2. BASE TEÓRICO-EMPÍRICA
2.3 RECICLAGEM, COMPORTAMENTO DO CONSUMIDOR E INFLUÊNCIAS
Como foi abordado até o momento, esta dissertação traz a literatura que aborda o
processo de compra do consumidor e suas influências e a une com a literatura que trata do
comportamento de separação de materiais para a reciclagem que é uma das opções na
última etapa do processo de compra do consumidor. Desta maneira, pode-se inferir que as
influências apontadas até o momento (sentimento, conhecimento, família, mídia, escola e
pares) também estão presentes no comportamento de separação de materiais para a
reciclagem.
Este item apresenta de maneira mais profunda esta ligação e alguns achados
nesta linha.
Diante do referencial teórico apresentado até o momento, se faz necessário focá-lo
no contexto do problema de pesquisa desta dissertação. Inicialmente será explorado o
comportamento de separação de materiais para a reciclagem, os achados dos estudos que
já se propuseram a explorar esse tema e por fim, as maneiras que já foram mensurados. Na
sequência, para cada uma das variáveis selecionadas o mesmo é realizado.
Essa etapa é importante por evidenciar os resultados que justificam a escolha
dessas variáveis, além de colaborar para a construção do instrumento de coleta desta
dissertação, ao permitir uma visualização das possibilidades de mensuração.
2.3.1 O comportamento de separação de materiais para a reciclagem
Muitos estudos sobre reciclagem são conduzidos através de uma perspectiva
psicológica, pois analisam esse problema como uma mudança de comportamento. Todavia,
é com estas considerações que, Shrum et al. (1994) afirmam que a reciclagem também é
um problema do Marketing. Dentro desta perspectiva, então, surge um aspecto mais
específico que passa ser relevante, o comportamento do consumidor.
Na literatura sobre o comportamento do consumidor (ENGEL et al., 2000), a
reciclagem, conforme já apresentada, é inserida como a última etapa do processo decisório
do consumidor e vem ganhando relevância com o problema da redução de lixo. Embora não
seja um conceito novo, o estudo da relação entre redução de lixo e outras formas de
gerenciamento de lixo sólido são relativamente recentes e, muitas vezes, está inserido em
uma perspectiva do consumidor ambientalmente favorável. Porém destaca-se que, embora
a responsabilidade ambiental e reciclagem sejam ambos comportamentos de gerenciamento
de lixo, eles podem ter diferentes antecedentes (EBREO et al., 1999) e consequentemente
valem ser estudados de maneira separada.
Heckler (1994) afirma que a pesquisa sobre comportamento de separação de
materiais para a reciclagem vem sendo conduzida desde a metade da década de 1970.
Entre os estudos com uma perspectiva mais qualitativa, foi investigado o significado do lixo
para os consumidores do Brasil e do Reino Unido (BEKIN et al., 2007). Dentre as
considerações encontradas, foi identificado que os participantes dos dois países consideram
papéis similares para o lixo, relacionado-o com abundância e conveniência. O lixo é
percebido por essas duas culturas nos estágios de compra e consumo e a conveniência
apresenta papel neste processo.
Já em uma perspectiva mais quantitativa, uma grande quantidade de estudos focou
em uma natureza psicológica da reciclagem. Estes estudos podem ser divididos em
categorias como: (a) atitudes e crenças, (b) valores pessoais, e (c) traços (SHRUM et al.
1994). Outros pesquisadores têm abordado variáveis demográficas, conhecimento e
sentimento de preocupação ambiental.
Todavia as evidências apontadas na literatura mostram que é uma área que se
encontra em uma fase exploratória, visto a quantidade de variáveis observadas e os
resultados, muitas vezes são conflitantes.
Porém a maneira que essa pesquisa vem sendo conduzida se mostra útil para o
entendimento do consumidor no comportamento de separação de materiais para a
reciclagem. Como um panorama geral, variáveis demográficas se mostraram como fracos
antecedentes do comportamento de reciclagem e, consequentemente, pouco indicados
como variáveis de segmentação. Do mesmo modo, a pesquisa sobre atitudes se mostra um
pouco confusa, mas sugere um nível de especificidade para mensuração importante. Por
outro lado, a pesquisa que tem abordado conceitos mais abstratos como valores, valores
culturais e traços, indica maneiras para explorar uma comunicação mais persuasiva que
pode ser designada para atrair não-recicladores (SHRUM et al., 1994).
Com isto, entender as características dos não-recicladores, com uma ênfase em
suas características e motivações é interessante para determinar se estes são um segmento
com características particulares (SHRUM et al., 1994).
