5.1. Receita de Shows
Show pode ser conceituado como um “concerto ou espetáculo que pode ser apresentado no teatro, na televisão, ao ar livre, no rádio etc. Tipo de programa de entretenimento e popular em que vários artistas se apresentam e, algumas vezes, interagem com o público (DICIO, 2018). Assim, shows são espetáculos teatrais ou musicais para os quais pessoas físicas ou jurídicas são contratadas com o intuito de entreter um determinado grupo de pessoas.
No caso das empresas musicais, objeto do presente estudo, os shows são contratados, geralmente por uma casa noturna ou casa de espetáculos, mediante um contrato de prestação de serviços único, com valor certo e determinado, prevendo a realização de um evento futuro, em data certa e conforme condições pré-estabelecidas. Normalmente, parte do preço é recebido antecipadamente como sinal e garantia contratual.
O reconhecimento das receitas decorrentes dessa espécie de contrato pelas empresas objeto de nossa análise está subordinado às condições previstas no CPC 47, pois trata especificamente de um contrato individual com cliente, no qual a
62 entidade espera transferir serviços e receber uma contraprestação, conforme pactuada.
Estabelece o CPC 47, em seu artigo 9, que a entidade deve contabilizar um contrato com cliente somente quando todos os critérios descritos no Quadro 3 forem atendidos.
Para a análise objeto do Quadro 3, utilizamos uma amostra de 15 contratos de shows firmados pela mesma empresa analisada no item 2 (Problema) deste trabalho.
Quadro 3 - Critérios para contabilização de um contrato com cliente, no caso de evento Show ou Espetáculo
Receita: Contrato de Shows
Requisito Legal Situação Comentário
as partes do contrato aprovaram o contrato (por escrito, verbalmente ou de acordo com outras práticas de negócios usuais) e estão comprometidas em cumprir suas respectivas obrigações.
Sim Em 10 casos havia contrato escrito, discutido, revisto e assinado entre as
Partes.
Em 5 casos havia contrato verbal, mas a garantia do compromisso foi fixada
através do pagamento de 50% da remuneração na data de fechamento do
contrato verbal.
a entidade pode identificar os direitos de cada parte em relação aos bens ou serviços a serem transferidos.
Sim As partes têm direitos e obrigações claras, mesmo no caso dos contratos
firmados de forma verbal.
a entidade pode identificar os termos de pagamento
para os bens ou serviços a serem transferidos. Sim 50% na assinatura do contrato ou contratação do serviço e 50% no dia do
show o contrato possui substância comercial (ou seja,
espera-se que o risco, a época ou o valor dos fluxos de caixa futuros da entidade se modifiquem como resultado do contrato).
Sim O contrato possui sustância comercial, pois implica na transferência dos riscos e
benefícios de um serviço (show) e no recebimento de uma contraprestação
(cachê) é provável que a entidade receberá a contraprestação à
qual terá direito em troca dos bens ou serviços que serão transferidos ao cliente.
Sim O contratante é idôneo e parte do preço foi recebido de forma adiantada pelo
contratado.
Fonte: Elaborado pela autora
Atendidos os requisitos legais que permitem a contabilização do contrato, passa-se à análise do tratamento a ser dado ao recebimento antecipado realizado pelo cliente, nos termos do Contrato firmado. Isso porque, a prestação estabelecida contratual é futura, certa e determinada e, por força contratual, a contraprestação foi recebida, em parte, de forma antecipada.
Nesse caso, conforme estabelecido no artigo 16 do CPC 47, a entidade, no caso a empresa musical, deve reconhecer a contraprestação recebida de cliente como passivo até que sejam prestados ao cliente, no futuro, os serviços objeto do contrato ou que seja restituído ao cliente a contraprestação recebida em decorrência de
63 rescisão contratual. Em qualquer dos casos, o passivo deve ser mensurado pelo valor da contraprestação recebida do cliente.
O lançamento contábil nesse caso é o seguinte:
D – Caixa ou Bancos (Ativo circulante)
C –Adiantamentos de Clientes (Passivo Circulante ou Passivo Não Circulante) Importante destacar que a receita auferida pela prestação dos serviços – show – é uma receita decorrente da operação (objeto) da empresa e somente deve ser reconhecida pela empresa musical após a efetiva realização do mesmo, momento em que de fato ocorre a transferência do serviço prometido ao cliente.
Um problema bastante comum na espécie de contrato de prestação de serviços em análise (com adiantamento) está relacionado ao momento em que deve ocorrer a emissão da nota fiscal pelo serviço prestado.
Contabilmente falando, a receita somente pode ser reconhecida após a realização do show, de forma que até esse momento os valores recebidos são adiantamentos de caixa recebidos e não estariam, em tese, sujeitos a emissão de nota fiscal.
