3.3 Bens Relacionais e Reciprocidade
3.3.2 Reciprocidade
O conceito de reciprocidade tem sido muito utilizado para explicar o comportamento destas empresas. A literatura tem considerado que existem três ou quatro tipos de reciprocidade e cada um destes implica em comportamentos estratégicos diferentes. Bruni (2005), Bruni (2006) e Kolm (2006) tratam deste argumento. Bruni (2006) considera que os tipos de reciprocidade existentes são a reciprocidade-contrato, a reciprocidade genuína e a reciprocidade-comunhão. Neste trabalho serão utilizados os conceitos de Bruni (2005), que serão descritos a seguir.
3.3.2.1 Reciprocidade-contrato
Esta é a forma mais próxima à reciprocidade que a economia tradicionalmente conhece, teórica e praticamente, pois se trata daquela prevista no contrato. O aspecto bidirecional é uma característica estrutural do contrato. Entre A e B há uma troca de equivalentes, dá-se e recebe-se.
A → B B → A
A prestação de A para B exige a prestação de um valor idêntico de B para A: se B não faz sua parte, A também não faz a sua, e caso A já tenha feito, ele pode recorrer juridicamente. É por isso que em uma sociedade civil com juízes honestos e leis eficazes o contrato funciona.
As características da reciprocidade presente nos contratos são:
- Bidirecionalidade: a prestação de A requer a prestação de B, do mesmo modo que a prestação de B requer a prestação de A;
- Condicionalidade: a prestação de A é condicional à prestação de B;
- Equivalência: as prestações devem ser estimadas com valores equivalentes. Geralmente é medida em valores monetários.
A atividade do intercâmbio e do comércio e de uma maneira geral as formas de atividade humana fundamentadas no contrato raramente foram condenadas do ponto de vista ético, porque a cultura do contrato, além de ser superior à do roubo, ou seja, à cultura do apropriar-se de bens que pertencem ao outros sem que um acordo seja estabelecido previamente, contém também
outras vantagens que são conhecidas. Portanto, até os economistas mais sensíveis às dimensões éticas e sociais da economia não vêem como um mal a extensão do mercado e conseqüentemente o contrato.
A dinâmica interna das organizações empresariais são muito complexas e muitas vezes nelas não se recorre diretamente ao contrato, mas, à hierarquia. De qualquer forma, nelas é válido que o contrato de trabalho, embora seja específico, do ponto de vista econômico é sempre um contrato: ambas as partes (empregador e empregado) recebem e dão e, ainda que com inúmeras diferenças sutis, é um contrato livremente assinado e livremente rescindido (inclusive unilateralmente). A visão tradicional da economia sustenta também que no mercado de trabalho se verifica uma troca de valores equivalentes: o trabalhador recebe em troca do seu trabalho o salário, que é exatamente igual (se o mercado funciona) ao valor de sua contribuição para a produção.
Sabe-se que as duas partes não estão num plano de paridade; por isso são previstas formas de mediações, garantias e sistemas de representação (sindicatos); mas a tradição oficial da economia tende a remover a idéia de que entre as partes envolvidas da produção haja conflito; se o mercado for eficiente, cada um, inclusive o empresário, não receberá mais que a conta de valor agregado que ele contribuiu para gerar. Ou seja, o empregado receberá o valor do seu trabalho, que equivale ao que ele agregou de valor ao produto final; do mesmo modo o patrão também receberá o valor equivalente ao trabalho que realizou, uma vez que ele realiza trabalhos administrativos que também são responsáveis pela agregação de valor ao produto.
Na verdade, porém, vê-se que a empresa é sob muitos aspectos lugar de conflitos. Os interesses dos proprietários, dos administradores, dos trabalhadores e dos stakeholders de uma maneira geral nem sempre são convergentes. Às vezes podem ser divergentes e, portanto, conflitantes entre si (um exemplo é o caso clássico do conflito entre proprietários e trabalhadores por causa do salário ou das condições de trabalho). Em todo caso a economia é descrita como aquela caracterizada pelas interações de “soma positiva”, ou seja, na qual ambos os contraentes possuem interesses e incentivos que se permutados trarão benefícios mútuos. É uma reciprocidade sem benevolência e gratuidade: bastam os incentivos e as instituições justas.
Capítulo 3 Revisão da Literatura
3.3.2.2 Reciprocidade Genuína
Além da reciprocidade instrumental, que foi vista anteriormente, segundo Bruni (2005), nos últimos anos passou-se a falar muito em “reciprocidade genuína” também na economia, sobretudo no terceiro setor ou sem fins lucrativos, ou mais comumente na economia familiar ou de grupos. Atualmente, já se percebe que até nas questões econômicas pode haver espaço para a reciprocidade genuína, muito útil na explicação de fenômenos importantes da economia social, desde a presença de voluntários nas associações até à demanda por serviços relacionais.
