Universidade Presbiteriana Mackenzie CCSA - Centro de Ciências Sociais e Aplicadas
Programa de Pós-Graduação em Controladoria e Finanças Empresariais
Tratamento Contábil e Tributário de Receitas em Empresas do Setor Musical
Leni Regina Segura
São Paulo
2018
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Leni Regina Segura
Tratamento Contábil e Tributário de Receitas em Empresas do Setor Musical
Trabalho de Conclusão apresentado ao Programa de Pós-Graduação em Controladoria e Finanças Empresariais da Universidade Presbiteriana Mackenzie como requisito parcial para obtenção do título de Mestre em Controladoria e Finanças Empresariais
Orientador: Prof. Dr. Henrique Formigoni
São Paulo
2018
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S456t Segura, Leni Regina.
Tratamento contábil e tributário de receitas em empresas do setor musical / Leni Regina Segura.
92 f. : il. ; 30 cm
Dissertação (Mestrado Profissional em Controladoria Empresarial) - Universidade Presbiteriana Mackenzie, São Paulo, 2018.
Orientador: Prof. Dr. Henrique Formigoni Bibliografia: f. 89-92.
1. Receitas digitais. 2. CPC 47. 3. Receitas de músicas e grupos musicais.
Imunidades e isenções tributárias. I. Formigoni, Henrique, orientador. II.
Título.
CDD 657.45
Bibliotecário Responsável: Aline Amarante Pereira – CRB 8/9549
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5 Dedico esse trabalho e minha enorme gratidão:
Aos meus pais Antônio e Eliana, com todo amor, por tudo que fizeram por mim em toda a minha vida.
Aos meus irmãos e sócios Liliane Cristina Segura e Luciano Ricardo Segura pela parceria e pelo apoio incondicional.
Aos meus sobrinhos Vitor e Sofia, amores da
minha vida.
6 Ao Professor Henrique Formigoni, mestre querido, por toda a paciência, atenção, dedicação e aprendizado.
RESUMO
Objetivo do Trabalho: Este trabalho aplicado tem por objetivo analisar as receitas auferidas por empresas de pequeno e médio porte do setor musical, que surgiram a partir da carreira de músicos que compõem o seu quadro societário, com o fundamento de identificar: (i) quais as receitas auferidas por essas empresas? (ii) como classificar em termos jurídicos essas receitas?; (iii) se é possível aplicar o CPC 47 às receitas identificadas? (iii) se as receitas auferidas pelas empresas musicais estão, parcial ou totalmente, contempladas pela imunidade tributária estabelecida pelo Art. 150, VI, “e” da Constituição Federal?; e, (iv) qual a tributação incidente sobre as receitas identificadas?
Design/Metodologia/Abordagem: O trabalho é caracterizado como exploratório com abordagem qualitativa. Os dados contábeis e fiscais foram obtidos de 4 (quatro) empresas de pequeno e médio porte do ramo musical, selecionadas entre os clientes do escritório contábil da autora.
Resultados: Os principais resultados evidenciam que as empresas do mercado musical ainda não contabilizam as suas receitas levando em consideração a essência dos contratos firmados com terceiros, não segregam suas receitas considerando as particularidades de cada objeto desenvolvido e aplicam a imunidade estabelecida pelo Art. 150, VI, “e” às receitas não contempladas pela referida imunidade constitucional.
Implicações Práticas: A contabilização correta das receitas implica em: i) demonstrações contábeis confiáveis; e, ii) diminuição dos riscos tributários.
Originalidade e Contribuições: A originalidade do presente trabalho aplicado consiste no estudo das empresas musicais afim de classificar corretamente suas receitas com base no CPC 47, buscando, com isso dar a essas receitas o correto tratamento contábil-fiscal.
Palavras chaves: Receitas digitais, CPC 47, Receitas de músicas e grupos
musicais, Imunidades e isenções tributárias.
7 ABSTRACT
Scope of the Study: The purpose of this applied research is to examine the earnings obtained by small and mid-size companies in the musical industry, formed by established musicians who are the members thereof, in order to identify: (i) if such earnings are being duly posted in their accounting records and taxed accordingly, (ii) if it is possible to apply the "CPC 47' [Accounting Regulation] to such earnings; and, (iii) if such earnings obtained by the musical companies are, in whole or in part, contemplated by the tax immunity provided in Art. 150, VI, item “e” of the Brazilian Constitution.
Design/Method/Approach: This research has an exploratory character with a qualitative approach. The accounting and tax data have been obtained from four (4) small and mid-size companies of the musical industry, selected among the clients of the author's accounting firm.
Results: The main results indicate that the companies of the musical industry do not record their earnings taking into consideration the essence of the contracts entered into with third parties, do not segregate their earnings by the particularities of each object developed and apply the immunity provided in Art. 150, VI, item “e” to the earnings not contemplated by such constitutional immunity.
Practical Implications: The correct record keeping of such earnings implies: i) reliable financial statements; and ii) reduction of tax risks.
Originality and Contributions: The originality of this applied research consists in studying companies in the music industry in order to properly classify their earnings based on the "CPC 47", and thus apply thereto the correct accounting and tax treatment.
Keywords: Accounting, CPC 47, Accounting for musicians and musical groups
- Immunities and tax exemptions
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Lista de Gráficos
GRÁFICO 1 – PEQUENOS NEGÓCIOS NA INDÚSTRIA DA MÚSICA NO BRASIL _____________________ 20 GRÁFICO 2 - PRINCIPAIS ATIVIDADES NOS NEGÓCIOS MUSICAIS _______________________________ 21 GRÁFICO 3 - RECEITAS MUSICAIS DO MERCADO FONOGRÁFICO MUNDIAL E BRASILEIRO EM 2017 __ 22 GRÁFICO 4 - RECEITAS DOS ANOS DE 2016 DE UM GRUPO MUSICAL ___________________________ 27 GRÁFICO 5 - RECEITAS DOS ANOS DE 2017 DE UM GRUPO MUSICAL ___________________________ 28 GRÁFICO 6 - COMPARATIVO DAS RECEITAS DE 2016 E 2017 DE UM GRUPO MUSICAL _____________ 28
Lista de Figuras
FIGURA 1 - SINOPSE DA PROPRIEDADE INTELECTUAL (COM DESTAQUE, EM VERDE, PARA OS
DIREITOS AUTORAIS E CONEXOS) ____________________________________________________ 39 FIGURA 2 - SINOPSE DA PROPRIEDADE AUTORAL (COM DESTAQUE, EM PRETO, PARA OS DIREITOS
PATRIMONIAIS AUTORAIS E CONEXOS, OBJETOS DESTE ESTUDO) ________________________ 43 FIGURA 3 - SÍNTESE DOS REQUISITOS PARA APLICAÇÃO DO CPC 47 ___________________________ 57 FIGURA 4 - CADEIA DE RELAÇÕES JURÍDICAS ENVOLVIDAS EM UM CONTRATO DE COMERCIALIZAÇÃO
DE FONOGRAMAS E VIDEOFONOGRAMAS DIGITAIS _____________________________________ 68
Lista de Quadros
QUADRO 1 - ELEMENTOS DA VALIDADE DA NORMA __________________________________________ 34 QUADRO 2 - SIMILARIDADES E APLICAÇÃO DA TEORIA TRIDIMENSIONAL NA CONTABILIDADE ______ 35 QUADRO 3 - CRITÉRIOS PARA CONTABILIZAÇÃO DE UM CONTRATO COM CLIENTE, NO CASO DE
EVENTO SHOW OU ESPETÁCULO _____________________________________________________ 62 QUADRO 4 - TRIBUTAÇÃO INCIDENTE SOBRE O OBJETO (ATIVIDADE ECONÔMICA) SHOW – SIMPLES
