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reflecte gressum, dum licet, teque eripe

1. Formido

1.1. Maledictio Atridarum

1.1.1. reflecte gressum, dum licet, teque eripe

A figura de Tiestes age (na peça homónima de Séneca), principalmente, em função do medo. A causa principal deste affectus tem que ver com a expectativa de o irmão se vingar dele por Tiestes ter cometido acções nefandas contra Atreu: ter usurpado o trono e ter corrompido a mulher do irmão. Atreu descreve-o como hostis (v. 186), inuisum caput (v. 188), ingenium uiri / indocile (vv. 199-200) e perfidus (v. 235). A eventual consciência de Tiestes de ter sido responsável por várias desgraças (cf. vv. 220 ss.) poderá igualmente estar na origem do affectus.

Esta condição de Tiestes torna-se progressivamente evidente. No decorrer do acto terceiro184, altura em que entra em cena, a personagem evidencia alguns traços que o

aproximam do perfil de um sapiens, em particular quando discorre sobre o poder, como teremos oportunidade de analisar. Explica Tarrant (1998R: Comm. ad loc. acto terceiro, 404- 545) que “Thyestes presents himself as a proponent of the simple life, reluctant to exchange the peace of obscurity for the anxieties of the power and deeply suspicious of Atreus’ intentions in the proposed reconciliation.”

Na verdade, quando volta ao solo pátrio (v. 404: Optata patriae tecta), observam-se nele emoções opostas. De um lado, entende-se o regresso à antiga morada paterna como optata e miserisque summum ac maximum exulibus bonum (v. 405), emoção posta em relevo pela assonância em nasal. Tomar como bens ou bem supremo o retorno à pátria mereceria críticas da parte dos estóicos, uma vez que, para um filósofo do Pórtico, o conceito de pátria não se limita a uma área restrita. De facto, cada homem é uma parcela da divindade, por isso, todo o mundo é a sua pátria185. No que diz respeito ao particípio do verbo opto, tem em si implícito um sentido de esperança, que, por sua vez, lhe provoca um certo estado de ansiedade186 — duas passiones reprovadas pelos filósofos desta doutrina. Recorde-se o que diz Séneca numa das Ad Lucilium epistulae morales (5. 7-9):

apud Hecatonem nostrum inueni cupiditatum finem etiam ad timoris remedia proficere. ‘Desines’ inquit ‘timere, si sperare desieris.’ (...) ista quae tam dissimilia sunt pariter incedunt: spem metus sequitur. Nec miror ista sic ire: utrumque pendentis animi est, utrumque futuri expectatione solliciti. Maxima autem utriusque causa est quod non ad praesentia aptamur sed cogitationes in longiqua praemittimus; itaque prouidentia, maximum bonum condicionis humanae, in malum uersa est. (...) Multa bona nostra nobis nocent; timoris enim tormentum memoria reducit, prouidentia anticipat; nemo tantum praesentibus miser est.

As emoções de Tiestes são exemplo desta ideia exposta por Séneca. Na realidade, a expectativa de entrar em Argos e aí encontrar a felicidade, ser bem recebido pelo povo, muda instantaneamente ao perceber que será acolhido pelo irmão: sed nempe et Atreus (v. 412). Esta noção desenvolve outros juízos, divergentes da anterior esperança. Sobrevém agora o medo. Logo nestas primeiras imagens que se formulam no seu pensamento se compreende o estado emocional de Tiestes. Recorda Tarrant (1998R: Comm. ad loc. acto terceiro, 404-545): “Throughout this act Seneca surrounds Thyestes’ language with ironic second meanings,

184 Sobre a problemática da divisão em actos, veja-se p. 38, n. 119. Tarrant (1998R: Comm. ad loc. acto terceiro)

considera dois momentos neste acto: um que corresponde à entrada de Tiestes em cena e ao diálogo com Tântalo (vv. 404-490), e o segundo ao solilóquio de Atreu e ao diálogo com Tiestes (vv. 491-545). Em ambos, a acção está centrada nesta figura.

