Fazer parte de uma congregação religiosa era requisito fundamental na vida social da Colônia. Muito além da segurança que isto significava, era em meio àquelas associações religiosas que a vida social girava. Era dentre os membros de uma mesma irmandade que laços sociais se firmavam. Segundo Salles, era em meio à essas organizações que “as camadas sociais se aglutinavam (...) passando a usá-las como associações de interesse grupal” 124. Assim, ser membro de uma Ordem Terceira nas Minas era essencial para aqueles homens que queriam ser bem vistos pela sociedade. Mas o que era necessário para se fazer parte de uma ordens terceira?
A bibliografia clássica sobre o assunto sempre identificou as Ordem Terceiras, principalmente as Franciscanas e as Carmelitas como sendo ordens exclusivas dos setores mais altos da sociedade. Fritz Teixeira de Salles faz uma tipificação e observa uma constante na constituição das irmandades segundo a categoria social e econômica, no território das Minas durante o século XVIII. Assim:
Santíssimo Sacramento, N. S. da Conceição, São Miguel e Almas, Bom Jesus dos Passos, Almas Santas e poucas outras, eram de brancos e classes dirigentes ou reinóis; Rosário, São Benedito e Santa Efigênia, de negros escravos; N. S. das Mercês, N. S. do Amparo, Arquiconfraria do Cordão, de mulatos e crioulos, ou mesmo pretos forros; São Francisco de Assis e Orcem 3ª de N. S. do Carmo, dos comerciantes ricos e altos dignatários: estas últimas apareceram a partir de 1745 ou 1750125.
Já no arremate de sua obra, Salles conclui que
Como vimos, o aparecimento das ordens terceiras assinala determinado grau atingido pela estratificação social. Isto é, revela a polarização da cúpula dessa classe média, constituída pelos comerciantes, funcionários, intelectuais, etc. Observa-se, então, que, nas regiões onde aquela estratificação, em decorrência da decadência econômica ou de outros fatores, não chegou a atingir aquêle grau —
124 Fritz Teixeira de SALLES. Associações Religiosas no Ciclo do Ouro. Belo Horizonte: Universidade de Minas Gerais, 1963, p. 34.
não surgiram as ordens terceiras. (...) A observação das igrejas de cada cidade ilustra de forma impressionante êste fato. Ouro Preto é o melhor exemplo que temos da eclosão e comportamento social das ordens terceiras do Carmo e S. Francisco.210
Fazendo a ressalva de que esta conclusão obtida por Salles a respeito do aparecimento das ordens terceiras não pode ser generalizada para outras regiões da colônia211
, entretanto, a caracterização dos membros destas ordens feita por ele em sua obra nos é bastante útil. De fato quando falamos de ordem terceira em Vila Rica, estamos realmente falando de elites sociais212. Boschi caracteriza as ordens terceiras surgidas em Minas Gerais como “instituídas basicamente por comerciantes, funcionários graduados, militares e intelectuais” 213. ainda segundo Boschi:
Ora, ser membro de uma ou mais ordem terceira significava ter acesso ao interior da nata da sociedade e trânsito facilitado nela. Significava status. Significava imediata obtenção de privilégios, graças e indulgências. Significava estar próximo do poder e ter sua proteção.214
As ordens terceiras se diferenciavam em vários aspectos das demais Irmandades existentes no território das Minas do século XVIII. Caio Boschi define da seguinte maneira as ordens terceiras:
Ao contrário das confrarias, onde o objetivo é o de incrementar o culto público, as ordens terceiras são associações pias que se preocupam, fundamentalmente, com a perfeição da vida cristã de seus membros. Embora vivendo no século, os terceiros se vinculam a uma ordem religiosa, da qual extraem e adaptam regras para uma vida cristã no mundo215.
Diferentemente do que acontecia nas outras associações religiosas, nas Ordens Terceiras os irmãos que tomavam o hábito para si passavam por um período de noviciado
210 Ibid., p. 126 211
Martins discorda desta conclusão de Salles em sua análise das Ordens Terceiras do Rio de Janeiro. Para maiores informações conf.: Willian de Souza MARTINS. Membros do Corpo Místico: Ordens Terceiras no Rio de Janeiro (c. 1700 - 1822). 2001. Tese de Doutorado - USP, São Paulo, vol. 1, p. 70.
