4.4 DECISÕES JUDICIAIS A RESPEITO DO TEMA
4.4.3 Recurso Inominado n o 0307060-45.2018.8.24.0011
De outro norte, a colenda Primeira Turma Recursal de Santa Catarina decidiu de maneira oposta à decisão anterior, consoante a ementa do Recurso Inominado nº 0307060-45.2018.8.24.0011:
RECURSO INOMINADO. DIREITO PROCESSUAL CIVIL. CERCEAMENTO DE DEFESA. JULGAMENTO ANTECIPADO DA LIDE A DESPEITO DE HAVER MATÉRIA DE FATO CONTROVERSA E PEDIDO DE PRODUÇÃO DE PROVA TESTEMUNHAL. SENTENÇA QUE ADOTA COMO FUNDAMENTAÇÃO A AUSÊNCIA DE PROVA TESTEMUNHAL COMO BASE PARA O ÉDITO DE PROCEDÊNCIA. AUDIÊNCIA DE INSTRUÇÃO. RITO DA LEI N.º 9.099/95. INOBSERVÂNCIA. ANULAÇÃO DA SENTENÇA. RECURSO CONHECIDO E PROVIDO.214
O recurso foi interposto contra sentença que julgou antecipadamente o mérito, sob o fundamento a ausência de prova testemunhal. O recorrente alega que protestou pela produção de prova no decorrer do processo, tanto quanto a expedição de ofício para Receita Federal para o fornecimento da Declaração de Imposto de Renda da parte recorrente, e também para que a parte recorrida apresente a nota fiscal eletrônica correspondente ao negócio mercantil realizado entre as partes, quanto a oitiva de testemunhas, além da produção de prova pericial, incabível nos juizados especiais, por força dos princípios que norteiam a Lei 9.099/95.215
A colenda Turma, por unanimidade, reconheceu a nulidade processual e cassou a sentença, a fim de que seja realizada audiência de instrução e julgamento. Ao votar, reconhece o Relator que o recorrente foi surpreendido com o julgamento antecipado do mérito, tendo em vista que não lhe foi facultado a produção de prova testemunhal. Encerra o voto evidenciando que, diante da alta densidade da prova testemunhal na hipótese concreta, foi configurado o cerceio de defesa.
Abordados os princípios que norteiam os Juizados Especiais Cíveis, com foco na celeridade processual e duração razoável do processo e, precipuamente, verificada
214 SANTA CATARINA. Primeira Turma Recursal. Recurso Inominado nº 0307060-
45.2018.8.24.0011. Relator: Juiz Davidson Jahn Mello. Florianópolis, 24 de setembro de 2020.
Disponível em:
http://busca.tjsc.jus.br/jurisprudencia/html.do?q=julgamento%20antecipado%20cerceamento%20d efesa&only_ementa=&frase=&id=AAAgOzAAVAALyfvAAH&categoria=tr5. Acesso em: 11 out. 2020.
215 BRASIL. Lei nº 9.099, de 26 de setembro de 1995. Dispõe sobre os Juizados Especiais Cíveis e Criminais e dá outras providências. Brasília, DF: Presidência da República, 1995. Disponível em: http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/l9099.htm. Acesso em: 30 set. 2020.
a possibilidade, ou não, do julgamento antecipado do mérito caracterizar cerceamento de defesa no rito sumaríssimo e decisões judiciais relativas ao tema, são expostas, a seguir, conclusões pertinentes à temática.
5 CONCLUSÃO
A prova, no âmbito do processo civil, é um instrumento decisivo no alcance da paz social e, conforme mencionado ao longo do trabalho, a arte do processo consiste, essencialmente, na devida administração das provas. Nesse sentido, a ampla defesa tem como finalidade assegurar que as partes gozem de todos os meios legais à obtenção de uma sentença favorável, passando pela produção das provas necessárias à essa conquista.
Cada parte tem o ônus de provar os pressupostos fáticos do direito dentro da relação processual e, uma vez que o destinatário da prova é o magistrado, o conjunto probatório deve ser suficiente para demonstrar com clareza os fatos que sejam relevantes ou influentes para com a causa ajuizada. Ademais, o juiz deve avaliar as provas sem valer-se de suas convicções pessoais, tendo em vista o princípio da imparcialidade.
Neste norte, os Juizados Especiais Cíveis atendem às demandas de menor complexidade, para as quais seja suficiente uma versão simplificada do rito comum, visando a celeridade e economia processual. Dessa forma, a parte que opta por essa via está renunciando, de forma implícita, a segurança jurídica que teria no juízo comum, em prol da agilidade na resposta jurisdicional.
O julgamento antecipado do mérito está em sintonia com os princípios que norteiam os Juizados Especiais Cíveis, portanto, para que não seja caracterizado cerceamento de defesa, a decisão deve ser fundada em cognição exauriente, proferida após a fase de saneamento, em que o juiz reconheça a desnecessidade de uma maior dilação probatória em audiência de instrução e julgamento.
A posição do acadêmico a respeito da temática, não obstante os Juizados Especiais Cíveis serem regidos pelos princípios da economia e celeridade processual, é pela caracterização do cerceamento de defesa com o julgamento antecipado do mérito. O ônus probatório cabe às partes, portanto, o titular do direito deve ter a possibilidade de produzir as provas que julgue necessárias para obtenção de uma sentença favorável. Por conseguinte, quando o magistrado julga antecipadamente o feito, mesmo tendo a parte requisitado a produção de prova em audiência instrutória, sob o argumento de desnecessidade de outras provas, poderá ser caracterizada a ocorrência de cerceamento, tendo em vista o princípio da ampla defesa.
O objetivo principal do presente trabalho consistiu em verificar, em que situações o julgamento antecipado do mérito caracteriza cerceamento de defesa no âmbito dos Juizados Especiais Cíveis. Foi respondido, assim, o problema de pesquisa estabelecido. O acadêmico destaca o importante aprendizado adquirido durante a construção do presente trabalho, seja pelo tema de ordem prática, seja pelas diferentes perspectivas sobre as quais os julgadores vislumbram o mesmo fato jurídico. A temática permanece em discussão nas Cortes e, por isso, requer estudo constante.
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