185 cf. Séneca, Ad Heluiam matrem de consolatione 8. 5. 186 cf. Tarrant (1998R: Comm. ad loc. 404).

creating a masterful portrait of a man who literally does not know his own mind.” Esta ideia vai sendo explorada de forma gradual, como se pode ver dos vv. 412-420:

sed nempe et Atreus. Repete siluestres fugas saltusque densos potius et mixtam feris similemque uitam; clarus hic regni nitor fulgore non est quod oculos falso auferat; cum quod datur spectabis, et dantem aspice. modo inter illa, quae putant cuncti aspera, fortis fui laetusque; nunc contra in metus reuoluor: animus haeret ac retro cupit corpus referre, moueo nolentem gradum.

Como demonstrou Cícero (cf. Tusc. 3. 7. 14), aquele que tem confiança em si, não teme, uma vez que esse sentimento não é compatível com o medo. Já quem se deixa dominar por esta força negativa, acaba por se tornar escravo das emoções. Retome-se Tiestes: notamos que hesita perante a ideia de encontrar o irmão. Por isso, deseja regressar (cf. repete) aos locais por onde esteve. Entende que a convivência entre os animais ferozes (cf. v. 413: feris) é mais confortável (ou segura) do que viver em comum com Atreu. A assonância em nasal parece acentuar a perturbação que se dá no seu ânimo, denunciando um movimento lento. A antítese entre escuridão (cf. v. 413: densos) e luz187 agudiza o contraste entre a alegria e a força anteriores — definidoras da época em que Tiestes estava exilado — e o medo actual por saber que vai enfrentar o irmão. A aliteração (v. 418: fortis fui) acentua essa oposição entre passado e presente, confirmada pelo advérbio temporal (nunc). A sensação que experimenta é a de metus: apercebe-se de que a sua alma é agitada por este malum (cf. reuoluor) e deste estado decorrem movimentos marcados pela dúvida. A mente, perturbada, imobiliza os membros (cf. haeret), o corpus parece ter força própria, Tiestes deseja voltar aos lugares de outrora e ao tempo passado. Esta vontade é reiterada pelo pleonasmo retro ... referre. É, porém, frustrada: é contra a vontade que é incitado a prosseguir o caminho, noção demarcada pela assonância em nasais, que parece sugerir, ainda, a lentidão do movimento do andar (moueo nolentem gradum).

187 Veja-se a hipotipose da claridade: clarus ... nitor / fulgore. Estas palavras ilustram o luxo e a grandeza que o

poder ostenta (cf. regni) e denunciam o perigo que se esconde atrás da ambição de reinar. Na verdade, esta luz ofuscante pode cegar o homem (em termos simbólicos, tem o sentido de corromper a mente humana) — noção reiterada pelo adjectivo falsus a qualificar o fulgor. Além da luz, é sublinhado o tópico do olhar (cf. oculos ...

spectabis ... aspice), sustentado em forma de sententia, a advertir para os perigos do poder e da fortuna — res

instáveis para o ser humano. Esta ideia é desenvolvida numa das Ad Lucilium epistulae Morales (94. 74) que diz: Tunc adpetita formidant et quae illos graues aliis reddit grauior ipsis felicitas incubat. Tunc laudant otium

lene et sui iuris, odio est fulgor et fuga a rebus adhuc stantibus quaeritur. A semelhança entre os dois passos é

evidente: em ambos se manifesta o mesmo sentimento de repulsa pelo esplendor e há receio perante os caprichos da fortuna (cf. Tarrant 1998R: Comm. ad loc. 414-415). Note-se que, tanto na tragédia como na carta

A alternância de pessoa das formas verbais — a primeira pessoa do singular dos vv. 407 (cerno) e 410 (tuli) dá depois lugar a formas da segunda pessoa do futuro imperfeito (v. 416: spectabis) e do imperativo presente (v. 412: repete; v. 416: adspice), para de novo se retomar a primeira pessoa do singular (v. 418: fui; v. 419: reuoluor; v. 420: moueo) — testemunha a violência dos impulsos que submetem a razão.