NACIONAL _________________________________________________________________________ 64 QUADRO 5 - TRIBUTAÇÃO INCIDENTE SOBRE O OBJETO (ATIVIDADE ECONÔMICA) SHOW – LUCRO
REAL E LUCRO PRESUMIDO _________________________________________________________ 65 QUADRO 6 - CRITÉRIOS PARA CONTABILIZAR UM CONTRATO COM CLIENTE, NO CASO DE EVENTO DE
LICENCIAMENTO DE DIREITOS AUTORAIS PATRIMONIAIS E CONSIGNAÇÃO DE FONOGRAMA. _ 69 QUADRO 7 - TRIBUTAÇÃO DA RECEITA ROYALTIES DECORRENTE DO LICENCIAMENTO DE DIREITO DE
COMERCIALIZAÇÃO DE FONOGRAMAS. ________________________________________________ 74 QUADRO 8 - TRIBUTAÇÃO DA RECEITA DE PRESTAÇÃO DE SERVIÇOS STREAMING _______________ 75 QUADRO 9 - TRIBUTAÇÃO DA RECEITA DE COMERCIALIZAÇÃO DE FONOGRAMAS E
VIDEOFONOGRAMAS _______________________________________________________________ 75 QUADRO 10 - TRIBUTAÇÃO INCIDENTE SOBRE ROYALTIES NOS REGIMES DO LUCRO REAL E LUCRO
PRESUMIDO _______________________________________________________________________ 76 QUADRO 11 - TRIBUTAÇÃO INCIDENTE SOBRE PRESTAÇÃO DE SERVIÇOS DE STREAMING NOS
REGIMES DO LUCRO REAL E LUCRO PRESUMIDO _______________________________________ 77 QUADRO 12 - TRIBUTAÇÃO SOBRE A VENDA DE FONOGRAMAS POR MEIO DIGITAL _______________ 78 QUADRO 13 - TRIBUTAÇÃO DA RECEITA ROYALTIES DECORRENTE DO LICENCIAMENTO DE DIREITO
DE COMERCIALIZAÇÃO DE FONOGRAMAS – ROYALTIES. _________________________________ 78 QUADRO 14 - TRIBUTAÇÃO INCIDENTE SOBRE ROYALTIES NOS REGIMES DO LUCRO REAL E LUCRO
PRESUMIDO _______________________________________________________________________ 79 QUADRO 15 - CRITÉRIOS PARA CONTABILIZAR UM CONTRATO COM CLIENTE ____________________ 81 QUADRO 16 - TRIBUTAÇÃO DA RECEITA DO YOUTUBE DECORRENTE DO LICENCIAMENTO DE DIREITO
DE COMERCIALIZAÇÃO DE FONOGRAMAS – ROYALTIES. _________________________________ 83 QUADRO 17 - TRIBUTAÇÃO INCIDENTE SOBRE RECEITA DO YOUTUBE NOS REGIMES DO LUCRO REAL
E LUCRO PRESUMIDO _______________________________________________________________ 84
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SUMÁRIO
1. INTRODUÇÃO ... 10
2. O PROBLEMA ... 23
3. APORTE TEÓRICO ... 30
3.1. Teoria Tridimensional de Miguel Reali ... 32
3.2. Conceito Jurídico de Propriedade Intelectual ... 37
3.3. Direitos patrimoniais decorrentes de direitos autorais e direitos conexos .... 43
3.4. Conceito de fonograma e videofonograma conforme legislação em vigor. .. 44
3.5. Imunidade nos termos do Art. 150 da Constituição Federal ... 48
3.6. Conceito de Royalties ... 50
3.7. Youtube ... 52
3.8. Conceito de Receita e reconhecimento de receitas conforme CPC 47 ... 54
3.9. Receitas e Contratos de Licenciamento ... 58
3.10. Royalties baseados em vendas ou em uso ... 60
3.11. Contratos em consignação ... 60
4. RECEITAS ANALISADAS ... 61
4.1. Receita de Shows ... 61
4.2. Receitas de exploração de fonograma/videofonogramas por meio de contrato de licenciamento do direito de exploração de fonogramas e videofonogramas através de distribuição digital ... 66
4.3. Receita decorrentes de propagandas vinculadas à execução streaming de vídeos na plataforma digital Youtube ... 79
5. CONCLUSÃO ... 84
Referências ... 90
10 1. INTRODUÇÃO
Extensa pesquisa realizada pela autora com empresas da área musical e, também, em dados obtidos através de históricos de empresas das Juntas Comerciais dos Estados de São Paulo, Rio de Janeiro, Rio Grande do Sul, Goiás e Bahia, e de pesquisa realizada pelo Sebrae (SALAZAR, FERREIRA e LEITE, 2015) demonstram que o mercado musical é promissor, gerador de um grande volume de renda e que, por conta da enorme evolução tecnológica dos últimos anos, está sempre em constante mudança.
A música, ao contrário de algumas artes ditas mais elitizadas como a pintura e o teatro, é a forma de expressão artística mais popular e abrangente. Isso porque é passível de consumo por todas as classes sociais (através do rádio, da internet, da aquisição de CDS e DVDs, da compra de shows), estando disponível para consumo rápido em qualquer cidade ou região do país ou do mundo (onde chegar a mais remota conexão a rádio) por todas as classes etárias (bebês, crianças, adultos, idosos), independentemente de gênero, orientação sexual, orientação religiosa, orientação política ou mesmo gosto pessoal. É, portanto, uma arte democrática (SALAZAR et al., 2015).
Estudo realizado e publicado pelo Sebrae em 2015 sobre o mercado musical e denominado de “Música Tocando Negócios”, relata as benesses e as dificuldades de alguém que pretende transformar seus dons artísticos em um negócio. Especialmente após o surgimento das mídias digitais, abriu-se espaço no mercado a todos os gêneros e a todos os tipos de artistas. Músicas anteriormente consideradas regionais como o funk carioca, o rap paulista, o sertanejo goiano, a vaneira sul-riograndense, a guitarrada do Pará, etc., ganharam o âmbito nacional, levando a destaque não somente os artistas conhecidos nacionalmente ou internacionalmente e suas superproduções, mas também os músicos regionais, suas peculiaridades e limitações.
Ao contrário do que a autora imaginava a respeito desta indústria, no início de suas
pesquisas, especialmente por conta do filtro comercial (entendido como o filtro
colocado pelos detentores dos maiores canais de marketing do mercado musical)
presente nos meios de comunicação de massa e da força de marketing das grandes
gravadoras, além do grande mercado, o grande hit, a grande estrela da música, há
também, milhares de micromercados, de artistas satélites que ganham dinheiro com
11 música, desenvolvem negócios na música e sobrevivem nesse mercado, mesmo sem, muitas vezes, tornarem-se conhecidos do grande público (SALAZAR et al., 2015).
Adicionalmente, Salazar et al. (2015, p. 8) explicam que o mercado da música é significativamente mais complexo do que o olhar leigo pode perceber, pois ao contrário do que se pensa, não é feito somente por músicos, mas sim por diversos profissionais como autores, artistas, técnicos, produtores, empresários, profissionais liberais de instrumentação, além dos veículos de comunicação. É um mercado composto por uma cadeia de pessoas, processos, produtos e serviços – além do público consumidor, que forma o que se convencionou chamar indústria da música
“uma indústria limpa, não poluente, talvez um pouco barulhenta, mas que gera renda e emprega milhares de pessoas no mundo inteiro”.
Extremamente abrangente – porque engloba desde o músico de garagem até as grandes gravadoras multinacionais, passando pelas indústrias de instrumentos e pelos espetáculos musicais de pequeno, médio e grande porte – o mercado musical, na base da pirâmide, ainda trabalha com a informalidade e com as soluções, por assim dizer, “caseiras”:
São dois os principais desafios a serem superados para o desenvolvimento do mercado musical brasileiro. O primeiro deles, mais abrangente, é a informalidade generalizada deste mercado (...) Outro desafio enfrentado pelo mercado musical brasileiro é a baixa qualificação gerencial das pessoas que se aventuram em empreender na indústria da música” (SALAZAR et al., 2015, p. 5).
