PARTE I: BASES PARA O PROCESSAMENTO DA INTERAÇÃO
3: A voz de artistas: profissionais e em formação
3.2. Sondagens com estudantes das áreas de Música e Teatro
3.2.2 Questionário aplicado ao final do semestre
O objetivo desse questionário foi sondar a percepção dos alunos sobre os processos vivenciados na disciplina-laboratório. As respostas obtidas constituíram mais um meio de reflexão e ajustes da investigação para a oferta seguinte da disciplina, do primeiro para o segundo semestre, auxiliando, também, no balizamento da pesquisa como um todo frente a seus propósitos. Esse procedimento foi aplicado no último dia de aula de cada semestre letivo, e todos os 28 sujeitos que participaram da pesquisa responderam ao questionário. Dentre estes, 14 alunos do curso de Música e 14 alunos do curso de Teatro. Uma cópia do questionário, em seu formato original, encontra-se nos anexos da tese, à página 276.
Procurou-se, primeiramente, sondar a percepção dos participantes em relação aos conhecimentos promovidos pela disciplina-laboratório e se o processo vivenciado foi significativo para os alunos. O intuito foi sondar as práticas ministradas em seu potencial interacional, bem como sua capacidade em contribuir para o processo formativo, não consistindo apenas em uma atividade curiosa ou diferente. Os atores consideraram que a disciplina Música e Cena I promoveu: Conhecimentos novos (01)78;
Experiências novas (02); e Conhecimentos novos e experiências novas (12). Também
consideraram a disciplina como Útil (01); Interessante (02); e Útil e interessante (11). Quanto aos músicos, foram obtidas as seguintes informações. A disciplina Música e Cena trouxe: Experiências novas (01); e Conhecimentos novos e experiências
novas (13). Também consideraram a disciplina como Interessante (01); ou Útil e interessante (13). Nenhum participante (ator ou músico) marcou a opção Nem útil nem interessante.
Solicitou-se que os sujeitos indicassem as informações referentes ao atendimento ou não de suas expectativas na disciplina. As opções relativas às expectativas poderiam ser marcadas entre Sim e Não ou se as expectativas foram atendidas Parcialmente, indicando-se uma justificativa em qualquer das respostas. Para 09 atores as expectativas foram totalmente atendidas e para 05 atores as expectativas foram parcialmente atendidas. Os músicos indicaram 13 respostas com atendimento total e 01 resposta com atendimento parcial. As expectativas consideradas atendidas se deram da seguinte maneira:
Principais expectativas atendidas/atores: (ocorreu um equilíbrio nas respostas quanto às possibilidades de atendimento)
1. Relação entre elementos musicais e a cena:
“A relação entre elementos musicais e a duração da cena. Gostei muito de tudo que aprendi e ficou a vontade de aprender mais”;
“Respondo sim, embora acredito que o tempo e algumas faltas79
impediram que nós pudéssemos desenvolver mais o que aprendemos, mas embora isso tenha ocorrido tinha expectativa quanto aos elementos musicais dentro da cena, como
78 O número colocado ao lado da frase significa o número de participantes que optaram pelo quesito em questão.
isso poderia interferir na cena como elemento estímulo (sic) e como própria cena, Fiquei satisfeita”;
“Superou, pois cheguei a pensar que o estudo se tratava de “musicais” mas o entendimento do lugar da música em cena foi fundamental para meus estudos”; 2. Conexão entre os elementos musicais e elementos cênicos, por meio da voz e do corpo:
“Trabalhamos, como eu esperava, a junção dos elementos da música aos do teatro, através da fala e, principalmente, do corporal”;
“Correspondeu minhas expectativas pois percebi e entendi que a música tem muito mais influência no nosso corpo e isso me fez conhecer vários movimentos possíveis corporais”;
“A disciplina superou minhas expectativas. Eu vinha para aula com prazer. O conhecimento foi passado e vivenciado no corpo. Amei!”
3. Contato com o conhecimento musical:
“Improvisação vocal e musical (metalofone, cena com instrumentos); tempo, espaço e energia; exercício do trem; tipograma e outros. Todos esses exercícios me ajudaram a compreender melhor o universo musical, interiorizá-lo, auxiliando minha relação com a música com outras disciplinas”;
“Tive conhecimento de questões musicais novas”;
“Percepção musical. Ligação entre corpo e movimento. Conhecimento técnico de elementos musicais”.
