• Nenhum resultado encontrado

6.2. Identificação das recomendações internacionais

6.2.2.2. Recomendações dos documentos internacionais

Com base nos procedimentos metodológicos anteriores foi ultimada uma lista com dezassete referências documentais, consideradas importantes para identificar recomendações concretas para as autoridades públicas regionais promoverem o desenvolvimento do turismo sustentável nos destinos turísticos europeus, através da abordagem da governança.

Os documentos validados pelo Painel de Peritos já tinham sido sujeitos a uma análise documental de acordo com os parâmetros apresentados na Tabela 6.1. Uma vez já tratados de forma sistemática na etapa anterior, procedeu-se à análise do conteúdo das mensagens veiculadas por cada um dos documentos, com o objetivo de evidenciar variáveis que permitissem inferir sobre a realidade de um sistema de governança a favor do turismo sustentável. Para Guerra (2006) a análise de conteúdo não é um método, mas sim uma técnica que utiliza o procedimento normal da investigação, razão pela qual tem uma dimensão descritiva e interpretativa. Bardin (1977 e 2014) define análise de conteúdo como “um conjunto de técnicas de análise das comunicações visando obter por procedimentos sistemáticos e objetivos de descrição do conteúdo das mensagens indicadores (quantitativos ou não) que permitam a inferência de conhecimentos relativos às condições de produção/recepção (variáveis inferidas) destas mensagens” (p. 40). A sua utilização tem-se expandido nas últimas décadas para a análise de textos/discursos muito

155

diversificados e a cada vez mais disciplinas, muito favorecida com apoio técnico do desenvolvimento de software específico, como por exemplo o WebQDA ou o NVivo. A maior parte dos dados processados no âmbito de uma pesquisa qualitativa é sujeito a uma análise de conteúdo, cujo procedimento (ponto de partida e forma de tratamento dos dados) depende do paradigma da investigação (Guerra, 2006). Neste caso em concreto, e num primeiro momento de trabalho, optou-se pela análise de conteúdo tradicional, associada à abordagem lógico-dedutiva, que permitiu estruturar previamente algumas categorias e subcategorias de análise com base na teoria e, deste modo, orientar os resultados da pesquisa. Este procedimento visou minimizar a dispersão de informação durante a análise. No entanto, à medida que a exploração dos documentos foi progredindo, verificou-se que existiam outras dimensões e racionalidades patentes nos documentos internacionais que não tinham sido contempladas no referencial teórico inicial. Com base nesta constatação, a estrutura de categorias foi revista, reordenando a existente e introduzindo novas categorias.

i) Âmbito da análise do conteúdo e descrição analítica

No caso do presente estudo, como já referido, o âmbito da análise aplica-se às mensagens contidas nos textos veiculados pelos documentos internacionais que visam promover o turismo sustentável. Recorreu-se à análise do conteúdo na sua função heurística que, tal como refere Bardin (1977 e 2014), “enriquece a tentativa exploratória, aumenta a propensão para a descoberta. É a análise de conteúdo para «ver o que dá»” (p. 31). Segundo a autora, esta função justifica-se nas situações em que o domínio de investigação ainda é pouco explorado, como é o caso presente da governança para o turismo sustentável dos destinos. Na verdade, o Capítulo 5 desta tese permitiu antecipadamente reunir um conjunto de orientações teóricas, sem as quais seria difícil extrair da análise de conteúdo o que se pretendia. Tal como já se referiu, o tratamento descritivo começou por ser feito com base em procedimentos sistémicos (ver características na Tabela 6.1). O objetivo geral estabelecido – identificar recomendações para a governança dos destinos turísticos (depois do painel de peritos identificar os documentos mais importantes) – implicou uma análise categorial baseada na definição de categorias de fragmentação da comunicação, tal como sugerem Bardin (1977 e 2014) e Guerra (2006).

156

Os autores referem que a atitude interpretativa existe na análise do conteúdo e que através dela procura-se identificar a presença de uma ou mais características num determinado fragmento de mensagem. Os critérios de categorização, dependentes dos objetivos definidos previamente, foram estabelecidos com o propósito de serem um referencial lógico de organização da informação, uma vez que as recomendações contidas no conjunto de todos os documentos são muitas e diversificadas. O procedimento, apesar de simples, foi fastidioso.

ii) Organização da análise de conteúdo

A organização da análise de conteúdo dos documentos internacionais seguiu as etapas de pré-análise e exploração do material, tal como sugerido por Bardin (2014).