Por suas características tão peculiares o mercado musical ainda é muito segmentado e dependente do marketing de massa dos selos internacionais, seus artistas de maior destaque ou popularidade e suas superproduções. É também, um mercado de milhares de pequenos artistas e pequenos negócios caseiros, precários e desorganizados
1, que podem resultar em dois grandes cenários: a) produtoras independentes que, mesmo desorganizadas em termos de gestão, conseguem, através da rede mundial de computadores (internet) e do uso extensivo da sua liberdade criativa, desenvolver nichos de mercado inicialmente desinteressantes para
1 Cf. http://www.soundcheck.com.br/carreira/profissao-musico-quer-viver-de-musica-comece-pela-sua- propria-organizacao/ , http://www.cifraclubnews.com.br/especiais/122071-quero-ser-musico-6-cinco- dicas-para-ser-um-musico-bem-sucedido.html
12 os selos internacionais, capazes de gerar negócios com um potencial de retorno interessante; b) artistas que optam em permanecer pequenos ou utilizam-se de meios digitais para lançar-se no mercado em potencial.
É, em verdade, atualmente, muito mais complexo o cenário, já que, dispondo de um computador e tendo acesso a softwares específicos (muitos dos quais são freewares), uma pessoa comum pode produzir seu videoclipe, sua música, sua obra e lançá-la ao mercado, sem, entretanto, qualquer domínio técnico quanto aos direitos ou às implicações decorrentes de um ato como esse: produz-se e comercializa-se sem sequer ter-se conhecimento sobre os direitos autorais, os impostos, as obrigações legais e tributárias das suas ações.
Antes da chamada revolução digital
2a indústria fonográfica era manipulada por grandes gravadoras que, tendo em vista o alto custo de produção dos discos de vinil e depois dos CDs e DVDs, detinham o controle do mercado e determinavam, conforme sua conveniência e a oportunidade por elas detectada, quem e o que faria sucesso no mercado musical em um determinado momento e local.
Ensina a Companhia Editora de Pernambuco, em sua publicação chamada Revista Continente (2016, p. 2) que:
A indústria fonográfica sempre foi monopolizada por grandes gravadoras, que, graças ao alto custo de produção de discos de vinil, detinham o controle do mercado sobre o que faria sucesso e o que seria ignorado pelo mainstream. Selos independentes surgiram com o intuito de focar em gêneros que não recebiam muita atenção de gravadoras hegemônicas; logo, tinham mais liberdade criativa, mas recebiam pouco financiamento e não obtinham muitos lucros. À medida que as tecnologias de música foram evoluindo, suas formas de produção também ficaram mais acessíveis, com o CD e o compartilhamento de música na internet. A distribuição de conteúdo musical ficou mais rápida e menos refém do capital, a exemplo do álbum de Radiohead, Inrainbows (2007), que, seguindo uma estratégia anticomercial, foi disponibilizado no site da banda, com o mote do “pague o quanto quiser”, tendo um impacto extremamente positivo no público (CONTINENTE, 2016).
Como exemplo do monopólio das grandes gravadoras e da escolha absolutamente subjetiva que sempre efetuaram, lembramos o caso clássico do primeiro disco dos
2 O conceito de revolução digital pode ser extraído de diversos livros e materiais que tratam do avanço da tecnologia ligada as comunicações de massa e data do final da década de 80, início da década de 90 e tem fundamento na migração das tecnologias analógicas para as tecnologias digitais. Com o advento na internet houve expansão do uso da tecnologia digital e surgimento de um fenômeno entendido como Era da Informação, também conhecida como Terceira Revolução Industrial, devido ao impacto direto na indústria através desenvolvimento de diversos produtos que cm o uso da internet produzia a facilidade de acesso rápido e dinâmico a diversos conteúdos ligados à comunicação e ao entretenimento.
13 Beatles que foi rejeitado pela gravadora Decca e que somente foi editado por uma enorme insistência do produtor dos artistas na época:
“Não foi fácil convencer uma gravadora a apostar no som do quarteto, formado no fim da década de 50 em Liverpool por John Lennon. Na época, acreditava-se que o mercado estava saturado de estrelas do rock, como Elvis Presley. Mas não era o pensamento do empresário do grupo, Brian Epstein, que os convenceu a contratá-lo após ver um show da banda no hoje famoso Cavern Club, na cidade-natal dos garotos. Empenhado em fazê-los bem- sucedidos, Epstein conseguiu um contrato com a gravadora Parlophone – antes, o grupo chegou a ser rejeitado pela Decca, que alegou que o rock
“estava com os dias contados”.(VEJA, 2013)
Não bastasse o cenário já complexo, existem variáveis outras a se considerar na tentativa de se compreender, de maneira pálida que seja, um pouco do que se entende por indústria musical. Os gêneros musicais, por exemplo, guardam –especificidades bem interessantes, tais como a existência de dois ou mais critérios de avaliação e mensuração para um mesmo fato gerador, como uma apresentação musical, em que o músico canta uma canção, mas a prestação de serviços e os direitos patrimoniais relativos à canção têm, separadamente, incidências diversas.
O Rap, num primeiro momento, por exemplo, guarda a prática de celebrar novas gravadoras ou produtores independentes não apenas porque a ação das grandes gravadoras pode parecer, por vezes, predatória, mas porque ideologicamente a independência é bem vista
3.
É o que se nota quando se visita o site de um dos mais renomados portais voltados à venda de roupas, produtos e acessórios para fãs de Hip Hop e Rap: Laboratório Fantasma (2018)
Acima de tudo, o Laboratório Fantasma é um coletivo de amantes de arte urbana, fãs de hip hop que optaram por aplicar em suas vidas a seguinte frase de Confúcio: “Escolha um trabalho que você ama e não terá que trabalhar um dia na vida”. Sob essa filosofia, canalizamos nosso amor e conhecimento com a intenção de dar o melhor para ver a história sendo feita e obviamente fazendo parte dela. (texto do site)
A proposta da empresa que administra o portal e a carreira de diversos artistas desse segmento, visivelmente comercial, capitalista e consumista
4, de venda de produtos a
3 Cf. https://blog.esquerdaonline.com/?p=5024, especialmente quanto à bibliografia oferecida, que ressalta, dentre outros referenciais, Marilena Chauí num claríssimo estudo sobre os movimentos de resistência na cultura popular brasileira.
4 A despeito do discurso de viés revolucionário, concentrado na propagação da ideologia dos oprimidos (http://rapefilosofia.blogspot.com.br/2011/07/o-que-e-ideologia.html), lê-se claramente o objetivo comercial e capitalista, já que se trata de uma loja virtual, uma empresa cujo objetivo existencial é o lucro a partir do fornecimento de produtos e serviços (CC, Art. 966. Considera-se empresário quem exerce profissionalmente atividade econômica organizada para a produção ou a circulação de bens ou
14 público “alternativo”, reveste-se de um caráter social, com traços de movimento social de inclusão e valorização cultural, identificando-se com coletivos. Esse perfil de empresa busca não se dobrar às grandes gravadoras, mas sucumbe, por exemplo, no que tange à comercialização digital dos fonogramas dos artistas de seu quadro, a empresas como OneRpm (Verge do Brasil S.A) - uma famosa e a maior brasileira, distribuidora de conteúdos digitais -, CDBaby, Tratore (distribuidora de artistas independentes) e Tunecore (Internacional).
Sem mais demorar na questão, o caso do Rap, em que uma postura ideológica tem reflexos no modo como cada músico irá reagir ao mercado é só um dentre muitos exemplos. Os cantores sertanejos, com seus apadrinhamentos de outros sertanejos já famosos; os cantores de rock brasileiros, hoje bastante vinculados a gravadoras formais – sistema contra o qual o cantor Lobão certa vez lutou, propondo distribuir suas obras diretamente em bancas de jornal –; os famosos funkeiros ligados a gravadoras mais influentes, como a Som Livre, do Grupo Globo, enfim tudo leva a uma combinação de perfis que formam uma indústria complexa e multifacetada, cujo resultado acaba por ser, também, a pulverização e a desestratificação do mercado musical.
