São Francisco, cujo nome de batismo seria Giovanni136
, teria nascido no Outono de 1182, na cidade de Assis na Úmbria. Filho de um abastado mercador, Francisco teria se convertido já em idade adulta e se tornado adepto de um estilo de vida penitente. Segundo Vauchez, Francisco realizava “na sua pessoa a síntese entre as aspirações, por vezes contraditórias, dos movimentos religiosos que haviam marcado as gerações precedentes e a mais autentica tradição cristã” 137. Ele era o homem certo no momento certo. A pregação e a mensagem franciscana, além de refletirem claramente as mudanças que ocorriam na espiritualidade daquele período, eram feitas de maneira acessível a todos. Talvez sejam estes
135 Ibid., p. 133-139
136 Segundo o Frei Egberto Prangenberg, Francisco nasceu e foi batizado com o nome de Giovanni pela mãe, uma vez que o pai, um mercador, encontrava-se em uma viagem de negócios. O santo passou a ser chamado de Francesco (Pequeno Francês) pelo pai que tinha profunda admiração pela França, onde realizava negócios e também terra natal de sua esposa. Para maiores informações conf. : fr. Egberto PRANGENBERG, O.F.M. Francisco entre os seculares. Tópicos histórico-sociais. Rio de Janeiro, s. e., 1996.
137
André VAUCHEZ. A espiritualidade da idade média ocidental: séc. VIII - XIII.Lisboa: Editora Estampa, 1995, p. 143.
os principais motivos do inigualável sucesso da mensagem franciscana em todo mundo até os dias de hoje.
Após abandonar todos os seus bens, Francisco Bernardone teria participado do movimento penitencial por cerca de dois anos, de 1207 a 1209, como pregador itinerante138. Neste período o “pobre de Assis” teria então reunido alguns adeptos à sua forma de vida, caracterizada pela pobreza absoluta, igualdade entre clérigos e leigos e estado perpétuo de missão penitencial139. Então em 1209 ele foi, juntamente com seus seguidores, à Roma apresentar seus propósitos ao Papa e pedir-lhe a benção e licença para a pregação evangélica. Foi nesta ocasião que os “frades menores” tiveram sua regra primitiva aprovada informalmente pelo Papa Inocêncio III140.
O historiador Willian de Souza Martins em seu estudo sobre as Ordens Terceiras do Rio de Janeiro, cita a obra de David Knowles e Dimitri Obolensky141 e afirma que as ordens mendicantes Franciscana e Dominicana colocavam:
a mensagem evangélica ao alcance dos mercadores, artífices e estudantes, os grupos sociais que mais se beneficiaram com o crescimento comercial da Baixa Idade Média. Desse modo, as ordens mendicantes vinham ocupar o espaço intermediário situado entre o clero secular, cujo pequeno número e despreparo limitavam em muito o alcance de sua obra pastoral, e as congregações monásticas contemplativas, excessivamente arraigadas à ordem senhorial para responder às demandas espirituais surgidas no ambiente das cidades 142.
Segundo Vauchez uma ordem que pregava uma vida errante e de pobreza, seguindo o exemplo de Cristo e dos Apóstolos, como faziam os Irmãos Menores, rompia pela primeira vez o laço existente entre o estado religioso e a condição senhorial, uma vez que os monges,
138
fr. Egberto PRANGENBERG, O.F.M. Francisco entre os seculares. Tópicos histórico-sociais. Rio de Janeiro, s. e., 1996., p.22
139 Willian de Souza MARTINS. Membros do Corpo Místico: Ordens Terceiras no Rio de Janeiro (c. 1700 - 1822). 2001. Tese de Doutorado - USP, São Paulo, p. 13
140
Segundo o estudo feito por Willian de Souza Martins, que nos ajudou bastante no desenvolvimento deste capítulo, nesta regra primitiva era bem parecida em suas linhas gerais com a regra de 1221 e na regra “bulada” de 1223, regra esta última que é até hoje utilizada. para maiores informações conf.: Willian de Souza MARTINS. Membros do Corpo Místico: Ordens Terceiras no Rio de Janeiro (c. 1700 - 1822). 2001. Tese de Doutorado - USP, São Paulo.
141O trecho referido pelo autor encontra-se na obra: David KNOWLES e Dimitri OBOLENSKY. A Idade Média (Nova História da Igreja, sob a direção de L. J. Rogier, R. Aubert e M. D. Knowles, vol. II). Vozes, Petrópolis, 1983.
142
Willian de Souza MARTINS. Membros do Corpo Místico: Ordens Terceiras no Rio de Janeiro (c. 1700 - 1822). 2001. Tese de Doutorado - USP, São Paulo, vol. 1, p. 13.
mesmo com seu ideal de “fuga do mundo” eram conhecidamente grandes proprietários de bens imóveis143
.
Francisco de Assis não tinha formação clerical, mas este fato para ele não possuía muita importância, pois em sua ordem estavam em pé de igualdade clérigos e leigos. Em sua fraternidade todos possuíam os mesmos direitos e um dever essencial: a prática da pobreza evangélica. A hierarquia dentro da ordem só vai ser constituída minimamente na “Regra bulada” de 1223, que define que a Ordem seria dirigida por um ministro geral, as províncias por ministros e os conventos por “guardiões” 144. A criação desta hierarquização se deu apenas em função do crescimento daquela instituição. E a ordem criada por São Francisco de Assis prosperou mesmo rapidamente. O Frei Egberto Prangenberg chega a indicar o número de 3000 frades em 1221 e de 5000 em 1222, ou seja, antes do reconhecimento oficial do papado145.
Propondo um novo estilo de vida, Francisco planejou tudo para que sua mensagem atingisse a todos e em todo lugar. Vauchez chega a falar até em uma “utopia” franciscana aos moldes dos socialismos utópicos do século XIX, no sentido de que a mensagem e o modelo de vida franciscana eram um modo original e coerente de vida, muito difícil de levar na prática, exigente e à frente de seu tempo, mas que mesmo assim exercia fascínio sobre muitos espíritos146.
Incentivado pelo sucesso de sua mensagem o “pobre de Assis” cria também, nos mesmos moldes de sua Ordem Primeira, a “Ordem das Pobres Clarissas” (1212), ou “Segunda Ordem”, destinada às Irmãs que desejavam também levar uma vida penitente. A fundação da Ordem Terceira Franciscana por sua vez insere dentro de um movimento maior, onde o laicato buscava uma própria identidade, o movimento confrarial. Portanto, antes de passarmos à fundação das Ordens Terceiras, temos que fazer algumas considerações acerca do movimento confrarial que era sentido por toda a Europa naquele momento, movimento este que, mais tarde, vai servir também para a compreensão do surgimento dos mais diferentes
143 André VAUCHEZ. A espiritualidade da idade média ocidental: séc. VIII - XIII.Lisboa: Editora Estampa, 1995, p. 144.
144 Ibid., p. 145
145 fr. Egberto PRANGENBERG, O.F.M. Francisco entre os seculares. Tópicos histórico-sociais. Rio de Janeiro, s. e., 1996, p. 23
146
André VAUCHEZ. A espiritualidade da idade média ocidental: séc. VIII - XIII.Lisboa: Editora Estampa, 1995, p. 146-7.
tipos de associações religiosas de leigos encontradas em todo o território colonial português e principalmente no território das Minas.