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A valência do predicador CHAMAR na diacronia do português

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Academic year: 2021

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G I L C É L I A D E M E N E Z E S D A S I L V A

A Valência do Predicador

A Valência do Predicador

A Valência do Predicador

A Valência do Predicador

CHAMAR

CHAMAR

CHAMAR

CHAMAR

na Diacronia do

na Diacronia do

na Diacronia do

na Diacronia do Português

Português

Português

Português

D i s s e r t a ç ã o a p r e s e n t a d a a o I n s t i t u t o d e E s t u d o s d a L i n g u a g e m , d a U n i v e r s i d a d e E s t a d u a l d e C a m p i n a s , p a r a o b t e n ç ã o d o T í t u l o d e M e s t r e e m L i n g ü í s t i c a . O r i e n t a d o r : P r o fa D r ª M a r i a C l a r a P a i x ã o d e S o u s a

C a m p i na s

2 0 1 0

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ii

Ficha catalográfica elaborada pela Biblioteca do IEL - Unicamp

M524v

Menezes da Silva, Gilcélia de.

A valência do predicador CHAMAR na diacronia do português / Gilcélia de Menezes da Silva. -- Campinas, SP : [s.n.], 2010.

Orientador : Maria Clara Paixão de Sousa.

Dissertação (mestrado) - Universidade Estadual de Campinas, Instituto de Estudos da Linguagem.

1. Mudança lingüística. 2. Língua portuguesa - Português arcaico - até 1400. 3. Língua portuguesa - Português médio - até 1500. 4. Língua portuguesa - Valência verbal. 5. Língua portuguesa - Verbo chamar. I. Sousa, Maria Clara Paixão de. II. Universidade Estadual de Campinas. Instituto de Estudos da Linguagem. III. Título.

oe/iel

Título em inglês: The Valency of CHAMAR in the History of Portuguese.

Palavras-chaves em inglês (Keywords): Language change; Portuguese Language - Old portuguese - To 1400; Portuguese Language - Middle portuguese - To 1500; Portuguese Language - Verb valency; Portuguese Language - Verb chamar.

Área de concentração: Lingüística. Titulação: Mestre em Lingüística.

Banca examinadora: Profa. Dra. Maria Clara Paixão de Sousa (orientadora), Prof. Dr. Charlotte Marie Chambelland Galves e Prof. Dr. Maria Aparecida Corrêa Ribeiro Torres Morais. Suplentes: Profa. Dra. Sílvia Regina de Oliveira Cavalcante e Profa. Dra. Maria Filomena Spatti Sândalo.

Data da defesa: 23/02/2010.

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v A o m e u p a i q u e m e e n s i n o u a v e r o s l i v r o s c o m o a l g o m u i t o m a i s d o q u e f o l h a s , e s t ó r i a s e f i g u r a s . L i v r o s s e p a r e c e m u m p o u c o c o n o s c o : n a s c e m , “ a b s o r v e m o a r ” e m s u a v o l t a , c r e s c e m e s a e m p e l o m u n d o . M a s , c o n t r a r i a n d o a l e i d a v i d a , e l e s n u n c a m o r r e m . E d e c e r t a f o r m a , n ó s t a m b é m n ã o . . .

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vii A G R A D E C I M E N T O S A h ! O s a g r a d e c i m e n t o s ! F o r a m t a n t a s a s p e s s o a s q u e p a r t i c i p a r a m d e s s e m e u p e r c u r s o ! A m i n h a t r a j e t ó r i a n o I E L c o m e ç o u e m 2 0 0 1 q u a n d o c o m e c e i a g r a d u a ç ã o . D e v i d o a m i n h a n a t u r e z a t a g a r e l a ( q u e m m e c o n h e c e s a b e q u e e u u t i l i z o i n t e n s i v a m e n t e a m i n h a c a p a c i d a d e d e f a l a r ) , f i z m u i t o s a m i g o s , m u i t o s c o n h e c i d o s e m u i t o s i n i m i g o s t a m b é m ! R e l e m b r a n d o o c a m i n h o p e r c o r r i d o f o i n e s s e m e s m o a n o q u e c o n h e c i a P r o f ª . C h a r l o t t e G a l v e s , q u e m e a c e i t o u e m s u a d i s c i p l i n a d e H i s t ó r i a d a L í n g u a P o r t u g u e s a , m e s m o s a b e n d o q u e e u a i n d a n ã o s a b i a n a d a d e L a t i m ! F o i a í q u e t u d o c o m e ç o u : o a m o r p e l o s t e x t o s a n t i g o s e p e l a h i s t ó r i a d a n o s s a l í n g u a ; o t r a b a l h o n o C o r p u s T y c h o B r a h e e m i n h a a m i z a d e c o m a P r o f ª . M a r i a C l a r a P a i x ã o d e S o u s a, m i n h a o r i e n t a d o r a , a P r o f ª . S í l v i a R e g i n a , a P r o f ª C r i s t i a n e N a m i u t i , a P r o f ª F l a v i a n e e a P r o f ª F l á v i a, q u e n e s s a é p o c a a i n d a e r a m a l u n a s d e d o u t o r a d o . M a i s t a r d e , c o n h e c i o u t r a s p e s s o a s q u e d e u m a f o r m a o u d e o u t r a p a r t i c i p a r a m d o P r o j e t o e p a r t i c i p a m a t é h o j e : J a n a í s a , A n d r é , A l b a , L u c i a n n e , P a t r í c i a , S i m o n e , A n a C a r o l , M a h a y a n a , A n a L u i z a , C y n t h i a , e m e u s a m i g o s q u e r i d o s A r o l d o , P a b l o , L í l i a n e A l i n e . A s s i m c o m e ç o a g r a d e c e n d o a e s s a s a m i z a d e s q u e f i z n e s t e p e r í o d o e m q u e t r a b a l h e i n o C o r p u s T y c h o B r a h e , a l g u m a s d e l a s f i r m e s e d u r a d o u r a s , e c o m a s q u a i s a p r e n d i b a s t a n t e s o b r e l í n g u a , G r a m á t i c a G e r a t i v a , L i n g ü í s t i c a C o m p u t a c i o n a l , l e i t u r a , t r a n s c r i ç ã o e e d i ç ã o d e m a n u s c r i t o s a n t i g o s , e m u i t o s o u t r o s s a b e r e s .

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viii A g r a d e ç o e m p a r t i c u l a r a P r o f ª . C h a r l o t t e G a l v e s , m i n h a p r i m e i r a o r i e n t a d o r a , p e l a m i n h a i n s e r ç ã o n o s e u P r o j e t o , p e l a s u a c o n f i a n ç a n a m i n h a c a p a c i d a d e d e l e v a r a d i a n t e u m p r o j e t o d e I C a i n d a n o i n í c i o d a m i n h a g r a d u a ç ã o , p e l a s n o s s a s c o n v e r s a s m u i t o p r o d u t i v a s p a r a m i m , p e l a s u a a c o l h i d a , s e m p r e c o m u m s o r r i s o , m e s m o q u a n d o e u b a t i a n a j a n e l a d a s a l a d a D i r e ç ã o p a r a d i z e r a p e n a s u m “ O i , C h a r l o t t e ! ” U m g r a n d e a b r a ç o e u m m u i t o o b r i g a d o a S í l v i a R e g i n a d e O l i v e i r a C a v a l c a n t e q u e m e c o n v e n c e u d u r a n t e u m c a f é n a P a d a r i a A l e m ã a r e t o m a r a s m i n h a s p e s q u i s a s n o P r o j e t o , a s q u a i s e u t i n h a a b a n d o n a d o p a r a p e r c o r r e r o u t r o s c a m i n h o s . E s s e r e t o r n o f o i c r u c i a l p a r a o s u r g i m e n t o d e s s a p e s q u i s a , p o i s f o i n e s s a é p o c a q u e c o m e c e i a t r a b a l h a r d i r e t a m e n t e c o m a P r o f ª . M a r i a C l a r a . F o i a p a r t i r d o s s e u s c u r s o s n a p ó s - g r a d u a ç ã o d o I E L q u e s u r g i u o t e m a d e s s e t r a b a l h o e a s s i m m e t o r n e i s u a p r i m e i r a o r i e n t a n d a . D e l á p r a c á , p a s s a m o s p o r m u i t a s s i t u a ç õ e s , p o r v e z e s e n g r a ç a d a s , c o n f u s a s e a l g u m a s d i f í c e i s , m a s s e m p r e j u n t a s ! À m i n h a o r i e n t a d o r a u m a g r a d e c i m e n t o m a i s q u e e s p e c i a l . P e l a s u a a t e n ç ã o , i n t e r e s s e e p e r s i s t ê n c i a . P e l a s m u i t a s t a r d e s d e o r i e n t a ç ã o , n a s q u a i s e u t e n t a v a l h e e x p l i c a r “ o q u e e u e s t a v a p e n s a n d o ”, e n q u a n t o e l a m e e s c u t a v a e m e e x p l i c a v a c o n c e i t o s c o m t o d a a p a c i ê n c i a d o m u n d o ! O m e u “ m u i t o o b r i g a d o ” a o M a r c e l o e a o P e d r o , p o r s e m p r e t e r e m m e r e c e b i d o t ã o b e m e m s u a c a s a ( s á b a d o s , d o m i n g o s e f e r i a d o s ) , e e s p e c i a l m e n t e a o m e u a m i g o T o m á s , p e l a s t a r d e s m u s i c a i s r e p l e t a s d e i n s t r u m e n t o s v a r i a d o s : p i a n o , b a t e r i a , t a m b o r , g u i t a r r a , l a t a s , a p i t o s , b a l d e s . . . ! F o r a m t a r d e s e d i f i c a n t e s q u e c o n t r i b u í r a m e n o r m e m e n t e p a r a d e s e n v o l v i m e n t o d e s s e t r a b a l h o .