Principais expectativas atendidas/músicos: (predomínio de respostas em torno do aspecto corporal, seguido das questões de expressividade/espontaneidade)
1. Percepção cênico-corpórea:
“Prática corporal. Prática em conjunto. Relação Música e Teatro”;
“Consegui compreender a importância do corpo para executar a música. Particularmente, gostei muito dos exercícios de preparação do corpo”;
“A principal expectativa que foi atendida foi a de me ajudar a iniciar uma consciência corporal (o corpo e suas dimensões que vão além do uso do instrumento”;
“Precisava conhecer minhas possibilidades, meu corpo, minhas sensações e principalmente estar de prontidão, alerta de maneira consciente e relaxado ao mesmo tempo”;
“Consciência corporal na performance musical”;
“Trabalho corporal. Senti falta de poder cantar para trabalhar a expressão corporal. Música e Cena II. Já!!”;
“Expectativas atendidas: preparação para trabalho corporal. Concretização de trabalho corporal e cênico. Interação elementos musicais (sic), elementos corporais, elementos vocais, elementos cênicos”.
2. Percepção corpórea/expressividade/espontaneidade:
“O trabalho da ação corporal no espaço, conhecimento e experiência com as possibilidades interpretativas, postura e destravamento ao me expressar com o instrumento, e comunicação em grupo nas atividades”;
“As expectativas atendidas foram com relação a melhor expressão corporal, desinibição em público e sugestões interessantes a serem usadas em aulas de música”;
“Consciência corporal; uso do corpo como extensão do instrumento musical; uso da autocrítica de forma produtiva; aprendi a deixar a criação, a espontaneidade aparecer primeiro, antes dos ajustes e estruturação cênica/performática”;
“Senti-me mais solta e sem medo de errar. O mais interessante é perceber a nossa dificuldade no outro, e perceber que não somos um caso isolado. Isso me deixou mais leve e com mais convicção na hora da performance musical. Errar é permitido”;
“Em relação à consciência cênica no palco, pois, para nós músicos isso é difícil, ou seja, uma expressão artística correspondente ao que se interpreta musicalmente”.
3. Resposta positiva, mas sem detalhamento das expectativas na justificativa: “Sim. Foi muito bom, mas um semestre é pouco”.
Dentre os tópicos citados acima pelos músicos, cabe uma rápida reflexão sobre o conteúdo das seguintes falas: “prática em conjunto”; “comunicação em grupo” e “perceber a nossa dificuldade no outro, e perceber que não somos um caso isolado. Isso me deixou mais leve”. Primeiramente, nota-se, aqui, o reflexo de uma característica da
realidade dos sujeitos. Dependendo da área de atuação, a formação musical, em geral, é bastante individualizada. É interessante notar, também, que em lugar de relacionar as próprias dificuldades às possíveis falhas ou lacunas do processo de formação (como detectado no questionário anterior), o aluno, muitas vezes, se sente como o único responsável por essas falhas, tomando-as como incapacidades pessoais inatas.
Não houve respostas negativas quanto ao atendimento às expectativas, embora um participante tenha manifestado, no quesito sobre o atendimento parcial, que a ementa da disciplina não era compatível com sua expectativa. Os que consideraram que a disciplina atendeu parcialmente às expectativas alegaram ter sentido falta dos seguintes aspectos:
Atendimento parcial das expectativas/atores
1. Maior tempo para aprofundamentos dos trabalhos:
“Senti mais a falta de tempo mesmo para fazer trabalhos e apresentar, algumas notas, ou provas práticas”;
“Sobre a teoria musical creio que absorvemos bastante. Quanto as experimentações senti um pouco de falta de um tempo maior para as livres experimentações”.
2. Maior espaço para a voz cantada:
“Correspondeu sim pelo fato de ter trabalhado a ritmicidade que ao meu ver é importantíssimo no trabalho do ator, mas senti falta da parte vocal, a parte cantada na disciplina”;
3. Maior espaço para a teoria:
“O trabalho com parâmetros musicais no corpo, na cena, na fala, foi algo que trabalhamos bem. A música como algo que pulsa dentro de você, te atravessando para gerar o movimento interno e externo também. Senti falta de algumas leituras teóricas na disciplina para relacionarmos a prática com a teoria”.
4. Expectativa diferenciada da proposta:
“Creio que minha expectativa anterior era muito diferente da ementa da matéria, por isso marquei essa opção”.
Atendimento parcial das expectativas/músicos:
1. Relação som-movimento em relação à execução musical:
“Senti falta de maior conexão entre o movimento com a música produzida pelos músicos, ou seja, o aluno que está na matéria passar pela experiência de executar alguma peça ou som não espontâneo com um movimento construído para ela ou vice-versa”. A experiência de executar o som e o movimento simultaneamente. Os pontos positivos estão relacionados com maior percepção do movimento e construção do que escrevi acima (processo)”.
