Cartograma 3 – Aglomerados subnormais no Rio de Janeiro
2.6 Racionalidade e o quadro reputacional pragmatista
Para os propósitos de nossa investigação, a tradição microinteracionista subsidia a elaboração dos seguintes axiomas sobre a formação do quadro reputacional:
a) o conceito de ecologia humana é referência para constituição dos padrões reputacionais. A apreensão do eleitor sobre o ambiente de convivência cotidiana é o ponto de partida para a construção do quadro reputacional – a relação dos eleitores com a rua, o bairro, a cidade e com as comunidades de comunicação é a essência da formação dos padrões e expectativas sobre candidaturas ao executivo municipal;
b) a interação intersubjetiva consolida os padrões reputacionais. As interações acerca das apreensões no mundo vivido, na perspectiva do Interacionismo Simbólico de Blumer, definem prioridades eleitorais e o perfil idealizado do(a) prefeito(a) em face das demandas que almejam solução;
c) o julgamento dos candidatos, a reputação destinada para cada postulante ocorre em face da comparação com o quadro reputacional construído.
Os eixos axiomáticos apreendidos da tradição microinteracionista lançam os pilares de nossa colaboração para o pensamento da comunicação política. O ato social, em Mead, nascido da interação entre os sujeitos, está estruturado em três fases: a partir da iniciativa de um organismo (gesto), a resposta de ajustamento do segundo organismo (potencialmente capaz de afetar tanto o segundo quanto o primeiro organismo) e a concretização do ato social.
115 Em geral, temos nos ocupado com o processo social da experiência e do comportamento tal qual aparece ao ser eliciado pelo ato de ajustamento de um organismo a esse ato, na relação com outro organismo. Verificamos que a natureza do significado está intimamente associada com o processo social tal como aparece. Esse significado envolve uma tripla relação entre as fases do ato social como contexto em que ele surge e desenvolve: a relação do gesto de um organismo à resposta de ajustamento de outro (igualmente implicada no mesmo ato) e ao complemento do ato em questão, uma relação tal que o segundo organismo responde ao gesto do primeiro, indicando o fechamento do ato em questão ou se referindo ao seu completamento (MORRIS, 2010, p.
89).
Ao final do ato social, tem-se a base do significado, encarnado nas interpretações e condutas sociais decorrentes.
A estrutura lógica do significado, como vimos, pode ser encontrada no tríplice relacionamento do gesto com a resposta de ajustamento e com o resultado de um determinado ato social. A resposta de um segundo organismo ao gesto do primeiro é a interpretação – e explica o significado – do gesto, como o indica o resultado do ato social iniciado por ele e em que ambos os organismos estão envolvidos. A relação triádica, ou tríplice entre gestos, resposta de ajustamento e resultado do ato social, que o gesto inicia, é a base do significado, pois a existência do significado depende do fato de que a resposta de ajustamento do segundo organismo é dirigida ao resultado de um ato social, iniciado e indicado pelo gesto do primeiro organismo. A base do significado, assim, está objetivamente lá na conduta social ou na natureza em sua relação com tal conduta. O significado é o conteúdo de um objeto dependente da relação entre um organismo ou grupos de organismos e ele. Não é essencial ou primariamente um conteúdo psíquico (conteúdo da mente ou da consciência), pois não precisa de modo algum ser consciente, e de fato não o é até que dele decorram símbolos significantes no desenrolar do processo da experiência social humana. Somente quando ele se torna identificado com tais símbolos é que o significado se torna consciente. (...). Em outras palavras, o significado envolve uma referência do gesto de um organismo ao resultado do ato social que ele indica ou inicia e ao qual um outro organismo responde para se ajustar. Tal resposta de ajustamento pelo outro organismo é o significado do gesto (MORRIS, 2010, p. 93).
