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2. DETERMINANTES NO PROCESSO DE ENVELHECIMENTO

2.2. RECURSOS ECONÓMICOS

A questão dos recursos económicos é sensível para a maioria dos idosos, não como fim mas como meio para atingir um fim.

Uma das consequências dos problemas de saúde em idade avançada é a redução dos meios económicos do agregado familiar do idoso. Esta constatação é explicada pela teoria do ciclo de vida de consumo. O princípio fundamental desta teoria é que os idosos acumulam riqueza antes da reforma e gastam essa riqueza depois da reforma para financiar o consumo até ao resto da sua vida (Modigliani & Brumberg, 1954, citado por Kim & Lee, 2006).

Outros autores argumentam que este modelo não considera um factor importante que influencia a diminuição da riqueza: alterações inesperadas na economia do agregado familiar. Haider, Hurd, Reardon e Williamson (2000) propuseram que as actuais mudanças na economia do agregado familiar resultam das mudanças fortuitas resultantes de gastos inesperados em situações imprevistas, tais com estados de agudização de doenças ou acidentes. Outros exemplos de situações inesperadas resultam da viuvez com diminuição do rendimento disponível. Vários estudos (Smith, 1999; Haider et al., 2000; Hurd & Reardon, 2003) evidenciaram que as poupanças financeiras obtidas pelos idosos influenciam significativamente a sua situação económica. Esta situação é tanto mais importante quanto se constata que a capacidade financeira é menor nos idosos não casados (solteiros, divorciados ou viúvos) do que naqueles que estão casados (Diamond & Hausman, 1984; Haider et al., 2000; Kim & Lee, 2006).

Kim e Lee (2006) sugerem que algumas comorbilidades resultantes de problemas de saúde ameaçam mais a segurança financeira dos idosos não casados do que problemas inesperados de saúde que estes tenham de enfrentar. Contudo, esse impacto não foi observado nos idosos casados, mesmo depois de se avaliar o estado de saúde e utilização de serviços. Possíveis explicações são: os idosos que estão casados têm menos problemas de saúde e mais recursos, do que aqueles que estão solteiros. Estes autores constataram, ainda, que o estado de viuvez contribui em cerca de 9% para a redução de riqueza. McMgarry e Schoeni (2005) concluíram que a pobreza resultante da viuvez pode ser explicada, em parte, pelos gastos acrescidos em cuidados de saúde com o cônjuge sobrevivente.

Os estudos que investigaram sobre os problemas de saúde como uma explicação para a diminuição da riqueza do agregado familiar são poucos. Smith (1999) e Haider et al. (2000) demonstraram que qualquer novo problema de saúde resulta em novos encargos, agravando um ciclo de disponibilidade financeira. Esta redução da riqueza, associada com problemas de saúde, ocorre não só devido às despesas directas com os cuidados médicos mas também aos gastos com transportes, e às alterações do espaço habita- cional que esses problemas implicaram. Esta situação é tanto mais grave quando se verifica em casais idosos em que é a mulher a adoecer já que os efeitos negativos na economia do agregado familiar são maiores do que quando sucede o contrário, (Wu 2003).

As evidências de vários estudos mostram que as doenças crónico-degenerativas causa- doras de incapacidade geram gastos crescentes, cujo impacto na economia familiar se torna imprevisível. A necessidade de assistência permanente ao idoso dependente gera um custo elevado para com os familiares, uma vez que não existe nenhum sistema de saúde que proporcione uma oferta suficiente dos serviços necessários a um grupo populacional portador de dependências com um crescimento exponencial (Caldas, 2003). Por sua vez, a auto avaliação do estado de saúde do idoso tem efeitos na comorbilidade e mortalidade. Esta variável subjectiva está mais fortemente associada às pessoas com pequenos períodos de folow-up do seu estado de saúde, naqueles sem alterações funcionais, e no grupo de idosos mais jovens. Contudo, as doenças e o estado funcional são os determinantes mais expressivos da auto percepção de saúde, bem como os factores psicológicos, sociais e económicos (Murata, Kondo, Tamakoski & Toyoshima, 2006).

Os factores económicos, tais como os rendimentos e posse de propriedades e casa própria, são condicionantes do declínio funcional nos idosos, evidenciando-se diferenças entre géneros: a falta de casa própria surge relacionada com o declínio funcional e morte nos homens, enquanto que nas mulheres o rendimento é o que mais se relaciona com o declínio funcional e morte (Avlund, Damsgaard & Osler, 2004).

