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Capítulo II – Revisão da Literatura

2.3. Educação para a saúde e Glaucoma

2.3.1. Questões gerais acerca do Glaucoma e respectivo tratamento

Glaucoma

De acordo com a Direcção Geral de Saúde (2007), “Glaucoma é a denominação genérica de um grupo de doenças que partilham o facto de se constituírem como neuropatia óptica com perda de campo visual associada e com hipertensão ocular como principal factor de risco documentado” (p. 11).

O Glaucoma é uma doença em que há uma perda de fibras do nervo óptico de modo irreversível, lento, e progressivo ao longo do tempo, levando à perda progressiva do campo visual que começa na periferia e se vai contraindo em direcção ao centro. Se não for tratado pode progredir para cegueira bilateral total. O Glaucoma foi denominado o "The sneak thief of sight", pois é uma doença muitas vezes despercebida devido ao seu curso lento, insidioso e implicando falta de sintomas. O declínio da visão pode ser interrompido ou retardado, mas a perda visual já estabelecida não pode ser recuperada pelo tratamento (Gwira, 2006, p.6).

De acordo com a Sociedade Europeia de Glaucoma (2003), as manifestações clínicas do Glaucoma vão desde a ausência de sintomas, nas fases iniciais, até uma perda total e irreversível da visão.

Muitas vezes as pessoas não se apercebem que têm Glaucoma, até começar a notar defeitos na visão, tais como a redução do campo visual e alterações de sensibilidade ao contraste, altura em que danos irreversíveis do nervo óptico já terão ocorrido (Lee, Walt, Chiang, Guckian, & keener, 2007, p.520).

Aspectos epidemiológicos

O Glaucoma é um significativo problema de saúde pública, sendo a causa principal de cegueira irreversível e figurando consistentemente entre as principais causas de cegueira mundial (Buys, Franzco, Lambrou & Ritch, 2008).

Página 26 Quiglet e Broman referem que o Glaucoma não está diagnosticado em mais de metade das pessoas que têm a doença em países desenvolvidos (como citado em Okeke et al, 2007, p. 549). Nos países em desenvolvimento, 90% ou mais das pessoas com Glaucoma, ignoram terem-no ou mesmo terem ouvido falar dele (Buys, Franzco, Lambrou & Ritch, 2008). Previu-se que em 2020, 79.6 milhões de pessoas em todo o mundo terão Glaucoma, 11.2 milhões dos quais estarão bilateralmente cegos(Quigley & Broman, 2006). Só nos Estados Unidos, devido ao envelhecimento populacional, é estimado que haverá 50% mais glaucomatosos nos próximos 15 anos (Friedman et al., 2004).

Num estudo realizado em Roterdão, com 6250 pessoas, várias pessoas com idades compreendidas entre os 55 e os 64 anos tinham uma prevalência de 3% de perda de campo visual; para aqueles que tinham 85 ou mais anos de idade, a prevalência aumentou para 19%. Devido ao facto de a futura prevalência do Glaucoma ser susceptível de aumentar nos países desenvolvidos, o Glaucoma de ângulo aberto, tornar-se-á uma preocupação cada vez maior em saúde pública (Wolfs, Borger, Ramrattan, Klaver, & Hulsman, 2000).

De acordo com um estudo internacional, designado “Barbados Eye Study” as pessoas com cegueira bilateral, 21% da perda visual foi devida a Glaucoma primário de ângulo aberto, o que enfatiza a importância de desenvolver estratégias efectivas de controlo de Glaucoma (Hyman, et al., 2001, p.1755).

Sabemos que a incidência da patologia aumenta com a idade. Também sabemos que a esperança média de vida da população portuguesa está a aumentar. Estes números apontam para a apresentação de um grande ónus pelo Glaucoma à comunidade, do ponto de vista social e financeiro.

De acordo com a Direcção Geral de Saúde (2007) “a incidência de Glaucoma primário de ângulo aberto foi estimada em cerca de 2,4 milhões de pessoas/ano. A prevalência de cegueira por todos os tipos de Glaucoma estimou-se em cerca de 5,2 milhões de pessoas, sendo 3 milhões da responsabilidade do Glaucoma primário de

Página 27 ângulo aberto. 15% dos casos de cegueira, devem-se ao Glaucoma como entidade fisiopatológica genérica englobando todos os subtipos” (p.12).

