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3. Sínteses Histórico-Arqueológicas

3.2. Quinta de Crestelos: da ocupação de um território ao declínio e afogamento de uma

A área, hoje em grande parte submersa pelas águas da albufeira do AHBS, e, outrora, ocupada pela Quinta de Crestelos (e Barrais), foi desde muito cedo, na história da humanidade, interessante, do ponto de vista da exploração do território [RODRIGUES 2012:18, 22 e 27] para, por exemplo, a agricultura, as atividades pecuárias e cinegéticas, para o assentamento, sedentário, de populações.

As escavações arqueológicas documentam a presença humana naquele território, praticamente sem hiatos, desde o Madalenense [GASPAR e outros 2015: 108-109], nos terraços das margens direita e esquerda da foz do Ribeiro do Medal, à Pré-história recente (Calcolítico) e Idade do Bronze. [idem; NETO e outros 2013; REBELO e outros 2015; DORDIO GOMES e outros 2014; GASPAR e outros 2014a].

Desde a crista (castro) de Crestelos até à plataforma onde se implantava o núcleo central construído da quinta de cronologia moderno-contemporânea, foram identificadas e escavadas ocupações, e exumadas construções e materiais com cronologia que abrange

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do Calcolítico à Baixa Idade Média72 [ESPI e outros 2014/2015; SASTRE BLANCO e outros 2015; PEREIRA e outros 2014; GASPAR e outros 2014a; PEREIRA e outros 2015a; LARRAZABAL GALARZA 2017 e 2018; PEREIRA e outros 2015b; TERESO e outros 2018], bem como as mais variadas evidências gravadas na pedra, em blocos móveis ou na paisagem, atribuídas a uma cronologia que vai desde a Idade do Ferro até ao período Contemporâneo [FIGUEIREDO e XAVIER 2016].

Mas é a ocupação da Idade do Ferro até à Época Romana e à Tardo Antiguidade, por sinal as que mais bem preservadas se apresentaram no registo arqueológico, e mais se estendem pelo território da quinta, onde parte do edificado do núcleo central de Crestelos [Anexo IV: QC-C-01 a QC-C-17] se ergue sobre as ruínas de construções Alto Imperiais [ESPI e outros 2015: 246], aquela que mais interessante se mostra para o nascimento da Quinta de Crestelos enquanto lugar para habitar e viver.

Segundo autores como Pedro Carvalho, Javier Larranzabal Galarza e Damián Romero Perona, os “castros romanos”, as civitates, as quintas e os casais têm um papel central na formação das paisagens rurais, modernas, transmontanas [CARVALHO 2017: 241 e 270]. Em particular aqueles inseridos em territórios de grande potencial para uma agricultura extensiva com pretensões a intensiva, implantados em vales abertos e em meandro, a cotas baixas, próximos de linhas de água e rodeados de elevações suaves [LARRAZABAL GALARZA 2018: 170], pois, muitas vezes, estão na origem, por continuidade, de lugares e quintas medievais, e onde as técnicas de exploração e ocupação do território, a agropecuária e os modos de viver romanos perduram, em bastantes ocasiões, até à modernidade. [CARVALHO 2017: 289-290 e 241].

Para esta continuidade, segundo Damián Romero Perona, a (re)organização do território do nordeste em civitates, durante a época de Augusto (27 a.C - 14 d.C) pode ter tido particular influência na forma como os assentamentos da Idade do Ferro/Romanos se converteram, posteriormente, em casais, pequenos lugares, quintas e territórios de senhores "feudais" em época Medieval e Moderna [2015: 260]. «Las civitates se regirían por el ius peregrinus, por lo que la administración y el acceso a la tierra quedaría en manos de las aristocracias locales, grupos aparecidos tras la conquista y cuya consolidación y formación fue favorecida por Roma, con la imposición de un

72Também se documentaram, nas escavações, vestígios de ocupação e materiais anteriores, ou em alguns casos contemporâneos,

daquilo que era o património edificado de Crestelos ainda visível à superfície, ou seja, de épocas Moderna e Contemporânea. Estes, grosso modo, foram pouco ou nada cuidados, registados e estudados pelos responsáveis pelas escavações, como é notório pelo teor dos relatórios.

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sistema de explotación que promovía la dependencia directa entre las comunidades campesinas y las familias aristocráticas locales (Sastre 2001: 161). La falta de un mundo urbano dentro de las civitates del Noroeste no impidió que se desarrollase este sistema, por el contrario, en los diferentes centros rurales de una misma civitas debieron aparecer diferentes grupos aristocráticos que pugnaron por aumentar su poder político y económico extendiendo sus redes clientelares (Sastre 1999:355)» [ROMERO PERONA 2015: 262-263].

