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2.0 DISCUTINDO A NOVA ORDEM: SUJEITOS E PROCESSO

2.1 QUEM FORAM OS CONSTITUINTES DE 1987?

Neste capítulo, apresentamos elementos do perfil dos parlamentares constituintes de 1987.

Inicialmente no primeiro item fizemos uma caracterização geral a respeito dos constituintes das diversas regiões brasileiras. No segundo e terceiro item destacamos os parlamentares da bancada de Pernambuco, em relação à sua qualificação na ANC. Para a estruturação dos elementos que fundamentam a nossa análise realizamos pesquisa documental e bibliográfica, entre as quais selecionamos as seguintes fontes: Abreu, 2001; Benevides, 1991; Gaspari, 2004; Jobim, 2004; Lamounier, 1988 Rodrigues 1987; Skidmore,1988; documentos do acervo do congresso nacional, dados compostos pelo conjunto de jornais do banco de dados da Folha de São Paulo. Utilizamos, de forma mais abrangente para exposição dos dados referentes aos constituintes brasileiros, aqueles compilados por Rodrigues (1987), considerando que na pesquisa efetuada, nos diversos acervos do Congresso Nacional, USP, UNICAMP, CEDEC, DIAP, DIEESE, UFPE, UNICAP e outros, a pesquisa do referido autor é considerada da maior relevância no que concerne ao levantamento dos elementos referentes aos representantes eleitos para construir a nova Constituição. Os dados dessa pesquisa não foram, entretanto, utilizados em sua integralidade, tendo em vista que os objetivos do nosso estudo privilegiaram as orientações políticas no sentido de identificar a correlação de forças que se foi estruturando desde a ascensão do Presidente Geisel ao poder em 1974, período que antecede a realização da pesquisa de Rodrigues. Nesse sentido, os elementos e variáveis utilizados na referida pesquisa foram complementados com informações documentais e bibliográfica de outras fontes, além das já citadas, e indicadas na

bibliografia ao final deste trabalho. A elaboração e exposição dos dados da pesquisa sob a forma de gráficos e tabelas foi sendo construída em um processo original no qual as variáveis consideradas foram se impondo na perspectiva de delimitar e circunscrever as particularidades do nosso estudo, o que se justifica pela natureza da própria informação que se buscava, de acordo com a característica da nossa análise, que se efetiva no fato de ter eleito a bancada de Pernambuco como objeto de estudo, o que não está considerado na pesquisa de Rodrigues, que não dispunha de elementos suficientes sobre essa questão. Assim, as informações que coletamos e sistematizamos em diversas fontes possibilitaram a agregação dos dados que compuseram o perfil apresentado ou seja, o exame do posicionamento em relação às propostas e votações apresentadas na Constituinte por meio das emendas elaboradas pelos constituintes, bem como o destaque para certos traços biográficos da composição da bancada pernambucana, pertinentes às questões a que nos propomos examinar. A análise dessas variáveis nos permitiu identificar a mobilidade partidária desses parlamentares, suas histórias de vida, tendências políticas, opções na escolha da matéria em pauta, o que permitiu chegar a uma configuração ideológica da representação pernambucana, bem como conhecer as alianças que se foram estabelecendo no processo Constituinte.

As eleições para a Assembléia Nacional Constituinte apresentaram um resultado inédito, à “sofrida história dos sistemas partidários brasileiros” em relação ao sufrágio para deputados e senadores. Para a Câmara Federal, só o PMDB elegeu 53% dos parlamentares. O PFL elegeu 24% do total de parlamentares. Entre 72 parlamentares eleitos para o Senado, 45 pertencem ao PMDB (63%) e 15 são do PFL (21%). Verifica-se, assim, que os dois partidos que constituíam a ”situação” compunham dois terços do congresso. O outro terço era composto por dez

partidos de uma oposição fragmentada, entre eles, o mais significativo é o PDS, que elegeu 33 deputados e 07 senadores.

O sistema partidário brasileiro que se estrutura a partir das eleições de 1986, poderia ter sua constituição, assim definida: um partido grande - (PMDB), um Partido médio -(PFL), quatro partidos pequenos PDS, PDT, o PTB e o PT) e seis micropartidos (o PL, o PDC, o Pc do B, o PCB, o PSB, e o PMB).

O PMDB era o partido de maior receptividade nas regiões mais desenvolvidas, enquanto o PDS e o PFL tinham um melhor desempenho nas regiões mais atrasadas (menos industrializadas e urbanizadas). O PMDB, entretanto, apresentou um resultado equilibrado em todos os estados da Federação, embora tenha tido seu melhor resultado na região Sul. O PDS e o PFL ainda que tenham tido um melhor desempenho no Nordeste, não somavam juntos o total alcançado pelo PMDB, nessa região.