Os comentários das outras personagens são igualmente pertinentes para identificar as emoções do protagonista. Tântalo, o filho de Tiestes, estranha a morosidade do pai (vv. 421- 422): Pigro (quid hoc est?) genitor incessu stupet / uultumque uersat seque in incerto tenet. Esta observação de Tântalo ecoa a que Séneca diz na Ep. 114. 3, a propósito dos animi que estão corrompidos (uitiati): Non uides, si animus elanguit, trahi membra et pigre moueri pedes? Da pergunta que Tântalo faz se entende a fraqueza de ânimo de Tiestes.

O verbo stupeo e o adjectivo piger, a qualificar o andar da personagem, fazem entender o espírito irresoluto de Tiestes, que o filho não compreende. A assonância em u (stupet / uultumque uersat) e as conjunções coordenadas reiteram esta ideia de prostração que atormenta o protagonista — sensação que ele próprio nota e recrimina. Na exposição do que sente, sugere-se todo o género de impulsos que crescem e lutam dentro dele. Vejamos o passo (vv. 423-428):

Quid, anime, pendes, quidue consilium diu tam facile torques? rebus incertissimis, fratri atque regno, credis ac metuis mala iam uicta, iam mansueta et aerumnas fugis bene collocatas? esse iam miserum iuuat. reflecte gressum, dum licet, teque eripe.

As perguntas retóricas introduzidas por quid e em anáfora disjuntiva (quid … quidue) bem como o uso de formas verbais na segunda pessoa do singular (e a apóstrofe com que interpela o animus) dão testemunho de que as emoções se digladiam no seu íntimo. Deparando com a necessidade de escolher entre dois caminhos, hesita. Reconhece ser bem evidente por qual deve optar — como se deduz do sintagma tam facile, do superlativo de superioridade de incertus a associar-se a frater e a regnum — e, por isso, exorta-se a recuar, uma vez que ainda há tempo — como se depreende dos imperativos (reflecte … eripe)188.

Nos vv. 425-427, a iteração do advérbio temporal (iam ... iam), a aliteração do m, o homeoptoto dos acusativos, o oximoro (aerumnas ... bene collocatas) e a assonância de

188 Em teque eripe, Tarrant (1998R: Comm. ad loc. 428) considera que está “reminiscent of Hector’s warning to

Aeneas in Verg. Aen 2.289 ‘teque his’ ait ‘eripe flammis.’ The echo might imply the gravity of the danger that Thyestes is confronting.”

consoantes nasais acentuam a contradição que o divide: metuis mala iam uicta / iam mansueta et aerumnas fugis / bene collocatas. Na opinião de R. J. Tarrant (1998R: Comm. ad loc. 424-427), a estrutura destes versos demonstra que

Thyestes’ language becomes unusually pointed as he tries to argue himself into doing what he knows is right: each segment of the question credis … metuis … fugis contains a striking conjunction of noun and adjective (res incertissimae- frater; mala-mansueta; aerumnas-bene collocatas), and this elaborate structure is then “capped” with the paradox esse iam miserum iuvat.

Se observarmos com algum cuidado, verificamos que o protagonista é conciso quando se refere ao retorno à terra pátria, onde pressente que encontrará apenas res que se pautarão por serem incertissimae. Já em relação à escolha de retornar ao exílio, demora-se a notar as vantagens (em cerca de três versos), por forma a incentivar a sua alma a seguir esse caminho. Tiestes apresenta aqui uma imagem que poderia sugerir alguma proximidade com a atitude do sapiens que apenas pretende sequi naturam. É, no entanto, ilusória esta aparência. Na verdade, não está em causa a tranquillitas animi propugnada pelos estóicos ou eventualmente a vontade de rejeitar o poder, evitando, assim, a corrupção que a ele surge frequentemente associado. Na Epistula 5. 4-5, nota Séneca que o objectivo da sua escola é nempe (…) secundum naturam uiuere:

hoc contra naturam est, torquere corpus suum et faciles odisse munditias et squalorem adpetere et cibis non tantum uilibus uti sed taetris et horridis. Quemadmodum desiderare delicatas res luxuria est, ita usitatas et non magno parabiles fugere dementiae. Frugalitatem exigit philosophia, non poenam; potest autem esse non incompta frugalitas. Hic mihi modus placet: temperetur uita inter bonos mores et publicos; suspiciant omnes uitam nostram sed agnoscant.