Os significados originados dos gestos iniciais, estimuladores dos processos interacionais, contribuem para a formação das ideias relacionadas com um objeto. E, como pode ser observado no seguinte fragmento, os processos interacionais produzem campos do pensamento universais para as comunidades de comunicação. No entanto, a perspectiva de Mead concebe o indivíduo que pode acessar, enquanto reflexão sobre o outro generalizado, outras perspectivas de universalidade. Para Mead: “O significado propriamente dito, ou seja, o objeto do pensamento, surge na experiência por meio da autoestimulação da pessoa para que assuma a atitude de outrem em sua reação a um objeto” (Ibidem, p. 102). Assim, entra em campo o componente reflexivo: a liberdade do sujeito em acessar as ideias construídas
116 comunitariamente e a autonomia para refletir sobre elas. A apreensão de variadas referências nas experiências de formação das ideias coletivas e das características do mundo objetivo conjuga o repertório de informações para escolhas e decisões específicas. Com isso, a formação das ideias, a criação comunitária dos repertórios, são acessadas pelo sujeito para a relação com objetos específicos. Uma vez que:
O homem se distingue pelo seu poder de análise do campo de estimulação, que lhe permite escolher um estímulo em lugar do outro e, assim, apegar-se à resposta que pertence a tal estímulo, preferindo-a em relação a outras, depois recombinando-a com as demais.(...) O homem pode combinar não só as respostas que já estão lá, algo que um animal inferior pode fazer, mas o sujeito humano pode penetrar em suas atividades e desmembra-las, dando atenção a elementos específicos, retendo as repostas que atendem a esses estímulos em particular e depois combinando todos esses elementos para construir um novo ato ( MORRIS, 2010, p. 108).
O acesso ao repertório comunal edificado conta com atributos de racionalidade. As relações na sociedade formam as ideias presentes na mente, que estão à disposição do self. A inspiração peirceana do conceito do pensamento (enquanto ato intencional) está presente nas proposições de Mead. A racionalidade para decidir os rumos das ações busca, na memória (experiências do passado) e nas projeções sobre futuro, as soluções para o aqui e agora.
A inteligência é essencialmente a capacidade de solucionar problemas do comportamento presente em termos de suas consequências futuras, tais como são implicadas pelas experiências passadas; ou seja, trata-se da capacidade de solucionar problemas do comportamento presente à luz tanto do passado como do futuro ou em referência a estes – é uma capacidade que tanto implica memória como antevisão. E o processo de praticar a inteligência é o processo de adiar, organizar e selecionar uma resposta ou reação aos estímulos de uma dada situação ambiental. Esse processo é possibilitado pelo mecanismo do sistema nervoso central que permite que a pessoa tome a atitude que uma outra tomaria em relação a si e, assim, tornar-se um objeto para si mesma. Esse é o mais efetivo meio de ajustamento ao ambiente social e inclusive ao ambiente geral que a pessoa tem a sua disposição (Ibidem, p. 111).
Tanto a tríade peirceana (qualidades, relações, mediações) quanto a interpretação ternária sobre a perspectiva meadiana por Blumer (ambiente, interação, interpretação) consolidam os aspectos supracitados como fundamentos de nossa perspectiva sobre a formação e o papel do quadro reputacional para as escolhas eleitorais. O primeiro ato é a relação dos eleitores com o mundo objetivo e com os aspectos evidenciados pela ecologia humana, em face da busca das qualidades que indicam demandas e formam expectativas eleitorais. O segundo ato são as interações sociais acerca das apreensões dos sujeitos no mundo vivido. Trata-se, em
117 nossa perspectiva, da aplicação das apreensões aos problemas de ordem política, das soluções para as demandas percebidas. Aqui se formam as ideias, os repertórios – o quadro reputacional.
O ato final, para o campo eleitoral, é a aplicação do quadro reputacional para avaliação, interpretação e julgamento acerca de postulantes objetivos (avaliação sobre aproximações e distanciamentos conceituais de cada candidatura em relação ao idealizado pelo quadro de referência reputacional). A consequência do terceiro ato é a escolha: o voto é, em última instância, o ato intencional de promoção das soluções para os problemas do mundo objetivo.
O desafio que nos impõe, na necessária ligação entre o referencial teórico e a pesquisa empírica, está estruturado em dois pilares. O primeiro trata da exposição comprovativa da formação do quadro reputacional. O segundo pilar refere-se à relação desse quadro reputacional com a percepção acerca do mundo objetivo pelos eleitores. Apresentamos a relação dos dois pilares como principal problema de nossa pesquisa, uma vez que apenas a comprovação da existência do quadro reputacional não indica necessariamente como foi formado – se por interações ou determinado socialmente. Nesse sentido, a simples comprovação do quadro reputacional nos levaria a um problema de ordem metodológica – descrição da existência, mas fraca associação com a perspectiva teórica que nos associamos. A avaliação sobre a relação dos eleitores com as cidades que residem, consideradas as diferentes realidades sociais – problemas e demandas que esperam soluções –, promove as relações de causalidade em face das análises sobre os dois conteúdos discursivos que examinaremos: projeções sobre ideário de candidaturas (quadro reputacional) e avaliação sobre o mundo objetivo (ecologia humana).
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Capítulo 3
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