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4 LAVAGEM DE DINHEIRO

4.4 O REBAIXAMENTO DO STANDARD PROBATÓRIO DA PROVA ALÉM DA

DELIBERADA NOS CRIMES DE LAVAGEM DE DINHEIRO

Inicialmente, destaca-se novamente que não se pretende com a presente pesquisa adentrar ao mérito dos julgados sob análise, mas tão somente demonstrar como a teoria da cegueira deliberada vem sendo utilizada pela jurisprudência como uma interpretação extensiva do dolo. Um dos grandes problemas identificados reside na equiparação do dolo eventual à teoria da cegueira deliberada, vez que a jurisprudência vem utilizando-se de ambos os institutos em complementação para relativizar o standard da prova além da dúvida razoável, e assim fundamentar condenações por crime de lavagem de capitais.

Desse modo, nos casos em que há dificuldade de identificar o dolo eventual para que seja possível proferir a sentença condenatória, utiliza-se da willful blindness como uma forma de possibilitar a condenação, de maneira distorcida e demasiadamente confusa, vez que equiparam, na grande maioria das vezes, os dois institutos. Isso porque, conforme já discorrido anteriormente, se restar comprovado que o agente tinha efetivamente conhecimento acerca da origem ilícita dos bens ou valores, não há se falar em aplicação da ignorância deliberada, vez que o ordenamento jurídico brasileiro dispõe da figura do dolo para tanto. Ademais, porque o delito de lavagem de capitais, segundo entendimento majoritário da doutrina, admite a figura do dolo eventual, não havendo a necessidade de complementação da teoria alienígena (para aqueles que entendem ser possível a figura do dolo eventual ao delito de lavagem de dinheiro). Ainda assim, para aqueles que entendem não ser possível a figura do dolo eventual ao delito de lavagem de capitais, mas apenas o dolo direito, também não há se falar em ignorância deliberada, já que não traria qualquer contribuição ao caso.

Verifica-se, portanto, que o instituto da ignorância deliberada vem sendo aplicada como uma forma de interpretação extensiva do conceito de dolo, com vistas a facilitar a condenação dos acusados, o que está em total desacordo com a sua verdadeira função no direito anglo-americano.

Como já exposto anteriormente, nos crimes de lavagem de capitais, aludido instituto está sendo utilizado para que seja possível alcançar aquele sujeito que agiu de forma indiferente, colocando-se deliberadamente em situação de ignorância acerca da proveniência ilícita dos bens, objetivando alegar o desconhecimento caso seja descoberto. Enquanto que, para que seja possível sua aplicação nos Estados Unidos, é necessário (além de outros requisitos) que o agente, suspeitando da alta probabilidade de os bens serem de origem ilícita, tome medidas para evitar obter tal conhecimento. Essa é uma diferença primordial, e que evidencia a aplicação distorcida da teoria da cegueira deliberada no Brasil, de modo a rebaixar indevidamente o standard da prova além da dúvida razoável utilizado no processo penal.

Ademais, e talvez a principal problemática envolvendo a aplicação da teoria da ignorância deliberada, é que sua aplicação acaba por inverter equivocadamente o ônus da prova, relativizando o standard da prova além da dúvida razoável utilizado no processo penal. Isso porque, consoante os princípios da presunção de inocência e do

in dubio pro reo, considera-se o acusado inocente até o trânsito em julgado da sentença penal condenatória, cabendo ao Ministério Público fazer prova da materialidade e autoria do fato além da dúvida razoável, não podendo-se exigir do acusado a prova de sua inocência, já que este ônus não é seu, e sim da acusação

(LEMOS, 2018, p. 42).

Todavia, o órgão acusador ao insinuar que o agente se colocou propositalmente em situação de cegueira deliberada, se desincumbe de provar o elemento subjetivo, acabando por inverter o ônus da prova ao acusado, passando-se a exigir dele que prove que não se colocou deliberadamente em ignorância ao fato delituoso, ou que agiu por imprudência ou negligência, do contrário, será condenado (LEMOS, 2018, p. 71).

Lecionam Lopes Júnior e Rosa (2019), que constitui grave erro rebaixar o standard da prova além da dúvida razoável de acordo com a natureza do crime, que por sua complexidade admita um menor patamar probatório, vez que a presunção de inocência não deve ser maior ou menor de acordo com a natureza do delito22.

Segundo Beldel (2018, p. 77-78), no âmbito da Operação Lava Jato, "as sentenças que afirmaram a configuração do dolo eventual trouxeram considerações acerca da cegueira deliberada aparentemente com o escopo de reduzir a carga probatória necessária à condenação", o que torna ainda mais complexo o exercício da defesa, que terá de contrapor as narrativas constantes da sentença condenatória, que ao contrário da previsão constitucional da exigência de fundamentação das decisões judiciais, será pautada em uma argumentação que sequer é capaz de demonstrar se o acusado realmente tinha conhecimento absoluto das circunstâncias e agiu com dolo; se optou por ignorar os fatos e assumir o risco do resultado; ou ainda, se apenas negligenciou a situação e agiu com culpa. Segundo a autora, o instituto da ignorância deliberada vem sendo utilizado de forma alternativa, aparentemente, com vistas a resguardar os julgadores de eventuais contestações acerca do dolo.

Desse modo, da análise dos julgados que utilizaram da ignorância deliberada em equiparação, ou mesmo complementação, ao dolo eventual no delito de lavagem de capitais, verifica-se a ocorrência do rebaixamento do standard da prova além da dúvida razoável através da indevida inversão do ônus da prova.