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REFAZENDO O QUESTIONÁRIO: UMA AÇÃO REFLEXIVA

4. ANÁLISE DA PESQUISA E DISCUSSÃO DOS RESULTADOS

4.5 REFAZENDO O QUESTIONÁRIO: UMA AÇÃO REFLEXIVA

Está foi a última etapa da pesquisa. Aqui apliquei outro questionário, sendo utilizadas algumas perguntas do questionário anterior.

O objetivo desse questionário foi avaliar se o estudo das teorias de aprendizagem de uma LE e as discussões em sala de aula contribuíram para a reflexão de algumas crenças de aprender espanhol, bem como verificar se as participantes da pesquisa começaram a apresentar mudanças de atitudes e pensamentos em relação ao espanhol.

QUESTIONÁRIO FINAL

1. O que é aprender uma língua estrangeira?

2. Como seria o perfil de um bom professor de espanhol para você? 3. O que é fundamental para que se tenha uma boa aula?

4. Como você vê o erro, a correção e a avaliação em língua estrangeira (LE)? 5. O que você entende por aprendizagem? Como pensa que ela ocorre?

6. Para ser professor(a) de espanhol basta que domine a gramática. Comente essa assertiva. 7. Comente essas assertivas:

a. Para os brasileiros, aprender espanhol não é tão importante como aprender o inglês. b. Na verdade, a lei de obrigatoriedade do ensino de espanhol no Brasil é desnecessária,

pois já nascemos com a aptidão de comunicarmos o espanhol.

c. Só há um modo correto de falar o espanhol, a língua da Espanha, as demais formas são variações empobrecidas que devem ser rejeitadas.

d. Se não dominamos a gramática e não temos um bom professor, não conseguiremos aprender nenhum idioma, nem mesmo o espanhol.

e. O espanhol é uma língua fácil para nós brasileiros, pois é o português mal falado.

f. É perder tempo ensinar o espanhol, uma vez que nos comunicamos com o portunhol. Mais interessante seria aprender o inglês ou outra língua da Europa, pois são países do primeiro mundo, e o espanhol é a língua falada pelos países vizinhos, que têm uma situação sócio-política-econômica pior que a do Brasil.

8. Depois da disciplina metodologia da língua espanhola, houve mudança de pensamento, crenças e valores quanto ao ensino/aprendizagem de Espanhol? Justifique-se.

Algumas das questões do questionário final foram extraídas do questionário aberto, semi-aberto6 e do fechado; outras, a partir de crenças de alguns alunos brasileiros em aprender espanhol.

Iniciei perguntando o que era, para elas, aprender uma língua estrangeira. Saliente-se que, no momento inicial, as alunas em formação disseram que aprender uma LE era dominar um novo idioma e conhecimento que viabiliza a comunicação.

No segundo momento, as respostas das alunas pesquisadas já apresentaram algumas diferenças. Vejamos os excertos:

• “É ampliar os conhecimentos e conhecer novos mundos.” (A2)

• “É ter competência para comunicar-se por meio dela, isso como conseqüência de um processo de estudo, intencional.” (A3)

Pude perceber que os conceitos estudados na disciplina de metodologia espanhola foram aproveitados. As alunas já diferenciam entre aprender uma LE e a sua LM, deixaram a idéia de que se aprende todas as línguas por meio exclusivo da gramática, passando a entender a LE conforme sugerida por Moita Lopes (1999, p. 4) quando afirma que o “uso da LE é, portanto, uma outra forma de se agir discursivamente no mundo social, além daquela que a LM possibilita”.

A pergunta de número 2 trata do perfil de um bom professor. O intuito foi avaliar a idéia que elas fazem do que é ser um bom professor de espanhol, observando, assim, se houve mudança de respostas.

Antes, para ser um bom professor, bastava o domínio da língua, ser dinâmico e criativo. Depois dos estudos feitos, o bom professor passa a ser aquele que tem noção do processo de aprendizagem de uma LE, que promove a autonomia e trabalha não mais a gramática pela gramática. No entanto, quando a pergunta foi sobre o que seria uma boa aula, ainda notei a presença de concepções tradicionais, de acordo com o excerto abaixo:

• “1- Aulas expositivas; 2- Aulas dinâmicas” (A2)

Nessa resposta, encontrei uma contradição. Como ter aulas expositivas e dinâmicas ao mesmo tempo? Mas, quando recordei que a aluna A2 teve uma educação tradicional durante aproximadamente 9 anos, consegui justificar esse momento transitório entre um ensino centrado no professor e outro centrado no aluno.

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Gimenez (2004) discorre bem sobre esse ponto ao afirmar que dificilmente um aluno exposto, por muito tempo, a um modelo tradicional conseguirá articular as práticas de uma educação direcionada para o aluno:

[...] Um aluno de Letras que seja repetidamente exposto a um modelo centrado no professor provavelmente terá grande dificuldade em articular práticas de uma educação centrada no aluno, por exemplo. (p. 176)

Logo, antes de se exigir novas posturas dos professores em formação, deve- se refletir sobre as práticas antigas e atuais.