Tudo aponta para que o surgimento da Quinta de Crestelos tenha ocorrido num processo, de continuidade ou reocupação, semelhante aos acima patenteados.

Na área do Cabeço da Capela73, em Crestelos, foram exumadas uma necrópole (Necrópole Este) e vestígios de uma construção associada. A necrópole compunha-se de 33 sepulturas escavadas na rocha, com orientação genérica de oeste-este, seguindo os cânones da Igreja Cristã, cujas características apontam para uma cronologia balizada entre os séculos XII e XIV [PEREIRA e outros 2015b: 171-174], podendo recuar-se, eventualmente, aos séculos X-XI [idem: 175; FRAGA DELGADO e outros 2014: 427- 429]. Outros vestígios e estruturas arqueológicas (ligadas à habitação e à agro-pecuária), atribuíveis à Baixa Idade Média, foram identificados em vários pontos da escavação arqueológica que foi levada a cabo na plataforma de Crestelos [SASTRE BLANCO e outros 2015: 524-533], o que vem atestar, a existência de um povoado medieval, algo que a documentação escrita recolhida no âmbito desta dissertação apenas indiciava. Viria a dar origem, ou era já ele mesmo a Quinta de Crestelos.

A mais antiga referência bibliográfica, por nós conhecida, à Quinta de Crestelos, surge- nos Tombos da Ordem de Cristo: Comendas de Trás-os-Montes e Alto Douro e no artigo Mogadouro – Apontamentos Históricos de Anibal Varizo, editado em 1989 na revista Brigantia, quando este escreve que em 1503 é requerido um tombo à comenda de (S. Mamede de) Mogadouro, com a “visitação” para a mesma a ser efetuada em 1507, aos vinte de novembro, por Frei Francisco, capelão de sua alteza. [2014: 144 e 159; VARIZO 1989: 97-98]. No documento referido dá-se a particularidade de a aldeia de Crestellos ser mencionada como uma das despovoadas da vigaria de Mogadouro [2014: 144] e, mais à frente, como uma das aldeias povoadas do titulo das aldeias que pertencem à comenda de Mogadouro [idem: 159].

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A aldeia de Crestellos aparece-nos, de novo, no Numeramento de 1527-1532, onde contabiliza 5 moradores [FREIRE 1909: 262], o que poderá corresponder a 5 cabeças de casal e respetivos agregados familiares, num total estimado de cerca de 21-22 habitantes.74 A mesma fonte situa este núcleo populacional como estando no termo de Mogadouro que “tem hũ castello onde vyve Luis Alvarez de Tavora, senhor da dita villa, com direitos e rẽdas” [idem: 262-263]. Mogadouro, tal como Alfândega da Fé, Mirandela e Penas Roias faziam parte do senhorio dos Távora desde 143375, quando D. Duarte fez de Álvaro Pires de Távora o seu donatário76, com suas rendas e direitos [SALES 1950b: 267-268; FONSECA 1995: 105; VARIZO 1989: 93-94], exepto os dos padroados [SALES 1950a: 125].

Tratava-se, durante o século XVI (e possivelmente nos séculos anteriores) de um núcleo populacional reduzido [SASTRE BLANCO e outros 2015: 533], de tipo aldeia, com suas terras comunitárias/baldias, situado no termo de Meirinhos e pertença da Comenda de Mogadouro77, da Ordem de Cristo [2014: 143-164], e que após mercê do senhorio aos Távora, foi sendo apropriado por esta família, conforme documento mais à frente referido indica.

Pouco tempo depois da realização daquele Numeramento, a 12 de Junho de 1536 [SALES 1950a: 134], com aprovação de D. João III de 27 de Novembro de 1538 [GUERRA 1954: 140-149], Luís Álvares de Távora e sua mulher Filipa de Vilhena instituíram morgado “que os de nome de Tavora que de nos descenderem nam haja de ser esquecido”. Celebraram a escritura nos seus paços do Castelo de Mogadouro. E reservaram para este morgado os seguintes bens (…)” em Mogadouro, “sua terra, a quintam de Castellos e de a Olga da Trapa e a quintam de Nugueira e os moinhos que estam na Ribeira de Reigados assim os da Ribeira como os do Cabo, as cazas em que vive o ouvidor e a metade das cazas em que vive o bacharel Valença e a Orta”. [COSTA 2015: 141; VARIZO 1989: 95; ALVES 2000 (tomo IV): 374; FONSECA 1995: 105] [Anexo III: doc.10].

