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Em estudo mais recente, Teoria do Direito Processual Penal 207 , discorrendo sobre a Lide no processo penal e a irrelevância deste conceito no contexto deste tipo de

processo, afirma, ainda, que, tendo em vista o caractere da impessoalidade dos interesses contrapostos que determinam, assim, o traço de indispensabilidade do contraditório, como forma inelutável de se atingir a finalidade do processo penal (a busca da verdade real), a

lide

, no processo penal, deve ser concebida como um conflito de interesses de alta relevância social que só pode ser solucionado pelo pronunciamento judicial emanado de um órgão judiciário competente e que, em assim sendo, não pode ser solucionado, em hipótese alguma, por meio exoprocessual, sendo, nestes termos, inevitável, necessário e imprescindível tal processo judicial penal.

m) José Rogério Cruz e Tucci.

CRUZ E TUCCI, embora não enfrente, de modo direto, o conceito de

Litígio

e

Lide

, sistematicamente, podemos assentir que ele corrobora, em duas das suas principais obras, quais sejam,

A Causa Petendi no Processo Civil

208 e

Tempo e Processo

209, também, a tese carneluttiana, re-elaborada por LIEBMAN, sem maiores distinções.

Vejamos o que ele diz em

Tempo e Processo

,

in verbis

210:

Com a eclosão da lide, que é um fenômeno metaprocessual, em muitas ocasiões, a parte que se sente prejudicada necessita buscar a satisfação de

207Idem. Teoria do Direito Processual Penal: Jurisdição, Ação e Processo Penal (Estudo sistemático). São Paulo: Editora Revista dos Tribunais, 2002.

208 CRUZ e TUCCI, José Rogério. A Causa Petendi no processo civil. 2. ed. rev. atual. amp. São Paulo: Editora Revista dos Tribunais, 2003.

209Idem. Tempo e Processo: uma análise empírica das repercussões do tempo na fenomenologia processual (civil

e penal). 2. ed. rev. atual. amp. São Paulo: Editora Revista dos Tribunais, 1997. 210Ibidem., p. 24.

seu direito pela via jurisdicional. Três são os esquemas clássicos de tutela, dependendo da pretensão a ser formulada, que são colocados à disposição do demandante pelo nosso sistema processual.

Com efeito, o processo de conhecimento tem por finalidade o proferimento de uma sentença compositiva do conflito de interesses existente entre os litigantes; o processo de execução visa à satisfação do direito que a sentença condenatória (ou título a ela equiparado) declarou pertencer à parte vitoriosa; e o processo cautelar tem por escopo assegurar a efetividade da tutela a ser concedida no futuro.

n) Fernando da Costa Tourinho Filho.

TOURINHO FILHO, que junto com TORNAGHI e ESPÍNOLA FILHO211, constitui a tríade mais importante da dogmática jurídico-processual penal brasileira, assente, na sua influente obra

Processo Penal

, com a doutrina carneluttiana de

Lide

, com as devidas restrições elaboradas por LIEBMAN.

Nesta sua principal obra,

Processo Penal

212, ele, além de assentir com a posição carnelutti-liebmaniana, considera os conceitos de

Lide

e

Litígio

como coincidentes e, em assim sendo, de mesma significação. Aliás, no que diz respeito ao uso dos mesmos, ele prefere até a adoção do termo

Litígio

ao de

Lide

. Diz ele,

in verbis

213:

Os conflitos de interesses, dos mais singelos aos mais complexos, verificam- se com freqüência. Por outro lado, quando o ‘sujeito de um dos

interesses em conflito encontra resistência do sujeito do outro interesse’. fala-se em lide. Esta é, pois, na difundida lição de Carnelutti, um conflito de interesses qualificado por uma pretensão resistida ou insatisfeita [...]. [quando] a pretensão de Tício está encontrando resistência, diz-se que há litígio ou lide (grifos nossos).

Além disso, TOURINHO FILHO, alarga o conceito carneluttiano para o âmbito do processo penal, assentindo, porém, que o

Litígio

ou

Lide

, no processo penal, tem uma natureza

suis generis

, tendo em vista a qualidade e especialidade do bem jurídico que é

211 Na obra de ESPÍNOLA FILHO, embora encontremos a noção de pretensão punitiva ele não faz alusão a tal conceito como um dos componentes da Lide ou Litígio penal (Cf. ESPÍNOLA FILHO, Eduardo. Código de Processo Penal brasileiro anotado. 6. ed. Rio de Janeiro: Borsoi, 1965).