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ix O b r i g a d a a t o d o s o s f u n c i o n á r i o s d o I E L e q u e f a z e m e s s e i n s t i t u t o f u n c i o n a r p o r t r á s d a s s a l a s d e a u l a s ! A p e s a r d e m u i t o s , e u o s c o n h e ç o q u a s e t o d o s , d e s d e a m a n u t e n ç ã o a t é a D i r e ç ã o . U m m u i t í s s i m o o b r i g a d o à s m e n i n a s d a B i b l i o t e c a d o I E L q u e m e a c o m p a n h a r a m t o d o e s s e t e m p o , e m e s p e c i a l a B e l , M a d a , L a v í n i a , L o i d e, p e l a s c o n v e r s a s , p e l o a p o i o , p e l a a m i z a d e e t a m b é m p e l a s m u l t a s r e c e b i d a s n ã o s e m m u i t a s l a m ú r i a s e p r o t e s t o s ! T a m b é m a o p e s s o a l d a s e c r e t a r i a d e p ó s : R o s e , C l a u d i n h o e M i g u e l. A o s m e u s p r o f e s s o r e s d o I E L d e s d e a g r a d u a ç ã o a t é h o j e , g o s t a r i a d e d e i x a r m e u s a g r a d e c i m e n t o s . E u m a g r a d e c i m e n t o e s p e c i a l a P r o f ª . M a r i a A p a r e c i d a T o r r e s M o r a i s d a U S P q u e a c e i t o u p a r t i c i p a r d a b a n c a e x a m i n a d o r a d e s s a d i s s e r t a ç ã o . N ã o p o d e r i a e s q u e c e r o p e s s o a l d a A l i a n ç a F r a n c e s a d e C a m p i n a s , S e v a n e , R i t i n h a , J u n i a , C e l i n a , Â n g e l a , M a r t h a , F á t i m a , L í d i a R e g a n e l l i , C a r o l , M a r i l d a e M a l u q u e n ã o a g ü e n t a v a m m a i s o u v i r f a l a r s o b r e a s c o n s t r u ç õ e s c o m o v e r b o C H A M A R . Q u e r o a g r a d e c e r e m e s p e c i a l a m i n h a a m i g a G a b i , a m i g a d e t o d a s a s h o r a s , d e t o d o s o s c a f é s , d e t o d o s o s m o m e n t o s , q u e m e o u v i u s e m p r e q u e e u p r e c i s e i a p e s a r d a s n o s s a s d i f e r e n ç a s e d o s m u i t o s “ n ã o s ” q u e e u j á l h e d e i . À m i n h a p e q u e n a g r a n d e f a m í l i a : S o a r e s , C a u k i , F á t i m a e N i c k , p e l o a p o i o f i n a n c e i r o , t é c n i c o , “ p r o d u ç ã o m u s i c a l ” , “ e f e i t o s e s p e c i a i s ” , p e l o s m o m e n t o s d e d e s c o n c e n t r a ç ã o f o r ç a d a , m a s p r i n c i p a l m e n t e p o r e s t a r e m a o m e u l a d o s e m p r e . P o r f i m , a g r a d e ç o a C A P E S p e l o f i n a n c i a m e n t o c o n c e d i d o a e s t a p e s q u i s a .

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"Como o Rei (...) estes nossos dois reis, nome e verbo (...) per razão da excelência e alto ofício que têm, governam e regem todolas linguagens da terra" (João de Barros, 1540).

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Resumo: Nos estágios atuais da língua, as gramáticas brasileiras e portuguesas descrevem o CHAMAR como o único verbo do Português a ter um Predicativo do Objeto Indireto. O problema inicial desta pesquisa surgiu a partir dessa singularidade atribuída ao verbo CHAMAR quando predicador de construções denominativas, e se constitui em compreender quais foram os fatores que levaram o CHAMAR a ter, ao longo do tempo, esse comportamento diferenciado de todos os outros verbos da língua. Assim, o presente trabalho tem por objetivo descrever gramaticalmente o predicador CHAMAR quando este significa “qualificar”; “atribuir um nome, denominar”; “autodenominar-se” e “possuir um nome”, tendo como base as narrativas portuguesas escritas nos séculos 14, 15 e 16. As construções com CHAMAR aqui descritas foram denominadas de construções de semântica denominativa e apresentam as seguintes estruturas básicas: [X V (a) Y (de) Z] em construções transitivo-ativas e [Y V-se Z]; [Y V Z] e [V Z] em construções não-transitivas (estativas/passivas), onde X= “Agente” (aquele que “executa a ação” expressa pelo verbo); Y= “Designando”, (aquele que recebe a denominação dada); e Z= “Designação” (a denominação propriamente dita). A partir dos questionamentos iniciais levantados, partiu-se para um estudo sobre a valência do CHAMAR quando principal predicador de construções denominativas procurando identificar os padrões de ocorrência dessas construções nos textos. Nos séculos 14 e 15 o CHAMAR convivia com outros predicadores denominativos e estes foram substituídos na diacronia, transformando o CHAMAR no principal predicador de construções denominativas. O CHAMAR denominativo pode ser “qualificativo”, i.e., quando atribui uma qualidade; ou “denominativo” propriamente dito, ou seja, quando atribui um nome. As estruturas com CHAMAR “qualificativo” apresentam a Designação (Z) como um adjetivo predicativo e, portanto selecionam como argumento uma Small Clause (“e porém lhe chama a estória filho de perdição” - CGE). Já as estruturas com CHAMAR “denominativo” apresentam a Designação (Z) como um nome próprio (“e por isso lhe chamaram Dom Sancho, o Desejado” – CGE) e, portanto não selecionam uma Small Clause como argumento. Neste tipo de construções o CHAMAR se caracteriza como um verbo de atribuição, tal como DAR, OFERECER, apresentando valência três [Agente] [V] [Designando] [Designação]. As construções transitivo-ativas apresentam como principal padrão de expressão argumental aquele em que o argumento que mais aparece nulo é o Agente (X), e o Designando Y (Objeto) ocupa a posição à esquerda de proeminência discursiva (Y V __ Z), acompanhando dessa forma as principais características da frase na Gramática do Português Médio, defendidas por Paixão de Sousa (2008). A partir desse padrão dos verbos no PM propõe-se que as construções estativas do tipo [Y V Z] (“Ela chama Maria”) atestadas atualmente no PB são derivadas das construções ativas do tipo [Y V __ Z] do PM, com o sujeito Agente nulo e o “constituinte discursivamente importante” ocupando a posição imediata a esquerda do verbo, alterando assim a valência de CHAMAR de três para dois.

Palavras-chave: Mudança Lingüística; Valência Verbal; Português Arcaico; Português Médio; Verbo CHAMAR.