Shrum et al. (1994) fazem uma revisão de estudos com o intuito de promover a
idéia de que a reciclagem também é uma preocupação do marketing. Assim, os autores
consideram o comportamento de separação de materiais para a reciclagem como um
produto e a ocupação do marketing seria vender a reciclagem para seu público. Desta
forma, agrupam os achados em (1) pesquisa do consumidor (pesquisa das características
desses consumidores, tanto demográficas quanto psicográficas). (2) Pesquisas sobre
precificação, definida como os custos para o consumidor adotar essa idéia, (3) Pesquisas de
distribuição, modos que os recicladores participam desse processo e (4) Pesquisa
promocional, estratégias e técnicas de comunicação utilizadas para atingir o público para
desencadear um comportamento de reciclagem.
Assim, os estudos abordam o impacto de alguma variável no comportamento de
reciclagem. O quadro 7 sintetiza os trabalhos encontrados por estes autores, sendo que
apresenta artigos desde o ano de 1972. Embora a divisão busque atender a preocupação
dos autores em fornecer indícios que o comportamento de reciclagem pode ser encarado
como um produto de marketing, essa revisão é válida como um panorama das pesquisas
realizadas até a década de 1990, além de evidenciar as diversas perspectivas que este
tema pode adotar. O Quadro 7 apresenta os estudos divididos pelas temáticas propostas
pelos autores e, na primeira coluna as variáveis estudadas em relação à reciclagem, na
segunda coluna a quantidade de estudos com esta abordagem e na terceira, com base na
quantidade de estudos, quantos encontraram resultados positivos, negativos ou nenhuma
relação.
Fonte: elaborado pela autora com base em Shrum et al. (1994) QUADRO 7: Estudos sobre reciclagem
Variável independente analisada em relação à reciclagem (variável
dependente)
Quantidade total de estudos
positiva negativa neutra
Idade 2 2 0 0
Renda 3 3 0 0
Educação 2 0 0 2
Posição sociopolítica interna de controle 1 1 0 0
Crenças 4 1 2 1 Atitudes 4 3 0 1 Valores 8 5 2 1 Conveniência 5 5 0 0 Conhecimento 3 3 0 0 Dificuldade percebida 1 0 1 0 Boca-a-boca 1 1 0 0 Propaganda 4 3 0 1 Incentivo Financeiro 2 2 0 0 Discussões 6 6 0 0 Lembrança 3 3 0 0 Compromisso verbal 1 1 0 0
Pesquisa sobre Promoção
Pesquisa do comportamento do consumidor( demográfica) Relação encontrada
Pesquisa do Consumidor (psicografia)
Destes estudos, destaca-se o conhecimento. Pois este apresenta relação positiva
com o comportamento de separação de materiais para a reciclagem e é uma das
características individuais exploradas nesta dissertação.
As discussões e o boca-a-boca também merecem destaque pela relação positiva e
por apresentarem a possibilidade de serem enquadrados como formas de influencias dos
agentes sociais.
2.3.1.1 Formas de mensurar: Comportamento de separação de materiais para
a reciclagem
Diante do panorama apresentado do comportamento de reciclagem, a maneira que
alguns desses trabalhos utilizaram para mensurá-lo será explorada. O Quadro 8 sintetiza
como o assunto foi abordado e a escala utilizada em cinco trabalhos que exploraram o
comportamento de reciclagem.
Autor Freqüência
Jornais Embalagem de leite Menos de uma vez por
mês
Latas de aço Copos/ Jarras de vidro Uma vez por mês
Latas de alumínio Sacolas de plástico Duas vezes ao mês
Sacos de papelão Garrafas de plástico Uma vez por semana
Caixas de papelão Quase todos os dias
Recicla papelão Reutiliza tonel
Recicla garrafas de plástico Compra recicláveis
Desperdiça Compra reutilizáveis
Recicla latas de bebida Compra produtos com pouca
embalagem
Recicla folha de metal Usa sua própria sacola de
compra
Recicla jornal Reutiliza papel
Recicla revistas vidro/copo Recicla pedaços de
correspondência
Recicla tecido Reutiliza garrafas
Recicla latas de comida Repara itens
Maneira/Materiais que utilizou
Bagozzi e Dabkolkar
(1994)
Ebreo (1999) Respondentes indicavam se tinham participado de alguma
atividade de reciclagem no ano passado. Indicavam vários tipos de materiais que eles tinham reciclado neste
tempo(lista dos materiais de programas de coleta seletiva).
Escala de 7 pontos de nenhum deles – todos eles
Barr (2007) Escala de 5 pontos de
frequência
Knussem (2008) Questionados sobre as proporções que cada um dos quatro tipos de lixo foram reciclados nos último 3 meses. Questionado em 10 itens de uma lista de ações promovidas pela prefeitura da cidade
Fonte: Elaborado pela autora
QUADRO 8: Formas de mensuração do comportamento de reciclagem.