A pobreza diminuiu nas últimas três décadas entre a população idosa no entanto a taxa de pobreza nas mulheres mantém-se no dobro relativamente à dos homens. Contribuem para esta diferença os benefícios da segurança social, a menor remuneração, a ruptura do núcleo familiar, menor número de anos despendidos na actividade laboral, a relativa maior esperança de vida, a baixa probabilidade de receber benefícios de pensão e baixos investimentos financeiros. Acresce a estes factores, o facto de maior número de mulheres idosas estarem viúvas ou divorciadas relativamente ao que se verifica nos homens (Bottomley, 2001; Rupp, Strand & Davies, 2003).

A população idosa mantém-se como o maior grupo de risco de exclusão social porque, no plano da definição de prioridades, não faz valer o seu peso demográfico nem reclama dos benefícios a que tem direito para a qualidade da sua vida quotidiana. Por vezes, esta situação ocorre porque os idosos não estão devidamente informados sobre os seus direitos ou porque se acomodaram aos baixos recursos e como tal não sentem necessidade de recursos extra. Outros ainda exprimem um sentimento de vergonha ou receio de que o pedir possa equivaler a uma audiência com as autoridades e que isso possa ser avaliado como uma incapacidade para lidar com as suas finanças (Davey, 2004).

Neste campo a percepção de uma inadequada satisfação das necessidades básicas demonstra ser um preditor significativo de mortalidade (Blazer, Sachs-Ericsson & Hybels 2005).

Nos idosos a segurança financeira é um factor fundamental devido ao facto de serem poucos os que têm possibilidades de continuarem a ter rendimentos que lhes permita fazer frente aos novos gastos. Desta forma, um rendimento seguro e adequado às necessidades acrescidas de serviços e cuidados de saúde nos idosos é aquele que consegue abranger não só os gastos da gestão diária mas também todas essas novas necessidades (Tinker, 1997).

Cook, Reed, Childs e Hall (2004), constataram que a maior preocupação dos idosos é relativamente ao facto de num futuro próximo dos seus recursos económicos não suportarem os custos relativos às necessidades mais prementes. De entre elas

salientam-se as relacionadas com o pagamento por cuidados de saúde e equipamento de apoio às actividades de vida diária, surgindo desta maneira um sentimento de insegu- rança financeira.

A questão dos insuficientes recursos económicos como preditores de baixa satisfação de qualidade de vida tem vindo a ser estudada e enfatizada por diversos autores. Estes salientam as implicações da situação sócioeconómica no estado funcional geral dos idosos, uma vez que os problemas financeiros provocam restrições na manutenção da independência na vida diária, na satisfação de necessidades de convívio social e na possibilidade de pagamento de serviços resultantes da diminuição da capacidade de auto-cuidado (Bowling & Windsor, 2001; Thumboo et al., 2003; Bowling, 2005; Borg, Hallberg & Blomquist, 2005; Coppin et al., 2006).

Brayne, Johnson e Bond (1999) extraíram dos resultados do estudo que realizaram sobre o impacto das disfunções cognitivas e incapacidades físicas, importantes questões em termos de política de saúde. Em primeiro lugar, o investimento de fundos financeiros para os cuidados de longa duração pode facilmente influenciar a escolha do espaço para residir, incentivando os idosos a permanecerem em suas casas, ainda que sozinhos, ou a procurar nova residência em lares. Em segundo lugar, o incentivo para que os adultos no activo façam fundos de investimento pessoal para futuros cuidados, levanta a questão da situação particular das mulheres (por serem em maior número, devido ao aumento de esperança de vida em relação aos homens) dada a falta de recursos que muitas destas têm e a preocupação de que quando chegarem a uma idade avançada possam não ter recursos necessários para financiar os cuidados de saúde que necessitem.

Samuelsson, McCamish-Svensson, Hagberg, Sundström e Dehlin (2005) evidenciaram ainda que o maior factor de risco para o desenvolvimento de depressão estava relacio- nado com a percepção dos problemas financeiros.