Não são apenas as gravadoras e as distribuidoras que representam uma variável com a qual o músico deva preocupar-se. Em verdade, o preço final do produto que chega ao consumidor final, quando se fala de meios físicos de comercialização de música - que encerra em si lucros altos e custos expressivos - torna-se chamariz para as cópias ilegais que, embora firam leis, recebem de parte da população a tolerância moral suficiente para que tais produtos se tornem pragas
5.
Visando à pulverização e à diminuição da estratificação do mercado musical e como forma de tentativa de diminuir a pirataria das obras musicais, foi proposto, em 2007, na Câmara dos Deputados, pelo Deputado Otávio Leite do PSDB/RJ, o Projeto de Emenda Constitucional nº 98/2007, popularmente conhecido como PEC da Música, sob a justificativa de que “seria urgente a implantação de medidas que fortalecessem a produção musical brasileira, diante de uma avalanche cruel de pirataria e da
de serviços), sob o véu de movimento social, estratégia interessante para vendas a um público específico.
5 Cf., a esse propósito, http://g1.globo.com/economia/noticia/2012/12/compra-de-produtos-piratas-cai- no-pais-diz-pesquisa.html , que esclarece a relação entre custo e pirataria.
15 realidade inexorável da rede mundial de computadores (internet)” (CORTOPASSI, 2007, p. 2).
No texto de proposta de Emenda Constitucional apresentado em plenário da Câmara em 26/07/2007, os deputados proponentes informam que:
A proposta de emenda constitucional em apreço cuida de estabelecer imunidade tributária para a produção musical brasileira bem como a comercialização de seus suportes físicos e digitais tendo como única restrição para sua imunidade que estes contenham músicas compostas ou gravadas por autores ou artistas brasileiros, medida que nos parece poder vir a contribuir para reverter o atual quadro de favorecimento da indústria da pirataria, que vemos se solidificar a cada dia em detrimento dos produtos legalmente produzidos e comercializados no País. (grifo nosso)
Em mesmo texto os deputados informam que conforme os números apresentados pela APDIF – Associação Protetora dos Direitos Intelectuais Fonográficos, no que tange ao período entre 1997 e 2004, o Brasil passou da 6ª posição do ranking mundial de produtores fonográficos para o décimo segundo lugar no mesmo ranking, apresentando-se como o país que nesse período ficou em primeiro lugar no que diz respeito às perdas decorrentes da pirataria no segmento musical, tendo atingido patamares superiores a 40% (quarenta por cento) de redução no número de lançamentos musicais nacionais e mais de 8.000 (oito mil) empregos formais reduzidos (BRASIL, 2007).
Como forma de mitigar um pouco as perdas financeiras a que esse mercado ficou exposto os deputados Otávio Leite, José Eduardo Cardozo, José Mucio Monteiro, José Otávio Germano, Ciro Gomes, Fernando Coruja, Átila Lira, Marcos Montes, Zenaldo Coutinho, Albano Franco, Flávio Dino, Rodrigo Rollemberg, Nelson Trad, Walter Pinheiro, Luiz Bittencourt, entre outros, propuseram o projeto de Emenda Constitucional mencionado anteriormente, sob a alegação de que:
(...) a instituição de imunidade tributária para a produção e a comercialização da música composta ou gravada por artistas brasileiros e comercializada em seus diversos suportes, a exemplo do que já ocorre com livros, jornais, periódicos e o papel destinado a sua impressão, pode atenuar sensivelmente a barreira econômica que pesa sobre o produto original tornando-o mais acessível ao consumo popularizando ainda mais seu acesso às classes menos privilegiadas do País, difundindo e consolidando este importante alicerce da cultura brasileira e, por isso mesmo, dando à musica a condição de retomar um merecido lugar de destaque na economia nacional.(Exposição de motivos da PEC 98/2007)
Após enorme discussão, em 15 de outubro de 2013, entrou em vigor a Emenda
Constitucional 75, que alterou o Art. 150, VI, “e” da Constituição Federal, para instituir
a chamada “imunidade tributária musical”:
16
Artigo 150. Sem prejuízo de outras garantias asseguradas ao contribuinte, é vedado à União, aos estados, ao Distrito Federal e aos municípios:
(...)
VI - instituir impostos sobre: (Vide Emenda Constitucional 3, de 1993) (...)
e) fonogramas e videofonogramas musicais produzidos no Brasil contendo obras musicais ou literomusicais de autores brasileiros e/ou obras em geral interpretadas por artistas brasileiros bem como os suportes materiais ou arquivos digitais que os contenham, salvo na etapa de replicação industrial de mídias ópticas de leitura a laser (Constituição Federal da República Federativa do Brasil).
Conforme podemos inferir do texto anteriormente colacionado, a EC 75/2013 concedeu aos fonogramas e videofonogramas contendo obras musicais de autores brasileiros ou obras interpretadas por artistas brasileiros, assim como nas demais hipóteses elencadas no referido Art. 150 da Constituição Federal, imunidade no que tange aos impostos (e somente aos impostos, não elencando as taxas e contribuições) incidentes sobre as receitas advindas da atividade musical, essencialmente, entre outros: Imposto sobre a Renda e Proventos de Qualquer Natureza (IRPQN), Imposto sobre Serviços de Qualquer Natureza (ISSQN), Imposto sobre operações relativas à Circulação de Mercadorias e sobre Prestações de Serviços de Transporte Interestadual, Intermunicipal e de Comunicação (ICMS) e Imposto sobre Produtos Industrializados (IPI).
A intenção do legislativo na discussão, votação e concessão dessa imunidade, conforme anteriormente mencionado, era a de baratear o custo da produção e distribuição de fonogramas (através de CDs) e videofonogramas musicais (DVDs), diminuindo a pirataria e permitindo a abertura do mercado musical a artistas independentes e pequenas produtoras musicais. Não sabemos, ao certo, se a Emenda Constitucional conseguiu atingir os seus objetivos, especialmente porquê, logo em seguida ao seu advento, surgiram os fonogramas digitais e as plataformas digitais, alternado, significativamente a configuração do mercado.
Nesse cenário é que muitos artistas, até então desconhecidos, despontam
rapidamente, deparando-se com a fama repentina e com um crescimento enorme de
seu patrimônio pessoal, na maioria das vezes, sem nenhuma estrutura formal de
planejamento, organização e gestão financeira, contábil e fiscal. Reportagem da
Revista Veja datada de 13 de janeiro de 2017 e denominada como “quinze bandas e
cantores para ficar de olho em 2017”, apresenta quais eram os novos nomes
despontando e que, possivelmente, seriam os “sucessos” de 2.017. Muitas das
17 previsões se concretizaram e muitos desses artistas, ainda em produção independente, estão em busca de estruturação.
Não são, entretanto, somente os artistas em início de carreira que encontram dificuldades de organização e gestão contábil e fiscal. Segundo reportagem publicada pelo sitio de notícias Buzzfeed, em 18 de abril de 2.017, nomes do Axé Music, como as artistas: Claudia Leite, Ivete Sangalo, Bell Marques, Margarete Meneses, e Daniela Mercuri e as bandas: É o Tchan e Ara Ketu, deviam, em conjunto, à União, em tributos em atraso, um montante em torno de R$ 48 milhões de reais. Algumas dívidas, em discussão judicial e devidamente verificadas por esta autora através do site do Tribunal Regional Federal da Bahia, versam sobre imposto de renda e imunidades fiscais.