212 TOURINHO FILHO, Fernando da Costa. Processo Penal. 19. ed. rev. atual. São Paulo: Saraiva, 1997. 213Ibidem., p. 5.

deduzido em juízo. Esclarece ele que a

Lide

penal é formada a partir da pretensão punitiva do Estado e, mesmo que o autor da conduta punível não queira resisti-la deve fazê-lo, posto que o Estado, também, imprescindivelmente, tutela e ampara o direito de liberdade do ora réu. Mais tarde, quando estudarmos, a

Lide

como conteúdo do processo penal, veremos melhor tal assertiva.

o) Hélio Tornaghi.

Por fim, HÉLIO TORNAGHI – o último autor da dogmática jurídico- processual nacional a ser analisado aqui nesta análise teórico-conceptual e histórico- descritiva dos institutos jurídico-processuais

Lide

e

Litígio

–, diferentemente do pensamento de toda a dogmática jurídico-processual, seja ela estrangeira ou nacional, apresenta-nos uma importante distinção entre os conceitos de

Litígio

e

Lide

.

Tal posição de HÉLIO TORNAGHI, quanto aos conceitos de

Litígio

e

Lide

, é, aliás, de suma importância para o presente trabalho, posto que é na mesma direção da tese do processualista que elaboramos a construção analítico-distintiva em torno de tais conceitos. No caso, diferente de toda a doutrina anterior e posterior, HÉLIO TORNAGHI – na nossa direção –, distingue214 os conceitos dos termos

Litígio

e

Lide

, assentindo, em linhas gerais, que a

Lide

é aquilo que do

Litígio

foi deduzido em juízo.

Assim, para ele, o conteúdo da

Lide

é formado pela dedução em juízo, através da demanda do autor, do conflito de interesses – o

Litígio

– que ocorreu na concretude social. Tanto é assim, diz ele, que muitas vezes o conteúdo daquilo que se convencionou denominar de

Lide

é menor que o conflito – o

Litígio

– que ocorreu na realidade social.

214 Muito embora se evidencie que tal distinção proposta por ele carece de uma maior fundamentação teórico- conceitual – e até mesmo empírico-pragmática –, problema esse que, despretensiosamente, tentaremos resolver no presente trabalho.

Abaixo, apresentamos, embora longo, o texto da sua obra “

A relação

processual penal

”215 na qual ele faz a distinção acima apresentada entre os conceitos

Lide

e

Litígio

. Tal texto, inclusive, mais à frente, será de suma importância na compreensão da tese aqui defendida,

in verbis

216:

A lide é aquela parte do litígio entre duas ou mais pessoas, regulado pelo Direito Substantivo, e que é levada à decisão do juiz por uma das partes conflitantes. Pode ter por objeto uma relação de

Direito Público ou uma de Direito Privado.

Em trabalhos anteriores usei sempre a palavra litígio para designar o choque de interesses submetido à decisão do juiz por uma das partes conflitantes. Agora emprego a palavra lide pelos seguintes motivos:

- lide é o vocábulo que aparece na literatura e nas leis de processo;

- dele e de sua forma latina (lis, litis) provêm os derivados litispendência, litisconsórcio, quota litis, in limine litis, litisdenunciatio, contestação da lide, curador à lide etc.;

- o conteúdo daquilo que se convencionou chamar lide pode ser

menor que o do litígio. Esse é a controvérsia entre duas ou mais pessoas acerca de matéria disciplinada pelo Direito Substantivo; o termo lide, usado no Direito Processual, indica apenas aquela parte do litígio que é proposta à decisão do juiz. O autor de uma ação pode pleitear apenas uma porção daquilo a que se julga com direito e é objeto de choque com outra pessoa. Ainda que o juiz saiba que o litígio versa sobre outros pontos, não pode conceder o que o autor não pediu. Tem que cingir-se aos limites da lide;

- entre os romanos, o termo lis, litis era usado tanto para designar

o processo quanto para indicar o objeto dele. Mas os conceitos foram depurados e o que hoje chamamos lide é o litígio, na medida em que é levado a juízo.

