I. 2.1.1.2 LUFT
I. 3. Questões e Hipóteses
I. 3.1. Questionamentos Centrais
A meu ver, as descrições das estruturas com CHAMAR denominativo apresentadas pelos dicionários e gramáticas do português não explicam de forma satisfatória a “singularidade” desse predicador quando em construções denominativas. Dizer que um sistema lingüístico mantém um padrão de “comportamento” especifico para um único verbo e que este comportamento viola as regras gramaticais do próprio sistema não me parece aceitável. Além da contradição encontrada entre os gramáticos, que não concordam entre si ao descrever as construções denominativas com CHAMAR, existe ainda o fato de que é somente nesse tipo de construção (DENOMINATIVA) que o CHAMAR apresenta a sua propriedade de “dupla regência” de seus complementos e o conflito entre esta dupla regência e o tipo de predicado em que o CHAMAR ocorre. Em (24) e (25) abaixo podemos ver uma síntese das diferentes construções com o predicador CHAMAR atestadas atualmente no PB e no PE:
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(24) CHAMAR DENOMINATIVO – em Predicado Verbo-Nominal
(a) X chama a Y Z
(b) X chama a Y de Z
(c) X chama Y Z
(d) X chama Y de Z
(25) CHAMAR NÃO DENOMINATIVO – algumas acepções9 e em Predicado Verbal
(a) X chama por Y - “Clamar, invocar”
(b) X chama Y - “Convocar, reunir, atrair a atenção” (c) X chama Y para Z - “Convidar, escolher, nomear”
(d) X chama Y - “Mandar vir, mandar comparecer”
(e) X chama a Y - “Apelar”
(e) X chama - “Soar uma campainha ou telefone”
Dessa forma, diante da complexidade que o CHAMAR apresenta em suas construções com semântica denominativa (qualificativas, denominativas propriamente ditas, autodenominativas e de posse de um nome) procuro, nesta dissertação, entender a origem dessa complexidade em torno das construções denominativas com esse predicador através de uma descrição gramatical, em uma perspectiva diacrônica. Assim, para uma descrição gramatical mais adequada é preciso investigar o seguinte:
9 O Dicionário eletrônico HOUAISS (2001) traz vinte e seis (26) acepções para o verbete
“chamar”. Aqui, apresentei apenas algumas delas: apelar, clamar, invocar: chamou aos céus; chamou por Deus; convocar, reunir através de algum som ou gesto, atrair a atenção: chamou as tropas; o sino chamava os fiéis; chamou um táxi; convidar, escolher, nomear: Deus chamou Paulo (ao cristianismo); chamou os amigos para um jantar; chamou-o para secretário de estado; mandar comparecer: o ministro chamou o embaixador; soar (campainha, telefone): o telefone chamava insistentemente;
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(a) Justifica-se dizer que as atuais construções denominativas com CHAMAR são, de fato, construções peculiares?
(b) Como as construções de semântica denominativa com CHAMAR apresentam diferentes estruturas10, logo se faz necessário analisá-las separadamente. Assim é preciso se perguntar que estrutura argumental o CHAMAR apresenta em cada tipo de construção com semântica denominativa.
(c) E como a estrutura argumental se realiza sintaticamente em cada uma de suas construções denominativas?
(d) O que se pretende aqui investigar é: qual a valência de CHAMAR quando predicador de construções denominativas?
Investigar a valência verbal do predicador CHAMAR denominativo é crucial para a descrição desse predicador porque as construções com esse verbo abrangem diferentes estruturas, que a meu ver, possuem subníveis semânticos diferentes. Apesar de podermos identificar um nível semântico mais geral neste conjunto de construções, ou seja, são todas construções de semântica denominativa, porque atribuem uma denominação (seja qualificativa ou não), não podemos deixar de considerar as variações existentes no conjunto, por serem importantes na medida em que correspondem a uma diferenciação de estruturas. Existem as construções denominativas que qualificam – [X CHAMA Y adjetivo]; existem as que denominam de fato - [X CHAMA Y nome]; as que autodenominam ou “auto-qualificam” – [Y CHAMA-se adjetivo ou nome]; e as
que indicam a posse de uma denominação [Y CHAMA-se nome]11 ou [Y
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Apesar de essas construções apresentarem uma semântica de denominação podemos perceber diferentes subníveis semânticos entre elas: de denominação, de autodenominação, de posse e de qualificação.
11 Há a possibilidade de se considerar as estruturas [Y chama-se Z] como construções passivas.
Por ora não entrarei nesse mérito, pois meu intuito é diferenciar as construções transitivo-ativas de construções não transitivas, podendo estas serem estativas ou passivas.
