2 A TOMADA DE DECISÃO EM CONDIÇÕES DE INCERTEZA
2.2 RACIONALIDADE: O PROCESSO DE TOMADA DE DECISÃO
Num ambiente de incerteza em que há presença de AI, como as empresas
tomam suas decisões? Ou melhor, como os agentes (empresários), constroem sua
racionalidade? Que elementos são utilizados para a sua construção?
Dada a indisponibilidade das informações por completo e a sua incapacidade
de antever o futuro, os agentes utilizam-se de ferramentas subjetivas e/ou objetivas
para fundamentar a tomada de suas decisões. Tais ferramentas configuram os
instrumentos que os agentes possuem para fazer frente ao ambiente de incerteza no
qual estão inseridos. As ferramentas objetivas consistem num conjunto de informações
que permite aos agentes avaliar o seu entorno e tomar decisões necessárias ao
andamento dos negócios. Esta definição, próxima de um caráter exato, não se aplica às
ferramentas subjetivas. Estas ferramentas baseiam-se, sobretudo nas informações
obtidas mediante as interações sociais e as redes de contato nas quais os agentes estão
inseridos.
2.2.1 Elementos Objetivos
Os elementos objetivos da racionalidade constituem-se num conjunto de
instrumentos que possibilita ao agente (a empresa), inserido numa determinada rede de
relações, o cômputo do cálculo (a tomada de decisão). Por meio desses instrumentos –
índices, indicadores, modelos teóricos e etc – as empresas são capazes de realizar
previsões e consequentemente tomar suas decisões quando inseridos num ambiente de
incerteza.
Por exemplo, para CASWELL (2000) existem incentivos que podem ser
criados para as empresas que atuam no ramo de alimentos com o objetivo de fornecer
maior segurança alimentar. Esses incentivos podem ser ex ante, quando impõem-se
exigências para a produção de determinado produto, ou ex post, que é a exigência legal
de pagamento de indenizações aos consumidores que foram prejudicados com o
consumo de determinado alimento.
Para a empresa resta, no entanto saber se o aumento na qualidade é lucrativo.
CASWELL (2000) apresenta uma equação de lucratividade que fornece um parâmetro
para verificar se a decisão de aumento na qualidade alimentar seria lucrativa para a
empresa:
Πi = Pi(qi,Ai)qi – Ci(qi,AiAj,QMSi,QMSj,QMSk) – Ti(qi,AiAj,QMSi,QMSj,QMSk) –
Ri(qi,AiAj,QMSi,QMSj,QMSk),
na qual πi é o lucro da firma, que depende do seu preço (Pi), sua quantidade (qi), e dos
atributos de qualidade do produto (Āi). Os custos de transação (Ti), produção (Ci), e
custos para estar de acordo com a regulação (Ri), dependem de sua própria qualidade
(Āi) e quantidade (qi), quando verificados pelo controle de qualidade da própria
empresa (QMSi), também da qualidade (Āj) e dos sistema de controle de qualidade
(QMSj) de empresas fornecedoras, além do sistema de controle de qualidade de seus
clientes (QMSk).
Esses parâmetros de análise pressupõem uma capacidade de cálculo dos
agentes muito elaborada, o que extrapola a realidade da cooperativa aqui analisada,
especialmente no que tange ao cálculo dos custos de transação.
2.2.2 Elementos Subjetivos e Intersubjetivos
A imagem que os indivíduos possuem é um importante elemento que ajuda na
compreensão da racionalidade subjetiva. É a imagem que pode definir os
comportamentos e atitudes dos indivíduos nas interações sociais aos quais estão
inseridos. Sobre este tema, BOULDING (1961) comenta que o comportamento
humano é moldado pela sua própria imagem. E que esta moldura depende do acúmulo
de experiências passadas como a educação, a infância, as relações sociais, o trabalho,
etc.
Um elemento que pode interferir na formação da imagem do agente (o
empresário) e consequentemente na tomada de suas decisões é a mensagem que este
agente recebe do meio. Boulding distingue a imagem da mensagem. Segundo ele,
enquanto que a imagem é construída como resultado de todas as experiências passadas
do indivíduo, a mensagem representa um conjunto de elementos (informações) que
produz a imagem (BOULDING, 1961).
O autor comenta que as mensagens recebidas do meio podem reduzir a
incerteza sobre um determinado fenômeno, como também pode ocorrer o contrário. Na
medida em que surgem novas informações (mensagens) sobre o futuro, as imagens dos
agentes vão se moldando (as decisões ou o cômputo do cálculo vão se moldando). Isto
é, a racionalidade dos agentes vai se ajustando às novas informações obtidas do meio.
Isto implica que, de acordo com as mensagens recebidas do meio, a influência sobre as
decisões dos agentes não se estabelece ex-ante, nem ex-post, mas sim, durante o
próprio processo de tomada de decisão.
Presente nos aspectos desenvolvidos acima, encontra-se o que Michel Callon
denominou de ‘análise da rede social’. As decisões dos agentes, quando inseridas num
ambiente de incerteza, são pautadas pelas suas interações sociais. Ou pelas mensagens
(via interação social) recebidas do meio em que atua. Segundo CALLON (1998), os
agentes são capazes de calcular e tomar suas decisões porque estão inseridos numa
rede de relações e conexões. Sua capacidade de tomar decisões e realizar escolhas
autônomas confunde (ou coincide) com a morfologia (forma) de suas relações na rede
ao qual está inserido.
Para CALLON (1998), a capacidade da realização do cálculo (para a tomada
de decisões) num ambiente de incerteza, pode ser entendida como a habilidade de
desenvolver uma complexa interação com outros agentes: o agent-network é por
definição um agente calculista, uma vez que todas as suas ações são calculadas em
termos de combinação, associação, relacionamentos e estratégias de posicionamento.
As decisões tomadas neste ambiente baseiam-se nas informações (mensagens)
disponíveis num determinado momento. Ao efetivar suas decisões, os indivíduos
refletem, como elucida CALLON (1998), os ‘estados’ do mundo, isto é, os agentes
passam a portar-se de acordo com o seu estado presente. Para o autor, o meio (a rede
em que os agentes estão inseridos) com o qual o agente interage é o grande
influenciador na tomada de suas decisões. De fato, é das relações que o agente possui e
das influências que recebe do meio que ele adquire a habilidade de realizar previsões
(CALLON, 1998).