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Abstract: Current grammar books of both Brazilian and European varieties of Portuguese describe CHAMAR (‘call’) as the only Portuguese verb having a predicate nominative of an indirect object. The initial problem of this research is to understand which factors have driven CHAMAR to have a differentiated behavior with respect to other verbs of the language because of its singularity as a predicator of denominative constructions. Therefore, the present work aims at grammatically describing predicator CHAMAR when it means “to qualify”, “to assign a name, to denominate”, “to self-denominate” and “to have a name”, based on Portuguese narratives written in the 14th, 15th and 16th centuries. The constructions with CHAMAR described here were called ‘constructions with denominative semantics’ and display the following basic structures: [X V (a) Y (de) Z] in active-transitive constructions and [Y V-se Z]; [Y V Z] and [V Z] in non-transitive constructions (stative/passive). Where X= “Agent” (the participant that “executes the action” expressed by the verb), Y= “Designee” (the participant that receives the given denomination) and Z= “Designation” (the actual denomination). After presenting the initial research questions, the text displays the results of a study about the valency of CHAMAR as the main predicator in denominative constructions and tries to identify the distribution patterns of these constructions in the texts. In the 14th and 15th centuries CHAMAR existed along with other denominative predicators, but these ones were substituted in diachrony; as a result, CHAMAR has become the main predicator of denominative constructions. Denominative CHAMAR can be “qualificative”, i.e. when it assigns a quality; or properly “denominative”, it means, when it assigns a name. The structures with “qualificative” CHAMAR present the Designation (Z) as a predicate adjective and therefore they select a Small Clause as an argument: e porém lhe chama a estória filho de perdição (CGE) (‘and however the story calls him the son of perdition’). On the other hand the structures with “denominative” CHAMAR display the designation (Z) as a given name: e por isso lhe chamaram Dom Sancho, o Desejado (CGE) (‘and because of that they called him Dom Sancho, the Desired One’) and, therefore, they do not select a Small Clause as an argument. In this type of constructions CHAMAR is characterized as a verb of giving, such as DAR (‘give’) and OFERECER (‘offer’), showing valency = 3: [Agent] [V] [Designee] [Designation]. Active-transitive constructions present the following main pattern of argument expression: the Agent (X) is more frequently null, and the Designee Y (Object) occupies a position of discursive prominence to the left (Y V __ Z). In this sense, it follows the main characteristics of the sentence in Middle Portuguese (MP) Grammar, as argued by Paixão de Sousa (2008). From such a pattern in MP we propose that stative constructions of the type [Y V Z] instantiated in Ela chama Maria (‘she is called Mary’) in nowadays Brazilian Portuguese are derived from active constructions of the type [Y V __ Z] in MP, with the Agent subject null and the “discursively most important constituent” occupying the immediate position to the left of the verb. In this way the valency of CHAMAR was changed from 3 to 2.

Key-Words: Language Change; Verb Valency; Old Portuguese; Middle Portuguese; Verb CHAMAR.

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LISTA DE ABREVIATURAS E SÍMBOLOS UTILIZADOS Símbolos e Abreviaturas

da Literatura Sintática A: Argumentos

AP: Sintagma Adjetival C1: Complemento um C2: Complemento dois cl: pronome clítico Det: Determinante DP: Sintagma Determinante Obj: Objeto OD: Objeto Direto ODPrep: Objeto Direto Preposicionado

OI: Objeto Indireto PP: Sintagma Preposicional Pred: Predicativo

Pred. Suj: Predicativo do Sujeito

Pred.O: Predicativo do Objeto

S ou Suj: Sujeito

SC: Small Clause ou mini-oração SN: Sintagma Nominal SP ou SPRED: Sintagma Preposicional TD: Transitivo direto TD(I) ou VTDI: Transitivo direto e indireto

TI: Transitivo indireto V: verbo

VP: Sintagma Verbal

Símbolos e Abreviaturas da Literatura Gramatical GT: Gramática Tradicional GU: Gramática Universal

Símbolos e Abreviaturas da Literatura Semântica Ag: Papel temático Agente Pac:Papel temático Paciente

Outras convenções utilizadas: Gramaticais X: Sujeito de CHAMAR (Agente) Y: Complemento de CHAMAR (Designando)- quem recebe a denominação Z: Complemento de CHAMAR (Designação) – denominação dada

Outras convenções utilizadas:

Periodização do Português:

PA: Português Arcaico PB: Português Brasileiro PC: Português Clássico PE: Português Europeu Moderno

PM: Português Médio

Corpora, textos e autores:

CIPM: Corpus Informatizado do Português Medieval

CTB: Corpus Tycho Brahe

Textos

ID: Código de identificação CGE: Crônica Geral da Espanha

CRB: Crônica dos Reis de Bisnaga C_007: Décadas G_008: História da Província de Santa Cruz G_009: Crônica Del-Rei D. Afonso Henrique

L_002: Crônica Del-Rei D. João P_002: Crônica Del-Rei D. Diniz

ZPM: Crônica do Conde D. Pedro de Menezes

Autores

Couto: Diogo do Couto

Gandavo: Pero Magalhães de Gandavo

Galvão: Duarte Galvão Lopes: Fernão Lopes Pina: Rui de Piña

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SUMÁRIO

Da Introdução ... 3

Da Apresentação ... 10

I. CAPÍTULO PRIMEIRO: Da problemática em torno de CHAMAR ... 15

I.1. Apresentação do Capítulo ... 15

I. 2. Chamam-me complexo ... 17

I.2.1. O que se diz sobre as construções denominativas com predicador CHAMAR ... 17

I. 2.1.1. O CHAMAR nos Dicionários ... 20

I. 2.1.1.1. BORBA ... 22

I. 2.1.1.2. LUFT ... 23

I. 2.1.2. O CHAMAR nas gramáticas brasileiras e portuguesas ... 27

I. 2.1.3. A complexidade do predicador CHAMAR denominativo no PB e no PE ... 30

I. 2.1.4. A dupla predicação de CHAMAR denominativo: Um caso de Small Clause? ... 43

I. 3. Questões e Hipóteses ... 51

I. 3.1. Questionamentos Centrais ... 51

I. 3.2. Predicados nominais no Português Arcaico (PA) por E. Ranchhod ... 56

I. 3.3. Hipóteses de trabalho: Pressupostos para análise dos dados ... 61

II. CAPÍTULO SEGUNDO: Do lugar, do tempo e da documentação ... 71

II. 1. Apresentação do Capítulo ... 71

II. 2. O lugar da diacronia dentro da Teoria Gerativa ... 73

II. 3. O Português Médio: Evidências para uma nova periodização... 78

II. 3.1. A divisão tradicional dos estágios do Português ... 79

II. 3.2. Importância do século 16 na história da língua portuguesa ... 80

II. 3.3. Uma nova proposta para a periodização da língua portuguesa ... 82

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II. 4. Levantamento dos Dados ... 87

II. 4.1. Da construção do Corpus ... 87

II. 4.2. Do Tratamento dos Dados para Investigação ... 93

II. 4.2.1. Dos procedimentos de buscas dos dados nos corpora ... 93

II. 4.3. Universo Geral de Análise ... 93

II. 4.3.1. Distribuição dos dados pelos Corpora: ... 93

II. 4.3.2. Dos Critérios de Seleção e Classificação dos dados ... 95

III. CAPÍTULO TERCEIRO: Da Análise dos Dados ... 107

III. 1. Apresentação do Capítulo ... 107

III. 2. A Valência de CHAMAR denominativo ... 109

III. 2.1. A Valência Verbal e a Transitividade ... 109

III. 2.1.1. O conceito de valência nas gramáticas e os dicionários ... 109

III. 2.2. A centralidade do verbo ... 111

III. 2.3. A gramática de valência ... 111

III. 2.4. A Valência Verbal: Alguns Estudos sobre Valência Verbal ... 113

III. 2.4.1. O conceito de valência e seu desenvolvimento ... 113

III. 2.4.1.1. Tesnière ... 113

III. 2.4.1.2. Helbig ... 114

III. 2.4.1.3. Borba ... 115

III. 2.4.1.4. Perini ... 119

III. 2.5. A Valência do predicador CHAMAR em construções denominativas119 III. 3. Da descrição: O CHAMAR em construções denominativas do Português Médio ... 123