A questão seguinte tratou de observar os conceitos de erro, correção e avaliação em uma sala de LE. Todas as participantes afirmaram que o erro faz parte do processo de aprendizagem de uma LE, que a correção é importante para não constituir um vício lingüístico, concordando com a teoria da interlíngua e análise de erros. Porém, a avaliação ainda permaneceu, para uma participante, como sendo instrumento para medir a leitura, escrita e oralidade, ou seja, a avaliação ainda é percebida como instrumento do professor. Auto-avaliação ainda não é percebida como avaliação que leva o aluno a ter autonomia.

A quinta pergunta foi sobre a concepção de aprendizagem. Como entendemos o que acontece a aprendizagem? Percebi que o conceito de aprendizagem ficou bem claro para as alunas em formação.

• “A aprendizagem é intencional, institucionalizada.” (A2)

• “É um processo intencional do ‘aprender’. Ocorre a partir de momentos específicos, em instituições apropriadas.” (A3)

Para melhor interpretação, apresento, na tabela a seguir, as assertivas e respectivas respostas.

Assertivas Resposta atual

Para ser professor(a) de espanhol basta que domine a gramática.

“[...] dominar a gramática não é o bastante [...]” (A2) “Não. Mais que o domínio da gramática é importante uma clara concepção de ensino.” (A3) Para os brasileiros, aprender espanhol

não é tão importante como aprender o inglês.

“não existe um idioma mais importante que outro [...]” (A2)

“A língua está atrelada à cultura, ao poder. Daí essa tradicional importância da língua inglesa.” (A3)

Assertivas Resposta atual

Na verdade, a lei de obrigatoriedade do ensino de espanhol no Brasil é desnecessária, pois já nascemos com a

aptidão de comunicarmos o espanhol.

“[...] não nos dá o direito de dizer que já nascemos com aptidão de comunicarmos em espanhol. Cada

idioma tem sua peculiaridade que deve ser estudada.” (A2)

“Não concordo. Dizer isso é dizer ‘o espanhol é um bom português mal falado’. Ainda que sejam

línguas próximas são específicas, têm suas peculiaridades.” (A3)

Só há um modo correto de falar o espanhol, a língua da Espanha, as

demais formas são variações empobrecidas que devem ser rejeitadas.

“Este é um comportamento preconceituoso e que deve ser abolido. Não existe língua melhor ou pior

[...]” (A2)

“Não é bem assim, variações lingüísticas há em todas as línguas já que a língua é um elemento da

própria cultura de um povo.” (A3) Se não dominamos a gramática e não

temos um bom professor, não conseguiremos aprender nenhum idioma,

nem mesmo o espanhol.

“[...] se pode aprender qualquer idioma com a convivência.” (A2)

“Há o processo de aquisição lingüística, aquele ‘aprender’ que ocorre de forma assistemática, não

institucionalizada.” (A3)

O espanhol é uma língua fácil para nós brasileiros, pois é o português mal

falado.

“[...] pelo contrário é muito complexa, cheia de regras e muitas delas bastante diferentes do

português.” (A2)

“[...] Sabe-se que ambas são línguas próximas, de modo que durante o processo de aprendizagem ocorrem interferências. Mas cada língua ‘fala’ da

cultura de seu povo.” (A3) É perder tempo ensinar o espanhol, uma

vez que nos comunicamos com o portunhol. Mais interessante seria aprender o inglês ou outra língua da Europa, pois são países do primeiro mundo, e o espanhol é a língua falada

pelos países vizinhos que têm uma situação sócio-política-econômica pior

que a do Brasil.

“[...] um idioma é a identidade de um povo [...], não importa que seja do terceiro ou primeiro mundo,

seus hábitos costumes e crenças devem ser respeitados.” (A2)

“Essa afirmativa discrimina a língua espanhola e desconhece o alcance e valor que ela tem adquirido, também sócio-economicamente ao longo

dos anos.” (A3)

A última pergunta indagou sobre a disciplina de Metodologia de Língua Espanhola, perguntando se tal matéria trouxe mudanças de pensamento, valores e crenças quanto ao ensino/aprendizagem de espanhol.

• “Sem dúvida alguma, principalmente em relação às crenças sobre os erros, pois os mesmos fazem parte da aprendizagem. [...] Hoje tenho que ter cuidado com a fossilização e o mais faz parte do processo.” (A2)

• “Com certeza. É tradicional e ideologicamente construída a fala de que a língua espanhola é menos importante e pior que o inglês, de que o espanhol é fácil, desnecessário estudar, não tem valor.

Depois da disciplina, compreendo que nada disso se constitui ‘verdade’. Caiu por terra ‘essas crenças’ e valores arraigados.”(A3)