Pré-análise

A pré-análise corresponde à fase de organização da análise propriamente dita e subdivide- se em três missões, que não têm que se suceder, obrigatoriamente, segundo uma ordem cronológica. Segundo Bardin (1977 e 2014) essas missões são as seguintes: formulação das hipóteses e/ou objetivos; escolha dos documentos a serem submetidos à análise e elaboração de indicadores que fundamentem a interpretação final. No caso do estudo deste capítulo, partiu-se de um objetivo geral previamente estabelecido para responder à questão “Quais as recomendações dos organismos internacionais para a governança dos destinos que visam o desenvolvimento do turismo sustentável?”, através da qual se pretendida obter respostas muito concretas. Nesse sentido foi utilizado o conjunto de dezassete documentos internacionais, como já se referiu anteriormente. Para a pré-análise foi estabelecida uma primeira versão de categorias com base nos principais domínios de competência que uma entidade pública de turismo deve assumir, tal como sugerem Cooper (2012), Goeldner & Ritchie (2009) e Licorish & Jenkins (1997) nas suas abordagens teóricas e empíricas. A opção por este enfoque inicial fundamenta-se no facto de uma governança pública para o turismo sustentável ao nível dos destinos requerer, na maior parte dos países ocidentais, nos quais Portugal se integra, um compromisso significativo por parte do sector público. Na verdade, a extensão do compromisso público neste domínio é demasiado grande e complexa para ser assumida por outro ator, do sector privado ou da sociedade civil, que se possa assumir como líder num processo de interesse público num destino turístico em

157

Portugal. À medida que se encontravam conteúdos [recomendações] relacionados com as competências, foram repartidos pelas respetivas categorias. Para além desta organização, também se pretendia fazer falar os documentos e perceber as ligações entre as diferentes categorias no contexto específico da abordagem através da governança. O recorte do texto em unidades comparáveis de categorização para a análise foi planeado para identificar, numa primeira abordagem, os parâmetros que qualquer sistema de governança de um destino turístico deve respeitar no âmbito do desenvolvimento do turismo sustentável. No entanto, o procedimento revelou-se demasiado ambicioso e complexo à medida que se explorava adicionalmente cada um dos dezassete documentos validados pelo painel internacional de peritos.

Exploração do material e tratamento dos resultados

As operações definidas na pré-análise tiveram como objetivo chegar à fase de análise propriamente dita e aplicar de forma sistemática as decisões tomadas. Nesta fase, segundo Bardin (1977 e 2014), os procedimentos tanto podem ser concretizados manualmente ou efetuados em computador, pois o programa de análise completa-se mecanicamente. Esta fase é tida como longa e fastidiosa devido às operações de codificação e decomposição em função das regras antecipadamente formuladas. A informação contida no texto (dados em bruto) foi tratada para dar resposta ao objetivo previamente definido. Neste caso não se procurou fazer operações estatísticas, simples ou complexas, sobre o conteúdo informativo, mas sim destacar as recomendações sugeridas num contexto de análise exploratória que vise “«ver o que há»” (Bardin, 2014, p. 129).

Codificação

“A unidade de contexto serve de unidade de compreensão para codificar a unidade de registo e corresponde ao segmento da mensagem, cujas dimensões (superiores às da unidade de registo) são óptimas para que se possa compreender a significação exacta da unidade de registo” (Bardin, 2014, p. 133). No caso deste estudo, a unidade de contexto é vasta, pois assenta na identificação de recomendações que concorram positivamente para o funcionamento de um sistema de governança pública num destino definido à escala regional, baseado numa filosofia de desenvolvimento de turismo sustentável. Na verdade, foi uma abordagem muito ambiciosa por remetia para um nível sistémico muito amplo em

158

termos de análise. Em consequência, surgiu um número significativo de unidades de registo, sendo esta entendida como “unidade de significação a codificar e corresponde ao segmento de conteúdo a considerar como unidade de base, visando a categorização e a contagem frequencial” (Bardin, 2014, p. 130). Segundo a autora, predomina alguma ambiguidade na definição de critérios de distinção das unidades de registo (ex. tema, palavra, frase, objeto, personagem, acontecimento), mas defende que na análise de conteúdo o critério de recorte do texto é sempre de ordem semântica, embora reconheça que possa haver correspondência com unidades formais (ex. palavra). Por ser largamente utilizado em análise temática, neste trabalho o critério utilizado é o tema, entendido como “uma afirmação acerca de um assunto. Quer dizer, uma frase, ou uma frase composta, habitualmente um resumo ou uma frase condensada, por influência da qual pode ser afetado um vasto conjunto de formulações singulares” (Berelson, citado em Bardin, 2014, p. 131). Deste modo, mesmo reconhecendo que o tema enquanto unidade de registo tem um significado complexo, considerou-se que, face ao objetivo analítico estabelecido, facilitava a identificação de «núcleos de recomendações» existentes na documentação e mais facilmente poderiam ser associados aos domínios de intervenção apresentados no Capítulo 5.