212 Assim como utilizado por Flávio M. Heinz na introdução de sua obra sobre história das elites, adotaremos o conceito desenvolvido pelo sociólogo suíço Giovanni Busino que define como elite a “minoria que dispõe, em uma sociedade determinada, em um dado momento, de privilégios decorrentes de qualidades naturais valorizadas socialmente (por exemplo, a raça, o sangue, etc.) ou de qualidades adquiridas (cultura, méritos, aptidões, etc.). O termo pode designar tanto o conjunto, o meio onde se origina a elite (por exemplo, a elite operária, a elite da nação), quanto os indivíduos que a compõem, ou ainda a área na qual ela manifesta sua preeminência. No plural, a palavra ‘elites’ qualifica todos aqueles que compõem o grupo minoritário que ocupa a parte superior da hierarquia social e que se arrogam, em virtude de sua origem, se seus méritos, de sua cultura ou de sua riqueza, o direito de dirigir e negociar as questões de interesse da coletividade”. Giovanni BUSINO. Elites e élitisme. Paris: Presses Universitaires de France, 1992, p. 4, Apud: Flávio M. HEINZ (org.). Por outra história das elites. Rio de Janeiro: Editora FGV, 2006. p. 7, nota 1.
213 Caio César BOSCHI. Os Leigos e o Poder (Irmandades Leigas e Política Colonizadora em Minas Gerais). São Paulo: Ática, 1986, p. 25.
214
.Ibid., p. 20. 215 Ibid., p. 19.
antes da profissão de fé, cerimônia que marcava o ingresso oficial dos membros na Ordem. Os noviços eram instruídos, neste período, na Regra, Estatutos e nos Exercícios Espirituais, conforme as instruções contidas no estatuto, instruções estas que serão mais à frente abordadas.
Um outro fator que também diferenciava as Ordens Terceiras das demais associações religiosas era o fato de os Irmãos Terceiros serem considerados pertencentes ao “corpo místico” da Igreja. Essa condição dava a eles alguns benefícios, relacionados à vinculação canônica e espiritual que as ordens terceiras mantinham em relação às ordens mendicantes das quais derivavam (franciscanos, carmelitas, dominicanos, etc.). Assim pelo fato pertencerem a uma instituição canônica reconhecida pela Santa Sé, os irmãos terceiros gozavam de privilégios canônicos específicos — como indulgências, por exemplo — que haviam sido concedidos às respectivas ordens mendicantes216.
Como eram considerados elementos importantes no âmbito da afirmação da fé católica, no contexto da Contra-Reforma, as Ordens Terceiras possuíam diversos instrumentos como manuais devocionais, exposição e comentário das regras ou diretrizes espirituais às quais estavam submetidos, compilação de orações e exercícios devocionais que deveriam ser praticados ao longo do ano, enfim, todo um aparato especialmente preparado pelos religiosos mendicantes e que, sem sombra de dúvida, dava às Ordens Terceiras e aos irmãos que pertenciam a essas instituições um prestígio diferenciado em uma sociedade fortemente hierarquizada.
Eram estas algumas das razões que tornavam as ordens terceiras tão especiais e transformavam a incursão nelas objeto de desejo daqueles homens que viviam nas Minas. Em uma sociedade configurada aos moldes do Antigo Regime como aquela, o prestígio pessoal e a honra eram valores extremamente importantes. São justamente questões como estas que são o objeto desta pesquisa. Assim tentaremos observar como estes valores eram fundamentais àqueles homens e, também, como o ingresso em uma Ordem Terceira tinha um significado tão especial para seus integrantes.
Para tentar compreender estes significados, consideramos que aqueles homens compartilhavam de uma mesma cultura, adotando assim o conceito que define esta como um
216
Para maiores informações confira: Willian de Souza MARTINS. Membros do Corpo Místico: Ordens Terceiras no Rio de Janeiro (c. 1700 - 1822). 2001. Tese de Doutorado - USP, São Paulo.
conjunto de símbolos partilhados por uma coletividade217. Aqueles homens agiam e compreendiam seu mundo segundo um padrão de significados que conferia sentido as ações, construindo assim cadeias valorativas. É justamente a construção dessas cadeias valorativas que tentaremos entender.
