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3.5 Processamento do IRDR

3.5.7 Recursos e Revisão da Tese

julgamento de recurso extraordinário ou especial, a reclamação contra a inobservância da tese assentada será dirigida ao STF ou ao STJ conforme o caso206.

Em relação à consequência do descumprimento, Humberto Theodoro Júnior, Dierle Nunes, Alexandro Melo Franco Bahia e Flávio Quinaud Pedron207 asseveram que:

Contra o descumprimento da tese fixada, caberá Reclamação (art. 985, § 1º).

Atente-se que o caráter normativo da ratio decidendi do acórdão no IRDR, sendo um precedente sobre certa matéria, não exime, no entanto, o intérprete de nele selecionar os fatos relevantes a serem extraídos para comporem a norma que servirá de ponto de partida para casos futuros. O enunciado universal não está pronto e acabado no precedente, aguardando que alguém o aplique sem maiores dificuldades em um caso análogo. A sua elaboração depende, substancialmente, da seleção dos fatos considerados relevantes para o deslinde da controvérsia, e isto constitui tarefa dos participantes do diálogo processual, que debaterão sobre a aplicabilidade de determinado precedente com base naquilo que deve e não deve ser considerado relevante, inexistindo fórmula apriorística para resolver essa questão. [...] o uso do direito jurisprudencial não se limita à mera transcrição mecânica de ementas, trechos de votos ou enunciados de súmula, escolhidos em consonância com o interesse de confirmação do aplicador, de acordo com suas preferências; é preciso promover uma reconstrução de toda a história institucional do julgamento do caso, desde o seu leading case, para que evitemos o clima de self-service, ao gosto do intérprete, que vivenciamos na atualidade.

Ultimando a contenda, é certo que a aplicação da tese jurídica decidida pelo IRDR demanda exame desde a delimitação, até a forma posta e a vinculação necessária, aplicado nos casos parelhos, ressaltando novamente que, a divulgação e o registro se dará por cadastro do Conselho Nacional de Justiça, alimentado pelos tribunais (art. 979, § 1º208).

986. A revisão da tese jurídica firmada no incidente far-se-á pelo mesmo tribunal, de ofício ou mediante requerimento dos legitimados mencionados no art. 977, inciso III.

Art. 987. Do julgamento do mérito do incidente caberá recurso extraordinário ou especial, conforme o caso.

§ 1º O recurso tem efeito suspensivo, presumindo-se a repercussão geral de questão constitucional eventualmente discutida.

§ 2º Apreciado o mérito do recurso, a tese jurídica adotada pelo Supremo Tribunal Federal ou pelo Superior Tribunal de Justiça será aplicada no território nacional a todos os processos individuais ou coletivos que versem sobre idêntica questão de direito.

Os recursos, conforme disciplinados são especial ou extraordinário, além dos embargos declaratórios.

Quanto à competência observa-se que a revisão da tese é realizada pelo mesmo tribunal que julgou o IRDR e em relação ao julgamento caberá recurso extraordinário ou especial, a depender da matéria e enquadramento, conforme a Constituição Federal (matéria constitucional ou ofensa a lei federal).

Note-se que, normalmente, os incidentes processuais não admitem recurso desse porte, que deveria ser utilizado apenas em face do julgamento do caso concreto que, aplicando a tese firmada em determinado incidente, eventualmente se insira nos casos dos arts. 102 ou 105, da CF. Entretanto, em face do incidente de resolução de demandas repetitivas, concebeu-se situação peculiar. A fim de que a tese firmada não seja aplicada indistintamente a inúmeros processos, gerando ainda maior risco à isonomia e à segurança jurídica, o novo Código prevê que a decisão do incidente possa desde logo ser impugnada por esses recursos excepcionais, independentemente da posterior aplicação que seja dada no caso concreto209.

Há também, outro detalhe interessante, que trata da repercussão geral exigida ao recurso extraordinário (art. 102, III, § 3º, CF)210, presumida no recurso do IRDR, que ainda terá efeito suspensivo, independendo também de juízo de admissibilidade no juízo de origem.