No mesmo sentido, reportagem publicada pela Revista Exame em 13 de setembro de 2.016, nos dá conta de que, infelizmente, muitos artistas e celebridades da música, do futebol e das artes em geral, por desorganização ou mesmo com o intuito de sonegação, acabam criando enormes dívidas e diversos processos (inclusive criminais) em decorrência da má gestão contábil e fiscal de seus ativos e rendimentos.
Importa observar que o mercado musical, especificamente relacionado ao Rap, por exemplo, é muitíssimo restrito. Pela vivência e experiência desta autora, verifica-se que não são muitos os profissionais da área jurídico-contábil preparados para somar conhecimento eclético o bastante para auxiliar seus clientes em Propriedade Intelectual, Contabilidade, Contratos e eventuais demandas judiciais simultaneamente. Esse também parece ser o o motivo para poucos trabalhos acadêmicos serem produzidos nesse sentido.
Uma rápida pesquisa, entretanto, comprova que muitos dos fãs dos Rappers brasileiros em destaque são jovens
6, assim como, em geral, são seus ídolos; que o Rapper ingressa na carreira informalmente (os mais famosos surgem de disputas de
6http://jovem.ig.com.br/cultura/musica/2013-10-22/o-rapper-projota-e-muito-importante-esta- molecada-ouvir-rap.html
18 rimas
7ou, em sua versão digital, no youtube
8) e se depara, uma vez famoso, com a necessidade de se profissionalizar – e isso ocorre com muitos músicos da Era Digital
9. É, em geral, nesse momento, que tais artistas da música percebem que seu sonho de artista, efetivamente, transformou-se em uma carreira e que é necessário planejar-se para não incorrer em despesas tributárias desnecessárias ou mesmo em crime de sonegação fiscal, havendo para eles, portanto, duas saídas mais comuns: a) estabelecer-se como um músico autônomo e receber suas receitas, quando tributáveis, mediante a emissão de RPA (Recibo de Prestador Autônomo, com incidência tributária média que varia entre 28% (11% de INSS , 15% de IR e 2% de ISS) e 43,5% (11% de INSS,27,5% de IR e 5% de ISS) sobre as receitas incorridas e não englobadas pela imunidade; b) estabelecer-se como pessoa jurídica, contabilizando suas receitas e despesas, otimizando custos, aplicando a imunidade às receitas englobadas pelo Art. 150 da Constituição Federal, e tributando corretamente as demais receitas da empresa.
Importante mencionar que, em ambos casos anteriormente citados, é sempre essencial que se faça uma análise contábil-tributária para que se tenha a efetiva dimensão das vantagens ou desvantagens fiscais e financeiras de se optar por atuar como profissional autônomo ou como empresa. Esse trabalho não tem a intenção de estabelecer o comparativo entre essas duas formas de abordagem de trabalho dos músicos, restringindo-se a tratar das empresas musicais.
Como anteriormente mencionado, o estabelecimento de músicos, bandas ou conjuntos musicais sob a forma de pessoas jurídicas, bem como o planejamento e a estruturação de suas carreiras, de modo geral, ocorre após o seu efetivo crescimento financeiro e, geralmente, após o surgimento de problemas fiscais ou de gestão de carreira, ou com a sua contratação por grandes grupos internacionais
10.
Assim, quando os músicos entendem por bem desenvolverem sua atividade de forma organizada, nada mais fazem do que tornarem a sua atividade, que é
7https://noisey.vice.com/pt_br/article/ypk3w7/batalhas-de-rima-nike-perfis http://gafieiras.com.br/entrevistas/thaide/8/
8 https://thump.vice.com/pt_br/article/zme3kx/rap-youtube-reacts
9https://www.correiobraziliense.com.br/app/noticia/diversao-e-
arte/2018/01/30/interna_diversao_arte,656618/quem-e-mc-loma.shtml
10 Experiência profissional da autora, que atua na área da Pesquisa.
19 substancialmente intelectual, em uma atividade empresarial, uma atividade organizada, capaz de otimizar os recursos e maximizar as receitas.
Uma empresa, entretanto, segundo o Princípio da Entidade, não pode e não deve ser tratada como uma extensão da pessoa física do(s) sócio(s), problema comumente detectado nas empresas musicais
11. Faz-se necessário organização. Faz-se necessária a gestão empresarial de suas receitas e despesas e o planejamento contábil e tributário do negócio.
Portanto, como em qualquer outra empresa, é necessário o apoio da contabilidade na análise, identificação, mensuração, organização e registro das receitas e despesas e dos elementos que compõem o patrimônio da empresa.
Conforme explica Montoto (2014, p. 02):
(...) o objeto delimita o campo de abrangência de uma ciência. Na Contabilidade, o objeto é o Patrimônio de uma entidade, definido como um conjunto de bens e direitos e de obrigações com terceiros, pertencente a uma pessoa física, a um conjunto de pessoas ou a uma sociedade ou instituição de qualquer natureza, independentemente da sua finalidade, que pode ou não incluir o lucro. (...). A contabilidade estuda o Patrimônio nos seus aspectos qualitativos e quantitativos. Ela busca assimilar suas modificações, tendo uma visão ao longe de possíveis variações. A análise quantitativa expressa os itens patrimoniais em valores, o que exige da contabilidade uma definição de “valor”. Por aspecto qualitativo do patrimônio entende-se a natureza dos elementos que o compõem como: dinheiro, valores a receber ou a pagar expressos em moeda, máquinas e estoques de materiais ou de mercadorias.
Pesquisa realizada pelo Sebrae em 2015 sobre esse assunto informa que:
(...) existem 91.023 pequenos negócios formalizados operando nessas atividades hoje no Brasil. Como recorte metodológico deste guia, cujo público-alvo são os clientes do Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (Sebrae), foi usado como critério para levantar o número de empresas ativas somente aquelas inscritas no Cadastro Nacional da Pessoa Jurídica (CNPJ) e que sejam optantes pelo Simples Nacional, objetivando delimitar o universo de microempreendedores individuais (MEIs), de microempresas (ME) e de empresas de pequeno porte (EPPs) ativas na indústria da música brasileira, em todo o território nacional. Dessas pequenas empresas atuantes na indústria da música, 75.701 atuam no setor de serviços, demonstrando ser este um setor essencialmente gerador de postos de trabalho e distribuidor de renda (SEBRAE, 2015).
11 Experiência profissional da autora. As empresas de músicos, por sua natureza, surgem da iniciativa de um ou mais artistas interessados em divulgar suas obras. Frequentemente, tais artistas desconhecem formalidades e, muita vez, não buscam treinamento nem assessoria profissional. Como resultado, confundem o patrimônio da empresa com o seu próprio. São, entretanto, ausentes estudos específicos sobre essa questão. Em primeiro lugar, porque são poucos os profissionais preparados no mercado para lidar com as especificidades desse tipo de cliente.
Depois, porque o Rap, já há algum tempo, não é (como citado neste trabalho) um ramo musical em evidência neste momento da cultura brasileira, daí a não despertar interesse em meio acadêmico, embora devesse.
20 Como pode-se visualizar no gráfico 1, do total de empresas: 83% (oitenta e três por cento) atuam no setor de serviços (produção de músicas, produção de shows, entretenimento, etc.); 16%(dezesseis por cento) atuam no comércio (de instrumentos musicais e insumos da área musical) e 1% (um por cento) no setor industrial (industrialização de equipamentos, cabos e instrumentos necessários à prestação de serviços na área musical e de produção musical).
Gráfico 1 – Pequenos negócios na indústria da música no Brasil
Fonte: Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas – Sebrae, 2015.
Ainda sobre os números desse mercado, nas pequenas empresas de prestação de serviços, com CNPJ ativo no ano de 2015, pode-se visualizar pelo Gráfico 2 que a atividade de produção musical (leia-se produção de fonogramas e videofonogramas, que geram uma das principais receitas objetos desse estudo) representa 30% (trinta por cento) dos negócios musicais, seguido das atividades de sonorização e iluminação (16%) e de ensino de música (11%).
