Os saberes descritos que constituem nosso corpus podem ser considerados, de acordo com Lankshear e Knobel (2008), materiais existentes prévios à nossa investigação, ou seja, que não foram produzidos em função da pequisa, mas que já existiam na situação natural a ser investigada. Tanto os materiais existentes como aqueles gerados em situações criadas para coleta de dados (como será o caso do grupo focal) podem ser tratados, de acordo com os autores, pela “análise de categorias”, abordagem considerada válida para analisar dados escritos e verbais, implicando sua organização sistemática em agrupamentos similares. Udo Kelle explica que esta é uma tarefa que tem por objetivo propor padrões significativos na estrutura dos dados, sendo geralmente realizada por meio “da comparação de diferentes partes dos dados, a fim de encontrar atributos comuns, diferenças ou relações entre eles (KELLE, 2002, p. 397). Para Ian Dey (1993), categorizar dados e fazer conexões entre categorias constituem o núcleo da análise qualitativa, que buscaria descrever o fenômeno, classificá-lo e ver como seus conceitos se interconectam.
(2008, p. 226) como a “aplicação de códigos às informações coletadas, ‘sinalizando’ ou lembrando o pesquisador sobre que dados pertencem a que categorias”, as quais “requerem “uma definição explícita ou um conjunto de critérios para guiar sua aplicação” (LANKSHEAR; KNOBEL, 2008, p. 226). Em nosso processo de codificação, usamos um programa de computador do tipo CAQDAS (Computer Assisted Qualitative Data Analysis Software)24, que nos proporcionou maior agilidade na atribuição dos códigos a segmentos textuais e recuperação dos segmentos assim codificados, permitindo a constituição de bases da dados online acessados por meio de hiperlinks relacionados a cada código.
Em função de nossos interesses de pesquisa, constituímos nosso corpus de saberes descritos de Língua Portuguesa dos Ciclos III e IV produzidos no ano de 2015, época em que ocorreram as sessões de grupo focal. Como dissemos anteriormente, o recurso de produção de relatórios do Sistema Integre foi imprescindível para acessarmos todos os saberes registrados por trimestre do 6º ao 9º ano do ensino fundamental. Em 2015, havia em torno de 80 professores de Língua Portuguesa atuando nestes Ciclos, atendendo 8219 alunos em 34 escolas da rede municipal25. Portanto, se anualmente são produzidos quatro grupos de saber por trimestre em cada escola, teríamos um total de 1584 saberes de LP nos Ciclos III e IV, considerando a especificidade das três escolas de educação integral que organizavam seu ano letivo por semestre26. Entretanto, encontramos em torno de 380 ocorrências de “saberes inválidos”, assim classificados por nós quando pertenciam a uma destas situações: campo em branco; campo com caracteres aleatórios; campo com indicação “em construção” / “em andamento”; ou descrição inadequada de acordo com os critérios estipulados em Comunicado da SME (CAMPINAS, 2013a), explorados ao final desta seção. Portanto, nossa base de dados total é composta por aproximadamente 1200 saberes válidos, correspondentes aos quatro grupos de saber dos três trimestres em cada escola.
Neste ponto, é necessário esclarecer o que estamos chamando de saber na análise do material escrito: trata-se do texto de autoria docente que constitui um grupo de saber. O termo grupo de saber poderia sugerir que cada grupo é composto por mais de um saber. Ainda que se possa falar que um grupo de saber conteria vários saberes de um aluno, esta não é nossa perspectiva de análise. Para o uso desta terminologia, estamos acompanhando as
24 Em nosso caso, usamos o software RQDA, produzido em linguagem “R” (livre e gratuita), nos sistemas operacionais Debian e Fedora (baseados em Linux), para análise qualitativa de dados textuais. O programa pode ser encontrado em sua página eletrônica: http://rqda.r-forge.r-project.org/ (acessado em dezembro de 2015).
25 A Rede Municipal de Campinas é composta por 45 escolas ao todo, sendo que 34 delas atendem também os Ciclos III e IV, enquanto que o restante atende apenas anos iniciais ou EJA.
26 Neste ano, havia cinco escolas deste tipo na rede, sendo que duas delas atendiam apenas os Ciclos I e II. A partir de 2016, as escolas de educação integral também passaram a organizar seu ano letivo por trimestres.
definições do sistema que, na Ficha de Avaliação Descritiva, estipula como saber, no singular, aquilo que deve ser inserido em campo próprio para definir o grupo de saber. Estamos chamando de conjunto de saberes de um trimestre, a sequência formada pelos quatro grupos de saber (G1 a G4) que constituem a descrição completa, a qual nos permite analisar a gradação de saberes de um grupo a outro no mesmo conjunto. Por gradação, entendemos as estratégias linguístico-discursivas que produzem diferenciação entre os grupos, expressando uma apreciação valorativa do professor sobre os objetos de ensino avaliados (definidos na próxima seção).
Assim, a noção de grupo de saber diz respeito ao âmbito dos professores, que devem descrever o saber de cada grupo a ser atribuído aos alunos. Do ponto de vista dos alunos e seus responsáveis, há somente o saber que consta na FAD, sem alusão a qual grupo este saber pertence. Como vimos nos documentos de implementação, esta é uma orientação que busca evitar o uso dos saberes como uma segunda linguagem de avaliação, que poderia acrescentar, aos conceitos já usados, possíveis “notas” de G1 a G4. Outro argumento seria a necessidade de minimizar o risco de classificação de alunos em situações que não fossem apenas de planejamento dos grupos, resultando em sua “rotulação”.
Esta é a situação da totalidade dos saberes a que tivemos acesso:
Tabela 3.1 – Saberes acessados e saberes válidos
6º ano 7º ano 8º ano 9º ano TOTAL
Quantidade de saberes a preencher 396 396 396 396 1584
Campos em branco 20 12 20 24 76
Campos com caracteres aleatórios 32 8 32 20 92
Campos com indicação “em andamento” 20 36 36 32 124
Saberes inadequados 24 24 16 24 88
Saberes válidos 300 316 292 296 1204