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Reconhecimento e Identidade: o lado do prazer

No documento Maria Bethania Batista.pdf (páginas 45-50)

3 DA PSICOPATOLOGIA À PSICODINÂMICA DO TRABALHO

3.4 Reconhecimento e Identidade: o lado do prazer

Apesar de tudo, ainda há esperança, porque, afinal, é de nós que depende a possibilidade de reencantar o trabalho.

Christophe Dejours

Dejours, por ocasião do I Simpósio Brasileiro de Psicodinâmica do Trabalho, que ocorreu em Brasília, em 2007, fez três perguntas para explicar a importância do reconhecimento:

Por que as pessoas trabalham, por que as pessoas que trabalham se mobilizam tanto e por que mobilizam para isso toda sua personalidade?

Por que os indivíduos correm riscos, assumem responsabilidades em benefício da empresa ou da IES?

Pode-se demonstrar que os sujeitos-trabalhadores assumem responsabilidades em função do binômio contribuição/retribuição?

Dejours (2007b) respondeu nessa conferência que esse envolvimento e os riscos que os indivíduos correm mobilizando toda sua personalidade para a realização da tarefa na organização do trabalho acontecem porque as pessoas esperam uma retribuição, que pode tomar formas materiais a partir do salário, das gratificações, mas pode também assumir formas simbólicas (elogios, apoio dos superiores, entre outros) que atinge uma importância muito mais significativa que a material. Essa retribuição simbólica reveste-se de uma forma específica no trabalho, que é o reconhecimento.

Portanto, vale retomar a definição do trabalho. Trabalhar não é unicamente uma relação individual entre um sujeito e sua tarefa. Trabalha-se sempre para alguém: para seus superiores, para seus colegas ou para seus subordinados. O trabalho é, também, uma relação com o outro. Apresenta-se aqui a questão fundamental da cooperação. Primeiro, a cooperação horizontal com os colegas, com o coletivo de trabalho, com a equipe; segundo, a cooperação vertical com os subordinados, e terceiro, com os chefes (DEJOURS, 2007b).

A cooperação é, segundo Dejours (2007b), algo que exige uma construção e que acontece muitas das vezes de forma precária, pois cooperar significa comprometer-se com o funcionamento coletivo, com a construção, com a estabilização, com a adaptação, com a transmissão e com o respeito às regras. São regras de trabalho. Isso exige daqueles que trabalham muito esforço e muito sofrimento, pois é necessário correr o risco de implicar-se

nos debates coletivos sobre a adaptação das regras que permitem a cooperação, expondo-se assim à crítica e ao olhar dos outros.

Para defender seu ponto de vista, Dejours (2007b) insiste e ressalta que somos envolvidos pelo trabalho, bem além do tempo de trabalho. Tem-se insônia à noite, aborrece-se o cônjuge e os filhos com as preocupações de trabalho. Sonha-se com o trabalho. Com tais afirmações, o autor quer argumentar o quanto se é envolvido com o trabalho todo o tempo. Ele não se reduz simplesmente a um segmento de tempo, à mera repartição de tempo em que se permanece no trabalho. Toda a subjetividade do trabalhador é arrebatada nesse movimento até o mais íntimo do ser. É uma das razões pelas quais se pode ficar doente, ou, ao contrário, ser transformado com alegria pela relação com o trabalho.

Finalmente, Dejours (2007b) declara que esse reconhecimento esperado pelas pessoas que trabalham é um ingrediente essencial da saúde mental. Com efeito, a maioria dos indivíduos apresentam falhas em sua identidade, nunca sendo definitivamente consolidada, permanecendo incerta e inacabada. Falhas herdadas que vêm da infância. Para a maioria dos sujeitos, a identidade não se constrói apenas a partir do eu, mas a partir da confirmação do olhar do outro. A identidade precisa da confirmação do outro, ela se fortalece graças ao olhar do outro, a relação do trabalho é sempre intersubjetiva. Sem o olhar do outro, não é possível ao sujeito dimensionar o valor do seu trabalho e sua contribuição social. É a partir desse olhar que o indivíduo se constitui como sujeito; é justamente na relação com o outro que o indivíduo se reconhece em um processo de busca de semelhanças e de diferenças; são as relações cotidianas que permitem a construção da identidade individual e social, a partir de trocas materiais e afetivas, fazendo com que o sujeito ao longo de toda a sua vida constitua sua singularidade em meio a diferenças (DEJOURS; BEGUÈ, 2010; GERNET, 2012; HELOANI, 2011).