III. 3.1. A Diacronia do Verbo Chamar ... 123

III. 3.1.1. Outros predicadores denominativos além de CHAMAR – século 14 ... 123

III. 3.1.2. As Construções Estativas... 130

III. 3.1.2.1. Outros predicadores além de CHAMAR ... 130

III. 3.1.3. As Construções Transitivas ... 134

III. 3.1.3.1. A Expressão Argumental de CHAMAR: Principais Aspectos.. 134

III. 3.1.3.2. A expressão do Designando (Y) ... 136

(14)

xxi

III. 3.1.3.4. Principal padrão de ocorrência – Das posições dos argumentos143 III. 3.1.3.5. Principal padrão de ocorrência – Do apagamento dos

argumentos ... 144

III. 3.2. A Proeminência à esquerda e a relação com as construções denominativas com CHAMAR no Português Médio... 146

III. 3.3. As Construções denominativas com CHAMAR-SE: ... 150

III. 3.3.1. O Surgimento das estativas com CHAMAR-SE ... 150

III. 3.3.2. A expressão argumental das construções estativas com CHAMAR-SE ... 152

CONSIDERAÇÕES FINAIS ... 156

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS ... 164

APÊNDICE ... 172

ÍNDICE ... 172

1. Resultados: Tabelas e Gráficos ... 173

1.1. Tabelas: ... 173 T a b e l a 1: D a d o s Co m p l e t os ... 173 T a b e l a 2: S e n t en ç as d e n o m i n a t i v as ... 174 T a b e l a 3: S e n t en ç as n ã o - d e n o m i n at i va s ... 174 T a b e l a 4: D i s t r i b ui ç ã o d a s s e n te n ç as d en o m i n a t i v as co m v e r b o n ú c l e o d e VP ... 175 T a b e l a 5: D i st r i b u i ç ã o d as s en t e n ç a s de n o m i n a t i v a s c o m o u t r o s P r e d i c a d o r e s ... 175 1.2. Gráficos: ... 176 G r á f i c o 1: D is t r i b u i ç ã o d o s d a d os p e l o s c o r p o r a ... 176 G r á f i c o 2 : D is t r i b u iç ã o d a s s en t e n ç a s d e n o m i n a t i v a s p o r p r e d i c a d o r ... 176 G r á f i c o 3: M é d i as d o t o t a l d e s en te n ç a s d e n o m i n a t i v a s p e l o t o t a l d e s e n t en ç as d o t e x t o, p o r a u t o r ... 177

(15)

D a

Sello DelRey D. Affonso Anriques

1

D a I n t r o d u ç ã o

(16)

3

Da Introdução

(Donde se apresenta o predicador CHAMAR e as construções de semântica denominativa)

Nos estágios atuais do Português, o CHAMAR, quando denominativo, é considerado um verbo de comportamento singular em relação aos outros verbos da língua. A “singularidade” do CHAMAR se encontra no fato de ele ser o único verbo do Português a aceitar um Predicativo do Objeto Indireto. Esta propriedade de CHAMAR contradiz todas as regras gramaticais impostas pelas gramáticas tanto portuguesas como brasileiras. O fato de CHAMAR apresentar este comportamento único é o ponto de partida desta pesquisa. A motivação do trabalho é justamente compreender porque este predicador traz essa característica peculiar e qual a sua origem e desenvolvimento ao longo da história da língua portuguesa. Toda a problemática sobre as atuais estruturas com CHAMAR, será discutida no Capítulo Primeiro dessa dissertação, dedicado à complexidade em torno desse predicador.

Partindo dessa peculiaridade do verbo CHAMAR, coloco-me os seguintes questionamentos: Porque o CHAMAR tem esse comportamento diferenciado dos outros verbos do Português? Este predicador sempre apresentou essa complexidade ou ela é resultado de alguma mudança sintático-semântica sofrida por este verbo ao longo do tempo? Se, de fato, o CHAMAR sofreu algum processo de mudança, em que estágio passado da língua ocorreu esse processo?

Assim sendo, o objetivo específico dessa dissertação é descrever diacronicamente a valência do predicador CHAMAR, em construções com semântica denominativa em narrativas históricas portuguesas escritas entre os séculos 14 e 16, melhor dizendo, em textos narrativos do Português Médio, a

(17)

4

Gramática instanciada nos fins do século 14 e início do século 15 e que perdurou

até o fim do século 17. Nessa dissertação estou adotando a periodização proposta primeiro em Galves (2004) e depois em Galves, Namiuti e Paixão de Sousa (2006) para o Português, segundo a qual, em meados do século 14, já se reconhece uma fase intermediária entre o Português Arcaico e o Português Europeu Moderno, denominada Português Médio (PM) e que perdura até o século 18.

Entenda-se que o conceito de Gramática aqui adotado é o da Teoria Gerativa, ou seja, uma entidade particular, internalizada na mente do falante que lhe oferece as possibilidades de gerar estruturas, segundo uma parametrização dos princípios da Gramática Universal (GU), dependendo do tipo de experiência lingüística de cada falante.

Nesta dissertação, assumo o verbo como elemento central da sentença em torno do qual todos os outros constituintes irão se agrupar. Dessa forma, investigo os padrões de ocorrência do predicador CHAMAR quanto à sua estrutura argumental, à sua grade temática e à ordem relativa entre os seus argumentos.

Quanto à diátese de CHAMAR, esta foi restringida a um tipo de construção que chamarei de construções de semântica denominativa. Este recorte se fez necessário porque é justamente neste tipo de construção que o CHAMAR apresenta a sua complexidade, ou seja, admite um Predicativo do Objeto Indireto, segundo as gramáticas brasileiras e portuguesas. O que estou chamando de construções de semântica denominativa são aquelas construções que trazem os seguintes significados1:

(1) Atribuir qualidade, classificação a (algo); denominar, apelidar.

(a) chamam este fenômeno de derivação parassintética; (b) chamou aquele sítio de paraíso perdido;

1 As definições apresentadas, como também os exemplos, foram retiradas do Dicionário

(18)

5 (c) os colegas chamavam-no Droguinha.

(2) Autodenominar-se; dizer-se.

(a) os bosquímanos chamam a si próprios de coisa;

(b) seu nome era Meneses, mas ele se chamava de Rei da Noite;

(3) Ter por nome; ter sido batizado e/ou registrado (com tal nome).

(a) chamava-se Pedro.

Note-se que o conjunto das construções de semântica denominativa com o verbo CHAMAR, além das construções descritas em (2) e (3), abrange tanto as construções que atribuem um nome, conforme os exemplos do item (1) acima, como as construções que atribuem uma qualificação, tais como “Chamei-o inteligente”; ”Chamam-lhe sábio”; “Para chamá-la de bonita, seria preciso entender de outra forma a beleza.” (Dicionário Aurélio, 1986, p. 388).

As outras acepções que o verbo CHAMAR apresenta2 não foram aqui

analisadas, pois não configuram construções denominativas. Adiante trago alguns exemplos dessas outras acepções de CHAMAR:

(4) Construções de semântica não-denominativa com CHAMAR (HOUAISS, 2001)

(4.1) atrair a atenção de (alguém ou algo), por meio de voz ou gesto.

(a) chamava a namorada com assobios agudos; (b) quase se jogava na rua para chamar o táxi;

(c) chamou pela platéia quando pressentiu a sonolência de alguns.

(19)

6

(4.2) reunir ou convidar por meio de toque (apito, campainha, sino)

(a) chamar as tropas; (b) o sino chamava os fiéis;

(4.3) pedir a proteção, o favor, a atenção de; invocar, apelar, clamar.

(a) a beata chamou São José; (b) chamar pela ajuda materna; (c) chamar aos céus.

(4.4) convidar, convocar (para cargo ou emprego); nomear. (a) chamou-o para secretário de estado;

(4.5) soar (telefone ou similar) como indicação de chamada; tocar.

(a) o telefone chamava insistentemente;

(4.6) seduzir, aliciar (a) o poder chamava-o

(4.7) carecer de; exigir, clamar, reclamar (a) a questão social chama por justiça; (b) sua redação chama por sérias correções;

(4.8) tomar (algo) [para si]; avocar, assumir, atribuir-se (a) ele chamou a si o problema

(20)

7

(a) com receio de perder a hora, pediu ao pai que a chamasse cedo

Este é um trabalho de caráter descritivo, e como tal tem por objetivo fazer “uma apresentação sistemática dos fatos da língua - não a elaboração ou validação de alguma teoria específica da linguagem.” (Perini, 2008). Contudo, nenhum trabalho de descrição pode prescindir de um quadro teórico. Assim sendo, esta dissertação está situada entre os estudos de Lingüística Histórica, mais especificamente, da História do Português, e se enquadra na Teoria Gerativa da Gramática, em particular na teoria da mudança gramatical defendida por Anthony Kroch (2001), que entende os estudos diacrônicos dentro do quadro gerativista como um desafio metodológico.