83%
16%
1%
Serviços Comércio Industria
21
Gráfico 2 - Principais atividades nos negócios musicais
Fonte: Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas – Sebrae, 2015.
Para se ter ideia da importância e do crescimento deste mercado, números apresentados pelo Relatório do Pro Musica Brasil sobre o Mercado Fonográfico Mundial e Brasileiro em 2017, publicado em 24 de abril de 2.018, demonstra que o Brasil é o 9º maior mercado de música gravada, tendo movimentado USD 295,8 milhões (duzentos e noventa e cinco milhões e 800 mil dólares norte-americanos) em receitas formais declaradas, apresentando um crescimento de 17, 9% (dezessete, virgula nove por cento) em relação ao ano de 2016.
O crescimento apresentado se deu especialmente pelo crescimento das receitas de streaming e pela continuidade do crescimento do mercado digital.
Em números gerais, em milhões, para o ano de 2017: as receitas digitais totalizaram o montante declarado de USD 179,5 milhões (46% maior que em 2016); as receitas por venda de músicas em meio físico USD $ 15,8 milhões (56% menor do que em 2016) e as receitas por execução pública (shows, festas, etc.) USD 100,7 milhões (10% maior do que no ano de 2016), conforme apresentado no Gráfico 3.
1%
6%
10%
3%
3%
8%
11%
30%
16%
9%
3%
Fabricação de instrumentos, peças e acessórios
Comércio varejista de instrumentos musicais Comercio varejista de discos, CDs. DVDs e fitas
Gravação de sons e edição de música
Atividade de rádio
Portais e provedores de conteudo e outros serviços de informação
22
Gráfico 3 - Receitas musicais do mercado fonográfico mundial e brasileiro em 2017 Fonte: Relatório do mercado fonográfico mundial e brasileiro, 2017.
Relativamente às receitas advindas de meios digitais, que totalizaram USD 178,6 milhões, visualiza-se no Gráfico 4 que as receitas de: (i) download e mobile (compra de músicas e baixa para aplicativos em tablets, computadores e telefones celulares) totalizaram o montante declarado de USD 15,8 milhões (31% menor do que em 2016);
(ii) streaming (onde se paga um montante para ouvir e ter o fonograma disponível para audição sem baixá-lo para aparelhos), totalizaram o montante declarado de USD 162,8 milhões (64% maior que em 2016); e (iii) sincronização (youtube e demais canais digitais, quando se trata de remuneração pela execução, não por propaganda), totalizaram o montante declarado de USD 0,7 milhões (2,6% menor do que em 2016).
Gráfico 4: Receitas musicais digitais do mercado fonográfico mundial e brasileiro em 2017 Fonte: Relatório do mercado fonográfico mundial e brasileiro, 2017.
179,5 15,8
100,7
Digitais Físicas Execução Pública
15,8
162,8 0,7
Dowloading d Mobile streaming sincronização
23 Assim, tendo em vista o contínuo crescimento desse mercado, especialmente após o surgimento das mídias fonográficas e videográficas digitais e da comercialização em massa dessa espécie de produto musical, o presente trabalho aplicado tem por objeto identificar os variados tipos de receitas de empresas musicais de micro e pequeno porte, em especial as receitas de comercialização de fonogramas e videofonogramas, receitas decorrentes de veiculação de vídeos no Youtube e receitas de shows, e analisar a sua contabilização bem como as suas implicações tributárias.
Por conta do exposto, a restrição do objeto do presente trabalho leva em consideração as empresas do ramo musical do setor de serviços, consideradas como alternativas
12ou de selos alternativos, que se desenvolveram tangenciando o mercado dos grandes selos musicais, mas, muitas vezes ,acabando por sucumbir às suas regras.
A conveniência de se analisar a contabilização das receitas em um tipo específico de empresa do mercado musical é a de verificar se as práticas contábeis dessas empresas, que nascem e se estabelecem muitas vezes de forma “caseira” e beirando a informalidade, atendem às normas do IFRS e às normas tributárias ou se, por desconhecimento das especificidades deste mercado, a contabilidade não consegue atender a contento as demandas dessas empresas (que faturam e movimentam milhões por ano) e sob o manto da “imunidade musical” extensiva da Emenda Constitucional nº 75/2013, deixam de aplicar corretamente as normas contábeis e de pagar corretamente os impostos, distribuem lucros que não têm e, efetivamente, somente deixam a informalidade
13e as “soluções caseiras” quando são autuadas por irregularidade e sonegação fiscal.
2. O PROBLEMA
Quando as empresas de contabilidade recebem um novo cliente, seus sócios sentem um misto de medo e alegria. Alegria porque é sempre bom ter um novo cliente em sua
12 “Gravadoras Alternativas” ou “Selos Alternativos” são termos utilizados pelos profissionais da área.
Referem-se, grosso modo, às gravadoras não oficiais ou às empresas que não fazem parte de conglomerados, como as estrangeiras ou a Globo Records. Tais termos não constam de dicionários e constituem jargões, linguagem técnica específica de certas áreas profissionais ou de atuação humana.
13 É uma hipótese de trabalho, dentre tantas possibilidades. Não se afirma que todos apenas deixem a informalidade sob o martelo da Receita nem que isso nunca aconteça.
24 carteira e medo porque, realmente, quase nunca se sabe os problemas que poderão advir.
Com a modernização das prestações de serviços e os mercados cada vez mais competitivos, o desejável é que os escritórios contábeis busquem adaptar-se às novas realidades, deixando de apresentar-se apenas como meros registradores de informações e emissores de guias de pagamentos de impostos, para entender os negócios das empresas pelas quais são responsáveis pela regularização contábil e fiscal e, com isso, atender e interpretar de forma correta, e caso a caso, as normas do IFRS e a legislação tributária geral e específica vigente, e passaram a apresentar-se, como consultores externos em tributos e analistas dos negócios de seus clientes.
Para quem não é da indústria musical, entender como funciona o mercado da música, o que é um fonograma, o que é um videofonograma, quais direitos envolvem esses bens, se são eles intangíveis ou não, se podem ser cedidos ou não a uma empresa - uma vez que decorrem do desenvolvimento intelectual humano e não de uma atividade empresarial - entre muitas outras questões, é um enorme desafio
Em estudo de caso realizado por esta autora, através da análise de documentos de quatro empresas de pequeno e médio porte musicais dos ramos do rap e do funk com aproximadamente 3 (três) anos de existência e faturamento médio de R$ 3,5 milhões por ano, verificou-se que ainda é bastante comum no mercado musical a informalidade das relações, as contratações no âmbito pessoal (pessoa física – músico com empresa de música, empresa de música com músico pessoa física), sem qualquer cuidado por parte dos músicos - iniciantes na qualidade de empresários - no sentido de cumprir e fazer com que se cumpra a legislação no que tange aos direitos autorais, direitos econômicos, emissão de notas, reconhecimento de receitas, separação patrimonial e recolhimento de impostos.
Quando analisadas essas
14empresas (ainda start up do ramo musical), percebe-se que, de modo geral, misturam o patrimônio de seus sócios com o seu próprio patrimônio. Em alguns casos, os sócios das empresas musicais, mesmo após a criação e implementação das pessoas jurídicas - que deveriam servir para gerir seu patrimônio musical e sua carreira - continuam a receber seus honorários ou os royalties pagos pelas plataformas digitais (que firmaram os contratos com a empresa
14 O anafórico “essa”, como o é por definição, retoma “quatro microempresas do ramo de Rap e Funk”.
25 musical e não com o músico pessoa física) diretamente dos contratantes, de modo informal, sem a emissão de nenhum documento contábil e fiscal, sem qualquer recolhimento de impostos e, por vezes, até através do uso de contas bancárias de terceiros ou mesmo da própria empresa.