Na realidade, a controvérsia jurídica, o litígio, é anterior ao processo e pode não ser em tempo algum levado a juízo. Se ali é apresentada, torna-se controvérsia judiciária, lide, cuja extensão pode coincidir com a do litígio ou ser menor que a dele, se somente uma parte do litígio é levada à decisão do juiz. O processo é sempre

uma relação de Direito Público; o litígio, que temporalmente o

antecede, e a lide, que é objeto da decisão do juiz, pode ser de Direito Privado (grifos nossos).

Muito bem. Consecutada esta análise teórico-conceptual e historiográfico- descritiva dos institutos jurídico-processuais

Litígio

e

Lide

, pudemos, evidenciar,

in claris

, que, do ponto de vista da dogmática jurídico-processual, seja ela estrangeira ou nacional – e, como vimos, até mesmo do ponto de vista do sistema normativo-jurídico-processual

215 TORNAGHI, Hélio. A relação processual penal. 2. ed. rev. atual. São Paulo: Saraiva, 1987. 216 Op. cit. p. 243-244

brasileiro, desde a edição das Ordenações Filipinas até o atual Código de Processo Civil de 1973 – tais termos têm sido, em geral, abordados e concebidos como de mesma significação fenomênica, conceptual e terminológica, sendo caracterizados, assim, conforme temos preceituado, pelo caractere lógico da indiscernibilidade de identidade; indiscernibilidade essa que, além de ser injustificável, tanto do ponto de vista teórico-conceptual, quanto do ponto de vista empírico-crítico, como estamos a afirmar na presente dissertação, traz sérias repercussões e implicações na teoria processual e, por conseguinte, na Ciência Jurídico- Processual.

O que ocorreu exatamente é que, como vimos, depois que CARNELUTTI formulou o conceito de

Lide

– não distinguindo este do conceito de

Litígio

– o que os processualistas posteriores fizeram foi, em geral, apenas corroborar ou modificar, mesmo que apenas em parte, a tese carneluttiana, sem se preocuparem com a problemática distintiva aqui proposta217. Isso ocorreu, por exemplo, com CALAMANDREI e, mais recentemente, com LIEBMAN, quando tais doutrinadores assentiram em parte o conceito de

Lide

, mas identificando este, não com o conflito intersubjetivo qualificado pela pretensão e pela resistência, como CARNELUTTI o fez, mas sim com o mérito da causa; mérito este que seria formatado pelo pedido formulado pelo autor na petição inicial. Destarte, tais processualistas, assim como também os demais, com exceção, entre os processualistas nacionais, de TORNAGHI, não se preocuparam em tecer qualquer distinção entre o conflito que ocorreu no plano factual – ao qual denominamos de

Litígio

– e aquilo que do conflito social fora deduzido em juízo – ao qual denominamos de

Lide

, fato esse que levou a doutrina processual, quase que uníssona, a considerar

Lide

e

Litígio

como termos, institutos jurídico- processuais, referenciais e indiscerníveis.

Na verdade, tal indiscernibilidade e despreocupação teórico-terminológica decorrem de uma outra problemática, qual seja, porque até hoje não há ainda no campo das

217 Aliás, conforme pudemos perceber, os autores da dogmática processual, muitas vezes, confundiram os conceitos de Lide e Litígio com os de outros institutos jurídico-processuais como causa, res in iudicium deductae,

Ciências Jurídicas, como um todo, seja esta considerada do ponto de vista dogmático ou até mesmo zetético (e, desse modo, na Ciência Jurídico-Processual), uma grande preocupação com os aspectos teórico-método-terminológicos na apreensão, manejo e formação do conhecimento jurídico. De tal modo que, conforme expomos no

conspectus

deste trabalho, o que observamos é que o Direito – como um conhecimento técnico-científico que é – é constituído por um aglomerado de teorias, de instituições e institutos jurídicos com ambivalência de significações, com atributividade e referibilidade antinômicas, sem formar uma rede conceitual coesa e relacional. E, em assim sendo, o que ocorre é que, em não se adotando uma terminologia específica, construída em bases científicas, como estamos a propor no presente trabalho, não há como se falar em Ciência do Direito e, por conseguinte, em Ciência Jurídico-Processual, conforme veremos na próxima seção. Vejamo-a, então.