Tiestes afasta-se deste equilíbrio professado por Séneca: ele quer voltar para um lugar que partilhava não com homens humildes mas com animais selvagens, assemelhando o seu modus uiuendi ao dessas mesmas ferae; é o temor de enfrentar o irmão que o faz recuar. Conclui, por isso, com um paradoxo (v. 427): esse iam miserum iuuat. Miser é uma forma adjectival conotada com um sentido negativo (ao significado ‘pobre’ associa-se o de ‘miserável’, ‘infeliz’189).

As palavras de Tiestes revelam a sua instabilidade emocional190: sabe qual das opções deve escolher, mas revela uma vontade débil e, por isso, afasta-se do ideal estóico. Os affectus relacionados com o metus tornam-se, por sua vez, mais evidentes, manifestados na falta de firmeza da personagem. Quando fala com Tântalo, atesta o desconhecimento das causas do timor que o oprime (vv. 434-439):

Causam timoris ipse quam ignoro exigis. nihil timendum uideo, sed timeo tamen. placet ire, pigris membra sed genibus labant, alioque quam quo nitor abductus feror. sic concitatam remige et uelo ratem aestus resistens remigi et uelo refert.

A figura etimológica (cf. timoris, timendum, timeo) intensifica a ideia de receio que domina Tiestes e traduz, também, uma certa inquietação que experimenta por não saber o motivo que o leva a temer191 — sentimento sugerido pela assonância em nasal (denota lentidão), pela aliteração (timeo tamen), pelo uso de verbos do campo lexical da ignorância (ignoro; nihil … uideo) e pela correctio (nihil timendum uideo, sed timeo tamen). Séneca desenha uma personagem débil, enferma, avivando esta imagem com o recurso ao homeoptoto (pigris … genibus) e a palavras do campo lexical da hesitação (cf. pigris, membra … labant).

O corpo reage contra o desejo de seguir um caminho que lhe agrada (placet ire) — associado a riquezas e ao poder —, por instigação do medo que o obriga a recuar (abductus feror). Esta oscilação faz ver uma mente fora de si. O símile náutico presentifica a imagem da força de impulsos contrários que se agitam no seu íntimo (cf. Tarrant: 1998R, Comm. ad loc. 438-439). Esta representação é apoiada pelo polyptoton em estrutura paralelística (sic concitatam remige et uelo ratem / aestus resistens remigi et uelo refert), que amplifica a noção de um esforço físico que o desgasta, uma vez que é assolado pela dúvida. Séneca condena precisamente este género de acções, como se pode ver na Ep. 122. 19:

Ideo, Lucili, tenenda nobis uia est quam natura praescripsit, nec ab illa declinandum: illam sequentibus omnia facilia, expedita sunt, contra illam nitentibus non alia uita est quam contra aquam remigantibus.

190 Quando fala consigo mesmo (cf. vv. 404-420; vv. 423-428 — a primeira intervenção de Tiestes é num

solilóquio e o próprio filho, Tântalo, comenta-o), ou quando dialoga com Tântalo (cf. vv. 434 ss.).

191 Aygon (2014: 25) torna explícito, a par de Marchetta, que “Thyeste ne veut pas dire toute la vérité sur la

gravité du conflit qui l’a opposé à son frère, car, en ce cas, ses fils sauraient les dangers qui les menacent et choisiraient peut-être de s’enfuit. Le lecteur/spectateur le comprend en confrontant le monologue du père à la réponse qu’il donne ensuite à ses fils.”