Um dos problemas metodológicos que se enfrenta no trabalho com dados passados de uma língua diz respeito ao fato de que, na perspectiva diacrônica, não se tem acesso à intuição do falante, ou seja, não se chega às evidências diretas de um dado fenômeno lingüístico. Também não se pode precisar o que o sistema lingüístico estudado não permite ao falante produzir, i.e., não temos acesso às evidências negativas deste sistema.

Além disso, para a perspectiva gerativa a mudança gramatical está associada ao processo de aquisição da linguagem, pois ela é fruto da relação entre a marcação dos parâmetros da Gramática Universal e as experiências lingüísticas (os dados primários) que cada falante vive durante esse processo de aquisição. Logo, os padrões de mudança que encontramos nos textos estudados não representam a mudança em si, mas “reflexos da mudança gramatical” (Paixão de Sousa, 2004, p.15-16). Esses desafios serão abordados mais detalhadamente no Capítulo Segundo.

Como, em principio, podemos nos referir a significados distintos para a palavra “gramática”, é necessário distingui-los entre si. Neste trabalho, circulam dois conceitos diferentes de “gramática”. Um desses conceitos de “gramática” representa uma forma de instrumentalização da língua, ou seja, um instrumento metalingüístico e metodológico que trata sobre a língua. O outro

(21)

8

conceito se refere à “gramática” como entidade mental particular. Gramática na teoria gerativa é a capacidade que os falantes têm de elaborar diferentes estruturas em sua língua materna – trata-se, portanto de uma entidade mental, particular de cada falante. E neste sentido é a representação do modo como determinados parâmetros da GU foram fixados, durante o processo de aquisição da linguagem.

Assim, para expressar essa diferenciação de significados, ao longo dessa dissertação, quando se tratar do primeiro sentido de “gramática” - que remete aos instrumentos metalingüísticos (normativos, prescritivos, históricos, descritivos, etc.) - a palavra “gramática” será expressa com a primeira letra minúscula: gramática. E por sua vez, quando se tratar do segundo sentido de “gramática”, que remete a entidade individual que fornece ao falante a possibilidade de gerar as estruturas de uma dada língua, o termo será expresso com a primeira letra maiúscula Gramática.

Além de enfrentar os desafios metodológicos que se apresentam a depender do quadro teórico adotado, as pesquisas sobre a história do Português ainda precisam enfrentar o problema da periodização da língua, um assunto bastante discutido na Filologia e na Lingüística Histórica. A tarefa de definir as etapas do Português enfrenta a questão de saber quais critérios devemos considerar na identificação dos pontos de inflexão dessas etapas. A proposta de periodização aqui adotada (Galves, Namiuti e Paixão de Sousa, 2006) define, com base na Teoria da Mudança Gramatical, os pontos de inflexão dos estágios do Português pelo critério de surgimento de novas formas, se diferenciando assim da periodização tradicional. Considerar o surgimento de formas novas como indícios de uma mudança na Gramática dos falantes é crucial para esta pesquisa, pois é no PM que o CHAMAR surge como principal predicador de construções denominativas. Apresento no Capítulo Segundo, dedicado ao lugar, ao tempo e a documentação, uma discussão mais aprofundada tanto sobre as questões metodológicas quanto sobre os problemas de periodização do Português.

(22)

9

Ao longo do Português Médio o CHAMAR foi se tornando o predicador principal de construções com semântica denominativa, suplantando alguns outros predicadores que até então eram bastante utilizados em construções desse tipo. Assim no PM, o predicador CHAMAR ocorre em construções denominativas transitivo-ativas, qualificativas e de atribuição de nome e em

construções denominativas não-transitivas (Estativas/Passivas), de

autodenominação e de posse de um nome (ter/possuir um nome).

Em construções denominativas transitivas que atribuem um nome o

CHAMAR, no PM, apresenta uma valência três (V3), selecionando um

argumento externo Agente (X) e dois argumentos internos: o Designando (Y) e a Designação (Z), onde Y representa a pessoa, objeto ou lugar que recebe a denominação dada (Z). A expressão desses argumentos ocorre da seguinte maneira, abstraindo-se a ordem relativa dos argumentos, conforme mostra o Quadro 01 abaixo:

Quadro 01: Expressão dos argumentos de CHAMAR denominativo atestadas em textos do Português Médio

X CHAMA Y Z (A) SN V SN SN (B) SN V SP SN (C) SN V cl. acusativo SN (D) SN V cl. dativo SN (E) SN V SN SP

Em construções denominativas não-transitivas (Estativas/Passivas), o CHAMAR apresenta uma redução na sua valência inicial passando a valência

dois (V2) resultando assim em construções do tipo [Y CHAMA Z] aceitas

(23)

10

A análise dos dados me permite dizer que a mudança na diátese do predicador CHAMAR denominativo se caracteriza por uma reánalise no principal padrão de ocorrência das construções denominativas transitivas cujo constituinte frásico discursivamente mais importante ocupa a posição de proeminência à esquerda do verbo (no caso das construções denominativas com CHAMAR, o Designando Y) e o sujeito Agente (X) se encontra nulo. Ou seja, o padrão [Y V __ Z] atestado nos textos do PM acabou por produzir, ao longo do tempo, uma interpretação na qual Y é entendido como sujeito (Paciente) da sentença, modificando a estrutura para [Y V Z], alterando dessa forma a diátese do verbo.

Paixão de Sousa (2008; 2009) em seus trabalhos sobre a Gramática do Português Médio apresenta evidências para se afirmar que este processo de interpretação das construções transitivas também ocorre com outros verbos do Português Médio, e da mesma maneira produz uma diminuição na valência desses verbos, dentre eles o verbo CASAR. Logo, a alteração na valência de CHAMAR vem corroborar os resultados já obtidos por Paixão de Sousa (2008; 2009).

Da Apresentação

Assim, esta dissertação está organizada em quatro partes, a saber: (i) Introdução – que traz uma apresentação geral da dissertação; (ii) Três Capítulos – que serão apresentados mais adiante; (iii) Considerações Finais;

(iv) Apêndices – no qual apresento o levantamento completo dos dados. Os capítulos estão dispostos da seguinte maneira: No Capítulo Primeiro abordo, inicialmente, a complexidade das construções de semântica denominativas com CHAMAR através de pesquisas que realizei em um

(24)

11

conjunto de dicionários, gramáticas e sites brasileiros e portugueses, além de alguns estudos dentro da Lingüística Histórica, entre eles o trabalho de Elisabete Ranchhod (1999) sobre verbos-suportes na Crónica Geral de Espanha de

1344. Neste Capítulo apresento as construções atuais com CHAMAR enquanto

predicador de construções denominativas e a interpretação sobre as diferentes estruturas que este verbo apresenta. Em seguida, apoiada pelos resultados dessas pesquisas, apresento meus questionamentos e hipóteses para este trabalho descritivo. A idéia central desse capítulo é, partindo da discussão sobre a complexidade do verbo CHAMAR, apresentar as principais questões que essa discussão suscita e que motivaram este trabalho, aliando a estes questionamentos as hipóteses propostas para a análise das estruturas com o CHAMAR denominativo em narrativas dos séculos 14, 15 e 16.

No Capítulo Segundo discuto o lugar das pesquisas diacrônicas dentro do quadro gerativista, adotando a Teoria da Mudança Gramatical defendida por A. Kroch (2001). Seguindo o eixo “problemas enfrentados pelos estudos históricos da língua, a partir da perspectiva gerativa”, sigo discutindo a questão da periodização da língua portuguesa, os critérios utilizados pela periodização tradicional do Português e pela proposta de periodização de Galves, Namiuti e Paixão de Sousa (2006). E por fim, apresento a constituição do corpus de análise, o conjunto dos textos representativos de cada século aqui analisado, além da quantificação geral dos dados.