Entretanto, muitas vezes, o contratante exige do contratado, a emissão de nota fiscal de serviços para justificar o pagamento do adiantamento por ele realizado, embora o adequado fosse a emissão de um recibo em vez de uma nota fiscal. Somente caberia, legalmente falando, a emissão da nota fiscal de serviços, quando efetivamente a receita pudesse ser reconhecida em termos contábeis e não no momento do adiantamento. Para adiantamento de receitas, independentemente do que espera o contratante, o documento correto a ser emitido é um recibo.
Neste caso, independentemente do regime fiscal a ser aplicado à empresa, com a emissão da nota fiscal de serviços o fato gerador tributário ocorre, devendo ser recolhido aos fiscos correspondentes os tributos incidentes conforme alíquota preestabelecida. Verifica-se, assim, que haverá o adiantamento de tributos ao Fisco por conta da emissão de nota fiscal, gerando na contabilidade a necessidade de criação de uma conta de ativo relativa aos tributos a recuperar ou a compensar dessa operação.
64 Importante destacar que a emissão de nota fiscal relativa ao adiantamento não permite ao prestador de serviços reconhecer o adiantamento recebido em conta de resultado como receita da empresa, por tratar-se, na verdade, de um adiantamento.
Quanto a incidência de tributos nessa operação, os Quadros 04 e 05 apresentam uma síntese considerando-se, respectivamente, a tributação pelo Simples Nacional, pelo Lucro Presumido e pelo Lucro Real.
Quadro 4 - Tributação incidente sobre o objeto (atividade econômica) Show – Simples Nacional Simples Nacional
CSLL 3,5% da alíquota, correspondendo de 0,21% a 1,155% sobre a receita bruta acumulada nos últimos 12 meses
Cofins 12,82%, 13,64% ou 14,05% da alíquota, correspondendo de 0,7692% a 4,2306% sobre a receita bruta acumulada nos últimos 12 meses
PIS 2,78%, 2,96% ou 3,05% da alíquota, correspondendo de 0,1668% a 0,5838% sobre a receita bruta acumulada nos últimos 12 meses
CPP 43,40% da alíquota, correspondendo de 2,604% a 14,322% sobre a receita bruta acumulada nos últimos 12 meses
ISS
32%, 32,50% ou 33,50% da alíquota, correspondendo de 2,01% a 7,035% sobre a receita bruta acumulada nos últimos 12 meses
Fonte: Elaborado pela autora
As alíquotas do Simples Nacional variam segundo a atividade da empresa e a receita bruta acumulada nos últimos doze meses. As empresas musicais enquadram-se nas atividades de serviços contempladas no Anexo III da Lei Complementar 123, de 14 de dezembro de 2006, cujas alíquotas variam de 6% a 33%. Uma vez apurada a alíquota na qual a empresa se enquadra, esta é repartida entre os vários impostos contemplados no Simples Nacional, conforme demonstrado no Quadro 04. Por exemplo, uma empresa com receita bruta acumulada nos últimos doze meses até R$
180.000,00 (cento e oitenta mil Reais) é enquadrada na 1ª faixa do Anexo III, cuja alíquota do Simples Nacional corresponde a 6% e a repartição entre os diversos impostos contemplados no Simples Nacional é a seguinte: 4% para IRPJ (Imposto de Renda de Pessoa Jurídica); 3,5% para CSLL (Contribuição Social Sobre Lucro Líquido); 12,82% para COFINS (Contribuição para Financiamento da Seguridade Social); 2,78% para PIS/PASEP (Programa de Integração Social/Programa de Formação do Patrimônio do Servidor Público); 43,40% para CPP (Contribuição Patronal Previdenciária); e 33,50% para ISS (Imposto sobre Serviços). Uma empresa com receita bruta acumulada nos últimos doze meses superior a R$ 3.600.000,00 (três
65 milhões e seiscentos mil Reais) e inferior a R$ 4.800.000,00 (quatro milhões e oitocentos mil Reais) é enquadrada na ª faixa do Anexo III, cuja alíquota do Simples Nacional corresponde a 33% (trinta e três por cento) e a repartição entre os impostos contemplados no Simples Nacional é a seguinte: 11,55% para IRPJ, 4,95% para CSLL; 5,29% de COFINS; 1,145% de PIS e 10,06 de CPP. Na última faixa o ISS será de 5% e não está inserido na alíquota total.
Em termos percentuais comparativos entre a primeira e a quinta faixa, temos o seguinte:
Gráfico 7 - Repartição de Alíquotas do Simples Nacional – Tabela do Anexo III Fonte: Elaborado pela Autora
Nos regimes do Lucro Real e do Lucro Presumido as alíquotas dos tributos incidentes são aplicadas considerando as especificidades de cada um dos regimes, conforme a síntese apresentada no Quadro 5.