74Adotou-se o multiplicador de 4,3 pessoas por fogo, segundo cálculo apresentado por João Alves Dias, tendo em conta que

tratamos de uma área rural. Veja-se DIAS 1996: 41-61.

75 Esta doação vem confirmar e reforçar uma anterior, feita a Pedro Lourenço de Távora por D. João I através de carta de 21 de

Outubro de 1401, é feito donatário, de juro e herdade, de todos os direitos reais das vilas de Mogadouro, Alfândega, Mirandela e Penas Róias, tais como foros, rendas e tributos [AN-TT, Chancelaria de D. João I, Liv. 2, fl. 172; SALES 1950a: 124-125], eé confirmada por D. Afonso V em 1475, e por D. Manuel em 1495 [VARIZO 1989: 94].

76AN-TT, Chancelaria de D. Duarte, Carta de mercê dos direitos reais a Álvaro Pires de Távora Liv. 1, fl.3

77 Os Távora “tinham nas mãos as comendas de S. Mamede de Mogadouro (…) geriam (…) o que dizia respeito à Mesa da Consciência e Ordens” [MOURINHO 1985: 661]; Em 1578, esta comenda rendia a Luís Álvares de Távora 340 mil réis [ALVES:

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O mesmo Luís Álvares de Távora e Dona Filipa de Vilhena determinam, como já vimos, como bens vinculados a “Quinta de Crastellos” e a “Quinta da Olga da Trapa”, que julgamos, visto o topónimo ainda existir, tratar-se da atual quinta dos Barrais, à época, no termo do Souto da Velha, no concelho de Torre de Moncorvo [GUERRA 1954: 140-149], entre muitos outros que poderão também ter sido apropriados pela família em prejuízo das comunidades de camponeses, legitimando tal ação por mercê do senhorio daquelas terras.

Neste sentido, reforça-se a afirmação de António Mourinho Júnior: “os Távora foram o último reduto do sistema feudal no Nordeste Transmontano. Era uma família que na região tudo podia e mandava e que tudo subjugava” [MOURINHO 1985: 661].

A revolta do povo de Meirinhos, que teve lugar cerca de 1585, é o acontecimento que indicia uma apropriação, aparentemente, despótica das terras comunitárias, baldios e maninhos de Crestelos por parte dos Távora. Motivados por um misto de sentimento de usurpação e necessidade de maiores recursos alimentares, decorrentes do generalizado surto demográfico que marcou o século XVI, a comunidade de camponeses insurgiu-se para recuperar terras baldias, outrora eventualmente destinadas a pastagem, forragens e lenha, e começou a desmatá-las e a lavrá-las, transformando-as em área agricultada, provavelmente destinada a colmatar a mais premente carência, o cereal. Estas terras deveriam situar-se em zona limítrofe da Quinta de Crestelos, não correspondendo ao seu núcleo central que, pelas condições geomorfológicas e históricas, havia muito que seria agricultado. D. Leonor Henriques (de Távora), na tentativa de travar a invasão das suas terras denuncia o caso à justiça e dele pede devassa nesse mesmo ano. Em 7 de Junho 1591, o filho, Luís Alvares de Távora, concede o perdão ao povo de Meirinhos, alegando a sua pobreza. O documento que oficializa este perdão resume o acontecimento atrás descrito. Dele se apresenta um excerto: “ estando elle e a senhora dona llianor anriquez sua maj de pose da sua quintã de crestelos termo da sua villa do Mogadouro per si e per seus antepassados se aleuantou o pouo do llugar de meirinhos termo da dita villa com quem parte a dita quintã asi homens como molheres dizendo que lhes pertençia a dita quintã e della tomarão pose forçosamente sem auctoridade de justiça laurando-a e desmoutando os matos da dita quintã. A qual força a dita senhora dona lianor anriquez sua maj como tutora curadora e administradora acodira e ouuera hua prouisam de sua majestade pera do caso se devassar e disso se tirou devassa avera seis anos pouco mais ou menos ou no tempo que na verdade se achar portanto disse

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elle dito senhor luuis alluarez que Respeitndo elle ao dito pouo e os moradores delle serem seus vassalos e pobres portanto disse que de sua própria e livre vontade pelo amor de deus perdoaua como llogo de feito por este publico estromento perdoou llivremente a todo o dito pouo do lugar de meirinhos asi homens como molheres e asi a todas aquellas pessoas que na dita devassa esteueram cullpadas a culpa da dita força e todo o mal dano jnjuria emenda e corregimento em que lhe o dito pouo e as ditas pessoas sejão obrigadas e os não quer por ello mais acusar nem demandar cível nem crimemente em juízo nem fora delle nem por outrem em parte nem em todo aantes disse que desestia da dita deuasa auctos prouisois e proçesos que sobre o dito caso sejam feitos e de todo o direito e aução que lhe comtra elle compete ou competir pode de feito ou de direito”[FONSECA 1995: 105-108].