Blazer (2003) observou que os sintomas depressivos eram mais frequentes entre as pessoas com nível socioeconómico baixo. Macintyre (1994) reforçou este dado sublinhando o facto de que os factores socioeconómicos influenciavam profundamente a saúde mental e física.

O impacto do estado de saúde e dos recursos económicos determina na prática, os reajustamentos dos espaços da habitação assim como a utilização de equipamento para auxiliar na mobilidade e nas actividades de vida diárias. Mathieson, Kronenfeld e Keith (2002) constataram que nos idosos com recursos económicos médios e/ou elevados, o estado de saúde debilitado e com limitações físicas tinham um efeito positivo na

aplicação de adaptações funcionais que se impunham pela sua necessidade. Todavia, nos idosos com baixos recursos económicos, verificaram ausência dessas adaptações associada a elevadas incapacidades físicas com consequentes limitações nas actividades de vida diária (AVD).

Olfson, Sing e Schlesinger (1999) no estudo que realizaram sobre o contrabalanço dos custos com a saúde mental e cuidados médicos, advertem para a situação de mudança que se impõe na sociedade, evidenciando que a acessibilidade a serviços de saúde mental de grupos específicos como o dos idosos beneficia não só o grupo em particular, mas também os ganhos económicos do sistema de saúde em geral.

A instabilidade financeira, problemas com o trabalho, assuntos relacionados com cuida- dos continuados, assuntos relativos ao papel parental enquanto avós, abuso, vitimização e problemas de saúde mental, são os assuntos contemporâneos relacionados com o envelhecimento (Dixon, Richard e Rollins, 2003) que na sua globalidade são comuns na população idosa dos países ocidentais desenvolvidos.

Relativamente aos problemas financeiros há estudos que sugerem que um número substancial de idosos não se preparou, adequadamente em termos financeiros para se poderem reformar (Stansky, 1997; Simon-Rusinowitz, 1999; Dixon et al., 2003). São apontados vários motivos para esta falta de preparação incluindo a instabilidade laboral, com frequente mudança de locais de trabalho e com períodos de inactividade entre estes, resultando também em contribuições inconstantes para a pensão da reforma. Rubin, White-Means e Daniel (2000) e Thorson, (2000) reportam-se ao facto de que o número de idosos com condições para preparar planos de reforma é muito inferior ao daqueles que não têm um fundo adequado após a aposentação. Deste último grupo destacam-se, em particular, as mulheres e minorias étnicas com problemas sociais, que vivenciaram alguns constrangimentos ou barreiras específicas e que afectaram o desen- volvimento de um percurso profissional. Tradicionalmente, estes grupos têm empregos com menor remuneração, menos valorizado quando comparado com o trabalho masculino tradicional (Kerka, 1995; Rappaport, 1998; Smith, 1995; West, 1997). Em consequência, estão sob a dependência do apoio da segurança social como o único recurso aquando da reforma, apresentando a longo termo problemas económicos e sociais que se reflectem no seu estado geral (Darity, Builkey & Winfrey, 1996; Rappaport, 1998; Thorson, 2000).

Rautio, Heikkinen e Ebrahim (2005) em estudo longitudinal (folow-up aos 5 e 10 anos) para determinação da relação entre o nível socioeconómico e a capacidade física num

grupo de idosos com idade inicial, no estudo, de 75 anos verificaram que em geral, o nível de educação e o nível de rendimentos mais elevados correspondiam a uma melhor capacidade vital, sobressaindo os resultados para a variável rendimentos. No folow-up aos cinco anos e aos 10 anos observou-se, similarmente, um declínio na capacidade física na relação com as variáveis nível de educação e rendimentos. No entanto, aos idosos que apresentavam melhores rendimentos, mesmo com problemas de doenças crónicas e hábitos tabágicos, correspondia uma manutenção na capacidade física. Estes resultados indicam que os idosos com desvantagens socioeconómicas apresentam valores mais baixos em todos os domínios da capacidade física, mas a mudança da capacidade física ao longo do tempo não difere significativamente entre os diferentes níveis socioeconómicos.