Afirma Dejours (2007b) que ninguém pode escapar completamente a essa questão da identidade, pois ela é a armadura da saúde mental. Toda descompensação psicopatológica é centrada por uma crise de identidade e ela geralmente não é invulnerável. Qualquer um pode um dia ter uma crise de identidade e ficar doente e é, na vida adulta, no espaço da organização do trabalho, que será complementada essa identidade. O trabalho aparece, portanto, como o mediador central da construção, do desenvolvimento, da complementação da identidade e da constituição da vida psíquica.

A maioria dos indivíduos não consegue alcançar a própria identidade, razão pela qual esses sujeitos precisam de confirmação através do olhar do outro. Aí sim o compromisso no

trabalho pode representar um mediador insubstituível para estabilizar e ampliar a identidade (GERNET, 2012; HELOANI, 2011).

Dejours e Bègue (2010) argumentam que existem dois campos em que se operam principalmente a dinâmica da realização do eu e da construção da identidade. O primeiro é a realização do eu no campo íntimo ou erótico: é o amor. O segundo é a realização do eu no campo social que passa sempre pelo trabalho. Logo, o trabalho constitui uma segunda chance para a construção da identidade e da saúde mental, de modo que muitos estão em melhor saúde quando trabalham do que quando privados dele.

O reconhecimento, para Dejours e Bègue (2010), é muito importante uma vez que é por meio dele que o sofrimento pode ser transformado em prazer no trabalho. Pelo reconhecimento, o trabalhador pode mobilizar-se subjetivamente, criando meios efetivos para que o trabalho prescrito aconteça.

Do reconhecimento depende, na verdade, o sentido do sofrimento. Dejours (2007a) argumenta que, quando a qualidade de trabalho é reconhecida, também os esforços, as angústias, as dúvidas, as decepções, os desânimos adquirem sentido. Todo o sofrimento que se passou para a realização do trabalho parece não ter sido em vão, não somente prestou uma contribuição à organização do trabalho, mas fez daquele sujeito, em compensação, uma pessoa diferente daquela que era antes do reconhecimento. O reconhecimento do trabalho ou mesmo da obra pode depois ser reconduzido pelo sujeito ao plano da construção da identidade. E isso se traduz afetivamente por um sentimento de alívio, de prazer, às vezes, de leveza da alma (DEJOURS, 2007a, p. 34).

Mendes e Morrone (2012) corroboram o afirmado por Dejours e Bègue (2010) ao enfatizarem que o reconhecimento por parte dos alunos aparece como parte da construção de saúde dos professores. Por sua vez, a ambivalência e a complexidade inerentes ao trabalho na escola funcionam como fontes geradoras de intenso sofrimento psíquico, e, contraditoriamente, fonte de saúde. A presença do trabalho coletivo, o desenvolvimento de regras de ensino e o reconhecimento por parte dos alunos constituem a possibilidade de construção da saúde dos docentes.

Para Dejours e Bègue (2010), o reconhecimento é um julgamento qualitativo proferido sobre o trabalho, que passa por duas provas principais: o julgamento de utilidade e o julgamento de beleza.

O julgamento de utilidade implica a vantagem econômica, técnica ou social da contribuição proporcionada por um assalariado à empresa. Ele é proferido essencialmente pela hierarquia, eventualmente pelos subordinados, que podem também apreciar de uma

maneira circunstanciada os serviços realizados por um chefe (DEJOURS; BÈGUE, 2010; DEJOURS, 2011e).

O julgamento de beleza diz respeito à conformidade do trabalho realizado com relação às regras da arte e do ofício. Ele pode ser proferido pelos pares, ou seja, por pessoas que conhecem o ofício que está sendo submetido a julgamento. E ele é expresso no léxico da beleza: belo trabalho, belo jeito de fazer, bela obra, demonstração elegante. O julgamento dos pares é a um só tempo o mais precioso, o mais sutil, o mais severo. Vai além da prova da beleza que atesta a conformidade do trabalho avaliado que já tenha sido julgada e considerada como satisfatório (DEJOURS; BÈGUE, 2010; DEJOURS, 2011e).

Trata-se do julgamento sobre o estilo do trabalho que confere ao autor a originalidade em relação aos seus colegas. O primeiro julgamento, o julgamento de utilidade, confere à atividade o estatuto de trabalho stricto sensu, o que a diferencia de uma atividade de lazer ou de um hobby. O segundo julgamento, o de beleza, tem um impacto fundamental sobre a identidade. Quando um trabalhador tem o benefício do julgamento de beleza proferido pelos pares, torna-se, de fato e de direito, membro de uma comunidade de pertencimento, de uma equipe profissional, de um coletivo de trabalho, ou mesmo de um colegiado daquele ofício especificamente (DEJOURS; BÈGUE, 2010; DEJOURS, 2011e).

