4 ORIGEM, DESENVOLVIMENTO E DEFINIÇÃO DA DOUTRINA DAS ESSENTIAL FACILITIES
4.2 O caso europeu: o processo de abertura dos mercados
4.2.4 Considerações preliminares acerca do Direito antitruste da Comunidade Européia Européia
4.2.5.4 Radio Telefis Eireann and Independent Television Publications Ltd. v
Commission
O caso Radio Telefis Eireann and Independent Television Publications v.
Commission385 é o primeiro exemplo europeu de aplicação da doutrina das essential facilities no âmbito dos direitos de propriedade intelectual.386 Apesar da doutrina não ter sido expressamente invocada, à época do julgamento foi dada especial atenção para a natureza peculiar do direito de propriedade intelectual em questão, assim como ao
385 Casos C-241/91 e C-242/91 (apensados).
386 SIRAGUSA, Mario; BERETTA, Matteo. La dottrina delle essential facilities..., cit., p. 273.
caráter essencial do bem protegido por esse direito, visto que, sem ele, era impossível o ingresso no mercado.
Tratava-se do mercado de publicação de guias semanais de programas de televisão na Irlanda e na Irlanda do Norte. A controvérsia iniciou quando uma empresa irlandesa chamada Magill TV Guide Ltd.387 pretendeu publicar um guia semanal de caráter geral, que contivesse as informações de todos os canais de televisão transmitidos no país (um guia desse tipo era um produto até então inexistente).
Para tanto, precisava obter de todas as emissoras, com antecedência, as respectivas grades dos programas que seriam transmitidos na semana seguinte.
Contudo, as emissoras de televisão britânicas RTE, ITV e BBC, que também comercializavam guias semanais individuais388, recusaram-se a fornecer sua programação semanal para a Magill389, impedindo-a de publicar um guia semanal geral.
No julgamento, o Tribunal de Justiça confirmou as decisões proferidas pela Comissão das Comunidades Européias390 e pelo Tribunal de Primeira Instância, para afirmar que a conduta das emissoras de televisão caracterizava abuso injustificado da sua posição dominante no mercado.
387 Daí o precedente ser conhecido como “caso Magill”.
388 A RTE fazia a publicação diretamente, enquanto a IVT efetuava-a através da Independent Television Publications, uma empresa constituída especialmente para esse fim.
389 Note-se que a recusa se fazia com relação à programação semanal. A programação diária, por outro lado, era divulgada pelas emissoras no dia anterior para a imprensa em geral, sempre acompanhada de uma autorização gratuita que fixava as condições (inclusive relativas ao formato) em que essas informações podiam ser reproduzidas. Também era autorizada a publicação dos “destaques da semana”. As emissoras velavam pelo rigoroso respeito das condições referidas na autorização, inclusive combatendo via judicial as práticas que consideravam inadimplemento.
390 Decisão 89/205/CEE, de 21/12/88 (publicada no Jornal Oficial L 78, 1989, p. 43). Nessa decisão, a Comissão considerou caracterizada a infração ao (atual) artigo 82 do TCE e determinou às três emissoras que cessassem a infração, nomeadamente, “mediante o fornecimento recíproco e a terceiros, a pedido e numa base não discriminatória, das suas listas individuais antecipadas de programação semanal e autorizando a sua publicação por esses terceiros.” Também fez constar que caso as emissoras optassem por conceder licenças para reprodução, as eventuais royalties deveriam ser de um montante razoável.
Com efeito, reputou-se que a recusa de fornecer as informações semanais impedia a Magill de publicar seu guia geral391 e possibilitava às emissoras de televisão manter sob seu exclusivo domínio o mercado de publicação de guias semanais. Afinal, não existia, segundo o que foi constatado pelo Tribunal, nenhum substituto real ou potencial de um guia semanal de televisão que oferecesse uma informação sobre os programas da semana seguinte.
Ademais, a conduta das emissoras impedia o surgimento de um produto novo, para o qual existia uma demanda potencial por parte dos consumidores.
