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Mapa 3 Extremo Oriente

3.1 RECONSTRUINDO A CORÉIA DO NORTE

Antes de aprofundar o debate acerca da criação do Estado norte-coreana, é necessário pontuar uma característica que a Coreia do Norte apresenta ainda nos dias de hoje, que é o isolacionismo como uma herança cultural.

Diferente da Coreia do Sul, os norte-coreanos demonstram um vestígio desta prática, por meio da sua falta de diplomacia internacional e de parceiros nas áreas político-econômica, a falta de misturas étnicas evidencia esta particularidade da Coreia do Norte, isto se deve ao fato de que a península coreana, durante a sua era monárquica praticava um isolacionismo muito forte, ao ponte de ser chamada de ilha ermitão, pelos seus vizinhos China e Japão. Uma característica que por fim foi herdada principalmente pela Coreia do Norte. Dito isto iremos abordar a fundo agora o nascimento do Estado da Coreia do Norte.

Com o fim da guerra da Coréia, ambos os Estados se encontravam destruídos, os anos posteriores foram marcados como um período de reconstrução. No caso norte-coreano, o que se sucedeu foi uma industrialização, patrocinada por chineses e soviéticos, além da concretização de Kim II Sung como “líder supremo” da Coréia do Norte (LOWE, 2011).

Antes de reforçar a atuação de tais potências, é necessário pontuar a formação da filosofia “Juche”, a principal ideologia que moldou o pensamento norte-coreano. A filosofia Juche ou Zuche é o sistema ideológico implementado por Kim II Sung nos anos 1960 na

Coreia do Norte, se configura hoje como o princípio que norteia a política externa e interna do Estado norte-coreano (MARTINEZ; MARTINS, 2016).

Essa filosofia tem como base quatro princípios: a autossuficiência econômica, autonomia na ideologia, independência na política e independência na defesa.

A ideologia e independência política eram mais voltadas para a esfera social, tinham como objetivo a propagação e fixação da ideia Juche em todas as camadas da sociedade norte- coreana. Já a autossuficiência econômica, consiste em fomentar a indústria e agricultura, o objetivo principal era quebrar a dependência que a Coreia do Norte tinha dos seus aliados e tornar a economia independente e autossuficiente (LOWE, 2011).

Por último, a independência na defesa tem como base o desenvolvimento militar para assegurar a um Estado soberano e independente (KIM II SUNG, 1982). A filosofia Junche foi, e ainda é, a linha ideológica vigente na Coreia do Norte, dando os parâmetros a serem seguidos pelos cidadãos. Desta forma, percebe-se que os norte-coreanos adotaram uma filosofia, que tinha como intuito, estabelecer o interesse nacional em primeiro lugar, ignorando muitas vezes as diretrizes dos seus aliados (MELCHIONNA, 2014).

Com as diretrizes ideológicas já estabelecidas, a Coreia do Norte tinha como principais aliados a China e a extinta URSS, além de interesses em comum, os norte-coreanos recebiam apoio principalmente dos soviéticos. A União Soviética investiu grandes somas na criação de uma indústria pesada na Coreia do Norte (BRITES, 2014).

A RPDC, logo na década de 60, apresentava uma política externa de equilíbrio entre os dois gingantes comunistas. Vizentine e Pereira (2014) destacam que mesmo os norte- coreanos receberem remessas de investimento soviético e a relação com a China era considerada de vital importância estratégica. A Coreia do Norte mantinha um importante relacionamento com seus aliados, principalmente na década de 1960, por outro lado, a convivência com a sua vizinha, a Coreia do Sul continuava tensa, principalmente por causa da constante presença militar estadunidense na região. Desse modo a península coreana foi dividida em dois blocos, de um lado a Coreia do Sul sendo apoiada pelos EUA e o Japão, enquanto isso a Coreia do Norte recebia ajuda dos chineses e soviéticos.

Durante a guerra fria, a política norte-coreana passa por alguns redirecionamentos.Isso é evidente, principalmente no começo da década de 1970, pois segundo Melchionna (2014) a entrada da China no conselho de segurança em 1971, substituindo Taiwan e posteriormente o aperto de mão entre Nixon e Mao Tsé-Tung em 1972, mudou o panorama do extremo oriente e trouxe um novo paradigma, a relação entre os chineses e norte-coreanos.

A aliança entre Kim e Mao estava agora estremecida. A China ocupara um novo campo de atuação entre os dois lados (diplomacia Ping-Pong5), a Coréia do Norte se

movimentava agora com uma certa dúvida sobre o real posicionamento chinês e, principalmente, a crescente diferença de pensamento (MELCHIONNA, 2014), essa heterogeneidade ideológica aumenta ainda mais com a implementação da economia de mercado socialista6 pelo então líder supremo Deng Xiaoping.

Em resposta ao posicionamento Chinês, a Coréia do Norte aplica uma política externa mais voltada na manutenção e aproximação com os soviéticos, o ponto alto acontece em 1985, onde 55% da transação comercial era feita somente com a URSS. Com o desfecho da guerra fria mais próximo e a eminente destituição da União Soviética, a economia norte- coreana logo começou a sentir os efeitos da diminuição substancial da sua produção, quando a URSS se dissolveu em 1991, a Coreia do Norte perdeu seu principal aliado e fornecedor de petróleo subsidiado e fertilizantes (VIZENTINE; PEREIRA, 2014).