Os artistas vinculados às empresas analisadas e conhecidos pela autora em sua experiência profissional na área jurídico-contábil de diversas empresas musicais, entendem - mesmo após terem optado por se tornarem empresários - que receitas advindas da comercialização de suas músicas ou mesmo de direitos autorais aos quais tenham direito, são extensivamente imunes e, portanto, podem ser por eles recebidos de qualquer forma, seja pela empresa, seja diretamente em suas contas bancárias, sem qualquer implicação jurídica, contábil e tributária e que, além disso, se a empresa a eles pertence e os direitos a eles pertencem, então tudo pode: o contrato pode ser firmado pela empresa e a receita recebida na pessoa física; o contrato pode ser firmado pela pessoa física e a receita recebida pela empresa; os direitos de autor - que são personalíssimos - podem ser recebidos pela empresa; a conta bancária da empresa pode ser utilizada para pagar o supermercado de sua casa e a escola das crianças e etc. De certa forma, nada diferente daquilo que se detecta também em micros e pequenas empresas de outros ramos, mas, certamente, em proporções financeiras muito maiores.
Para piorar a situação, as plataformas digitais, por se entenderem meros intermediários, não se preocupam com a forma através da qual pagam ou repassam os valores de venda de fonogramas e videofonogramas aos artistas, utilizando-se, muitas vezes, para pagamento no Brasil, de plataformas financeiras internacionais sem regulamentação específica pelo Banco Central do Brasil como, por exemplo, a Paypal.
A título informativo, a Paypal (Paypal Holdings Inc) é uma empresa americana, criada
em 1998, que funciona como uma processadora de pagamentos online, cobrando
taxas para transferências financeiras de fundos entre os usuários de seu sistema. De
modo geral, a Paypal funciona como mera intermediária de pagamentos, operando
em transações internacionais em geral, inclusive com o Brasil, embora aqui não seja
permitido o recebimento em dólares de valores superiores ao equivalente em Reais a
26 R$ 10.000,00 (dez mil) sem o correspondente fechamento de câmbio através de instituições autorizadas pelo Banco Central
15.
Na prática, nas transações realizadas através da Paypal, não há qualquer requisito documental específico - como por exemplo, a emissão de uma nota fiscal ou nota de honorários – para fundamentar o recebimento de valores, mesmo quando se trata de operações com valores que demandam o fechamento de contrato de câmbio internacional sob a supervisão do Banco Central do Brasil.
Por uma questão didática e de corte, apesar de pontuado anteriormente, este trabalho não analisa a existência de confusão patrimonial
16nem a estrutura jurídica e contábil geral das empresas do setor musical; o problema discutido nesse estudo é tão somente um dos objetos da análise quantitativa e qualitativa da contabilidade: as receitas e suas implicações contábeis-tributárias.
A razão, a relevância e o porquê de se analisar as receitas
17das empresas desse ramo está no fato de que, nas empresas musicais, algumas espécies de receitas não são comuns e advêm - principalmente após o avanço da internet e do crescente mercado de mídias digitais – da comercialização de fonogramas e videofonogramas (objetos intangíveis, reproduzíveis automaticamente) em plataformas digitais administradas por terceiros, e da publicidade incidente sobre esses fonogramas e videofonogramas.
A contabilização e o tratamento fiscal correto das receitas na contabilidade das empresas de música são o ponto mais importante para a viabilidade e continuidade dessas empresas. Isso porque, tal como qualquer outra empresa de qualquer ramo, o despreparo administrativo-contábil-tributário tende a levar a empresa à inadimplência fiscal e à sujeição de multas decorrentes de autuação fiscal, implicando, muitas vezes, em situações de insolvência e até de falência.
15 Cf. regras de contrato de prestação de serviço do Paypal e Circulares do Banco Central.
16 Não há uma definição da doutrina contábil-jurídica quanto a confusão patrimonial, entretanto entende a jurisprudência que “acontece a confusão patrimonial quando os negócios dos sócios se confundem com os da pessoa jurídica, situações em que ocorre o abuso da personalidade jurídica, desvio de finalidade, ou seja, casos em que a pessoa jurídica serve de instrumento para acobertar atos ilícitos”.
Apelação Cível AC 104391 SC 2002.010439-1 (TJ-SC)
17 No dia a dia da Contabilidade, compreender as receitas é prática extremamente comum. Entretanto, para não técnicos ou não contadores, o conceito de receita se confunde com lucro e lucro com faturamento. Em outras palavras, entendem alguns músicos que o dinheiro que entra na empresa é lucro, a despeito de outros custos ou outras dívidas.
27 Nas atuais pequenas empresas do ramo musical analisadas para esse estudo, percebe-se que, embora os números ainda se apresentem de forma bastante inconsistentes (por falta de uma correta contabilização e excesso de informalidade nas relações contratuais e financeiras), as “receitas” das empresas musicais advindas da comercialização de músicas e da publicidade em músicas comercializadas através de plataformas digitais internacionais - como, entre outras, as utilizadas pelas empresas musicais para divulgação e “venda” direta ou indireta de seus fonogramas e videofonogramas - representam hoje a maior proporção da receita total das empresas do ramo musical.
Como exemplo do anteriormente mencionado, apresenta-se os números de uma das empresas analisadas por esse estudo e que tem como base um grupo musical com 6 (seis) anos de atuação no mercado, 4 (quatro) anos de formalidade com empresa e apenas 2 (dois) anos de contabilidade formal regular: (i): para o ano de 2016: receita de venda de shows R$ 2.320.000,00 (dois milhões, trezentos e vinte mil); receita de comercialização de fonogramas em plataformas digitais R$ 583.124,00 (quinhentos e oitenta e três mil, cento e vinte e quatro); receita de propaganda e marketing (Youtube) R$ 223.000,00 (duzentos e vinte e três mil); (ii) para o ano de 2017: receita de venda de shows R$ 2.160.000,00 (dois milhões, cento e sessenta mil); receita de comercialização de fonogramas em plataformas digitais R$ 1.834.832,00 (um milhão, oitocentos e trinta e quatro mil, oitocentos e trinta e dois); receita de propaganda e marketing (Youtube) R$ 532.979,00 (quinhentos e trinta e dois mil, novecentos e setenta e nove); outras receitas R$ 200.000,00 (duzentos mil).
Gráfico 4 - Receitas dos anos de 2016 de um grupo musical Fonte: Elaborado pela autora
74%
19%
7%
Receitas 2.016
Receita de Shows (prestação de serviços de entretenimento) Receita de comercialização de fonogramas em plataformas digitais
Receita de Propaganda (youtube)
28
Gráfico 5 - Receitas dos anos de 2017 de um grupo musical Fonte: Elaborado pela autora
Gráfico 6 - Comparativo das receitas de 2016 e 2017 de um grupo musical Fonte: Elaborado pela autora
46%
39%
11%
4%
Receitas 2.017
Receita de Shows (prestação de serviços de entretenimento) Receita de comercialização de fonogramas em plataformas digitais
Receita de Propaganda (youtube)
Outras receitas
0,00 500.000,00 1.000.000,00 1.500.000,00 2.000.000,00 2.500.000,00
Receita de Shows (prestação de
serviços de entretenimento)
Receita de comercialização
de fonogramas em plataformas
digitais
Receita de Propaganda
(youtube)
outras receitas
2.016 2.017
29 Os números da empresa analisada, parecem refletir as condições do mercado musical brasileiro nos anos de 2.016 e 2.017
18.
Segundo a Federação Internacional da Indústria Fonográfica (IFPI), em relatório anual relativo aos números e performance do mercado fonográfico mundial no ano de 2016, publicado em 25 de abril de 2017, as receitas geradas pelos vários modelos de negócio do setor de música gravada cresceram 5,9% em 2016, se comparadas às do ano de 2015, tendo o faturamento global dessa espécie de “produto/serviço” atingido o montante de 15,68 bilhões de dólares norte-americanos.