Nos dados apresentados, além de identificar o quadro do resultado das eleições de 1986, mapeamos algumas características do perfil dos constituintes, apontando elementos significativos para a compreensão do movimento de interação que se iria processar bem como as forças de coalizão que foram construídas, de acordo com os interesses em pauta. Consideramos também, na apresentação dos dados os elementos que possibilitavam a análise das situações de força que se impuseram nessa conjuntura, e que irão determinar a mudança de enfoque e o privilegiamento de certos interesses que justificaram determinadas alianças dentro do processo Constituinte, inclusive alterando a composição dos partidos e determinando a hegemonia de um determinado grupo. Nessa perspectiva, é que se pretende por meio da explicitação da trajetória política dos diversos parlamentares

buscar verificar como os valores constituintes referentes à Democracia, assumiram primazia para efeito da elaboração da nova carta Constitucional.

No que diz respeito à questão das relações de forças, Gramsci chama a atenção sobre o que convém ser considerado,

É o problema das relações entre estrutura e superestrutura que deve ser posto com exatidão e resolvido para que se possa chegar a uma justa análise das forças que atuam na história de um determinado período e determinar a relação entre elas. É necessário mover-se no âmbito de dois princípios: 1) o de que nenhuma sociedade se põe tarefas para cuja solução ainda não existam as condições necessárias e suficientes, ou que pelo menos não estejam em vias de aparecer e se desenvolver; 2) e o de que nenhuma sociedade se dissolve e pode ser substituída antes que se tenham desenvolvido todas as formas de vida implícitas em suas relações (GRAMSCI, 2002, p. 36).

É, nesse sentido, que se indaga quais as condições objetivas existentes naquele momento histórico, por meio das quais se poderia efetuar uma mudança consistente na realidade brasileira, e por outro lado, quais as forças antagônicas ou contraditórias presentes que poderiam interditar ou bloquear esse processo?

Acredita-se que, nessa diretriz, é que buscamos identificar que organicidade havia no novo projeto brasileiro de se construir uma democracia.

Considerando também, o que diz Marx a esse respeito destacamos,

Uma formação social nunca perece antes que estejam desenvolvidas todas as forças produtivas para as quais ela é suficientemente desenvolvida, e novas relações de produção mais adiantadas jamais tomarão o lugar, antes que suas condições materiais de existência tenham sido geradas no seio mesmo da velha sociedade. É por isso que a humanidade só se propõe as tarefas que pode resolver, pois, se considera mais atentamente, se chegará à conclusão de que a própria tarefa só aparece onde as condições materiais de sua solução já existem, ou pelo menos são captadas no processo do seu devir (MARX, 1978, p. 130).

Nessa consideração, acredita-se que o desenrolar dos acontecimentos, desde a distensão da ditadura militar proporcionou o desencadeamento de uma série de fatos que, neste estudo, estamos analisando com o objetivo de verificar se foram direcionados no sentido de promover um avanço na ordem socioeconômica brasileira, de maneira a garantir os interesses da maioria da nossa população. Nesse sentido, é que se julga pertinente conhecer os constituintes tendo em vista que foram os construtores da nova ordem social.

A coleta de dados na pesquisa do Rodrigues (1987), a partir da qual construímos, aproximadamente, vinte quadros apresentados nesse item, foi feita por meio da aplicação de um questionário, preenchido por entrevistador ou pelo próprio parlamentar, cujo tempo estimado foi de quinze minutos. Grande parte dos questionários foi aplicada nos estados de origem dos parlamentares (300, aproximadamente), o restante foi aplicado em Brasília, após a instalação da Constituinte (RODRIGUES, 1987).

Do total de 487 deputados, 93% destes foram entrevistados. Na tabela que apresentamos a seguir estão indicadas as proporções de questionários aplicados em cada unidade da Federação.

De acordo com a disposição dos questionários aplicados por Região, pôde-se verificar que os melhores resultados, (em termos percentuais) foram obtidos na região Sul (100% de participação) e Sudeste (95%). O resultado mais baixo foi computado na região Nordeste, apenas 86% dos deputados foram entrevistados, destacando-se, negativamente, o Ceará onde apenas 73% dos deputados foram entrevistados e a Paraíba, onde foram entrevistados somente 75% dos parlamentares.

TABELA 01 - DISTRIBUIÇÃO DOS DEPUTADOS POR REGIÃO