Categorização

Uma vez que a técnica de análise de conteúdo escolhida foi a análise categorial, as componentes da mensagem analisada foram divididas em categorias (Bardin, 2014; Guerra, 2006) para classificar os conteúdos das mensagens de forma organizada e condensada na perspetiva das recomendações para os destinos turísticos. A categorização permitiu identificar as categorias abordadas, entendidas como classes que reúnem unidades de registo com características comuns sob um título genérico. Deste modo permitiu decompor a mensagem analisada em cada documento e reconstruí-la num novo formato, com a função específica de extrair e identificar as recomendações que são dirigidas a entidades que promovem a governança pública nos destinos turísticos. O que se pretendia era transcrever os dados em bruto para dados organizados em função da perspetiva específica.

Paralelamente identificaram-se recomendações que não tinham correspondência com as categorias previamente estabelecidas, pelo que também foram acrescentadas novas

159

categorias, cuja designação conceptual foi determinada posteriormente. Também houve a necessidade de reagrupar progressivamente algumas categorias por critérios de proximidade de conteúdo. Ainda segundo Bardin (1977 e 2014) as boas categoriais devem possuir as seguintes qualidades: exclusão mútua; homogeneidade; pertinência; objetividade e fidelidade; e produtividade. No contexto em estudo, refira-se que foram sentidas algumas dificuldades em garantir estas qualidades durante a análise dos documentos porque a amplitude de intervenção que os domínios do turismo, sustentabilidade e governança implicam, apresenta algumas recomendações que, em parte, se sobrepõem.

Tabela 6.8.

Categorias estabelecidas para iniciar a análise de conteúdo dos documentos 1. Política turística

Melhores políticas Visão integradora

Metas, objectivos e princípios Coordenação intragovernamental

Integração horizontal Integração vertical

Coordenação com sector privado

Processos conjuntosde consulta e tomada decisão Responsabilidade partilhada e compromisso Princípios de governança Planeamento integrado Planeamento do território Planos estratégicos Planos de acção Instrumentos políticos

Quadro normativo e regulamentar Investimento

Monitorização e avaliação de impatos

2. Investigação e desenvolvimento tecnológico

Informação e conhecimento Cooperação 3. Recursos Humanos Educação / formação Capacity-building Acções de sensbilização

4. Salvaguarda e valorização do património Património natural Património cultural 5. Produção limpa Inovação Produtores Fornecedores 6. Consumo limpo Comunidade Turistas

160

As categorias de recomendações identificadas na Tabela 6.8. repartem-se por diversos domínios de atuação, muito interrelacionados. A organização prévia das categorias de análise foi relativamente simples de estabelecer, mas à medida que se exploravam mais documentos mais dúvidas surgiam sobre questões associadas à organização da informação. As recomendações para o turismo sustentável estão apresentadas com lógicas diferentes, como por exemplo por domínios subsectoriais ou territoriais. Se considerarmos que os documentos analisados são suficientemente universais e flexíveis para permitir a execução das ações em contexto, entende-se que algumas das recomendações podem ser realizadas de forma diferente em função do enquadramento político, histórico, económico e ecológico da região que as integre.

Um dado relevante da análise de conteúdo dos documentos é que as diferentes recomendações, independentemente do organismo que as apresente e do formato que têm, estão articuladas e tendem a convergir para um contexto de governança no qual muitos aspetos ou variáveis têm que ser consideradas. Este aspeto revela que a retórica associada à promoção do desenvolvimento sustentável está universalmente aceite, mas que a forma de operacionalizar as suas metas e princípios é um campo ainda muito por incrementar. Apesar de haver recomendações de carácter geral e transversal a toda a cadeia de valor do turismo, cada ator também tem o seu domínio de responsabilidades. O somatório do esforço individual de cada ator e do esforço coletivo tem que ser articulado num todo coerente, pelo que recomenda uma liderança governativa. Esta abordagem só é possível através de uma metodologia de intervenção que tenha um enfoque sistémico, como é o caso da governança pública em análise nesta tese.

Desta reflexão decorre a identificação dum conjunto variado de iniciativas relacionadas com estruturas e processos de governança, que devem que ser operacionalizadas em função do contexto em que ocorre. Particular destaque de análise foi dada às recomendações sugeridas aos responsáveis por gerir destinos turísticos, enquanto unidades organizacionais, que têm como objetivo promover o turismo sustentável nos seus territórios.

161

6.3. Adesão das entidades regionais europeias de turismo às recomendações