁBER, 1994-95).

Ainda que, pela falta de água, existam limitações para o desenvolvimento industrial na maioria das “capitais regionais” da rede urbana sertaneja, os centros urbanos possuem uma expressão regional consolidada pelo número e qualificação de suas funções: no campo do comércio, na movimentação de suas feiras, no ensino superior, na consciência política, na área de lazer e, sobretudo, na manutenção dos valores de uma inigualável cultura popular. Certamente, também existem problemas preocupantes, como o inchaço urbano devido à migração no sentido campo cidade; estabelecimento de favelas e bairros muito carentes; baixo nível de proteção para os olhos d’água periurbanos e dificuldades para ampliação de empregos (ABI’SÁBER, 1994-95).