O Capítulo Terceiro aborda a descrição da valência do predicador CHAMAR em construções denominativas, dos tipos de estruturas encontradas, da expressão dos argumentos, dos outros tipos de predicadores atestados no corpus estudado, além de um estudo comparativo entre as construções arcaicas do tipo “aver nome” (haver nome) e as construções atuais com CHAMAR-SE. Este Capítulo Terceiro traz também as propostas de análise para as construções transitivas e estativas com CHAMAR denominativo, dentro da discussão das hipóteses levantadas por mim, diante das particularidades desse predicador, com o intuito de responder aos meus questionamentos centrais.

(25)

12

Nas Considerações Finais volto aos principais padrões de ocorrência apresentados pelo verbo CHAMAR quando denominativo, apontando minhas descrições dos mesmos, concluindo assim minha proposta de análise e finalizando esta dissertação.

(26)

13

C A P Í T U L O P R I M E I R O

D a p r o b l e m á t i c a e m t o r n o d o

p r e d i c a d o r C H A M A R

“Os Índios da terra lhe chamam em sua língua Hipupiára (...) o retrato deste Monstro, é este que no (...) [início] do presente capítulo se mostra, tirado pelo

natural.” (P.M.Gandavo)

(27)

15

I. CAPÍTULO PRIMEIRO: Da problemática

em torno de CHAMAR

(Donde se trata da complexidade do predicador CHAMAR em construções de semântica denominativa e dos questionamentos suscitados por ela)

I.1. Apresentação do Capítulo

As construções de semântica denominativas com o predicador CHAMAR apresentam nos estágios atuais do Português uma singularidade em relação aos outros verbos. A problemática em torno do CHAMAR se encontra na expressão de seus argumentos e nas funções sintáticas que os mesmos podem exercer em construções nas quais esse verbo tem semântica denominativa. O CHAMAR é o único verbo do Português que pode apresentar um complemento cuja função sintática pode ser classificada como “Predicativo de Objeto Indireto”.

A descrição encontrada nos dicionários e nas gramáticas brasileiras e portuguesas sobre o comportamento desse verbo não é unânime. Percebe-se que os gramáticos se dividem em dois grupos. Existem gramáticos que afirmam ser o CHAMAR um verbo anômalo e de comportamento único, e existem gramáticos que preferem outra saída para descrever as construções denominativas com CHAMAR. Como a polêmica sobre este verbo recai justamente sobre um de seus complementos – aquele que representa a pessoa ou coisa que recebe a denominação dada, alguns gramáticos preferem afirmar ser este complemento um Objeto Direto Preposicionado (ODPrep), fugindo assim da polêmica em torno das estruturas com CHAMAR denominativo.

Esse Capítulo Primeiro se dedica a examinar o olhar das gramáticas e dicionários sobre as construções denominativas com CHAMAR e a partir dele levantar questões que possam contribuir para a desmistificação desse verbo. Assim, na seção I. 2 trato da complexidade das estruturas com CHAMAR. Em

(28)

16

seguida discuto o olhar das gramáticas e dicionários sobre essas estruturas, passando depois para discussão do lugar onde reside a singularidade do CHAMAR nos estágios atuais do Português Brasileiro e do Português Europeu. E por fim, na seção I. 3 apresento minhas questões e hipóteses sobre o surgimento das atuais construções de semântica denominativa com CHAMAR - hipóteses essas que serviram de base para a minha descrição dessas construções no Português Médio.

(29)

17

I. 2. Chamam-me complexo

I.2.1. O que se diz sobre as construções denominativas

com predicador CHAMAR

De um modo geral, a “singularidade” atribuída ao CHAMAR pelas gramáticas brasileiras e européias do Português foi o ponto de partida desse trabalho. Quase todas as gramáticas pesquisadas trazem uma observação sobre este verbo, quando ele tem a acepção de “designar, apelidar, dar nome, qualificar” alguém, algum lugar ou alguma coisa. Diante da especificidade atribuída às construções denominativas com CHAMAR realizei uma pesquisa em dicionários e gramáticas tanto do Português Brasileiro (PB) quanto do Português Europeu (PE), além de pesquisar alguns sites sobre as dificuldades da língua – também brasileiros e portugueses - com o objetivo de entender melhor onde de fato se encontrava a problemática do verbo CHAMAR. No Quadro 02, abaixo, apresento um resumo das observações encontradas nas principais gramáticas pesquisadas:

Quadro 02 : Obse rva çõe s encontrada s nas g ra máti cas sobre o CHAMAR

Autores Observações encontradas sobre o CHAMAR

Exemplos com CHAMAR Evanildo

Bechara (1992)

“Excepcionalmente o verbo chamar pode pedir predicativo de objeto indireto”:

(a) Nós o chamamos sábio. (b) Nós lhe chamamos sábio.

Rocha Lima

(1994)

“O predicativo se refere ao objeto direto e, mais raramente, ao indireto (...)”:

(a) Todos lhe chamavam ladrão!

Cunha &

Cintra (2001)

“Somente com o verbo chamar pode ocorrer o PREDICATIVO DO OBJETO INDIRETO”:

(a) A gente só ouvia o Pancário chamar-lhe ladrão e mentiroso.

(b) Chamam-lhe fascista por toda parte.

Adriano da

Gama Kury

(1986)

“O único verbo, chamar, aparentemente apresenta a anomalia de ter um predicativo anexado ao objeto indireto”

(a) A Pedro chamou-lhe Cristo ‘CEPHAS’, pedra.

(30)

18

Basicamente, o problema que os gramáticos encontram ao descrever as construções com CHAMAR, quando em construções de semântica denominativa, está na definição da função sintática de seus complementos, devido às múltiplas possibilidades de regência que os mesmos apresentam.

Além disso, as possibilidades de regência dos complementos de CHAMAR fazem com este predicador apresente estruturas bastante diferentes no Português Brasileiro e no Português Europeu atuais. No PB há um leque maior de estruturas com o CHAMAR que no PE. No PB, o CHAMAR denominativo é um verbo “bitransitivo”, no sentido da gramática normativa tradicional.

De acordo com as gramáticas e dicionários, a transitividade é uma propriedade que alguns verbos possuem para expressar a necessidade de complementos. Dessa maneira, um verbo bitransitivo é aquele que precisa simultaneamente de dois complementos (OD e OI) para completar seu sentido (HOUAISS, 2001), sendo que um dos complementos deve vir preposicionado, tal como ocorre com os verbos DAR, OFERECER, ENVIAR, etc. O fato de um verbo ser bitransitivo não apresenta nenhum problema para a língua portuguesa, sendo até uma propriedade bastante comum entre os verbos. Ambas as gramáticas do PB e do PE descrevem o CHAMAR como um verbo bitransitivo. A singularidade presente na “bitransitividade” do CHAMAR está no fato de que no PB este verbo pode ocorrer tanto com os dois complementos não-preposicionados [SN V SN SN], como com ambos preposicionados [SN V SP SP], o que é algo bastante peculiar para as estruturas do Português. Sabe-se que algumas gramáticas, de teor mais normativo, costumam confundir alguns de seus conceitos, dificultando a compreensão de alguns significados de modo que definições tais como transitividade, regência e valência, por vezes passam por esta dificuldade de conceitualização. Entretanto, neste meu primeiro olhar não pretendo questionar as definições apresentadas pelas gramáticas para os conceitos de transitividade e regência, preferindo retornar a esta questão no Capítulo Terceiro, quando irei tratar dos conceitos de valência e transitividade.

(31)

19

O Quadro 03 abaixo traz as estruturas atuais de construções de semântica denominativa com o predicador CHAMAR no PB.

