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2.2 Teoria dos Stakeholders

2.2.1 Rede de Stakeholders

O surgimento de diversos atores interessados no comportamento empresarial fez com que as relações que inicialmente tiveram um jogo unilateral ou bilateral entre empresa e stakeholder, passassem de forma mais restrita pelos riscos relacionais voluntários e involuntários, o que faz com que seja contraposta pela natureza da dependência desses relacionamentos e evolua à análise multilateral entre organização focal e suas várias partes interessadas em redes sociais de influência (FREEMAN, 1984; CLARKSON, 1995; MITCHELL et al., 1997; ROWLEY, 1997; SANTOS; GÓMEZ, 2009b).

Régis et al. (2006) apóiam-se no entendimento de Aldrich e Zimmer (1986) de que redes são compostas por indivíduos, grupos ou organizações, voltados à perpetuação, à consolidação e ao desenvolvimento de atividades entre seus membros, além de possuírem direitos e responsabilidades em diversos níveis de tomada de decisão.

Redes sociais são sistemas compostos por nós, representados por sujeitos ou atores autônomos, com conexões ou relações, nascidas em uma esfera informal, que podem ser percebidas fora do seu espaço, estrutura ou sistema social, a partir da união de idéias e de recursos para atingir metas coletivas em torno de valores e interesses compartilhados (MARTELETO, 2001; CÂNDIDO; ABREU, 2002; HALL, 2004; MARTELETO; SILVA, 2004).

Em sua tipologia de redes, Hoffman et al. (2004) trata de quatro características básicas de redes: direção das suas relações, divididas em redes verticais e horizontais; formalização da rede com base contratual (formal) ou não contratual (informal); hierarquia de poder em redes orbitais e não orbitais; e localização territorial, dispostas em redes dispersas e aglomeradas, como os Arranjos Produtivos Locais.

As partes interessadas se reúnem em grupos de interesse e estes formam redes sociais aglomeradas baseadas em seus relacionamentos em que todos os stakeholders, inclusive a empresa, tentam influenciar seus pares. Isso posto, Rowley (1997) afiança que a organização não é necessariamente o centro da rede relacional e que se tratar a sua posição como uma

variável dentro de um complexo sistema social, terá a oportunidade de entender melhor os padrões de interação das partes interessadas e seus impactos organizacionais. Na verdade, a sua posição na rede terá como determinante as demandas organizacionais norteadoras do seu comportamento.

Para a análise das interdependências dos stakeholders numa rede social, Rowley (1997) utiliza dados relacionais de rede: a densidade de ligações entre stakeholders e a sua centralidade posicional, oriundos da distinção de atributos individuais e de dados relacionais em grupo propostos por Scott (1991).

Scott (1991) sintetiza dados relacionais como vínculos relativos entre stakeholders, não sendo classificados como propriedade (ou atributo) de cada ator, mas sim do grupo a que pertençam, ou seja, são propriedades de um sistema de partes interessadas.

Ainda em sua proposta de rede de influência das partes interessadas, Rowley (1997) trabalha com a percepção de uma empresa focal dentro de um ambiente setorial que seria composto por um grupo de empresas similares e, também, pela rede global de cada conjunto da empresa. O autor se utiliza dos atributos: densidade da rede e centralidade da empresa focal dentro dela.

Rowley (1997) corrobora com Oliver (1991) quando cita que o atributo da densidade descreve a estrutura de uma determinada rede social, pois ela mede o número relativo de ligações entre os atores da rede. Uma rede é densa quando é crescente o número de vínculos entre seus membros e tem por características mais relevantes em resposta as pressões das partes interessadas: a comunicação mais eficiente e a difusão das normas em toda a sua extensão.

A comunicação torna-se mais eficiente devido à facilidade da troca de informações entre os atores de diversas regiões da rede; ao contrário, se a rede tiver baixa densidade, algumas seções podem ficar isoladas e até desenvolver segregações a parte, limitando a comunicação intergrupal. A consequência dessa eficiência é a difusão das normas institucionais por toda rede, a partir das quais os atores formam padrões produtivos compartilhados e de troca de expectativas comportamentais, no intuito de se legitimar (ROWLEY, 1997).

Essas características de densidade trazem implicações quanto à forma de influenciar os interessados e seus comportamentos no ambiente da organização focal. Esse entendimento facilita o seu planejamento e ações à resistência das pressões dos interessados e afetados, podendo formar alianças e coalizões com outros grupos para melhor condicionar expectativas

e comportamentos dentro da rede de relacionamentos (ROWLEY, 1997; ROWLEY; BERMAN, 2000).

O outro atributo de rede é a centralidade da organização focal ou posição de status por stakeholder dentro da rede de influência. Santos e Gómez (2009b) corroboram com Rowley (1997) quando este afirma que a posição de status é conferida através de atributos individuais, como o poder formal e hierárquico, os quais traduzem a potência do ator dentro da rede. O autor utiliza os tipos de centralidade de Brass e Burkhardt (1993) que são: o grau, a proximidade e a intermediação5.

O grau de centralidade do ator é o seu número de vínculos com os demais atores na rede ou o número de relações do interessado no seu ambiente local para ter acesso a fontes de informação e de recursos. A proximidade é a capacidade de um ator acessar todos os outros membros da rede. Os autores sugerem que um ator central pode chegar a outro a partir de um número mínimo de posições intermediárias, sendo independente o seu acesso a outros pontos da rede; quando ele possuir baixa proximidade, revela alta dependência de acesso a outros intermediários (ROWLEY, 1997).

