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8. REFLEXÃO SOBRE OS INDICADORES

8.6. Refletindo sobre Diferentes níveis de realidade

A própria noção de transdisciplinaridade está vinculada ao indicador, que é um dos pilares do conceito. Nicolescu (2005) explica a nova lógica, do terceiro incluído, pela qual um termo T pode ser concomitantemente A e não-A, dependendo do nível de realidade em que é observado. Essa é uma descoberta da Física que foi transposta para outras ciências, e exige que se repensem os saberes (MORIN, 2011). A transdisciplinaridade é uma consequência dessa transposição. As questões do bloco têm um enunciado mais longo que as antecessoras, em uma tentativa de explicar situações passíveis de acontecer no contexto escolar.

A pergunta inicial questiona sobre como terminar uma reunião polêmica e controversa, na qual os participantes têm opiniões diversas e não conseguem um acordo. Canopus respondeu a partir de sua perspectiva como diretora, afirmando que não poderia indicar nenhum professor para um encontro do tipo, pois isso seria uma atribuição do seu cargo, preocupando-se mais em dizer que a resolução passa pela direção do que em manifestar como faria para terminar o encontro. Hamal usa novamente o termo pejorativo “palhaçada” para definir o encontro, observando que não toleraria a reunião e falaria o que pensa para todos. Acrux afirmou que prestaria atenção em todas as propostas, para considerar as posições de cada um, contudo de antemão afirmou que pediria a todos que lessem um pouco sobre as teorias que defendem, pois já

constatou que é comum nesse tipo de reunião as pessoas falarem sem embasamento. Regulus e Pollux tentariam organizar uma pauta mínima para otimizar o próximo encontro, e o primeiro lembrou que deve ficar quieto nessas reuniões. Canopus não conseguiu pensar na opinião dos outros na reunião, pensando somente na sua, e Hamal apresentou mais uma postura de intolerância e desprezo por áreas do conhecimento que não são sua especialidade. Pollux e Regulus foram pragmáticos, pois tentariam organizar uma pauta para a próxima reunião, ouvindo todos. Acrux demonstrou nessa parte da conversa o valor que dá às teorias, e a preocupação com a falta de profundidade manifestada em algumas reuniões da área educacional, sem perder o foco na ideia de ouvir os participantes.

Em algumas escolas de Ensino Médio os alunos vêm de diferentes instituições, podendo causar um desequilíbrio entre os alunos, que podem ter passado por diferentes abordagens dos conteúdos. Esse é o tema da segunda pergunta, que busca informações sobre o que os entrevistados fariam em situações como a descrita. Canopus não procuraria culpados, e buscaria uma retomada dos conteúdos básicos. Hamal sugeriu que uma maior proximidade entre os colégios dos Ensinos Fundamental e Médio ajudaria a resolver o problema, e que o enfrentamento da questão depende muito do grupo de professores, que podem pensar e trabalhar para enfrentar a situação ou somente reclamar. Acrux deu ênfase ao planejamento do professor, para que esteja preparado para ir retomando os conteúdos conforme julgar necessário. Regulus e Pollux manifestaram a necessidade de reforço no turno inverso. A pergunta recebeu respostas bastante semelhantes com todos os participantes da pesquisa sendo objetivos, sem acusar as escolas nas quais os alunos cursaram anteriormente.

A questão seguinte se refere à possibilidade do participante da pesquisa assumir uma turma de EJA. Canopus e Acrux apontaram diretamente para o conhecimento das histórias dos alunos, indicando a possibilidade de uma imersão para compreender o jeito de ser de cada indivíduo da turma. Hamal afirmou que buscaria uma homogeneidade através do diálogo, para nivelar os grupos, supondo que os alunos do EJA estejam na escola com mais foco no estudo que os do que os adolescentes. Regulus demonstrou uma preocupação com o conteúdo, afirmando que sua função é levar e cumprir o conteúdo, desconsiderando possibilidades de que o conhecimento do pensamento dos alunos possa indicar mudanças no seu planejamento. Pollux afirmou que mesclaria os grupos para que houvesse aprendizagem colaborativa, procurando incentivar um colega para que ajudasse outro, não falando em conhecer melhor a experiências de

vida da turma. Roquete et al. (2012) argumentam que é impossível desconsiderar os diferentes níveis de realidade na atualidade, sugerindo que o pensamento medieval ocidental que considerava o ser humano constituído de corpo, alma e espírito possa ser reconsiderado e retomado. A atividade educativa é uma atividade entre humanos e, de acordo com Maturana e Varela (2003), o professor e a turma são duas bolhas que se encontram para compartilhar um semestre ou um ano letivo, e nesse período as bolhas vão se transformando, se moldando uma à outra, com modificações frequentes e sucessivas, aprimorando o relacionamento. A resposta de Canopus e Acrux mencionou a importância desse conhecimento do todo que compõe a personalidade dos alunos, tornando possível a construção de ambiente no qual haja constantes modificações e uma via múltipla na comunicação entre os integrantes da turma. Pollux e Hamal preocupam-se mais com a questão do nivelamento do conteúdo, sem ênfase na compreensão de cada indivíduo. Hamal fala também em tornar o grupo homogêneo pelo diálogo, e há dúvidas sobre a possibilidade de diálogo em um grupo dirigido por ele, que apresentou em toda a conversa indicativos de promover uma aula autoritária, na qual somente sua opinião tem validade.