Procurou-se captar, ainda, se a disciplina-laboratório trabalhou alguns aspectos que para os sujeitos eram desconhecidos em relação à sua experiência anterior e como os participantes receberam esses conhecimentos. Buscou detectar informações sobre as possibilidades não pertencentes à área de origem. Apenas um(a) participante (músico) respondeu que os conhecimentos desenvolvidos não eram desconhecidos, embora tenha marcado na questão 1 que a disciplina trouxe conhecimentos novos e experiências
novas. As respostas permearam as seguintes possibilidades:
Aspectos desconhecidos trabalhados na disciplina e considerados interessantes/atores (06 respostas):
“A junção de variações de tempo, espaço e energia”; “Trazer a musicalidade para a cena”;
“Trabalhou aspectos relacionados à própria música. Escutar a música e descobrir nela pontos e aspectos que antes eu não prestava muita atenção. Tipograma”; “Alguns exercícios de musicalidade não conhecia e apreciei muito a experiência
como, por exemplo, o tipograma”;
“Haviam alguns termos técnicos e nomes de instrumentos que eu não sabia e algumas práticas foram interessantes para mim”;
“Termos técnicos da música”.
Aspectos desconhecidos trabalhados na disciplina e considerados importantes/atores (08 respostas):
“Os elementos espaço, tempo, fluência e tônus, tudo me trouxe o conhecimento, para que a partir da matéria eu consiga utilizá-los intencionamente”;
“Faltava consciência. Não eram desconhecidos, mas sim passavam desapercebidos. O estudo da música relacionado a cena foi maravilhoso. A paisagem sonora foi muito interessante”;
“Não imaginava, historicamente falando, que tantos encenadores trabalhavam com a música tão profissionalmente. Sabia sim que a música é uma linguagem universal, mas parar para pensar, conhecer e perceber que podemos superar uma utilização gratuita. Muito bom!”;
“Alguns exercícios que ao serem executados e logo depois discutidos. Nós
alunos percebíamos o quão importante eram para nosso trabalho”;
“Instrumento musical como adereço cênico. Movimento contínuo e estacato (sic) com voz. “Falar” através dos instrumentos;
“O trabalho com uma mesma partitura corporal em diferentes andamentos”; “Acelerando. Ostinato. Esses, dentre outros elementos musicais (termos) que me
eram desconhecidos e que foram importantes até para minha prática fora daqui/ As atividades com ritmo ainda não é fácil para mim (sic), mas com treino vi que vou familiarizando mais. Principalmente quando experimento com o corpo”; “Relacionados à música. Como “ver” e entender a música”.
Aspectos desconhecidos trabalhados na disciplina e considerados
interessantes/músicos: (04 respostas):
“Fazer o aluno perceber e relacionar um som a um movimento e ao mesmo tempo perceber sutilezas de movimentos que podem resultar em outro sentido”; “Fragmentações dos movimentos e outros que não me lembro”;
“Todos os assuntos (texto, tabela de “musicalidade no teatro, etc)” que a professora passou;
“Alguns jogos de improvisação, jogos teatrais, exercícios de criação”.
Aspectos desconhecidos trabalhados na disciplina e considerados importantes/músicos: (09 respostas):
“Trilha X objetos musicais”;
“O aspecto da junção entre música e cena: influência da música no desenvolvimento de uma cena teatral”;
“O uso e a consciência do corpo nos espaços em que ele se encontra e que tipo de energia ele pode transmitir”;
“Densidade, ritmo corpóreo, tridimensionalidade, criação de espaços por meio da movimentação do corpo, dentre outros”;
“A ideia da minha cinesfera80, de ser um ser tridimensional foi ‘o pulo do gato’. Também me ver como personagem me ajudou com a timidez”;
“Qualidades de movimentos corporais”;
“Bem, não é que os aspectos foram desconhecidos, a grande questão é que nós não damos muita importância à preparação corporal, que é intimamente ligada à performance musical. Essa disciplina me ajudou muito na conscientização dos movimentos corporais”;
“Se preparar, se conhecer, estudar as auto possibilidades”; “Consciência cênica, postura corporal, expressividade corporal”.