Quadro 03: A Transitividade do verbo CHAMAR no PB atual

(1)

Complementos: [SN SN SN]

(a) SN V SN SN

A mãe chamou o filho Pedro

(b) SN V pronome SN

A mãe chamou- o Pedro

(2)

Complementos: [SN SN SP]

(a) SN V SN SP

A mãe chamou o filho de Pedro

(b) SN V pronome SP

A mãe chamou- o de Pedro

(c) SN V SP SN

A mãe chamou ao filho Pedro

(d) SN V pronome SN

A mãe chamou- lhe Pedro

(3)

Complementos: [SN SP SP]

(a) SN V SP SP

A mãe chamou ao filho de Pedro

(b) SN V pronome SP

A mãe chamou- lhe de Pedro

No PE atual, das construções com CHAMAR descritas acima no Quadro 03, são atestadas apenas as construções (2c) e (2d), repetidas no Quadro 04 abaixo:

(32)

20

Quadro 04: Transitividade do verbo CHAMAR no PE atual (2)

Complementos: [SN SN SP]

(c) SN V SP SN

A mãe chamou ao filho Pedro

(d) SN V pronome SN

A mãe chamou- lhe Pedro

Tanto no PB como no PE, o CHAMAR também pode ocorrer na forma pronominal. No entanto, a forma pronominal CHAMAR-SE apresenta um significado diferente da forma CHAMAR “bitransitiva” (X chama (a) Y (de) Z), ou seja, construções do tipo [Y chama-se Z] tem o significado de autodenominar-se, ter por nome; ter sido batizado e/ou registrado com tal nome (HOUAISS, 2001) e podem apresentar as seguintes estruturas, conforme o Quadro 05 a seguir.

Quadro 05: Construções com CHAMAR-SE no PB e PE atuais

PE (a) SN V-SE SN

Ele chama-se Pedro

PB

(a) SN SE- V SN

Ele se chama Pedro

(b) SN V SN

Ele chama Pedro

I. 2.1.1. O CHAMAR nos Dicionários

De acordo com os dicionários pesquisados, enumerados a seguir no Quadro 06, o CHAMAR apresenta um grande número de acepções. Aqui me deterei nas análises apresentadas para as construções com semântica denominativa, pelas razões já explicitadas anteriormente, ou seja, porque é

(33)

21

neste tipo de construção que o CHAMAR “transgride” as regras gramaticais mostrando seu comportamento diferenciado dos outros verbos. O Quadro 06 abaixo apresenta a lista de dicionários pesquisados:

Quadro 06 : Obras de re fe rências - Dicionários

1. BLUTEAU, Raphael. Vocabulario Portuguez & Latino: áulico, anatômico, architectonico ... Coimbra: Collegio das Artes da Companhia de Jesu, 1712 – 1728, 8v. Digitalizado pela Biblioteca Brasiliana USP Digital. Endereço eletrônico: http://www.brasiliana.usp.br/dicionario/1;

2. BORBA, Francisco da Silva (Coord.). Dicionário Gramatical de Verbos. – 2ª ed. São Paulo: Fundação Editora da Unesp, 1990.

3. BUENO, F. da Silveira. Dicionário da Língua Portuguesa. São Paulo: Editora Fortaleza, 1972.

4. CUNHA, Antônio Geraldo da. Dicionário Etimológico Nova Fronteira da Língua Portuguesa. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1982.

5. Dicionário da Língua Portuguesa Contemporânea da Academia das Ciências de Lisboa e da Fundação Calouste Gulbenkian. II Volume. 2001, Editorial Verbo. (p. 780 – 781).

6. FERREIRA, Aurélio Buarque de Holanda. Novo Dicionário da Língua Portuguesa. 2ª ed. Rio de Janeiro: Editora Nova Fronteira, 1986.

7. HOUAISS, Antonio. Dicionário Eletrônico Houaiss da Língua Portuguesa. Versão 1.0. Rio de Janeiro: OBJETIVA, 2001.

8. LUFT, Celso Pedro. Dicionário Prático de Regência Verbal. 2ª ed. São Paulo: Editora Ática, 1993.

9. MACHADO, José Pedro. Dicionário Etimológico da Língua Portuguesa. 1ª ed. Lisboa: Editora Confluência, 1952.

Devido à natureza específica dos dicionários, os verbetes são apresentados através de entradas lexicais acompanhadas de explicações curtas seguidas de exemplos. Alguns desses dicionários não traziam análises detalhadas sobre o verbete CHAMAR, apenas uma lista dos seus muitos significados,

(34)

22

acompanhada de seus respectivos exemplos. Dentre os dicionários pesquisados, em um total de nove, apenas o Dicionário Gramatical de Verbos, coordenado por Francisco da Silva Borba (1990) e o Dicionário Prático de Regência Verbal de Celso Pedro Luft (1993) apresentaram uma descrição mais detalhada de cada tipo de construção com CHAMAR. Por essa razão, passo agora a examinar como esses dois dicionários descrevem o verbo CHAMAR denominativo.

I. 2.1.1.1. BORBA

O Dicionário Gramatical de Verbos de F. da S. Borba (1990) apresenta, juntamente com as acepções de CHAMAR, o estatuto sintático-semântico desse verbo e sua relação com os seus argumentos, i.e., os papéis temáticos que o verbo distribui para seus argumentos, além dos traços semânticos, tais como [+animado] ou [-animado] para cada complemento. É de acordo com essas diferenciações que o autor analisa as várias construções com CHAMAR. Assim, Borba afirma que para a entrada lexical CHAMAR pode-se ter até três tipos de relação – ação-processo, ação e estado. Com o significado de “dar um nome”, o CHAMAR é um verbo de ação-processo, que admite um sujeito Agente, e dois complementos, sendo que um deles pode vir ou não acompanhado pela preposição “a”. Contudo, ele não indica qual seria a função sintática desse complemento, nem qual papel temático lhe seria atribuído. Para o segundo complemento, Borba apenas afirma sua função sintática, ou seja, seria um “Predicativo do Complemento”. Dessa forma, a especificidade das construções denominativas com verbo CHAMAR não é posta em questão nesta descrição, uma vez que não sabemos ao certo que função o primeiro complemento (quem recebe a denominação) exerce, nem se a função sintática de Predicativo do Complemento corresponde à função de Predicativo do Objeto presente nas gramáticas.

(1) Descrição do CHAMAR em BORBA (1990):

(35)

23

Com complemento expresso por nome introduzido ou não por a e com predicativo do complemento, significa apelidar, dar nome de: Chamam o casamento de sacramento. (DM, 177); [Dr. Pílade] se dirigia ao pai chamando-lhe “meu caro Sr. Zário”. (SA, 204); A vila toda gostava de chamá-lo doutor. (MA,128); crônica é tudo aquilo que chamamos de crônica (FE, 21); caminhos a que chamávamos ingenuamente de estradas (IC, 24). (...)

III. Indica estado, na forma pronominal, com sujeito inativo e com predicativo do sujeito. Significa ter nome de, denominar-se: [O moleque] chamava-se Humberto. (JA, 97); Chamava-se Paulinho o menino da entrega; Meu cão chama-se Argos. (BORBA, 1990, p. 259-260).

I. 2.1.1.2. LUFT

Celso Luft, por sua vez, em seu Dicionário Prático de Regência Verbal, apresenta para cada entrada lexical, além de suas acepções, a transitividade dos verbos e algumas das funções sintáticas que seus complementos exercem. Luft não trata da distribuição dos papéis temáticos pelo verbo. Dessa forma, a sua descrição para o CHAMAR denominativo afirma que este pode ser um verbo transitivo direto (TD), transitivo indireto (TI), ou ambos, i.e., transitivo direto e indireto (TD (I)), sendo que um dos seus complementos tem a função de predicativo (Pred.), conforme em (2):

(2) Descrição do CHAMAR denominativo por Celso LUTF (1993): “(...) 8. TD Pred: chamá-lo + Pred. (subst. próprio). Dar ou pôr a (alguém) o nome de. Os pais resolveram chamá-la Teresa. (...)

(...) 9. TDp Pred: chamar-se (= ser chamado) + Pred. (subst. próprio). Ter o nome de. Ela se chama Teresa||chamar-se (a si mesmo) + Pred. Denominar-se. Ele faz questão de chamar-se doutor. 10. TD (I) Pred. Chamá-lo (de) + Pred. ou TI. Pred. chamar-lhe (de) + Pred.” (Luft, 1993) (grifos meus).

(36)

24

O que me parece interessante na descrição em Luft (1993) são suas observações sobre (i) a existência de uma “sintaxe original” das construções denominativas com CHAMAR; (ii) as possíveis explicações para o aparecimento das outras estruturas a partir de uma estrutura básica (“sintaxe original”); e (iii) a diferenciação entre estruturas passivas e reflexivas com o CHAMAR-SE. Essas observações, a meu ver, são interessantes porque denotam a idéia de que as construções denominativas com CHAMAR passaram por algum processo de mudança, em algum momento da língua, além de chamar a atenção para o fato de que há diferenças semânticas nas construções com “SE”, no caso, com CHAMAR-SE.