Com a mudança do panorama político internacional e regional, a Coréia do norte ensaia uma aproximação com a Coreia do Sul, que acaba culminando na entrada de ambos na ONU em 1991 e no acordo de “Acordo para reconciliação, Não-agressão, cooperação e intercâmbio entre o Norte e Sul”. Brites (2014) destaca que essa aproximação se deu, principalmente, pela grave crise energética que se passava na Coréia do Norte e também pela escassez de alimentos para a população.

Com a morte Kim II Sung em 1994, as negociações entre a sua vizinha, a Coréia do Sul e os Estados Unidos esfriaram, principalmente, pelo obstáculo da questão nuclear e também pela dúvida que pairava no sistema internacional, de como a Coréia do Norte ia reagir frente a perda do seu maior símbolo.

A eleição de Kim Dae-jung a presidência da Coréia do Sul em 1998, trouxe um novo redirecionamento ao posicionamento adotado perante os norte-coreanos, considerado um progressista. Kim foi o idealizador da política Sunshine, que tinha como objetivo estabelecer uma ajuda mútua entre os dois Estados, para tal fim, o projeto tinha pontos substanciais como: a não tolerância a insultos ou ameaças por parte da Coréia do Norte, unificação não por absorção, mas sim, por etapas que incluem convivência pacífica e depois integração política e como último ponto, a cooperação econômica entre ambos os Estados. Visando essa

5 Política utilizada pela China na década de 1970 que tinha como base estabelecer vínculos diplomáticos com os

Estados Unidos e em paralelo manter a aliança com a URSS, ganhando assim recompensas de ambos.

aproximação, a Coreia do Sul forneceu ajuda humanitária e cultural reunindo as famílias coreanas separadas pela guerra, deste modo Brites (2014) assinala que a política Sunshine tinha como base inicial estabelecer uma cooperação mútua e por fim, a aproximação política com o ultimo intuito de uma unificação total.

Entre 1998 e 2003, a política Sunshine conseguiu estabelecer um ambiente favorável a paz e reconciliação entre as duas Coreias. É necessário destacar dois pontos que fizeram a política Sunshine declinar: o primeiro foi o fim do mandato de Kim Dae-jung em 2003, seu sucessor Roh Moo-hyun (2003-2008), não conseguiu dar continuidade a essa política e, posteriormente, o presidente Lee Myung-bak (2008-2013) voltou a apresentar uma política externa mais rigorosa perante a Coréia do Norte (AXELBLOM, 2017).

O segundo ponto da virada, foi a chegado de George W. Bush a presidência em 2001, nesse mesmo ano foi criado o chamado Eixo do Mal, a inclusão da Coréia do Norte a este grupo ocasionou uma nova instabilidade na região e fez retroceder os avanços alcançados pelo então ex-presidente sul-coreano Kim Dae-jung e a sua Sunshine policy.

O primeiro mandato do presidente Bush apresenta uma característica mais rigorosa e pragmática em relação à Coréia do Norte, já seu segundo mandato assume uma postura mais diplomática e focada na negociação (DEREWIANY, 2011).

É importante analisar que a realização do primeiro teste nuclear em 2006, foi possível por um conjunto de fatores como: O fracasso na negociação das seis partes7 em 2003 e

novamente em 2005, a posse de Lee Myung-bak na Coreia do Sul e George W. Bush nos Estados Unidos, dois presidentes que expressaram forte oposição ao regime norte-coreano, além de que , como destaca Brites (2014), as sanções econômicas impostas que impossibilitavam a circulação de ativos norte-coreanos na economia mundial.

A junção desses elementos com a adição da ideologia Juche, que ordena o pensamento norte-coreano, deu o impulso necessário para a manutenção e continuação do programa nuclear bélico da Coréia do Norte, levando assim a realização do primeiro texto nuclear em 2006.

Entre o fim do mandato de Bush e a chegada de Barack Obama em 2009 ainda houve negociações das seis partes que se demonstrou infrutífera, levando a outro teste de longo alcance que cai no pacífico em 2009.

7 A Six-party talks são rodadas de negociações compostas por Coréia do Norte, Coréia do Sul, Estados Unidos,

China, Japão e Rússia, começou em 2003 e tem como objetivo fomentar a cooperação com a Coréia do Norte e promover o desarmamento nuclear da mesma.

A política externa estadunidense para a Coréia do Norte ganhou uma nova perspectiva com a eleição de Obama, com a nova administração encabeçada pelos Democratas tendo como Hilary Clinton liderando o secretário dos Estados Unidos, aplicaram a Strategic Patience ou política da paciência estratégica, que tem como base, a premissa de pressionar a Coréia do Norte através do corte de negociações entre ambos e aliados, o endurecimento de sanções econômicas, aumento da pressão do sistema internacional por meio da ONU e por fim pressionar a China a tomar uma atitude mais rigorosa perante os testes nucleares e provocações de guerra feita pelos norte-coreanos (HYUN, 2017).

Com a morte do líder Kim Jong-Il em 2011, a Coréia do Norte passou por um período semelhante a morte do patriarca Kim II-Sung em 1994, um tempo de dúvidas e apreensões de como os norte-coreanos iriam reagir à sucessão. Kim Jong-Un8 assumiu o poder 2011 mantendo o regime forte e dando continuidade ao programa nuclear, que realizou em 2013, o seu terceiro teste dando início a uma crise internacional e elevando o nível de tensão no extremo oriente, caso que será discutido na pesquisa empírica.

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