Nenhum participante marcou o quesito Aspectos desconhecidos: sim e
considerei-os irrelevantes. Como uma última questão, indagou-se se o participante
indicaria a disciplina a algum colega. Obteve-se 26 respostas positivas e 02 negativas, sendo, estas últimas, relativas a um ator e a um músico. Verificou-se que a resposta negativa do participante ator, comparando-se com o restante de suas respostas no questionário, correspondeu a uma não identificação desse aluno com o processo realizado. Seu questionário foi o mesmo que apresentou a justificativa “Expectativa muito diferenciada da ementa da disciplina”, na questão 3. O participante músico escreveu uma justificativa ao lado de sua resposta, mesmo não tendo sido solicitado e nem tendo sido reservado um espaço para comentários. Assim, ao marcar a resposta
Não, acrescentou: “Pois acredito que a pessoa tem que buscar por si mesma, tem que
querer obter uma nova consciência”.
O questionário finalizou-se solicitando possíveis sugestões para a continuidade dos trabalhos na disciplina Música e Cena II, no intuito de reforçar a captação de necessidades e percepções. As respostas obtidas permearam aspectos semelhantes aos
80
Cinesfera, ou kinesfera: esfera de espaço em volta do corpo do agente na qual e com a qual ele se move. Determina o espaço natural do espaço pessoal (RENGEL, 2005).
descritos anteriormente nas expectativas atendidas (dar prosseguimento/aprofundamento às práticas consideradas importantes/interessantes; integrar atores e músicos) e nas expectativas parcialmente atendidas (tempo para maiores aprofundamentos; espaço para a voz cantada; teoria). Alguns desses aspectos já estavam previstos para a continuidade da investigação, no semestre seguinte, especialmente o aprofundamento de algumas práticas e a integração das áreas. As respostas dos sujeitos participantes, contudo, auxiliaram a delinear melhor as possibilidades de condução do trabalho, principalmente quanto à questão da execução musical por parte do participante e o trabalho com a voz cantada.
Uma das sugestões se diferenciou das demais, indicando a seguinte necessidade: “Senti falta de um foco ou percepção de degraus no trabalho”. Este questionário se refere a um(a) participante do curso de Música do primeiro semestre. Embora o trabalho não tenha sido pensado em uma proposição estritamente linear e em gradação de conteúdos, é interessante a percepção desse(a) aluno(a), uma vez que, realmente, no primeiro semestre, não tanto o foco, mas a noção das relações entre as práticas ainda, como mencionada no capítulo 1, não estava totalmente estabelecida. Ocorreram, ainda, outras sugestões que fizeram referência a quesitos como carga horária (muita; pouca), troca de horário de aula; local etc.
Observando-se os dados levantados nesses questionários, em uma visão geral, é possível levantar as seguintes ponderações:
Verificou-se, primeiramente, uma identidade entre as necessidades e as dificuldades listadas pelos estudantes e as que foram citadas pelos artistas profissionais, o que aponta para determinadas características da realidade investigada;
As informações dos estudantes contidas no relato sobre as expectativas atendidas correspondem aos interesses e necessidades apontados no primeiro questionário realizado, inferindo-se que as práticas investigadas são capazes de atender algumas demandas desse segmento;
O predomínio de opiniões que consideraram os conhecimentos trabalhados na disciplina como úteis, interessantes, novos e relevantes permite inferir que as práticas ministradas são passíveis de contribuir para o processo formativo dos alunos;
A informação acima leva a ponderar, ainda, que as práticas são capazes de oferecer acessibilidade e adequação a um contexto de ensino, sem cair, todavia, em uma simplificação excessiva;
Os dados citados nas respostas sobre o conteúdo das práticas citam a presença de confluência de elementos de ambas as áreas, demonstrando a presença de intercâmbio entre aspectos cênicos e musicais.
Os questionários acima descritos foram respondidos na disciplina Música e Cena I, voltados para o balizamento e aperfeiçoamento do percurso da investigação. Nesse sentido, não foi utilizado um questionário semelhante para ser aplicado ao término da disciplina Música e Cena II, uma vez que esta etapa do trabalho seria finalizada a partir de então. No entanto, verificou-se que seria pertinente colher as impressões dos participantes que permaneceram durante todo o ano de 2011 vinculados à disciplina- laboratório e à pesquisa. Sendo assim, foi solicitado um depoimento escrito desses participantes, contendo sua percepção dos processos desenvolvidos e por eles vivenciados. 07 sujeitos participaram efetivamente da disciplina Música e Cena II, sendo, estes, 03 atores e 04 músicos. Dentre eles, 05 apresentaram os depoimentos solicitados. Cabe lembrar, que esses participantes também realizaram os questionários acima descritos, quando integraram o período I.