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CHAMA nome]. Esses subníveis semânticos fazem com que o CHAMAR denominativo apresente estruturas com predicação diferentes (Small clause, ou não). O que se precisa investigar é se estes subníveis interferem na valência do CHAMAR denominativo.
O que pretendo realizar ao descrever gramaticalmente as construções denominativas com CHAMAR é caracterizar as construções denominativas com este predicador na língua, com o intuito de mostrar as diferentes estruturas e o funcionamento dessas construções, mais sem perder de vista minhas questões sobre o possível comportamento peculiar e único desse verbo, que o torna complexo, a fim de verificar se esse comportamento peculiar se justifica.
Além disso, a escolha pela perspectiva diacrônica, i.e., olhar para “o passado” das construções denominativas com CHAMAR tem por objetivo compreender as origens do comportamento único desse verbo, presente nos estágios atuais da língua.
Assim, os questionamentos centrais que norteiam essa descrição gramatical têm por base a descrição das construções denominativas com CHAMAR apresentadas pelas gramáticas brasileiras e portuguesas. O primeiro desses questionamentos é (1) porque o CHAMAR seria o único verbo do Português a ter um Predicativo do Objeto Indireto?
Quando fazemos classificações, utilizamos as características básicas comuns aos elementos para delimitarmos uma classe, e é exatamente por apresentarem essas características comuns que podemos dizer que um dado elemento pertence a uma dada classe. O caso do verbo CHAMAR, que apresenta um comportamento totalmente idiossincrático em relação aos outros verbos do português, é peculiar porque não há precedentes na história da língua de verbos que, digamos assim, “nasceram” idiossincráticos. Ou o nosso sistema de descrição e classificação dos verbos não está dando conta de todos os elementos; ou algo aconteceu a esse verbo que o “afastou” de sua classe original, ou seja, é possível que o verbo CHAMAR tenha sofrido alguma
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“mutação”, em algum momento da história da língua, e dessa forma se diferenciado da sua classe original. Essa idéia nos remete diretamente a uma segunda pergunta: O CHAMAR passou, de fato, por alguma mudança ao longo do tempo?
Considerando que no PE e no PB atuais, o sistema lingüístico pode manter esse comportamento diferenciado somente para o verbo CHAMAR denominativo, segundo a pesquisa realizada nas gramáticas, temos que investigar como esta particularidade surgiu nas construções com este verbo. Melhor dizendo, (2) o CHAMAR sempre apresentou esta complexidade ou ela teria surgido ao longo do tempo através de algum processo de mudança sintático-semântica ocorrida com este predicador? Aqui entra a consideração do fato de que o CHAMAR apresenta outros significados, além de “qualificar”, “denominar” e “possuir nome” em cujas estruturas não há nenhuma particularidade que viole alguma regra gramatical: “chamou por Deus” (apelar, clamar, invocar); “chamou as tropas” (convocar, reunir através de algum som ou gesto); “chamou um táxi” (atrair a atenção); “chamou os amigos para um jantar” (convidar); “chamou-o para secretário de estado” (escolher, nomear); “o ministro chamou o embaixador” (mandar comparecer); “o telefone chamava insistentemente” (soar).
Este segundo questionamento me levou a considerar a pergunta (3) se é verdade que o CHAMAR sofreu um processo de mudança, em que momento na história da língua ocorreu essa mudança?
A idéia exposta nas questões (2) e (3) acima, de que as construções de semântica denominativa com CHAMAR possam ter se originado de alguma mudança gramatical ocorrida neste tipo de construção em estágios passados da língua, já demonstra a necessidade de um olhar diacrônico sobre essas construções, uma vez que, seria, então, no passado que estariam as respostas para a complexidade encontrada nas atuais construções denominativas com esse verbo.
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E de fato, a descrição apresentada neste trabalho mostra que as construções de denominação passaram sim por algumas mudanças ao longo do tempo. Essas mudanças estão presentes desde os predicadores que podiam ocorrer neste tipo de construção até a estrutura que as mesmas podiam apresentar.
A idéia de haver um estágio passado na língua no qual as construções denominativas com predicador CHAMAR sofreram algumas mudanças em sua estrutura está presente também, mesmo que forma sutil, no trabalho de Elisabete Ranchhod (1999) sobre predicados nominais com verbos-suporte na Crónica Geral de Espanha de 1344. Esta pesquisa de Ranchhod me serviu de base tanto para o levantamento de questões sobre as construções denominativas com CHAMAR, mais especificamente, as construções estativas com CHAMAR- SE, como para reforçar a idéia de que o predicador CHAMAR foi, ao longo do tempo, sofrendo modificações e se estabelecendo como o principal predicador de construções denominativas.