O primeiro ponto interessante das observações de Celso Luft diz respeito à “sintaxe original” das construções com CHAMAR. Segundo este autor, a “sintaxe original” das construções denominativas com CHAMAR seria do tipo [chamá-lo + Pred.], que significava originalmente “dizê-lo capaz” que passou depois a ser interpretado como uma denominação “pôr/ter o nome de” (cf. 3):

(3)

(a) chamá-lo poeta (dizê-lo capaz de ser poeta)

(b) chamá-lo Pedro (puseram-lhe o nome de Pedro)

(c) chamar-se Pedro (ter o nome de Pedro)

A partir dessa sintaxe básica [chamá-lo + Pred.], ou seja, [SN V SN SN], de acordo com Luft, foram surgindo outras estruturas possíveis com CHAMAR denominativo tais como as apresentadas abaixo em (4):

(4) Estruturas derivadas da estrutura básica [SN V SN SN]

(37)

25 (4.2) Estruturas derivadas:

[SN V SN SP]:

(a) [chamar-lo de + Pred.] “chamá-lo de poeta”

[SN V SP SP]:

(b) [chamar-lhe de + Pred.] “chama-lhe de poeta”

[SN V SP SN]:

(c) [chamar-lhe + Pred.] “chama-lhe poeta”

Para o aparecimento de estruturas com a preposição “de”, como as apresentadas em (4.2 a) e em (4.2 b), Luft apresenta duas explicações possíveis. Na primeira, o autor afirma que a presença da preposição “de” em construções do tipo {“chamá-lo de poeta”} e {“chama-lhe de poeta”} tem sua origem nas “locuções onde a preposição introduz um aposto designativo”- ou seja, {“nome de poeta”}. Estas construções teriam então o significado de “dar a alguém nome de algo” (cf. 5):

(5) Estruturas com aposto designativo – [SN V SP SN]

“chamá-lo de poeta” ou “chama-lhe de poeta” - (dar a alguém o nome ou a denominação de poeta)

A segunda explicação dada por Luft para as estruturas com a preposição “de”, em (4.2 a) e (4.2 b) sugere uma derivação baseada na diferenciação das funções sintáticas dos complementos, que por ocorrerem sem preposição nenhuma, poderiam ser interpretados como dois objetos diretos. Dessa maneira, para desfazer esta “ambigüidade” nas funções sintáticas, a estrutura básica - [SN V SN SN] - [chamá-lo + Pred.] - teve que se modificar de tal forma

(38)

26

que o segundo complemento passou a ocorrer acompanhado da preposição “de” 3, conforme demonstra (6) abaixo:

(6) Derivação para desfazer a ambigüidade dos complementos

[chamar – alguém – poeta] > [chamar – alguém – DE poeta]

(a) chamá-lo poeta > chamá-lo de poeta

[S V- OD OD] > [S V- OD – OI]

Para as construções do tipo [SN V SP SN], ou seja, sem a preposição “de” [chamar-lhe + Pred.] expressas em (4.2 c) {“chamar-lhe poeta”}, Luft sugere que elas seriam derivadas “da expressão chamar nomes a alguém, onde a posição de objeto direto passa a ser ocupada pelo predicativo (o “nome” chamado) “(cf. 7):

(7) Derivação das construções do tipo [Chamar-lhe + Pred.]:

[chamar nomes a alguém] > [chamar a alguém (um) nome] > [chamar–lhe + Pred.]

chamar poeta a alguém > chamar a alguém poeta > chamar –lhe poeta

Além disso, a idéia de que a construção básica [chamar – alguém – nome], com os dois complementos “exercendo a função de OD” [V – OD – OD] e que se modificou para [V-OD-OI], poderia explicar também a possibilidade de termos construções com [chamar-lhe]:

(8)

(a) [chamar – alguém – nome] > [chamar –nome – A alguém] > [chamar–lhe +nome] (b) [Chamar alguém poeta > chamar poeta a alguém > chamar-lhe poeta

3

“Também é possível que a construção básica [chamar – alguém – poeta], com dois nominais sem preposição a modo de dois objetos diretos, se tenha encaminhado para o modo [V-OD-OI]”. (LUFT, 1993).

(39)

27

Apesar dessas explicações não serem muito claras em relação às funções sintáticas dos complementos de CHAMAR, a análise apresentada por Luft se mostra interessante porque demonstra que as construções denominativas com CHAMAR possuem uma estrutura básica transitiva, com dois complementos [Chamar - alguém – nome] e que esta sofreu modificações ao longo do tempo, gerando assim atuais estruturas para as construções com CHAMAR, já apresentadas nos Quadros 03 e 04 mais acima e repetidas em (9):

(9)

(a) [SN V SN SN] - “chamá-lo poeta”

(b) [SN V SP SN] - “chamar-lhe poeta”

(c) [SN V SN SP] - “chamá-lo de poeta”

(d) [SN V SP SP] - “chamar-lhe de poeta”

A seguir nas seções I. 2.1.2 e I. 2.1.3 veremos como as gramáticas do PB e do PE descrevem as construções denominativas com CHAMAR.

I. 2.1.2. O CHAMAR nas gramáticas brasileiras e

portuguesas

Inicialmente apresento o Quadro 07 abaixo contendo a lista das gramáticas brasileiras e portuguesas pesquisadas para depois expor as descrições que as mesmas trazem das construções com CHAMAR denominativo.

Quadro 07: Obras de referências – Gramáticas Pesquisadas

1. ABREU, M. de; MOURA, G. de. Regência Verbal. Rio de Janeiro: Freitas Bastos S/A, 1957. (p. 71-76).

2. BECHARA, Evanildo. Moderna Gramática Portuguesa. 34ª ed. São Paulo: Companhia Editora Nacional, 1992. (p. 202-203).

(40)

28

3. BRANDÃO, C. Sintaxe Clássica Portuguêsa. Belo Horizonte: Imprensa da Universidade de Minas Gerais, 1963. (p.51-54; 105-106).

4. COUTINHO, I.L. Gramática Histórica. Rio de Janeiro: Livraria Acadêmica, 1974.

5. CUNHA, C. & LINDLEY CINTRA, L.F. Nova Gramática do Português Contemporâneo. 3ª ed. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2001. (p. 146-147). 6. DIAS, A. Epiphanio da Silva. Syntaxe Histórica Portuguesa. 5ª ed. Lisboa:

Livraria Clássica Editora (LCE), 1970. (p.43-44; 110).

7. DUARTE, I. “Predicação e classes de predicadores verbais”. In: Gramática da Língua Portuguesa, 5ª ed., Maria Helena Mira Mateus, Lisboa: Caminho, 2003. (pp. 179 – 198).

8. GOES, C.; PALHANO, H.. Gramática da Língua Portuguêsa. 5ª ed., Rio de Janeiro: Editôra Paulo de Azevedo LTDA, 1963. (p.141 -146).

9. KURY, A.G. Novas Lições de Análise Sintática. São Paulo: Ática, 1986. (p. 25-28).

10. LUFT, C. P. Moderna Gramática Brasileira. 6ª ed. Porto Alegre; Rio de Janeiro: Globo, 1985. (p.22 – 36).

11. NEVES, M.H. de M. Gramática de usos do Português. São Paulo: Editora UNESP, 2000.

12. ROCHA LIMA. Gramática Normativa da Língua Portuguesa. 32ª ed. Rio de Janeiro: José Olympio Editora, 1994. (p. 238 – 240).

13. SAID ALI, M. Gramática Secundária e Gramática Histórica da Língua Portuguesa. 3ª ed. Brasília: Editora Universidade de Brasília, 1964.

14. SILVEIRA BUENO, F. da. Gramática Normativa da Língua Portuguesa. 5ª ed. São Paulo: Edição Saraiva, 1958.

15. TÔRRES, A. de Almeida. Regência Verbal (novos verbos). Rio de Janeiro: Organizações Simões, 1954. (p.33-38).

16. _____. Moderna Gramática Expositiva da Língua Portuguêsa. 15ª ed., revista e ampliada. Rio de Janeiro: Fundo de Cultura, 1963. (p.182-183).

17. VILELA, Mário e KOCH, Ingedore Villaça. Gramática da Língua Portuguesa. Coimbra: Almedina, 2001.

Referências

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