O símile náutico sustenta o dever do homem em viver em conformidade com a natureza, única forma possível de viver bem. Todos os que se afastam deste princípio vêem o esforço frustrado, desviam-se da ratio, desencadeando affectus que os escravizam. Confirma- -se, pelo passo citado, que Tiestes não segue a natureza. Tântalo dá mostras de se aperceber da perturbação de Tiestes, já que exorta o pai, por imperativos (cf. euince, uide), em posição inicial e final de verso, a vencer os affectus, uma vez que eles não lhe permitem que o espírito veja com discernimento (vv. 440-441): Euince quidquid obstat et mentem impedit / reducemque quanta praemia expectent uide. Na pespectiva desta personagem, só quando Tiestes dominar a perturbação que lhe obnubila a mens (é semanticamente significativo o uso das formas verbais obstat e impedit) é que poderá compreender o que o espera.

Tântalo192, porém, não segue o protótipo do conselheiro com que deparamos em várias tragédias de Séneca. O objectivo dele não é orientar as escolhas paternas para a uirtus (mesmo quando incita Tiestes a refrear a sua mens): na realidade, o que ele pretende é convencê-lo a continuar em direcção à pátria, despertando-lhe o interesse pelos praemia que lhe foram reservados, a summa potestas (v. 443).

Na economia da peça, Tântalo desempenha duas funções: permite a Tiestes reflectir sobre os seus affectus e estimula-o, indu-lo a fazer a opção errada e que o conduzirá à ruína193. Na figura do filho espelha-se a ideia que os estóicos tinham de que os jovens são facilmente seduzidos por neles não estar ainda desenvolvida a faculdade intelectiva194. Na verdade, Tântalo defende o valor do poder absoluto enquanto forma de alcançar a felicidade. Não entende porque o recusa o pai (cf. v. 445). Em resposta, Tiestes alonga-se na apologia de uma vida pacífica195 (vv. 446-470):

Mihi crede, falsis magna nominibus placent, frustra timentur dura. dum excelsus steti, numquam pauere destiti atque ipsum mei

192 Depreende-se que o discurso de Tântalo é marcado pela ironia trágica. como bem exemplificam os vv. 429-

433, que transcrevemos: Quae causa cogit, genitor, a patria gradum / referre uisa? cur bonis tantis sinum / subducis? ira frater abiecta redit / partemque regni reddit et lacerae domus / componit artus teque restituit tibi. O leitor entende que nestas recompensas se oculta o verdadeiro desígnio de Atreu. A referência aos membros dilacerados, como metáfora para avivar a imagem de uma família dividida pelas dissensões, projecta já a ideia do crime que será executado: efectivamente os membros dos filhos serão restituídos ao pai, mas de forma ignominiosa.

193 Tântalo cumpre o papel de força externa que impulsiona o protagonista.

194 Recorde-se que Atreu sabia que se o irmão, endurecido pelo exílio, recusasse a proposta dele, os filhos

tentariam persuadi-lo a aceitá-la (cf. vv. 299-304).

195 Este aparente elogio à tranquillitas animi, que decorre de uma vida afastada do poder, tem paralelo com a

ferrum timere lateris. o quantum bonum est obstare nulli, capere securas dapes humi iacentem! scelera non intrant casas, tutusque mensa capitur angusta scyphus; uenenum in auro bibitur — expertus loquor: malam bonae praeferre fortunam licet. Non uertice alti montis impositam domum et imminentem ciuitas humilis tremit nec fulget altis splendidum tectis ebur somnosque non defendit excubitor meos; non classibus piscamur et retro mare iacta fugamus mole, nec uentrem improbum alimus tributo gentium; nullus mihi

ultra Getas metatur et Parthos ager; non ture colimur nec meae excluso Ioue ornantur arae; nulla culminibus meis imposita nutat silua, nec fumant manu succensa multa stagna, nec somno dies Bacchoque nox iugenda peruigli datur: sed non timemur, tuta sine telo est domus rebusque paruis magna praestatur quies — immane regnum est posse sine regno pati.196