No corpo da decisão, o Tribunal reconheceu a existência de um direito de propriedade intelectual com base na legislação dos Estados-membros, mas concluiu que “o exercício do direito exclusivo pelo titular pode, em circunstâncias excepcionais, dar lugar a um comportamento abusivo. Tal é o caso quando as sociedades de teledifusão invocam o direito de autor conferido pela legislação nacional para impedir uma ou outra empresa de publicar informações (a estação emissora, o dia, a hora e o título das emissões), acompanhadas de comentários e de imagens, obtidos independentemente das referidas sociedades, numa base semanal, desde que, em primeiro lugar, este comportamento constitua obstáculo à aparição de um produto novo, um guia semanal completo dos programas de televisão, que as sociedades interessadas não oferecem e para o qual existe uma procura potencial por parte dos consumidores, o que constitui um abuso segundo o artigo 86, segundo parágrafo, alínea b) [atualmente artigo 82], do Tratado, que, em segundo lugar, a recusa não seja justificada nem pela actividade de radiodifusão televisiva nem pela edição de listas de televisão e que, em terceiro lugar, as sociedades interessadas reservem para si, pela sua conduta, um mercado derivado, o dos guias semanais de
391 Confirmou-se o entendimento do Tribunal de Primeira Instância no sentido de que “os terceiros, como a sociedade Magill, que pretendessem editar uma revista geral de televisão, encontravam-se numa situação de dependência económica em relação à recorrente, que tinha, desse modo, a possibilidade de se opor ao aparecimento de qualquer concorrência efectiva no mercado da informação sobre os seus programas semanais.”
televisão, excluindo toda a concorrência neste mercado uma vez que negam o acesso à informação em bruto, matéria-prima indispensável para criar um tal guia.”392
Ou seja, o Tribunal, como não poderia deixar de ser, reconheceu o direito de exclusividade decorrente da propriedade intelectual, mesmo quando seu detentor estiver em posição dominante no mercado, mas admitiu que o gozo desse direito pode, em circunstancias excepcionais, caracterizar um abuso. Em outras palavras, entendeu-se que o direito de propriedade intelectual não pode entendeu-ser exercido de maneira contrária ao disposto no artigo 82 do TCE.393
Cumpre ressaltar, por fim, posição de MATTEO SIRAGUSA e MARIO BERETTA acerca do caso. Esses autores, embora critiquem a solução adotada pelo Tribunal por estar em desacordo com seus julgamentos anteriores394, ponderam que a decisão em questão pode ser explicada pela vontade do Tribunal de proceder a uma ponderação dos vários interesses em jogo. Por isso, os autores sustentam que a decisão deve ter levado em conta que: (i) a recusa impediu o surgimento de um produto novo para o qual havia demanda; (ii) o direito de propriedade intelectual em questão (as grades de programação semanal) não requer investimentos e incentivos especiais, tal como ocorre com as obras intelectuais (desenhos industriais ou invenções protegidas por patentes); e (iii) o curto prazo de validade das informações em questão (uma semana) significaria um obstáculo permanente e insuperável para o ingresso daquele novo produto no mercado em questão (o que não ocorre com as obras intelectuais, na medida em que se tornam de uso público quando vence a respectiva patente ou registro).395
392 O texto da decisão está disponível em português.
393 CRAIG, Paul; BÚRCA, Gráinne de. EU LAW: Text, Cases and Materiais, cit., p. 962.
394 Em especial nos processos Cicra and Maxicar v. Renault (caso 53/87) e Volvo v. Erik Veng (caso 238/87), que trataram de direitos de propriedade intelectual sobre determinadas peças de automóveis.
Em ambos, reconheceu-se que impor ao titular do direito de propriedade intelectual uma obrigação de fornecer o produto objeto da proteção, mesmo que remunerada, equivaleria a privá-lo da própria essência do seu direito de exclusividade. E mais, que a recusa, por parte do titular do direito, em fornecer uma licença de uso não pode, per se, ser considerada um exercício abusivo de posição dominante.
395 La dottrina delle essential facilities..., cit., p. 273-275.