Factores de risco

De acordo com a Academia Americana de Oftalmologia (2007), existem quatro factores importantes associados com a neuropatia óptica glaucomatosa:

- Pressão intra-ocular - Idade

- História familiar - Raça ou Etnia

Pressão intra-ocular

Alguns estudos destacam de forma evidente que a pressão intra-ocular tem uma importante função na neuropatia óptica Glaucomatosa do Glaucoma primário de ângulo aberto. Também Heijl, Leske e Bengtsson (2002) demonstraram que baixar a pressão intra-ocular reduz o risco de progressão em pacientes com diagnóstico de Glaucoma.

Como afirma Buskirk, o aumento da pressão intra-ocular está ligado, directamente, aos danos do nervo óptico e da função visual (como citado em Mucci, Galhardo, Belfort & Arruda Mello, 2002, p.66).

Idade

Ser idoso é outro factor de risco importante no Glaucoma primário de ângulo aberto. Vários estudos epidemiológicos demonstram que a prevalência do Glaucoma aumenta com a idade (AAO, 2007). De acordo com a Direcção Geral de Saúde (2007) “A prevalência aumenta com a idade sendo 3 a 8 vezes superior na oitava década quando comparada com a quinta década” (p.12).

História familiar

Diversos autores confirmam que a história familiar é um dos principais factores de risco do Glaucoma primário de ângulo aberto. “A prevalência de Glaucoma entre

Página 28 irmãos é de cerca de 10% e o risco absoluto de desenvolver Glaucoma até aos 89 anos de idade é dez vezes maior em familiares directos de doentes com Glaucoma do que na população geral” (DGS, 2007, p.12).

Raça ou Etnia

De acordo com Sommer, Tielsch e Katz (como citado pela AAO, 2007) a cegueira por Glaucoma é pelo menos seis vezes mais prevalente em Afro-americanos do que em latino-americanos.

Também segundo a Direcção Geral de Saúde (2007), “a prevalência entre populações de negros foi consistentemente 3 a 4 vezes superior” (p.12).

Tratamento

A redução da pressão intra-ocular é o principal objectivo do tratamento para o Glaucoma (Stewart, Konstas & Pfeifer, 2004).

Para tal, existe uma variedade de opções terapêuticas, todas com o objectivo de diminuir a pressão intra-ocular, através do aumento da drenagem de humor aquoso ou por diminuição da sua produção. O tratamento mais comumente utilizado são medicamentos tópicos e sistémicos que, utilizados de forma adequada, reduzem a pressão intra-ocular.

O tratamento de redução da pressão intra-ocular pode diminuir o risco de progressão do defeito de campo visual em indivíduos assintomáticos com Glaucoma (Fleming, Whitlock, Beil, Smit & Harris, 2005, p. 167).

Resultados do “Early Manifest Glaucoma Trial “ demonstraram que reduzir a pressão intra-ocular é efectivo em todos os níveis de pressão, incluindo em pressões baixas (Heijl, Leske & Bengtsson, 2002).

A patologia pode evoluir para a cegueira sem sintomas, portanto a compliance ao tratamento é fundamental (Mucci, Galhardo, Belfort & Arruda Mello, 2002, p.65).

Página 29 Há muito que a não compliance é tida como um problema especial quando se trata pacientes com Glaucoma. Vários estudos revelaram que os pacientes não

compliants exibiam uma maior pressão intra-ocular e uma maior perda de campo

visual (Konstas, Maskaleris, Gratsonidis & Sardelli, 2000).

Uma boa compliance ajuda a reduzir a pressão intra-ocular e a diminuir a progressão da perda visual por Glaucoma (Lee, Walt, Chiang, Guckian, & keener, 2007, p.520).

O propósito do tratamento é controlar a doença e preservar a função visual, de modo a aumentar a promoção da saúde dos pacientes e da sua qualidade de vida. Para isso é imprescindível desenvolver práticas educativas e envolver o paciente na administração da sua doença e do respectivo tratamento.