Tiestes evoca duas vezes o conhecimento que adquiriu pela experiência: Mihi crede (v. 446) e expertus loquor (v. 453). Ambos os sintagmas surgem em posições estratégicas no verso (o primeiro inicia a fala de Tiestes e o outro está em final de verso), o que possibilita reforçar os argumentos que refutam os benefícios do poder (vv. 446-449 e v. 453) e elogiar a securitas associada à pobreza (vv. 450-451: capere securas dapes / humi iacentem). Tiestes alerta, por isso, Tântalo para os perigos que a tirania oculta. Os homeoptotos fazem sobressair magna (falsis magna nominibus) e o verbo timeo (frustra timentur dura), e formulam os dois tópicos que Tiestes pretende desenvolver: o primeiro diz respeito à grandeza que arrasta consigo a falsidade; o segundo, à vida despojada de riquezas (subentende-se a pobreza decorrente ou não do exílio) que não deve ser temida.

Em relação ao primeiro tema, a personagem socorre-se de palavras do campo lexical do medo (paueo, timeo) para enunciar o género de affectus que sentiu na época em que tinha poder. Na defesa do segundo tópico, o recurso repetido a estruturas morfossintácticas negativas realça a ausência, entre os que pouco ou nada têm, dos males que atingem os que têm posses e influência (obstare nulli; scelera non intrant casas).

O quiasmo (tutusque mensa capitur angusta scyphus) intensifica esta noção de securitas. Reitera-se, assim, a opinião de que a segurança reside numa vida simples e

196 Note-se que este discurso de Tiestes desenvolve alguns dos tópicos abordados por Atreu no diálogo com o

Satelles (cf. vv. 204-218), o que demonstra que, nas tragédias de Séneca, os temas se entrecruzam no decorrer

tranquila. A oposição entre os alimentos que se tomam em cabanas, livres de cuidados, e o veneno que os inimigos colocam nas bebidas dos que têm a potestas serve de argumento para concluir uma parte do raciocínio de Tiestes: malam bonae praeferre fortunam licet. A antítese reforça a noção de liberdade de escolha que parece entusiasmar a personagem (prefere a mala fortuna) e permite uma nova ordem de argumentos. Pela negativa acumula todo o género de vícios dos quais se aparta e todos os erros que não comete em prejuízo dos outros (como por exemplo, non … humilis tremit; sed non timemur). Com esta enumeração, a personagem mostra-se mais preocupada em identificar as suas privações do que em confirmar os benefícios que obtém com uma vida simples. Como explica Tarrant (1998R: Comm. ad loc. 46-470):

the negative and positive sides of the picture are grossly unbalanced, and there is also a clear difference in style between them: what Thyestes says about the advantages of poverty, both at 449-52 and 468-69, sounds vague and pallid when compared to the vivid detail he lavishes on the life of luxury.

De facto, ainda que tenda a negar o regnum197, pressente-se dos versos supracitados que Tiestes não está totalmente liberto do desejo de governar, ideia que vai tornar-se mais evidente no decorrer do acto terceiro e no acto quinto. A personagem dá a entender que, afinal, ele temia suportar ad aeternum os infortúnios, decorrentes do exílio198, que deixaram marcas bem visíveis no seu aspecto físico (notadas por Atreu, cf. vv. 505-507). A par disto, a sempre constante e premente ideia de medo de enfrentar a fúria de Atreu. Quando Tântalo lhe lembra que é Atreu quem lhe pede que governe, a resposta de Tiestes é (v. 473): Rogat? timendum est. errat hic aliquis dolus. A perifrástica passiva faz sobressair a noção de obrigatoriedade: o pedido do irmão deve ser temido não só por reconhecer nele um ânimo que tende para a ira, mas porque, no seu íntimo, Tiestes admite ter sido o primeiro a cometer