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4. BRAIN DRAIN VS BRAIN GAIN

4.2. A QUESTÃO DAS REMESSAS

A crise deflagrada no final da primeira década do século XXI aponta para dúvidas sobre o efeito positivo da migração na economia. O conceito popular é de que os imigrantes

concorrem com os nativos na obtenção de empregos, reduzindo salários. Porém, existe um grande número de economistas que discordam até das próprias teorias econômicas que ensinam que há uma redução de salários pela maior oferta de mão de obra. Tais economistas assinalam que a economia beneficia-se do efeito do aumento da oferta de trabalho, e que no longo prazo o efeito da migração tende a ser pequeno (SOMMERVILLE et al., 2009, p. 3). À medida que se avança no sentido de maiores e mais completas pesquisas do impacto da migração sobre salários, conclui-se que esse impacto é pequeno. Há outros fatores analisados, pois os imigrantes não substituem os nativos em todos os cargos. Há outros fatores que afetam os salários, como educação, novas tecnologias e mudanças geográficas.

Os imigrantes não competem em todos os cargos, em grande parte por suas limitações do idioma. Por outro lado existe uma vantagem comparativa dos nativos sobre os imigrantes nos trabalhos onde eles apresentam mais experiência.

Apesar de tudo, o impacto da imigração é pequeno, por várias razões. Os imigrantes por não terem experiência em todo tipo de trabalho, não podem substituir os nativos indiscriminadamente. Os imigrantes, fazendo parte da economia local, ajudam no aumento da demanda de bens e serviços, com consequente aumento na demanda por trabalho. Eles colaboram no aumento de eficiência no mercado de trabalho, contribuindo para consequente aumento na economia do país de destino, como também ao país de origem, através das remessas.

As remessas de trabalhadores atualmente aparecem como a maior fonte de financiamento externo para o desenvolvimento (PAGE et al., 2006, p. 260). Devido a essa magnitude, tem havido uma atenção muito maior pelos governos dos países industrializados, assim como dos países em desenvolvimento, no impacto que causam essas remessas, tanto nos países que mandam as remessas, como principalmente naqueles que as recebem.

As remessas globais aos países em desenvolvimento têm crescido sistematicamente: em 1990 eram de US$ 68,9 bilhões, quinze anos depois excedem US 100 bilhões. Para muitos países as remessas excedem o volume total dos IED e AOD – Assistência Oficial ao Desenvolvimento. O Banco Mundial estimou que o fluxo mundial das remessas de migrantes foi de US 440,1 bilhões em 2010 (tabela 4), um aumento de 60% em 5 anos. Os países em desenvolvimento receberam US 325,5 bilhões em 2010, um aumento expressivo de cerca de 70% desde 2005, conforme fontes do Banco Mundial (WORLD BANK - 2010).

TABELA 4 - REMESSAS DE TRABALHADORES PARA PAÍSES EM DESENVOLVIMENTO 1995-2010 (US$ bilhões)

Fonte: Base de dados compilada do World Bank – Elaboração do autor

Outro fator importante é a representatividade dessas remessas no PIB, totalizando 0,7% no PIB mundial, 2% no PIB dos países em desenvolvimento e números expressivos em países de renda baixa (5,4%) e os do Sul da Ásia (4,8%).

Nos últimos 10 anos o crescimento das remessas tem ultrapassado o dos fluxos de IED e de AOD (tabela 5). No México ela é maior que o IED. Em muitos países as remessas são maiores que os ganhos com suas mais importantes exportações. No Sri Lanka as remessas são maiores que a exportação de chá e no Marrocos é maior que a receita com turismo.

Outro fato importante é que durante a crise mundial, no final da última década, houve uma redução expressiva no IED global em cerca de 40%, enquanto que a redução das remessas foi de apenas 5,5%.

Conforme análise do Banco Mundial, durante a crise, as remessas aos países em desenvolvimento permaneceram praticamente inalteradas, pois elas são remetidas por todos os imigrantes ao longo dos anos, e não somente pelos que imigraram mais recentemente. As remessas também são uma parte dos ganhos dos imigrantes, portanto eles continuam fazendo remessas a suas famílias mesmo em períodos de crise.

