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Parte II: Reflexões de uma educadora

1. Reflectir e Flectir

Tendo em conta que os pais são os principais responsáveis pela educação das crianças e que a educação pré-escolar complementa em grande parte a acção da família, na pessoa do educador de infância, importa perceber que profissionais se pretendem ter, de modo a proporcionar às crianças um ambiente educativo de qualidade e que promova o seu desenvolvimento saudável.

De facto, cada educador transporta consigo um conjunto de experiências, vivências, crenças e valores que, consciente ou inconscientemente se acabam por reflectir na sua prática educativa.

Nesse sentido, os educadores devem ser reconhecidos como seres únicos, com saberes e conhecimentos próprios, daí que exista uma diversidade de formas de actuação, independentemente da formação académica e profissional ser semelhante.

Contudo, apesar de não existir um código deontológico que reja em específico a profissão de educação de infância, a “Carta de princípios dos associados da APEI (Associação de Profissionais de Educação de Infância) para a tomada de decisão eticamente situada”, publicada em Dezembro de 2007, constitui uma orientação na criação de uma identidade deontológica, de modo a conferir aos seus profissionais um sentido de pertença.

Neste sentido, a APEI (2007) nomeou quatro princípios éticos, sendo eles, a competência (saber teórico-prático respeitante à profissão em constante construção), a responsabilidade (atitude responsiva que impõe uma mobilização pessoal), a integridade (qualidades pessoais como a honestidade, a justiça e a coerência), e o respeito (requisito fundamental para o reconhecimento e promoção da dignidade humana).

Posto isto, os educadores poderão reconhecer e aplicar os princípios éticos anteriormente indicados, em diferentes domínios, nomeadamente, no

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compromisso com as crianças, no compromisso com as famílias, no compromisso com a equipa de trabalho e entidade empregadora, no compromisso com a comunidade e no compromisso com a sociedade.

Para além disto, os profissionais de educação têm ainda que ter em consideração que, nas últimas décadas, a sociedade tem vindo a sofrer alterações significativas e, consequentemente, a educação em Portugal também.

De facto, as características da sociedade actual, nomeadamente, a globalização do ensino, a valorização da autonomia dos alunos, a diversidade cultural, entre outras, influenciam a forma como se percepciona a educação, assim como as práticas educativas.

Assim sendo, os educadores de infância não se podem prender a um modelo antigo de educação em que eram aplicadas as técnicas aprendidas, ou então em que era aplicada a teoria na prática, pois cada contexto, cada grupo de crianças no seu todo, e cada criança na sua individualidade, são diferentes, tendo interesses e necessidades distintos.

Cabe, então, ao educador, interligar a teoria e a prática, de modo a que estas se complementem, reflectir sobre elas, assim como percepcionar e valorizar os contextos e as crianças com características próprias e irrepetíveis.

O educador surge, assim, como um profissional que deve ser reflexivo, para que possa reformular as suas práticas pedagógicas, adaptando-as e adequando-as aos interesses e necessidades de cada grupo de crianças.

O conceito de “reflexão” é visto, assim, como indissociável das práticas pedagógicas do educador, pelo que a sua importância no processo de formação de professores é indiscutível.

De acordo com Dewey (1933), citado por Alarcão (1996), é possível distinguir o acto rotineiro do acto reflexivo, sendo que o primeiro consiste num impulso, um hábito e, por sua vez, o acto reflexivo constitui uma forma especializada de pensar, um modo de utilizar o pensamento conferindo sentido às diversas situações.

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Por outro lado, segundo Schön (1987), citado por Alarcão (1996), é possível distinguir quatro noções respeitantes à questão da reflexão, nomeadamente, o conhecimento na acção, a reflexão na acção, a reflexão sobre a acção, e a reflexão sobre a reflexão na acção.

O conhecimento na acção refere-se ao conhecimento manifestado no momento da acção, e é desenvolvido sem uma reflexão consciente, pelo que apenas quando surgem situações inesperadas, é que surge a reflexão na acção.

Por sua vez, esta noção de reflexão na acção aparece quando o professor/educador reflecte durante a acção, permitindo-lhe adaptar e adequar a sua prática a novas situações.

No que diz respeito à reflexão sobre a acção, consiste na representação mental da acção, por parte do professor, de modo a poder analisá-la retrospectivamente. Esta análise permitir-lhe-á entender de forma mais clara o que ocorreu na acção, bem como a forma como solucionou a situação inesperada. Por fim, a reflexão sobre a reflexão na acção constitui um processo que promove o desenvolvimento das competências profissionais do professor, pois possibilita que ele construa a sua forma pessoal de conhecer.

Para além disto, Zeichner (1993), citado por Alarcão (1996), também clarifica o conceito de ensino reflexivo, referindo três atitudes essenciais para que o professor possa reflectir, tais como, a abertura de espírito, a responsabilidade e o empenhamento.

De acordo com Zeichner (1993), citado por Alarcão (1996), a abertura de espírito, isto é “o desejo de se ouvir mais que uma opinião, atender a outras alternativas e admitir a possibilidade de erro, mesmo naquilo que se acredita como certo”9

, permite escutar e respeitar outros pontos de vista.

No que se refere à responsabilidade, consiste na capacidade para pensar e prever as consequências de uma acção específica.

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Quanto ao empenhamento, constitui a capacidade para lidar com determinada actividade com interesse e energia.

No entanto, de acordo com Pollard e Tann (1987), citados por Vasconcelos (s/d) são ainda necessárias algumas destrezas para se promover um ensino reflexivo, nomeadamente, destrezas empíricas (capacidade de diagnóstico), analíticas (capacidade de interpretação), avaliativas (capacidade de valoração), estratégicas (capacidade de planeamento), práticas (capacidade de actuar) e destrezas de comunicação (capacidade de comunicar).

Todo este processo de aprendizagem, para o qual são fundamentais estas atitudes e destrezas, envolve o professor/educador num ciclo reflexivo, isto é, o educador utiliza na sua prática educativa os saberes documentais e os saberes experienciais previamente adquiridos, que são questionados aquando o surgimento de situações inesperadas que exigem uma nova solução.

Assim, ao longo da sua prática o educador vai reflectindo sobre as novas problemáticas, sendo que essa reflexão lhe possibilitará, posteriormente, reconstruir os seus saberes, transportando para a sua acção os novos conhecimentos adquiridos, permitindo-lhe também renovar a sua competência profissional.

Por outro lado, a atitude reflexiva de um educador permitir-lhe-á ainda ter uma postura flexível quanto ao contexto educativo, às novas situações que vão surgindo, bem como ao modo de conduzir a sua prática educativa.

Por fim, esta atitude flexível do educador possibilitará que este conduza a sua prática de acordo com o ritmo e a singularidade de cada criança, adequando a sua acção constantemente.

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