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Real vs Virtual

No documento COMUNICAÇÃO E AMBIENTE DIGITAL (páginas 39-42)

Em quantos mundos podemos viver e quantos mundos são nos apresentados através do uso de novos termos de linguagem como, por exemplo, sociedade em rede, ciberespaço e cibercultura? Somos transportados e impulsionados continuamente a viver com olhares e sentidos diferentes, como nos aponta o autor De Kerckhove:

a cibercultura implica ‘ver através’. Vemos através da matéria, do espaço e do tempo com as nossas técnicas de captura de informação. Quando uma tecnologia nos dá acesso físico ou mental a um lugar na Terra ou ao espaço profundo, para além de qualquer limite anterior, as nossas mentes vão atrás. (DE KERCKHOVE, 2009, p. 155)

Esse ‘ver através’ vai nos proporcionar certa integração entre matéria, informação e mediação humana, que ao longo deste primeiro capítulo procuramos colocar em evidência; integração esta que apontamos como protagonista dessa nova fase da era digital.

Tudo isso comporta para nós, humanos, certa atratividade e atração em que as nossas mentes vão ser levadas, pela experiência virtual e real das novas formas de realidades. Podemos ter certo medo e uma atenção sempre presente, como um grande e intrigante dilema, como mesmo Castells nos desafia:

O dilema do determinismo tecnológico é, provavelmente, infundado dado que a tecnologia é a sociedade, e a sociedade não pode ser entendida ou representada sem as suas ferramentas tecnológicas. (PEREIRA apud CASTELLS, 2012, p. 75)

Será que a tecnologia vai nos manipular, render escravos e meros repetidores de padrões e esquemas programados, sem o nosso protagonismo? Qual será a realidade virtual e qual a real? Vem em nossas mentes a famosa pergunta do filme Matrix: pode a realidade se tornar uma fórmula, uma pílula? – “Se você tomar a pílula azul, a história acaba e você acordará na sua cama, acreditando no que quiser acreditar. Se você tomar a pílula vermelha, ficará no País das Maravilhas e eu te mostrarei até onde vai a toca do coelho”.

Certamente essa realidade do virtual e do real nos questiona e proporciona sempre mais e em medidas maiores uma decisão, como poder da escolha que vai nos possibilitar entender onde estamos e aquilo que podemos fazer e ser como seres humanos. Por isso queremos partir do conceito de ciberespaço11, que vem ao nosso encontro, descrevendo a realidade mais próxima das conexões e ligações dos computadores e da Internet.

O termo Cyberespaço foi usado pela primeira vez em um romance de cyberpunk e depois Levy o aperfeiçoou levando-o para o universo filosófico e cientifico, dando a esse espaço características próprias, como: aquela de um espaço de comunicação digital que “tem a vocação de colocar em sinergia e interfacear todos os dispositivos de criação de informação” (LEVY, 1999, p. 92-93).

11 O termo teve origem no romance Neuromancer de William Gibson (1984): Ciberespaço.

Uma alucinação consensual experimentada por bilhões de operadores legítimos, em cada país, por crianças a quem são ensinadas conceitos matemáticos... Uma representação gráfica de dados ex-traídos de bancos de cada computador do sistema humano. Complexidade impensável. Linhas de luz alinhadas no não-espaço da mente, clusters e constelações de dados. Como luzes da cidade, afastando-se... (GIBSON, 1984, p. 51. Tradução livre. Apud PEREIRA, 2012, p. 76)

O ciberespaço não é somente imaginário, mas um ecossistema integrador de elementos técnicos e sociais, o qual o sociólogo Massimo Di Felice caracteriza como:

[...] formas experienciais das deslocações técnico-comunicativas [...] [que] criam e multiplicam espaços e materialidades eletrônicas socialmente ativas possibilitam, assim um novo léxico capaz de relatar as experiências sociais que se criam a partir das formas de superação de fronteiras entre orgânicos e inorgânicos.

(PEREIRA, 2012, p. 77-78)

Podemos dizer, assim, que esse “novo léxico” vai nos ajudar a encontrar um termo capaz de integrar e dar continuidade a essa realidade virtualizada. E esse termo é “rizoma”, conceito que vem da botânica. Ao rizoma, os cientistas atribuem uma simbiose entre o mundo real e material, entre humanos, informações e máquinas.

Em particular, para Deleuze e Guattari, na obra Mil Platôs (1995), o funcionamento do rizoma se assemelha às características do ciberespaço:

conexão, heterogeneidade, multiplicidade, ruptura e cartografia.

Sendo assim, a realidade não vai mais ser interpretada entre dois mundos, ora contrapostos, ora paralelos, mas em continuidade entre si, como nos apresentam os conceitos e estudos de De Kerckhove 12 e Benedikt:

Com o ciberespaço o mundo real não se torna abstrato e, portanto, no conjunto menos amplo ou menos real; nem o mundo ‘mental’ se torna concreto e, consequentemente, menos mental ou espiritual. Ao contrário, o ciberespaço descortina um novo espaço para a complexidade da vida sobre a terra: um novo refúgio para um reino que está entre os dois mundos. O ciberespaço torna-se una nova sede para a própria consciência. (PEREIRA apud BENEDIKT, 2012, p. 78)

Esse novo conceito de continuidade traz a consciência de que, no novo mundo do ciberespaço, não podemos mais aplicar as

12 Vivemos um número incrível de horas todo dia em frente a telas: da calculadora, do celular, da televisão; o que quer dizer que vivemos em uma situação de continuidade permanente, de troca ininterrupta entre o mundo interno e o externo. É este espaço da continuidade que chamamos de ciberespaço. (DE KERCKHOVE em DI FELICE E PIREDDU, 2010, p. 154)

contraposições entre virtual/real, herança do nosso pensamento ocidental que atinge a cultura clássica grega e prega a separação entre o mundo “das ideias” e o mundo “do sensível”. Podemos e estamos dentro e indo ao encontro de um novo mundo. Por isso podemos afirmar que estamos vivenciando uma complementação entre real e virtual como em um jogo de espelhos em que ambos são coisas distintas. Assim, podemos afirmar, como Eliete da Silva Pereira, que: “o virtual se configura como efetivação do real enquanto potência e como um dos principais vetores da criação da realidade”.

(PEREIRA, 2012, p. 80)

Nessa nova virtualização, mais uma vez o filosofo e comunicólogo Pierre Levy afirma que se reinventa uma cultura que ele chama de ‘uma cultura nômade’ – que é feita de interações sociais, com mais dinâmicas não presas ao território, uma desterritorialização, uma unidade de tempo sem unidade de lugar – que nos forçam à heterogênese na pluralização dos tempos e espaços. (PEREIRA, 2012, p. 80-81)

Dentro desse novo mundo, não mais feito de contraposições entre o que é real e virtual, mas feito de complementações, queremos aprofundar um dos questionamentos antigos e sempre novos que a humanidade, desde o seu albores se faz: o que é o espaço e o que é o tempo dentro desse novo mundo da integração do real/virtual?

No documento COMUNICAÇÃO E AMBIENTE DIGITAL (páginas 39-42)