A intermediação da centralidade é semelhante à proximidade, já que ambas consideram o acesso a outros atores como direcionamento. No entanto, Rowley (1997) se utiliza da definição de Freeman (1979) quando afirma que a intermediação mede a frequência de ligações que determinado ator possui em suas relações de rede com outros atores; a intermediação se torna medida de controle sobre o acesso de outros atores a várias regiões da rede, sendo “portas” de acesso e de intercâmbio entre atores menos centrais.

Santos e Gómez (2009b) concordam com Rowley (1997) que a combinação dos três tipos de centralidades de Brass e Burkhardt (1993) serve para identificar os atores e a importância das suas posições, conferindo propriedade de localização diferente do ator e capacidade para resistir às pressões dos interessados.

A Centralidade e a densidade interagem, formando tipos de estruturas de rede com distintos comportamentos e graus de influência relacional entre a organização focal em análise e os demais atores da rede, demonstrados no quadro 04. Essas relações estruturais e seus comportamentos são observados de ambas as partes: tanto da organização focal, quanto do(s) stakeholder(s) gerador(es) da relação analisada, dentro da rede.

Essas relações estruturais e seus comportamentos são observados de forma multilateral, tanto da organização focal, quanto dos stakeholders. A estrutura de influência que possui altas densidade e centralidade produz comprometimento entre a organização focal

5 Tradução da autora para betweenness.

e os stakeholders relacionais, e como são altamente susceptíveis às ações uns dos outros, em resposta às suas demandas, são capazes de resistir às pressões e sofrer influências mútuas (SANTOS; GÓMEZ, 2009b).

Centralidade da Organização Focal

Alto Baixo

Densidade de rede entre stakeholders

Alto Comprometido Subordinado Baixo Comandante Solitário

Quadro 04: Estruturas de Influência conforme as Pressões e Respostas dos Stakeholders.

Fonte: ROWLEY (1997, p.901).

Com comunicação de rede eficiente e compartilhamento de expectativas comportamentais, os stakeholders “Comprometidos” podem coordenar seus esforços para controle e punição entre si, assim como, influenciar na formação dessas expectativas. A organização focal vai querer diminuir o grau de inferência dos interessados que possam mudar o seu comportamento.

Conforme Rowley (1997), o objetivo de um stakeholder comprometido é negociar soluções mutuamente satisfatórias que atendam o mínimo das expectativas das partes interessadas, obtendo um ambiente mais previsível no qual essas partes não sejam opositoras a ação coletiva dos envolvidos na rede. Oliver (1991) aponta como características a busca por certezas, estabilidade e previsibilidade dos envolvidos na relação.

Outra estrutura de influência é o posicionamento de comando na relação entre organização focal e demais atores de rede, configurada por alta centralidade e baixa densidade de rede. A alta centralidade promove para a empresa focal maior resistência a pressões dos interessados e estes quando não compartilham das mesmas pressões sobre ela, tornam-se passivos. A baixa densidade de rede impede os fluxos de informação, os esforços conjuntos e a formação de normas compartilhadas. O “Comandante” usa sua posição privilegiada para controlar os fluxos de informação, influenciar os comportamentos, cooptar interessados à rede, e formatar as normas a serem compartilhadas nela (OLIVER, 1991; ROWLEY, 1997).

Na estrutura de influência dos stakeholders subordinados, enquanto a alta densidade permite a comunicação eficaz entre os interessados, a baixa densidade condiciona a organização focal à periferia da rede, sendo esta incapaz de influenciar o processo de intercambio de informações, por não resistir às pressões dos demais stakeholders. Quando a organização focal é subordinada, ela aceita e cumpre as expectativas comportamentais dos seus interessados na rede (OLIVER, 1991; ROWLEY, 1997).

Os stakeholders solitários possuem baixa densidade que confere poucas relações com outros atores, aliada à baixa centralidade ou posição periférica da organização focal na rede, incapaz de influenciar as normas compartilhadas. As ações adotadas pela organização focal são o isolamento, a ocultação de suas atividades, a dissimulação de conduta e a independência dos demais stakeholders, com o objetivo de não enfrentar suas demandas significativas e exigências comportamentais (OLIVER, 1991). Rowley (1997) entende que organizações focais não podem permanecer solitárias por um longo período, já que necessitam de recursos oriundos da sua interação com outros stakeholders participantes da rede.

O modelo de Rowley (1997) pode ser utilizado em mapeamentos de atores, como o desenho de rede social dos stakeholders de Arranjo Produtivo Local proposto por Santos e Gómez (2009a). Nesse estudo, as autoras ratificam o posicionamento de Rowley (1997) quanto à variação das relações de influência entre stakeholders e das suas posições individuais na rede do APL, formando padrões produtivos compartilhados a partir de expectativas mútuas.

Em redes sociais de influência como Arranjos Produtivos Locais também se faz necessário o alinhamento entre ganhos econômicos e interesses sociais por meio da gestão com stakeholders de suas demandas, expectativas e pressões sociais pelo desenvolvimento sustentável. Suas relações multilaterais de rede trazem maior competitividade e sustentabilidade para as empresas localizadas e aglomeradas em APLs, assim como fortalece a identidade desses territórios.