Apesar do perdão concedido, os Távora insistiram em recuperar o pleno domínio sobre a Quinta de Crestelos, num processo que terá sido longo, ao ponto de em 1677 mandarem construir a ponte de Meirinhos, como compensação ao povo, segundo relato da memória popular recolhido por António Rodrigues Mourinho Júnior [MOURINHO 1985: 668]. Terá sido a quinta ocupada pelo povo durante quase 100 anos?[FONSECA 1995: 107].

Em obra publicada em meados do século XVIII, mas cujas informações se reportarão, muito provavelmente, à primeira metade do mesmo século, Crastellos (Crestelos) é mencionada como uma “aldea na província de Traz-os-Montes, Arcebispado de Braga, Comarca da T. Moncorvo, termo de Mogadouro, freguesia de S. Bento” (de Meirinhos). [CARDOSO 1751: 744].

Nas Memórias Paroquiais, de 1758, há de novo referências a Crestelos, anexa ao lugar de Meirinhos, comenda de São Mamede de Mogadouro, mas agora já na plena posse dos Távora, que a exploravam através de dois rendeiros, como uma quinta (grande propriedade): “Lugar de Meirinhos do concelho da Villa de Mogadouro (…) Hé donatário deste concelho o Illustrissimo Marquês de Távora e seus antecedentes. (…). E tem três quintas annexas que vem a ouvir missa à paróchia, convém a saber (…) Quinta de Crastelos que hé do morgado do Illustrissimo Marquês de Távora. E tem hoje dous caseiros e dista huma legoa deste lugar e fica situada da outra parte de huma ribeira que tem seu princípio na serra de Gajope no termo de Bruçó que dista da dita

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Quinta três léguas e tem seu sepulcro no Rio Sabor em cuja margem fica a dita Quinta” [CAPELA 2007: 547].

É, deste modo, no decorrer dos segundo e início do terceiro quartel do século XVIII, que a Quinta de Crestelos deixa de ser um lugar (aldeia) e passa a ser, apenas, uma grande propriedade explorada, muito provavelmente, através da enfiteuse78 ou emprazamento, um instrumento legal muito comumente utilizado durante o Antigo Regime, pelos senhores de Távora. Estava concluído o plano de apropriação total, e despótica, destas tão cobiçadas terras? Ou simplesmente aqueles que habitavam Crestelos sentiram a necessidade de procurar outros lugares para viver? O que terá levado ao êxodo?

Apontamos para que tenha sido uma conjugação de fatores que terá provocado este êxodo: a sede pelo controlo e exploração direta e plena de Crestelos por parte dos Távora, as grandes cheias do rio Douro de 1727 e 172979 [COUTO 2017: 167] que, certamente, foram também sentidas na bacia do Sabor e terão contribuído para uma conjuntura de maus anos agrícolas e, consequentemente, para o aumento do défice, congénito, de pão em Trás-os-Montes, pois a produção cerealífera transmontana apresentou-se frequentemente exígua para o consumo dos habitantes. [idem: 184] E, o continuar de um movimento observável no vale do Sabor onde, paulatinamente, as gentes tendem a abandonar os aglomerados de vale, mais próximos do rio, concentrando-se nos de meia-encosta e planalto, ou seja, naquelas vilas e freguesias, que maioritariamente chegaram até aos dias de hoje.

Mas, a realidade é que, em momento algum da nossa investigação foi identificado qualquer documento, vestígio arqueológico ou bibliográfico que ajude nas respostas às questões acima colocadas ou que venha corroborar as nossas suposições. Para tal, cremos, muito contribuiu o processo movido contra a família Távora ainda no decorrer do ano de 1758.

Tal processo tem como consequência que dentro do conjunto da documentação consultada, as memórias paroquiais sejam último testemunho da plena posse de Crestelos por parte dos Távora. Todos os seus bens são sequestrados e passam a ser administrados pela Coroa dando origem a inventários, dentro dos quais se descreve,

78 No Antigo Regime a enfiteuse era o instrumento jurídico por excelência que permitiu o acesso ao domínio útil das terras por parte

dos fregueses através de prazos, geralmente a 3 vidas, os “fateozim perpétuo” [ARAÚJO 2016: 150].

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sumariamente, o espaço (no caso particular, Crestelos) e indica por quem e por quanto era arrendada a quinta.