O referido relatório aponta o streaming
19remunerado, tanto por subscrição como por publicidade, como o modelo de negócios que mais gera recursos para o setor (USD 4.56 bilhões), com crescimento de 60,4% em 2016. Segundo o relatório do IFPI, o streaming interativo foi o responsável nos últimos anos pela lenta, porém consistente recuperação do mercado fonográfico mundial em todas as suas regiões, tendo o número de assinantes ou subscritores de plataformas de streaming de músicas alcançado a marca de 112 milhões no mundo inteiro em 2016.
Relativamente ao ano de 2.017, o já mencionado relatório do Mercado Fonográfico Mundial e Brasileiro em 2.017, publicado em 24 de abril de 2.018, as receitas geradas pelos vários modelos de negócio do setor de música gravada cresceram 8,1% em 2.017, na comparação com 2.016, tendo o faturamento global do setor atingido o montante de 17,3 bilhões de dólares norte-americanos.
O referido documento reporta que o crescimento do conteúdo musical por streaming foi o fator determinante para este resultado, uma vez que gerou 6,6 bilhões de dólares de receita total (com um crescimento de 41,1% em 2017, comparativamente a 2.016),
18 Há uma série de variáveis que devem ser consideradas ao se analisar o crescimento das receitas das empresas musicais. O lançamento de um determinado álbum de impactar no aumento das receitas e shows e das receitas de venda digitais de fonogramas. Não é objeto desse estudo tratar do crescimento das receitas musicais, somente tratar do panorama geral do mercado e da classificação das receitas em termos contábeis e tributários, de forma que não iremos no ater aos detalhes.
19Streaming é uma forma de transmissão de som e imagem (áudio e vídeo) através de uma rede qualquer de computadores sem a necessidade de efetuar downloads do que está se vendo e/ou ouvindo, pois neste método a máquina recebe as informações ao mesmo tempo em que as repassa ao usuário (fonte: http://www.interrogacaodigital.com/central/o-que-e-streaming);
Streaming é uma tecnologia que envia informações multimídia, através da transferência de dados, utilizando redes de computadores, especialmente a Internet, e foi criada para tornar as conexões mais rápidas. Um grande exemplo de streaming, é o site Youtube, que utiliza essa tecnologia para transmitir vídeos em tempo real (fonte: https://www.significados.com.br/streaming/).
30 se firmando como a maior fonte de receitas do setor musical mundial e representando 38,4% do total das receitas do setor.
A comercialização digital de fonogramas, videofonogramas e publicidade vinculada é, portanto, uma importante fonte de receita das empresas musicais e, também, uma importante fonte de preocupação por parte dos contabilistas e administradores de empresas desse ramo.
Isso porque, essa espécie de receita é geralmente apurada, tributada e transferida às empresas musicais (sob a rubrica de royalties) por grandes grupos internacionais de comercialização digital, conforme sua forma e interesse.
Nenhuma empresa musical brasileira ou internacional de pequeno ou médio porte possui canal próprio para comercialização direta ao consumidor de seus fonogramas e videofonogramas por meio digital. Para essa espécie de comercialização dependem, sempre, da prestação de serviços realizados pelas grandes plataformas internacionais que gerenciam os preços dos “produtos” vendidos, a forma de apuração das receitas, a forma de cômputo das remunerações vinculadas (como publicidade, por exemplo) e os repasses financeiros.
Assim, o problema que se apresenta à contabilidade é saber, nas empresas musicais, de que forma classificar e registrar as receitas decorrentes da comercialização digital dos videofonogramas, fonogramas e publicidade conexa e se tal receita está ou não englobada pela imunidade tributária advinda do Art. 150 da C.F.
Para tanto, o presente trabalho trata de responder as seguintes perguntas: (i) quais as receitas auferidas pelas empresas musicais analisadas? (ii) como classificar em termos jurídicos as receitas identificadas?; (iii) é possível aplicar o CPC 47 às receitas identificadas? (iii) as receitas auferidas pelas empresas musicais estão, parcial ou totalmente, contempladas pela imunidade tributária estabelecida pelo Art. 150, VI, “e”
da Constituição Federal?; e, (iv) qual a tributação incidente sobre as receitas identificadas?.
3. METODOLOGIA E CONTRIBUIÇÕES
O trabalho é caracterizado como exploratório com abordagem qualitativa. Os dados
contábeis e fiscais foram obtidos de 4 (quatro) empresas de pequeno e médio porte
31 do ramo musical, selecionadas entre os clientes do escritório contábil da autora. O trabalho é caracterizado como um estudo de caso múltiplo, que é uma investigação empírica de um fenômeno contemporâneo, em profundidade e dentro de seu contexto da vida real. Os dados contábeis e fiscais foram obtidos de 4 (quatro) empresas de pequeno e médio porte do ramo musical, selecionadas entre os clientes do escritório contábil da autora e que obtiveram receitas de diversas naturezas e apropriadas ao presente trabalho.
Em complementação, foram realizadas pesquisas com outras empresas contábeis e jurídicas, para verificação da forma como o mercado se comporta no atendimento das empresas musicais.
De acordo com a Portaria Normativa n. 17, de 28 de dezembro de 2009, da CAPES, os mestrados profissionais têm por objetivo “capacitar profissionais qualificados para o exercício da prática profissional avançada (...), visando atender demandas sociais, organizacionais ou profissionais e do mercado de trabalho”, bem como “transferir conhecimento para a sociedade, atendendo demandas específicas e de arranjos produtivos com vistas ao desenvolvimento nacional, regional ou local”.
Segundo a Portaria Normativa 17/2009, os trabalhos de conclusão final dos cursos de mestrado profissional podem ser apresentados em diferentes formatos, dentre os quais: dissertação, desenvolvimento de aplicativos, de materiais didáticos e instrucionais e de produtos, processos e técnicas; estudos de caso, relatório técnico com regras de sigilo, projetos de inovação tecnológica, produção artística, sem prejuízo de outros formatos, de acordo com a natureza da área e a finalidade do curso, desde que previamente propostos e aprovados pela CAPES.
Por meio da Portaria 147, de 13/11/2015, a CAPES nomeou uma comissão composta
de docentes de diferentes áreas para a elaboração dos critérios gerais para a
classificação dos produtos tecnológicos resultantes dos trabalhos de conclusão dos
mestrados profissionais. Essa comissão classificou os produtos tecnológicos em 4
(quatro) eixos, onde. no “eixo 1 – Produtos e Processos: Produto técnico ou
tecnológico, passível ou não de proteção, podendo gerar ativos de propriedade
industrial/ propriedade intelectual”, destaca em seu item “8 - Desenvolvimento de
material didático e instrucional”.
32 Dessa forma, a contribuição do presente trabalho é a elaboração de um produto classificado no eixo 1, item 8, denominado desenvolvimento de material didático e instrucional, que será consubstanciado através da publicação de um livro para apoio doutrinário aos profissionais contábeis atuantes junto às empresas do setor musical.
4. APORTE TEÓRICO
4.1. Teoria Tridimensional de Miguel Reali
O jurista brasileiro Miguel Reali estabeleceu, em 1941, as bases da teoria tridimensional do direito, na qual o Direito, enquanto ciência, é composto por três elementos: fato, valor e norma.
Assim, a norma jurídica é apenas a indicação de um caminho, porém, para percorrer um caminho, devo partir de determinado ponto e ser guiado por determinada direção: o ponto de partida da norma é o fato, a chegada são os valores. Desse modo, o direito não é só norma, como quer Kelsen; Direito não é só fato como rezam os marxistas ou economistas do Direito, porque Direito não é economia. Direito não é produção econômica, mas envolve produção econômica e nela interfere; o direito não é somente valor, como rezam os adeptos do direito natural, porque ao mesmo tempo o Direito é norma, é fato e é valor. O Direito é uma integração normativa de fatos segundo valores (REALE: 1976).