3 – TERMINOLOGIA JURÍDICO-CONCEPTUAL: UMA CONDIÇÃO DE NEUTRALIDADE, ASSERTIBILIDADE, ASSEPTABILIDADE E VERDADE DA

CIÊNCIA JURÍDICO-PROCESSUAL.

A primeira exigência do progresso da ciência processual é a pureza dos conceitos e a propriedade dos vocábulos.

CARNELUTTI Importa muito para o jurista prático conhecer o vocabulário com que tem de jogar, acompanhando ou dirigindo um processo.

COSTA CRUZ A desgraça da ciência jurídica são as incertezas terminológicas.

TÚLIO ASCARELLI Uma palavra para cada idéia, uma idéia para cada palavra, eis um programa que não é de natureza a favorecer somente a ciência do Direito, mas também de molde a fazer diminuir o império da chicana e acrescentar a força da Justiça e da paz social.

RENÉ CASSIN

A distinção teórico-conceptual e empírico-crítica que nos propomos a consecutar neste trabalho de pesquisa científica, conforme temos, constantemente, assentido, justifica-se, precipuamente, em face da imprecisão teórico-terminológica e, também, epistemo-metodológica218, da Teoria Geral do Processo – e, por conseguinte, da Ciência Jurídico-Processual – frente à definição, denominação, uso e menção dos termos,

Litígio

e

Lide

. Assim, pelo que temos visto até aqui, na acepção assente e majoritária da dogmática jurídico-processual, seja ela estrangeira ou nacional, tais institutos têm sido, em geral, abordados como elementos conceptuais de mesma referibilidade e significação.

O que ocorre é que tal problemática de indiscernibilidade, sinonímia e equivocidade dos institutos

sub examen

leva – juntamente com outras incongruências219,

218 Neste sentido, Cândido Dinamarco preceitua que a doutrina processual nacional, impulsionada pelo sistema jurídico-processual brasileiro, realiza, ainda hoje, suas construções teórico-conceituais utilizando, indistintamente, como pólos metodológicos, a teoria da lide de Carnelutti e a teoria da ação de Liebman; teorias essas que, efetivamente, se não antinômicas, pelos menos são incompatíveis entre si (cf. DINAMARCO, Cândido Rangel.

Fundamentos do Processo Civil moderno. 5. ed. rev. atual. São Paulo: Malheiros Editores, 2002, t. I, p. 253-254.). 219 Cândido Dinamarco, em sua obra Fundamentos do Processo Civil moderno, aponta-nos diversas incoerências e incongruências termino-epistemológicas existentes no sistema normativo jurídico-processual e que foram, por descuido ou até mesmo acomodação da dogmática, incorporadas nas diversas obras dos processualistas nacionais. Neste sentido ele afirma: “O Código de Processo Civil de 1973, apesar das circunstâncias favoráveis em que foi editado, obviamente muita coisa encontrou diante de si para demolir, da velha estrutura representada pelo de 1939. [...] É compreensível, então, que do entulho aproveitado algum resíduo viesse a ficar aparente – resíduos que talvez imperceptivelmente foram aplicados nas colunas da edificação de 1973”. Desse modo, prossegue ele: “A doutrina brasileira do processo civil [...], embora criticando essas classificações tecnicamente

também de ordem teórico-método-terminológica, do nosso sistema de conhecimento jurídico-processual – à formação de uma teoria processual e, conseqüentemente, de um conhecimento jurídico-processual que não atende, estritamente, aos pressupostos teórico- metodológicos do conhecimento científico.

Assim sendo, uma produção cognitiva deste tipo não pode ser considerada e enquadrada na categoria de conhecimento científico, isto é, como uma Ciência Jurídico- Processual, nem do ponto de vista dogmático e, muito menos, do ponto de vista zetético220. Por quê? Porque o grau de indispensabilidade e cientificidade de determinada área do conhecimento é diretamente proporcional à observância, rigorosa e estrita, de certos pressupostos e requisitos de ordem terminológico-conceitual, pois esses constituem – juntamente com o instrumental teórico-metodológico que o sujeito cognoscente deve utilizar para a apreensão e manejo do objeto de estudo e os atributos da neutralidade axiológica, da asseptabilidade, da assertibilidade e da verdade – as denominadas, por nós,

condições de

validade método-epistemo-lógicas

de uma ciência.

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