Dentre as principais diferenças entre a reciprocidade-contrato e a reciprocidade genuína podem-se citar três:
- Como no contrato, também na reciprocidade genuína encontra-se a bidirecionalidade, mas as duas transferências (de A para B e de B para A) são independentes e livres. Essa bidirecionalidade diferencia a reciprocidade do altruísmo, que se exprime em transferências unidirecionais, embora em ambos os tipos de relação haja transferências independentes e voluntárias. Na reciprocidade, todos recebem e todos doam. A bidirecionalidade é um elemento importante em toda forma de reciprocidade genuína. Se não houver resposta de quem recebe um ato de gratuidade, a relação de (aparente) gratuidade poderá esconder, como muitas vezes esconde, uma relação de poder e de domínio sobre o outro, ainda que sob forma de dávida-sem- reciprocidade. Ao mesmo tempo não se pode definir reciprocidade genuína nem mesmo como “altruísmo recíproco”. O ato altruísta, por si só, também pode ser um ato não-relacional, no sentido de não ser necessário existir entre o altruísta e o beneficiário uma relação pessoal (poderia até mesmo permanecer anônima). Já na reciprocidade genuína, a relação estabelecida entre as partes é a primeira finalidade da própria reciprocidade: o bem relacional criado na reciprocidade é o principal output da relação de reciprocidade genuína, ao qual podem se somar outros outputs tradicionais. Ou seja, o ato altruísta, mesmo no caso do altruísmo recíproco, alcança seu objetivo típico até sem interação pessoal com os destinatários deste ato. Por isso, o altruísmo, quando não acompanhado da reciprocidade, é muitas vezes associado ao paternalismo e ao assistencialismo. A reciprocidade não existe sem o bem relacional. Além disso, a lógica da reciprocidade não é condicional, como no contrato, nem puramente incondicional, como será visto no próximo tipo de reciprocidade. Se, por um lado, é verdade que a prestação de A não é pré-condição para a prestação de B, neste sentido a ação de B expressa gratuidade, por outro lado, sem a resposta de A, B não experimenta reciprocidade. Se A nunca responde, não há reciprocidade. Segundo o
sociólogo Francês A Caillé (1998), esta é uma lógica que foi propositalmente denominada, através de uma expressão paradoxal e sugestiva: “incondicionalidade-condicional”.
- A reciprocidade genuína, portanto, não é um contrato, mas requer a resposta do outro. Ao se considerar que a relação ocorre no decorrer do tempo, existem alguns elementos que podem explicar este fato. A abertura para o outro deve conter um elemento anterior, não condicional, de gratuidade. Mas, para a continuidade da relação no tempo, para que a comunhão seja real, é necessária também a parte do outro, que deve dispor-se a uma atitude de resposta, de reciprocidade.
- Outra característica da reciprocidade genuína é a troca não ser de valores equivalentes em “quantidade” objetiva. Em certos casos, um simples “obrigado” pode ser considerado resposta de reciprocidade ante uma transferência de um “valor objetivo” bem diferente.
3.3.2.3 Reciprocidade-comunhão
Uma vez examinada a reciprocidade genuína, nesta secção serão sugeridos alguns elementos que dizem respeito às características daquela forma de reciprocidade que pode ser chamada “reciprocidade-comunhão”. A comunhão também pode ser entendida como um tipo específico de reciprocidade ou um modo específico de entendê-la. Algumas características específicas da reciprocidade-comunhão são a abertura e a não condicionalidade, sobre as quais se vai discorrer a seguir.
- Abertura: esta é uma característica da reciprocidade-comunhão que não necessariamente está presente na reciprocidade do segundo tipo, descrita anteriormente. Transitividade ou abertura é um termo que significa que a resposta do outro, a atitude de reciprocidade também pode não ser dirigida a quem desencadeou a ação, a relação de reciprocidade, mas sim a uma terceira pessoa. Em outras palavras, A, que realiza um ato de gratuidade para com B, faz uma experiência de reciprocidade não só se B lhe retribui, mas também se B é recíproco para com C.
A → B → C
É isso que torna a comunhão substancialmente diferente de um “encontro de interesses”, podendo ser definida como um “encontro de gratuidades”.
- Não-condicionalidade: é um outro elemento típico da reciprocidade-comunhão. Pode-se neste momento dizer algo sobre a relação entre comunhão e reciprocidade, entrando-se no aspecto mais complexo deste tipo de reciprocidade. A racionalidade da reciprocidade-comunhão,
Capítulo 3 Revisão da Literatura
na sua especificidade, necessita realmente de gratuidade. Isto significa atribuir uma recompensa intrínseca ao comportamento antes de atribuí-la aos resultados, isto é, encontrar sentido no ato de doar antes mesmo que na resposta do outro, como já foi dito. A reciprocidade-comunhão será alcançada quando cada um, pelos seus próprios valores culturais, estiver disposto a agir de modo não condicional.
A comunhão não é, pois, uma realidade holística de um grupo que cancela as diferenças pessoais. Ela nasce das escolhas, dos valores interiorizados e da responsabilidade de cada um. Por isso, a outra face da comunhão, sua possibilidade de existir é paradoxalmente a disponibilidade atuada por seus membros de saberem apostar tudo de si, de saberem transcender-se para que a reciprocidade exista.