• Nenhum resultado encontrado

Recusa de Desembarque e Transbordo das Capturas

À PESCA ILEGAL, NÃO DECLARADA E NÃO REGULAMENTADA A pesca INN obedece a diferentes estágios que por vezes têm inicio com a

3.3 Estado do Porto

3.3.3 Medidas do Estado do Porto Internacionalmente Acordadas para Prevenção, Dissuasão e Eliminação da Pesca INN

3.3.3.4 Medidas de Execução

3.3.3.4.2 Recusa de Desembarque e Transbordo das Capturas

A medida de execução mais aplicada pelo Estado do porto é a recusa de desembarque e transbordo das capturas nos portos por navios que minaram as medidas internacionais e regionais de conservação e gestão de pescas, principalmente no alto-mar. No que se refere à execução após inspeção, o n.º 3 do art. 23 do Acordo de Populações de Peixes especifica que o Estado do porto deve efetivamente exercer essa proibição465. Disposição reforçada no IPOA-IUU (par. 56), no Modelo de Sistema FAO (par. 2.2.5) e

460 PALMA et al., Promoting Sustainable …, pp. 166 e 167.

461 USA, Magnuson-Stevens Fishery Conservation and Management Act, Public Law 94-265 of 11 October

1996, Sec. 206 (a).

462 New Zealand, Fisheries Act 1996, (No. 88 of 1996), Sec. 113 ZD (2), (3) and (5). 463 PALMA et al., Promoting Sustainable …, p. 167.

464 Idem.

127 no PSMA [alínea b) do n.º 1 do art. 18]. Além disso, vários Estados proíbem o desembarque e transbordo das capturas por navios envolvidos em atividades de pesca INN. Em facto, essa medida é apontada como a mais efetiva na dissuasão da pesca INN, porque a sua natureza restritiva impacta diretamente na comercialização do peixe466.

A Islândia467 proibiu o desembarque e o transbordo de capturas nos seus portos por navios de pesca estrangeiros, identificados como estando em violação dos acordos sobre utilização e conservação dos recursos marinhos vivos de que o país seja parte. O Canada468 aplica a mesma proibição e a estende as reparações. Outros Estados que aplicam medidas de execução contra navios de pesca INN semelhantes, em sede de legislação nacional, são a Gâmbia469 e o Gana470471.

O debate em torno da aplicação de medidas de execução (não) discriminatórias esbarra com a proibição de desembarque de peixe, porque essa é uma medida que pode suscitar um maior número de objeções por parte dos outros Estados porque, além de estar relacionada ao mercado e ser coerente com legislação da Organização Mundial do Comércio (OMC)472, é principalmente uma forma de restrição ao comércio473.

O Chile e a UE envolveram-se em uma disputa relativa a pesca de peixe espada no sudeste do Oceano Pacifico na qual essa questão foi levantada. Em dezembro de 2000, na sequência do Chile ter, com base no art. 165 da sua Lei Geral de Pescas e Aquicultura474 (que na generalidade regula a aprovação de medidas de conservação das

populações de peixes transzonais e altamente migradoras, nas quais o peixe-espada475 se

insere), proibido o desembarque daquele peixe nos seus portos, designados para o efeito, por navios de pavilhão dos Estados-membros da, na altura, Comunidade Europeia, as

466 PALMA et al., Promoting Sustainable …, p. 166; e TANAKA, The International …, p. 262.

467 Iceland, Act No. 228 April 1998 concerning Fishing and Processing by Foreign Vessels in Iceland’s

Exclusive Fishing Zone.

468 Canada, Coastal Fisheries Protection Regulations, C.R.C., C. 413, Sec. 5.1.12 (b), 5.1 (a)(vii), 5.1 (a)(viii),

and 5.1 (a)(ix).

469 Gambia, Fisheries Act 2005, Sec. 64 (3).

470 Ghana, Fisheries Act 2002 (Act No. 625 of 2002), Sec. 133 (1). 471 PALMA et al., Promoting Sustainable …, p. 166.

472 Ver: General Agreement on Tariffs and Trade 1994, Part II, Article XX. 473 TANAKA, The International …, p. 263.

474 Chile, Ley General de Pesca y Acuicultura N. º 18.892 de 1989, art. 165. Ver também: Chile, Decreto

Supremo 430 de 28 de setembro de 1991, pelo qual a referida Lei é alargada e Chile, Decreto 598 de 15 de outubro de 1999, referente a aplicação do referido artigo.