Na Relação dos bens que possuíam os Marqueses que foram de Távora80 [Anexo III, doc.11] datada, ainda, de 1758 ou de ano posterior, no ponto referente a Mogadouro, surge uma referência à Quinta de Crestelos, como constando de muita terra, um grande olival 81 e várias oliveiras dispersas. Tinha uma casa para o caseiro, casas para animais e de apoio agrícola, e ainda um lagar de azeite. O caseiro era quem explorava a quinta, mediante o pagamento anual de 40 mil réis. Um dado curioso que surge nesta descrição é a alusão às “várias partes” onde estariam essas oliveiras dispersas, que eram chamadas de “o acrecentado”. Estas terras aparentam localizar-se longe do núcleo central, em área limítrofe e é possível que a designação por que eram conhecidas se relacione com o episódio de 1585. O dito “acrescentamento” teria acontecido ou por um fenómeno mais antigo de usurpação de terras tradicionalmente exploradas pelo povo, ou, mais tarde, por recuperação da sua posse depois de longos anos de indevida ocupação popular até cerca de 1677. No mesmo ponto dos bens de Mogadouro, surge uma alusão a uma “Quinta do Souto”, que é referida como estando no termo do concelho de Torre de Moncorvo. Pela sua localização ambígua, e contiguidade, no texto, com o item de Crestelos, supõe-se que se possa tratar da Quinta da Olga da Trapa, hoje designada como “ (núcleo) dos Barrais”.

O auto do sequestro de 10 de Janeiro de 175982 [Anexo III, doc.12], documento que resultou da tomada de posse da quinta pela Coroa, fornece mais alguns pormenores acerca do espaço e exploração económica de Crestelos. Além do olival, são mencionadas terras de cereal e matos. Continua a ser referido o mesmo lagar de azeite, que seria composto de três divisões térreas e, ainda, mais três casas de fora. Nas confrontações a Poente, surge a Quinta da Olga da Trapa. O último caseiro a pagar renda aos Távora, foi António Bernardo, de Souto da Velha, constando aquela dos atrás referidos 40 mil réis e um porco, entregues anualmente a 29 de Setembro, dia de São Miguel. António Bernardo continuou como rendeiro da Coroa até 30 de Outubro do

80 AN-TT, Juízo do Fisco da Inconfidência e dos Ausentes / Antigos, Maço 133, Casas de Aveiro, Távora e Jesuítas - Relação de

dívidas de rendas e de bens administrados pelo Juízo da Inconfidência, relações de bens doados, aforados e vendidos que se achavam incorporados no sobredito Juízo; arrematações de comendas; obrigações de dívidas; doações de bens ao Colégio dos Nobres, etc, Relação dos bens que possuíam os Marqueses que foram de Távora na Província de Trás-os-Montes, s.d. (posterior a 1758), fl.12v

81 Será este olival o dito, na gíria local, “dos Távora” [Anexo II: foto 11 e 16]

82 AHTC, Junta da Inconfidência, Maço 94, Nº 302 -5, Traslado do Auto de sequestro e Inventario dos Bens que se acharão nesta

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mesmo ano, quando a exploração da Quinta de Crestelos foi arrematada por três anos, por Bento Ferreira, do lugar de Meirinhos, que passou a pagar a renda anual de 150 mil réis83.

Posteriores relações de receitas relativas aos antigos bens dos Távora84, datadas entre 1759 e 1761 [Anexo III, doc.13], dão conta de um pagamento incerto desta renda de 150 mil réis. A receita da Quinta da Olga da Trapa, aqui mencionada como “das trapas”, é também inconstante e nunca superior a 58$666 réis.

Também por esta altura, 1762 a 1765, temos seis moradores de Meirinhos, liderados pelo respetivo pároco, a peticionarem, por «… no termo desta vila e distrito do mesmo lugar de Meirinhos há uma quinta, chamada de Crestelos, que foi dos infelizes Marqueses de Távora e se acha hoje incorporada no real fisco…” o aforamento ou emprazamento da Quinta de Crestelos, por 100 mil réis anuais, e com a condição da mesma quinta “… andar sempre encabeçada nas pessoas dos suplicantes e por morte destes em outras seis pessoas que serão os seus filhos mais velhos… ou nos mais que se seguirem…» [SEIXAS 2003: 8], num movimento semelhante, a outros já acontecidos, de a Quinta de Crestelos ser devolvida à população de Meirinhos, o que não veio a suceder.

Com o reinado de D. Maria I (1777-1815), que fora sempre contra o processo dos Távora, várias das suas propriedades são restituídas aos descendentes. As Quintas de Crestelos e Olga da Trapa são retomadas pelos Condes de São Vicente, casa que, até