Os idosos gastam uma proporção significativa dos seus rendimentos em despesas relacionados com os cuidados de saúde. Alguns estudos constataram que a proporção desses gastos, em relação ao que recebem mensalmente, aumenta com a idade e diminui com os rendimentos, isto é, os indivíduos com mais recursos económicos gastam uma proporção menor do que os indivíduos que se encontram no grupo de baixos rendimentos ou aqueles que vivem abaixo do nível de pobreza; estes últimos, gastam com cuidados de saúde 32% a 35% dos seus recursos económicos e, perto do final da vida, os idosos pobres gastam acima de 70% dos seus rendimentos nesses cuidados (Gross et al., 1999; Crystal, Johnson, Harman, Sambamoorthi & Kumar, 2000; McGarry & Schoeni, 2005).

Em termos económicos existe um interesse crescente a nível internacional sobre a ideia de que o sistema de segurança social beneficiaria com o sistema de apoio auto adminis- trado (Figura 3), através do qual as pessoas controlam o seu próprio orçamento (orçamento este que se reporta ao capital previsto de gastos por pessoa pelo sistema de segurança social) para o seu próprio apoio. Enquanto existem evidências que esta abordagem traz benefícios para as pessoas com incapacidades ou pessoas idosas que necessitam de apoio, ainda continua a haver um debate activo acerca da eficiência e acessibilidade desta abordagem (Duffy, 2007).

Figura 3 – Sistema de apoio auto administrado

Fonte: Adaptado de Duffy (2007)

A eficiência económica desta abordagem resulta da aplicação dos princípios que lhe estão subjacentes. Daqui sobressai a ideia simples mas eficaz de que o nível certo de recursos deverá ser colocado sob controlo da pessoa certa. Nesta abordagem o nível

Tributação/Imposto

Dinheiro certo... ... para a pessoa certa

Objectivos Mercado alargado Apoio familiar Sistema de alocação de recursos Tomada de decisão Criatividade Comunidade Responsabilidade Valor acrescentado Satisfação elevada Aumento da produtividade económica Famílias e comunidades mais fortes Efectiva reforma da segurança social

certo de recursos é estabelecido pelo sistema de alocação de recursos e a pessoa certa é determinada pelos princípios de tomada de decisão de apoio, o que significa ou a pessoa deficiente/incapacitada ou alguém que lhe é próximo (o que para algumas pessoas possa ser um profissional, incluindo advogados). A pessoa certa terá: a motiva- ção elevada para obter os melhores resultados do seu orçamento; o melhor conheci- mento sobre as suas necessidades, objectivos e sobre o contexto social; a melhor oportunidade de integrar o apoio pago com o apoio que qualquer dos membros da família e amigos estariam dispostos a providenciar; o sentido mais realístico de qualquer risco relevante e a melhor forma de se manter saudável e seguro. Desta forma, colocando a pessoa deficiente/incapacitada (ou o seu representante) em controlo dos seus recursos reduz os desperdícios através da promoção a qualidade do processo de tomada de decisão. Além do mais, se devidamente organizado, o sistema de sustentação auto admi- nistrado não só elimina os desperdícios mas acarreta, também, benefícios acrescidos. Poll, Duffy, Hatton, Sanderson e Routledge, (2006) e Duffy (2007) desenvolveram um estudo piloto sobre a aplicabilidade do sistema de suporte/sustentação auto administrado em Inglaterra cujos resultados demonstraram que reforçou a coesão familiar, com um pequeno aumento (7%) no número de pessoas que escolheram viver na casa de família. Além do mais não ocorreu perda de apoio familiar que é o corolário usual para providen- ciar assistência social (Poll et al, 2006).

Também se constatou um aumento na gestão pessoal e procura do apoio necessário (53% do total) que foi reconhecido com vantajoso para os próprios; assim como o aumento do apoio da comunidade e diminuição significativa da utilização de serviços institucionais (lares). Por último os autores referem que esta abordagem também trouxe benefícios para as autoridades locais uma vez que estas descobriram que o sistema de suporte/sustentação auto administrado traz um melhor controlo financeiro e eficiência, com redução de custos.

Em suma, os meios financeiros e apoio social são determinantes importantes na auto percepção de saúde e comportamentos de saúde, estando a auto percepção de saúde e meios financeiros relacionadas entre si (Poortinga, 2006).

A aplicação de um sistema de sustentação auto administrado é um exemplo de como se pode adequar a alocação de recursos adequados às necessidades da pessoa o que não só elimina os desperdícios mas implica, também, benefícios acrescidos para o próprio, para a família e para a comunidade como se explicitou anteriormente.