Dejours e Bègue (2010) salientam que o reconhecimento não é relativo à pessoa do trabalhador. O que se espera é um julgamento sobre o produto de seu trabalho, mais especificamente sobre a qualidade do trabalho. Em um segundo momento, aquele que se beneficia dos julgamentos de reconhecimento, proclamados pelos pares, pode transferir esse reconhecimento do registro do fazer para o registro do ser, ou seja, para o registro da identidade.

De reconhecimento em reconhecimento, o indivíduo fortalece sua identidade, dando- lhe mais consistência, consolidando-a. Dessa forma, entende-se como a psicodinâmica do reconhecimento é capaz de transformar o sofrimento no trabalho em prazer, fortalecendo a identidade. Sendo a identidade a armadura da saúde mental, quando o trabalhador se beneficia de reconhecimento, ele pode tirar proveito do registro da construção de sua saúde mental. No entanto, quando esse reconhecimento lhe é recusado ou mesmo confiscado, surge o risco da desestabilização da identidade e do prazer experimentado na relação de si mesmo, no amor de si (narcisismo). Reconhece-se, pois, que não há assim neutralidade do trabalho frente à identidade e à saúde.

Esse risco, paradoxalmente, é tanto maior quanto o indivíduo se mobiliza ou se engaja em sua atividade profissional e oferece generosamente toda sua competência para a empresa. Inclusive, conforme nos relata Dejours e Bègue (2010), quando há intensa mobilização e não há reconhecimento, esses indivíduos podem se desestruturar de tal forma que, mesmo sem sintomas psicológicos evidentes, podem, em casos extremos, cometer suicídio.

Constata-se o paradoxo, pois os sujeitos querem e precisam ser reconhecidos por seu trabalho. Todavia o trabalho é prescrito, e, para subvertê-lo e ser reconhecido, ele precisa mobilizar-se subjetivamente. Mas só conseguirá mobilizar-se se estiver saudável, o que efetivamente pressupõe o reconhecimento.

A saúde dos professores no Brasil tem sido tema de várias pesquisas. Algumas focalizam especificamente a dinâmica do prazer e sofrimento em que o prazer sobressai em relação ao sofrimento.

Freitas, Brito e Ribeiro (2010) realizarem um estudo de caso com professores de uma IES de ensino superior privada. Os níveis de satisfação dos professores foram os melhores possíveis. Entre os aspectos positivos ressaltados pela pesquisa destaca-se a estrutura física da Faculdade, oferecendo ferramentas para o professor dar uma aula de qualidade; a coordenação dos cursos, oferecendo autonomia e direitos de escolha, dos roteiros a serem abordados e passados para os alunos; a autonomia dos professores. Os professores amam a sua função, primam pela qualidade de seu trabalho, têm prazer em ministrar os conteúdos, organizar, inventar, criar; em desenvolver com responsabilidade e excelência o que foi traçado realizar como profissão. Além disso, é expresso o prazer de ver e ouvir o reconhecimento dos alunos, algo compensador no nível psíquico. O sentido ou a significação do trabalho apresenta-se como ponto fundamental na relação com o desejo e o prazer. Percebe-se, conforme enfatizam Freitas, Brito e Ribeiro (2010), que os professores falam com muita admiração sobre sua atividade, pois o sentido dessa é muito significativo, ajuda-os a relativizar a ansiedade e a enfrentar a demanda desgastante do ato de dar aula.

Vilela, Garcia e Vieira (2011) também estudaram professores do curso de pedagogia da faculdade de educação de uma universidade pública de Belo Horizonte. Concluíram que os professores pesquisados vivenciam em sua prática mais prazer que sofrimento. O prazer está associado à própria prática docente, à produção de conhecimento, à contribuição para formação do aluno e ao convívio com os pares.

Outro estudo que investigou o prazer e sofrimento no trabalho com professores foi o de Pinali (2011). Percebeu-se novamente que os professores analisados vivenciam no exercício de suas atividades mais prazer que sofrimento e consideram que a capacitação e a

autonomia são fatores essenciais para o desenvolvimento de suas atividades, o que possibilita o crescimento profissional e o reconhecimento pelos pares.

Para que efetivamente esse prazer exista, Dejours (2011a) defende um espaço público nas organizações em que a comunicabilidade possa existir, espaço esse denominado de clínica em psicodinâmica do trabalho, assunto que será tratado a seguir.

No documento Maria Bethania Batista.pdf (páginas 45-50)