1995 2000 2004 2005 2006 2007 2008 2009 2010e % PIB(2009)

Mundo 101,3 131,5 237,0 274,9 317,9 385,0 443,2 416,0 440,1 0,7 Países em Desenvolvimento 55,2 81,3 159,3 192,1 226,7 278,5 324,8 307,1 325,5 2,0 Renda Baixa 2,2 4,1 8,1 10,1 13,0 16,6 22,0 22,5 24,3 5,4 Renda Média 53,0 77,1 151,2 182,1 213,7 261,9 302,9 284,6 301,1 1,8 Renda Alta - OCDE 44,3 48,4 72,9 77,2 85,2 100,1 110,8 102,1 107,2 0,3 Renda Alta - Não OCDE 1,7 1,8 4,8 5,5 5,9 6,4 7,5 6,8 7,4 0,4 Leste da Ásia e Pacífico 8,9 15,8 40,0 50,3 57,4 71,1 85,5 85,7 91,2 1,9 Europa e Ásia Central 6,5 10,4 16,0 23,3 28,4 39,3 45,8 35,4 36,7 1,3 América Latina e Caribe 13,3 20,2 43,4 50,1 59,2 63,3 64,6 56,9 58,1 1,5 Oriente Médio e Norte da África 13,3 13,1 23,2 25,1 26,5 32,1 35,9 33,7 35,4 3,1 Sul da Ásia 10,0 17,2 28,7 33,9 42,5 54,0 71,6 74,9 82,6 4,8 África Subsaariana 3,2 4,6 8,0 9,4 12,7 18,6 21,4 20,6 21,5 2,2

TABELA 5 – FLUXO DE RECURSO AOS PAÍSES EM DESENVOLVIMENTO (US$ bilhões) 1995 2000 2004 2005 2006 2007 2008 2009 2010e IED 95 149 208 276 346 514 593 359 nd Remessas 55 81 159 192 227 278 325 307 325 AOD 57 49 79 108 106 107 128 120 nd Débito Privado e Portfolio Equity 83 27 93 165 211 434 157 85 nd

Fonte: World Bank 2011

A tabela 6 apresenta os 30 países maiores recebedores de remessas em 2010. De acordo com o Banco Mundial, Índia, China, México e Filipinas são os maiores recebedores dentre os países em desenvolvimento.

Os países com maiores populações estão entre os maiores recebedores de remessas, porém quando fazemos a análise das remessas como percentual do PIB, o resultado é expressivamente diverso, apresentando países pequenos cuja dependência das remessas é muito alta, Tajiquistão, Tonga e Lesoto, por exemplo, recebem valores superiores a 25% de seu PIB. Entre os 30 países que mais recebem remessas, 9 são da América Latina e 6 são da África do Sul. Regionalmente, pequenos países antiga União Soviética também aparecem nessa lista.

TABELA 6 – MAIORES RECEBEDORES DE REMESSAS – 2010E

Fonte: Base de dados compilada do World Bank – Elaboração do autor

Em 2003, os países com renda média alta receberam o equivalente a US$ 73,55 em remessas per capita, comparadas a US$ 15,87 per capita nos países com baixa renda (tabela 7). América Latina, Oriente Médio e Norte da África receberam as maiores remessas per capita, enquanto a África Subsaariana recebeu a menor remessa em termos de valor per capita, US$ 8,52 em 2003, e apresentou um pequeno aumento na taxa.

Países US$ bilhões Países % do PIB

Índia 55,0 Tarjiquistão 35 China 51,0 Tonga 28 México 22,6 Lesoto 25 Filipinas 21,3 Moldóvia 23 França 15,9 Nepal 23 Alemanha 11,6 Líbano 22 Bangladesh 11,1 Samoa 22 Bélgica 10,4 Honduras 19 Espanha 10,2 Guiana 17 Nigéria 10,0 El Salvador 16 Paquistão 9,4 Jordânia 16

Polônia 9,1 República Kyrguistão 15

Líbano 8,2 Haiti 15

Egito 7,7 Jamaica 14

Reino Unido 7,4 Bósnia e Herzegovinia 13

Vietnã 7,2 Sérvia 13 Indonésia 7,1 Bangladesh 12 Marrocos 6,4 Filipinas 12 Rússia 5,6 Albânia 11 Sérvia 5,6 Togo 10 Ucrânia 5,3 Nicarágua 10 Romênia 4,5 Guatemala 10

Austrália 4,3 Cabo Verde 9

Brasil 4,3 Guiné-Bissau 9

Guatemala 4,3 Senegal 9

Holanda 4,1 Armênia 9

Colômbia 3,9 Grenada 9

Jordânia 3,8 Sri Lanka 8

Portugal 3,7 Gâmbia 8

TABELA 7 – REMESSAS DE TRABALHADORES EM US$ PER CAPITA

Fonte: Global Development Finance and World Development Indicators 2005, apud PAGE et al, p. 267

Acredita-se que os dados oficiais sobre remessas são subestimados. Em 2003, o FMI estimou que transferências e remessas não oficiais ao mundo em desenvolvimento somaram US$ 10 bilhões ao ano. Outro estudo estima que as remessas globais sejam cerca de 2,5 vezes o valor das remessas relatadas no Balanço de Pagamentos do FMI (PAGE et al., 2006, p. 266).