475 O peixe espada é desde 2011 identificado na International Union for Conservation of Nature (IUCN)

Red List of Threatened Species como uma espécie vulnerável, onde é possível ler que “[g]lobally, this species has shown a 28% decline over three generation lengths (20 years)”. Informações adicionais sobre a Xiphias gladius, outras espécies e os seus estados de conservação podem ser encontradas em http://www.iucnredlist.org/.

128 duas partes decidiram submeter ao TIDM um pedido de inicio de procedimentos mediante a constituição de um fórum especial.

À Câmara Especial do Tribunal do Direito do Mar, definida para o efeito, as partes solicitavam pareceres sobre a interpretação de distintas questões, bem como sobre a aplicação da CNUDM82, entre as quais, cumprimento de obrigações de conservação e cooperação internacional convencionalmente assumidas na esfera daquela Convenção, margem discricionária da competência para prescrição pelo Estado costeiro de medidas de conservação e de implementação das mesmas, competência de outros Estados para contestarem essa prerrogativa soberana do Estado costeiro apoiados na Convenção, a prevalência de normas jurídicas internas e regionais, e sua execução, contrárias à diferentes normas constantes da CNUDM82, incluindo normas de caráter imperativo, (…).

No que ao que temos estado a analisar se refere, a UE argumentava que o Chile elaborou e implementou uma medida de maneira discriminatória ao proibir, de modo específico, o desembarque das capturas de peixe espada nos seus portos por navios de pesca registados nos seus Estados-membros476.

Conquanto, o TIDM não ter sido chamado a proferir uma decisão definitiva em relação ao caso, considerando que no gozo das suas prerrogativas soberanas as partes tenham resolvido a contenda por via diplomática, por intermédio da negociação e aprovação de um acordo bilateral com um quadro mais estruturado de cooperação nas matérias em questão, – entre outros passa a permitir que os navios de pesca embandeirados nos países daquela União, que se dediquem a pesca do peixe espada no alto-mar em pleno cumprimento dos objetivos do referido acordo, tenham acesso aos portos chilenos e seus serviços – , e solicitado descontinuação dos seus procedimentos naquele Tribunal477, é possível argumentar que a continuidade da sua apreciação pelo

476 Argumento igualmente apresentado junto do Órgão de Solução de Controvérsias da OMC onde

também solicitou a realização de consultas com o Chile. Em Dispute DS193 Chile – Measures affecting the Transit and Importing of Swordfish («https://www.wto.org/english/tratop_e/dispu_e/cases_e/ds193_e.htm») encontram-se acessíveis todas as etapas procedimentais da apreciação do litigio naquela Organização, bem como o estado do mesmo. Não é nossa intenção estender a sua abordagem.

477 ITLOS, Conservation and Sustainable Explotation of Swordfish Stocks (Chile/European Union), Order of

16 December 2009, ITLOS Reports 2008-2010, p. 13. Consulta complementar sobre o diferendo entre o Chile e a UE pode também ser feita em ITLOS, Case concerning the Conservation and Sustainable Exploitation of Swordfish Stocks in the South-Eastern Pacific Ocean (Chile/European Union), Case No. 7, disponível em «https://www.itlos.org/cases/list-of-cases/case-no-7/».

129 TIDM “empurraria”, por natureza, o ônus de provar que a medida aplicada não foi discriminatória ao Estado do porto, no caso o Chile478.

Em função disso, é fundamental, e urge a necessidade, que os Estados do porto não apenas elaborem legislação nacional clara sobre a matéria, mas de igual modo determinem o âmbito de aplicação dessas leis e regulamentos. Além disso, devem também formular procedimentos para a identificação clara de evidências de que um navio de pesca esteve envolvido em pesca INN antes da adoção de qualquer medida de execução479.

478 PALMA et al., Promoting Sustainable …, p. 168. 479 Idem.

130 CONCLUSÕES

1. O caráter globalizado e fortemente industrializado que a atividade da pesca