É evidente que todo recurso extraordinário, cuja admissibilidade é regulada pela própria Constituição, deve atender ao requisito da repercussão geral. É o que expressamente prevê o texto da Lei Maior. Mas, o que o novo CPC faz, no tocante ao recurso contra a decisão do incidente de resolução de demandas

209 MARINONI, 2015, loc. cit., p. 584.

210 § 3º No recurso extraordinário o recorrente deverá demonstrar a repercussão geral das questões constitucionais discutidas no caso, nos termos da lei, a fim de que o Tribunal examine a admissão do recurso, somente podendo recusá-lo pela manifestação de dois terços de seus membros.

repetitivas não é dispensar a repercussão geral. É apenas dispensar sua demonstração, visto que decorre, necessariamente das dimensões sociais do ato judicial, já que pronunciado para valer erga omnes, indo muito além, portanto, dos interesses interindividuais disputados no processo originário211.

Ademais, no intuito de preservar a segurança jurídica, qualquer das partes (parte do incidente ou parte em processo no qual se discuta a questão de direito objeto do incidente), o Ministério Público ou a Defensoria Pública (quando participar do incidente) poderá solicitar ao tribunal superior – ao qual será dirigido o recurso excepcional – a suspensão de todos os processos que discutam a questão de direito a ser apreciada, e que tramitam no território nacional. A suspensão, nesse caso, pode ser postulada depois de já oferecido o recurso especial ou extraordinário, ou ainda antes de sua interposição. Porque a intenção é preservar a unidade na interpretação do direito, ainda que a questão não tenha chegado à instância superior, pode haver a necessidade de que a paralisação de todas as causas em que a questão de direito é tratada seja determinada. Logicamente, se não houver, futuramente, a interposição de recurso especial ou extraordinário, o efeito suspensivo nacional caducará (art. 982,

§ 5.º). De todo modo, deferida a suspensão nacional, todos os processos do Brasil em que a questão de direito ventilada no incidente de resolução de demandas repetitivas tenha sido apresentada ficarão paralisados, aguardando a decisão da corte superior a respeito da matéria. Porém, também para os recursos especial e extraordinário eventualmente interpostos contra a decisão do incidente, vale a regra de que o seu julgamento deve ocorrer no prazo máximo de um ano, sob pena de cessar a suspensão dos processos determinada, salvo decisão do relator em sentido diverso212.

Sofia Temer discute sobre a legitimidade para a propositura dos recursos extraordinários, afirmando o seguinte:

Parece não haver dissenso acerca da legitimidade recursal dos sujeitos condutores, que são inclusive denominados como “partes” no texto legal, e tampouco sobre a legitimação do amicus curiae, porque, neste caso, há disposição legal expressa admitindo a interposição (art. 138,§ 3º, CPC/2015).

[...]

A situação mais problemática refere-se, então, à legitimação e interesse dos sujeitos sobrestados. Boa parte da doutrina vem defendendo a possibilidade de tais sujeitos interporem recursos contra a decisão do IRDR, notadamente os que defendem a intervenção para participação no debate, inclusive por

211 THEODORO JÚNIOR, v. 3, 2017, loc. cit., p. 935.

212 MARINONI, 2015, loc. cit., p. 584-585.

força de uma nova concepção de interesse recursal. A legitimidade recursal foi reconhecida, ademais pelo Fórum Permanente de Processualistas Civil, que editou enunciado a este respeito213.

Nesse sentido, Enunciado 94: A parte que tiver o seu processo suspenso nos termos do inciso I do art. 982 poderá interpor recurso especial ou extraordinário contra o acórdão que julgar o incidente de resolução de demandas repetitivas.

Já quanto à reanálise, Sofia Temer214 pondera que a tese jurídica fixada no incidente de resolução de demandas repetitivas, apesar de adquirir estabilidade, não é imutável ou insuperável. Com efeito, apesar de desejada, a segurança jurídica decorrente da fixação da tese não pode ser um óbice intransponível para sua superação ou revisão, caso tal tese se torne inadequada ou inefetiva, o que pode ocorrer pela evolução natural da sociedade, do sistema jurídico, das condições políticas, culturais, dentre outros fatores, como inclusive, o erro da tese jurídica.