Com vistas a demonstrar essas opiniões, serão apresentados alguns trechos desses depoimentos:
Depoimento 1 (Música):
“...adorei trocar com a turma. Não só com os colegas das artes cênicas que traziam, naturalmente, muitas novidades, mas com os meus colegas da música também, que demonstravam outras condições, possibilidades e habilidades, além das que eu já conhecia. Como cantora, poderia dizer que a disciplina me deixou mais consciente da importância da interpretação que pode/deve ser trabalhada, estudada, construída e não apenas ser fruto de uma habilidade ou disponibilidade individual (talento). Ou seja, a ideia da performance, da estética do canto em cena pode e deve ser aprimorada. Assim, estou num caminho de vinculação, de estreitamento, entre: voz/corpo/escutas. A disciplina trouxe, apesar de muito resumidamente, alguns guias para o desenvolvimento desta interação. Outra coisa que me chamou muito a atenção foi a importância que devemos dar à espontaneidade. Deixar vir, aparecer, se permitir. Fiquei impressionada com o fato de que, a partir de uma “brincadeira”, uma “semente” muito interessante, original, pudesse aparecer. E, assim, ser trabalhada, desenvolvida e lapidada uma ideia maior, uma cena. Ou seja, percebi que não devemos nos controlar tanto. O momento de criação deve ser livre”.
Depoimento 2 (Música):
Eu sempre percebi uma necessidade em mim de trabalhar a questão da expressividade corporal e da conexão entre corpo/voz, corpo/música. Acredito que a disciplina contribuiu muito para sanar essas necessidades e também contribui para o meu trabalho de mestrado. O que mais me impressionou [...] foi justamente essa sensação de liberdade criadora consciente, que tem um poder incrível.
Depoimento 3 (Música):
Foi muito bom para mim! De repente descobri que as pernas podem ter vida! Foi muito interessante o grande desenvolvimento da nossa consciência em tão pouco tempo. Isto me dá vontade de continuar e me faz pensar que seria maravilhoso se juntasse com a aula de performance em canto...Não preciso comentar que foi muito bom juntar as duas turmas [...] digo que foi muito divertido o que só incentiva o lado criativo e expressivo que as vezes ficam massacrados pela academia e pela nossa razão que sempre nos julga... Não quero esquecer de citar que não só os exercícios foram importantes, mas poder assistir o processo de cada aluna(o) foi importante para que pudéssemos entender e perceber a nós mesmos.
Depoimento 4 (Teatro):
É difícil escrever sobre A musica e Cena 2, Matéria que se tornou uma extensão de tudo o que eu aprendia em sala de aula, uma matéria que conseguiu ser tão potente para minha formação profissional, e ao mesmo tempo tão subjetiva. Uma matéria que não me deu as respostas e sim as ferramentas para que eu pudesse criar as minhas próprias conclusões. [...] Um lugar onde a generosidade proporcionava as trocas entre músicos, atores e nos possibilitava levar cada ensinamento não apenas para a vida profissional, mas também para a vida pessoal.
Depoimento 5 (Teatro):
O que falar? Diante da academia, com processos cheios de fórmulas rígidas, pouca fluência do nosso próprio desejo, nos dão a faca e o queijo, mas não nos ensinam a ter fome... esse processo pra mim foi na contramão, no escuro, não um escuro que dá medo, mas um escuro que liberta, que reinventa a luz. Senti-me como criança que tateia o mundo, que vai conhecendo os próprios sentidos. É bom se lançar em um "experimento", onde a coisa vai se dando ao longo, onde o processo vai nos dando pistas de para onde estamos indo. [...] E, com certeza, se tudo foi prazeroso, fluente, cheio de descobertas, isso só foi possível com a entrega e generosidade do grupo.
Observou-se, por meio dessas falas, algumas informações passíveis de serem interpretadas como contribuições para o processo de formação em torno da questão interacional. Essas informações se relacionam aos seguintes aspectos:
Conteúdos trabalhados: “outras condições, possibilidades e habilidades, além das que eu já conhecia”; “a disciplina me deixou mais consciente”; “a disciplina contribuiu muito para sanar essas necessidades”;
Processos de escuta interacional: “me chamou muito a atenção foi a importância que devemos dar à espontaneidade”; “assistir o processo de cada aluna(o) foi importante para que pudéssemos entender e perceber a nós mesmos”; “proporcionava as trocas entre músicos, atores”; “conhecendo os próprios sentidos”; “entrega e generosidade do grupo”;
Relação entre formação e processo criativo: “guias para o desenvolvimento desta interação”; “a partir de uma ‘brincadeira’, uma ‘semente’ muito interessante...