Então, se a cultura é conjunto de idéias baseadas na aprendizagem cultural de símbolos, consideramos que os irmãos terceiros passavam por um processo de “inculturação” no período do noviciado ao qual todos tinham que passar, antes de professarem à Ordem e serem considerados oficialmente como Irmãos Terceiros. A cultura seria então socialmente aprendida e compartilhada entre aqueles homens. O fato de esses homens compartilharem uma mesma cultura seria então mais um fator de unificação deles, gerador também de uma identidade. Eles se identificavam como iguais, pois entendiam o mundo através dos mesmos símbolos e significados.
Outro importante instrumento na unificação destes homens era o estatuto pelo qual eles se regiam. Assim entendemos o estatuto da Ordem Terceira de São Francisco de Assis de Vila Rica como um documento que visava a normatização da ordem. Nele se encontravam as recomendações feitas aos irmãos que faziam parte daquela congregação, assim como continha também explicado quais eram e como deveriam ser realizadas as obrigações daqueles irmãos que haviam sido eleitos para algum cargo no interior da Ordem. Havia ali ainda recomendações e explicações acerca dos rituais e orações que deveriam ser feitos pelos irmãos terceiros franciscanos. Analisaremos melhor este documento.
O reconhecimento do estatuto dos terceiros vilarriquenhos pelos Provinciais foi produto de uma longa disputa engendrada pela ordem, assim como aconteceu também para a obtenção da licença para a construção de sua capela. O historiador Cônego Raimundo Trindade inclusive dedicou um capítulo inteiro de seu estudo sobre a Ordem Terceira de São Francisco de Ouro Preto para relatar com riqueza de detalhes, apresentando a transcrição de
217 Faremos uso no nosso trabalho do conceito antropológico de cultura desenvolvido por Clifford Geertz e conhecido como conceito semiótico de cultura. Segundo este conceito, a cultura seria como “sistemas entrelaçados de signos interpretáveis”. Clifford GEERTZ. A interpretação das culturas. Rio de Janeiro: LCT editora, 1998, p. 10. Segundo Geertz: “Acreditando, como Max Weber, que o homem é um animal amarrado a teias de significados que ele mesmo teceu, assumo a cultura como sendo essas teias e a sua análise; portanto não como uma ciência experimental em busca de leis, mas como uma ciência interpretativa, à procura do significado.” Ibid., p. 04. A cultura seria então “composta por estruturas psicológicas por meio das quais os indivíduos (..) guiam seu comportamento” Ibid., p. 08. Para ser aceito culturalmente o indivíduo deveria, segundo Geertz, atuar em concordância com o “universo imaginativo dentro do qual seus atos são marcos determinados” Ibid. p. 09. O sujeito tem que estar familiarizado com os símbolos compartilhados por aquela cultura, e essa familiaridade se daria através do aprendizado. Para maiores informações conf. Clifford GEERTZ. A interpretação das culturas. Rio de Janeiro: LCT editora, 1998, p. 10.
diversos documentos — muitos deles hoje em dia perdidos — e as diversas “lutas” nas quais se envolveu aquela organização218
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Segundo Trindade, o estatuto adotado pela ordem não era original, mas teria sido copiado do estatuto pelo qual se regia a Ordem Terceira da Penitência do Rio de Janeiro219. Porém, mesmo os terceiros franciscanos do Rio de Janeiro não tinham conseguido a aprovação deste estatuto e Trindade conjectura que pelos mesmos motivos o estatuto dos terceiros vilarriquenhos também teriam sido recusados.220 Tendo seu estatuto recusado pelo Ministro Provincial da Ordem, no Rio de Janeiro — prelados superiores imediatos à ordem terceira franciscana de Vila Rica — os terceiros franciscanos atropelaram a hierarquia e foram apelar diretamente ao Comissário Geral dos Franciscanos, em Madri221. Este recurso acabou dando resultado e os terceiros franciscanos vilarriquenhos tiveram seu estatuto aprovado em 30 de Janeiro de 1760222.
Conforme relata o Cônego Trindade, o estatuto apresentado e aprovado em Madri não foi o mesmo apresentado no Rio de Janeiro, uma vez que o aprovado constava de 29 capítulos, nove dos quais teriam sido acrescentados ao original de 20 capítulos. Este estatuto porém foi perdido223, nos restando apenas nos arquivos o original no qual este foi baseado. É com base nas informações deste estatuto que realizaremos nossa análise.