Marcos Cavalcanti215 leciona que na verdade, o procedimento de revisão nada mais é do que um “IRDR revisional”. Esse incidente revisional será instaurado com a finalidade de o tribunal fixar uma nova decisão com eficácia vinculante para os processos repetitivos com vistas a autorizar a superação do precedente vinculante. A superação do precedente independe da instauração e do julgamento do “IRDR revisional”. Qualquer juiz pode superar precedente vinculante, desde que faça de forma adequada e fundamentada, demonstrando as razões pelas quais o precedente não mais se aplica ao caso concreto. O objetivo do “IRDR revisional” é, como dito, a análise concentrada da superação do precedente e a fixação de nova decisão com eficácia vinculante.

É claro que o pedido de revisão da tese deverá ser substancialmente fundamentado, indicando motivos idôneos a que o tribunal supere o entendimento anterior, o que em geral decorrerá da revogação ou modificação da lei em que ele se baseou, ou em alteração econômica, política, cultural, ou social referente à matéria decidida216.

Nesse mesmo sentido é o disposto no enunciado 322 do FPPC, onde:

“(art. 927, §4º). A modificação de precedente vinculante poderá fundar-se, entre outros

213 TEMER, 2016, loc., cit., p. 246.

214 TEMER, 2016, loc., cit., p. 253.

215 CAVALCANTI, 2016, loc. cit. 349.

216 MENDES e TEMER, In: ZANETI JR., Hermes (coord.). DIDIER JR., Fredie (coord. geral), 2016, loc.

cit., p. 621.

motivos, na revogação ou modificação da lei em que ele se baseou, ou em alteração econômica, política, cultural ou social referente à matéria decidida.”.

Outra situação a ser considerada, concerne ao procedimento da revisão, ou seja, da mesma maneira de discussão do IRDR há a possibilidade de audiências públicas e intervenção do amicus curiae, demais interessados, órgãos e entidades com interesse na controvérsia, relativo ao que dispõe o artigo 983.

Caso o tribunal entenda pela alteração da decisão com eficácia vinculante, pode deliberar por modular os efeitos da decisão que vier a superar o entendimento anterior, atribuindo-lhe efeitos prospectivos ou limitando sua retroatividade, desde que ocorra no interesse social e no da segurança jurídica (art.

927, § 3º, do NCPC). Acerca do assunto, o Enunciado 55 do Fórum Permanente de Processualistas Civis: “Pelos pressupostos do § 3º do art. 927, a modificação do precedente tem, como regra, eficácia temporal prospectiva. No entanto, pode haver modulação temporal, no caso concreto"217.

Ademais, para evitar insegurança jurídica e visando a proteção da confiança e da isonomia, o Fórum Permanente de Processualistas Civis editou enunciado que orienta os tribunais a alertarem os jurisdicionados acerca da possibilidade de alteração da tese jurídica218, o que abrirá inclusive a possibilidade de os interessados reascenderem o debate sobre o tema, através das vias próprias219.

Portanto, após a definição da tese pelo incidente existem duas formas para buscar a discussão e proposição de mudança da situação determinada que se limitam na interposição de recursos extraordinário e especial, com requisitos a serem seguidos, além da revisão da decisão, tratando-se do IRDR revisional, conforme denomina Cavalcanti, abrindo novamente a possibilidade de participação das partes, interessados e intervenções, devendo abordarem o tema com fundamento sólido para discutir a mudança, possibilitando além da alteração do entendimento, caso aceito, a modulação dos seus feitos, sempre apresentando a devida publicidade expressa do art. 979220.

217 CAVALCANTI, 2016, loc. cit. 351.

218 Enunciado 320. Os tribunais poderão sinalizar os jurisdicionados sobre a possibilidade de mudança de entendimento da corte, com a eventual superação ou a criação de exceções ao precedente para casos futuros.

219 MENDES e TEMER, In: ZANETI JR., Hermes (coord.). DIDIER JR., Fredie (coord. geral), 2016, loc.

cit., p. 622.

220 Naturalmente, toda publicidade e cautela previstas para o processamento do incidente de resolução de demandas repetitivas haverão de ser cumpridas também na revisão das teses vinculantes (art. 979).

(THEODORO JÚNIOR, v. 3, 2017, loc. cit., p. 938).

4) MICROSSISTEMA COLETIVO X MICROSSISTEMA DE SOLUÇÃO DE CASOS