Levantamentos recentes feitos pelo Banco Mundial mostram que os valores das remessas em 2008 chegaram a cerca de US$ 338 bilhões, quase 17% dos U$S 289 bilhões em 2007 (IRVING et al., 2010, p.1).

O Banco Mundial promoveu uma importante pesquisa em 2008 com os principais bancos centrais e outras instituições nacionais de 176 países. Os formulários de pesquisa foram enviados entre março e maio de 2008. Em dezembro de 2009 a pesquisa foi recebida de 114 países (33 na África) com um total de respostas de 65%.

Não existem informações precisas sobre remessas tanto dos países que enviam quanto daqueles que recebem, porém arquivos com dados de remessas existem há mais ou menos 11 anos nos países que enviam as remessas, e apenas cinco anos para os que as recebem. O entendimento dessa diferença é devido ao fato de que esses valores dos países que remetem são pequenos em relação a seus PIBs, ocorrendo o contrário com os países que recebem as remessas. Além disso, muita coleta de dados é feita através de fontes informais, porque um valor muito alto de remessas é feito através de meios informais.

São considerados meios informais, valores transportados por pessoas e outros meios não informados por bancos ou operadores de transferências monetárias.

1990 1995 2000 2001 2002 2003

Mundo 13,12 18,00 21,28 23,26 26,05 29,70

Renda média Baixa 4,03 7,49 9,30 9,93 11,41 12,94 Renda média Alta 20,15 28,35 40,71 51,62 57,10 73,55

Renda Baixa 4,56 6,72 9,92 10,68 13,70 15,87

América Latina e Caribe 13,34 28,29 39,57 46,72 53,49 64,57

Sul da Ásia 5,00 8,10 11,82 11,61 15,84 18,81

Leste da Ásia e Pacífico 2,07 5,68 9,25 11,03 14,79 17,74 Oriente Médio e Norte da África 49,34 48,69 45,85 50,67 50,68 53,91 Europa e Ásia Central 6,86 17,13 23,16 24,03 24,37 27,32 África Subsaariana 3,72 5,51 7,45 7,27 7,55 8,52

Há também uma diferença muito grande entre os valores informados pelos bancos centrais na pesquisa e aqueles informados nas estatísticas de balanço de pagamentos ao Fundo Monetário Internacional - FMI. Citam-se aqui, dois exemplos de discrepâncias muito altas: as remessas recebidas informadas por Gana ao FMI em 2007 foram de US$ 105 milhões, enquanto que informações na pesquisa do Banco Mundial foram de US$ 1,8 bilhão (18 vezes maior). Em Madagáscar a diferença foi de 15 vezes.

Outro problema importante é a supervisão das transferências de remessas. Esse controle varia de acordo com o tipo de provedor de serviços. O mais recente processo de remessa é através de servidores via telefones celulares. Embora ainda não seja uma ferramenta muito ativa, há 4 países que estão fazendo uso constante dessa ferramenta, a saber: Brasil, Indonésia, México e Filipinas. Por outro lado nos países recebedores de remessas, elas chegam mais comumente através de bancos, seguido de operações de transferências monetárias, correios e empresas de câmbio.

As formas legais de remessa tendem a ser inibidas por seus altos custos, tanto para os migrantes que mandam como para os que recebem as remessas. Na pesquisa também se verificou que falta de filiais bancárias próximas ao migrante e dificuldade ao acesso a contas bancárias, são outros fatores que favorecem remessas ilegais. Outro fator percebido como inibidor de remessas legais são os controles rígidos de cambio pelos canais formais.

Na pesquisa a maioria dos bancos centrais citou que para o aumento nas transferências legais, há necessidade de melhores estatísticas e estudos sobre migração. Por outro lado há um percentual alto de bancos centrais que informaram a existência de incentivos para investimentos de remessas de migrantes que transferem seu dinheiro para o país de origem. Por exemplo, os três maiores incentivos são: opções de investimento atrativas, diminuição em taxas e projetos de fundos de investimentos.

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