A aceleração da aprendizagem é o mote da questão, procurando informações sobre qual procedimento seria adotado pelos entrevistados caso participassem de um programa desse tipo. Canopus já trabalhou como professora em um sistema de aceleração, e há algo do tipo na escola em que dirige. Ela observou que a principal vantagem está em evitar a humilhação do aluno mais velho quando compartilha uma sala de aula com alunos muito mais novos, situação que pode causar desconforto e vergonha. Hamal considera a aceleração da aprendizagem como uma operação de emergência, que não resolve o problema, pois está centrada no fato do aluno não querer estudar quando deveria. Acrux e Pollux acham que a ideia da aceleração de aprendizagem é boa, desde que fossem garantidas condições materiais e de planejamento. Regulus trabalharia em tal sistema, mas ressalta que provavelmente teria dificuldades, pois sua formação sempre se voltou para a pesquisa, e ele sente dificuldades em lidar com algumas situações, como professor. Bicalho e Borges (2012) observam que a necessidade da aproximação das áreas é fundamental, citando como exemplo o próprio conceito de diferentes níveis de realidade, oriundo das ciências exatas, da mecânica quântica, que foi adotado por outras áreas, como as ciências sociais. Regulus demonstrou a carência que essa abertura a outras áreas lhe causa, no momento de transitar entre os níveis. Acrux e Pollux argumentaram tecnicamente, pensando nas condições propícias para

executar um bom trabalho, enquanto Canopus, talvez por ter experiência com o sistema, pensa logo no aluno, que pode deixar de sentir-se humilhado em sala de aula. Hamal não consegue compreender que pode haver múltiplas razões para que alguém não estude, preferindo culpar o aluno pelo fato.

Divergências são algo comum entre os humanos, que podem apresentar diferentes pensamentos referentes a qualquer assunto. A última questão da seção é sobre divergências entre os professores entrevistados e seus alunos. Canopus focou a resposta na sua experiência atual, como diretora, relatando problemas com uso de celular e uniformes, que são regulados por normas, sem possibilidades de discussão. Hamal afirmou que na sua sala tudo é muito tranquilo, não há divergências. Acrux lembrou que seus alunos são muito parecidos com ele quando estava na graduação, reclamando de muitas coisas, inclusive dos professores. Regulus não lembrou de concordâncias, alegando que os alunos rejeitam muitos conceitos científicos, resistindo a uma abertura para a ciência. Pollux informou que não há consenso na sala de aula, mas resistiu à conversa, e não forneceu mais informações. Segundo Athayde et al (2013), diferentes culturas podem apresentar ideias muito distintas sobre diversos conceitos, citando a tribo Rikbaktsa, cujo conceito de território do seu povo inclui todas as terras que foram habitadas por seus ancestrais. Algo semelhante acontece nas aulas de Regulus, nas quais aparentemente os alunos têm outras explicações para os fenômenos naturais, fruto do senso comum ou de concepções diferentes, principalmente religiosas. Evidentemente, Regulus não pode se esquivar do seu papel e deve apresentar as explicações das ciências naturais. Talvez, o que deva ser evitado é o clima de confronto entre professor e alunos.

Nas observações, percebeu-se que Acrux tenta, ainda que timidamente, conversar sobre as atividades profissionais dos alunos, conhecendo-os um pouco melhor. Regulus tem um roteiro fixo inflexível, que prossegue independentemente de qualquer tipo de reação dos alunos, confirmando a ideia percebida na entrevista de que há dificuldades para que Regulus encaminhe um diálogo entre saberes diferentes.

Santos, Santos e Mendes (2013) recordam que os diferentes níveis de realidade estão descritos no item número 2 da “Carta da Transdisciplinaridade”, em que se afirma que não há transdisciplinaridade sem o indicador. Costa e Cruz (2015) listam uma série de encontros, como “A Ciência Diante das Fronteiras do Conhecimento”, o congresso “Ciência e Tradição: Perspectivas Transdisciplinares para o século XXI”, o “I Congresso Mundial da

Transdisciplinaridade” e o “Congresso Internacional de Transdisciplinaridade - Que Universidade para o amanhã?” e “Em busca de uma evolução transdisciplinar da Universidade”, nos quais houve uma busca de identificação dos pilares da transdisciplinaridade, estando os diferentes níveis de realidade entre eles. Segundo Rodrigues (2012), o indicador extrapola os limites das ciências naturais, influenciando outros campos do conhecimento, nos quais as interações entre os saberes deixam o indicador evidente. Evidências do indicador “Diferentes níveis de realidade” ficaram explícitas no discurso de Canopus e Acrux, sendo que no último, tais evidências puderam ser observadas na sua atuação em aula. Canopus apontou na fala que consegue outrar-se, colocar- se no lugar do outro, elemento chave na frase em que disse que a aceleração da aprendizagem evita a humilhação dos alunos. Pollux apresentou algumas evidências na fala, sem oferecer claramente um discurso convincente que aponte o indicador. Hamal e Regulus não apresentaram sinais majoritários de atitudes transdisciplinares neste grupo de perguntas. O primeiro, pela sua postura intransigente de desconsiderar o diferente, e o segundo, pela dificuldade de diálogo com ideias distintas da sua.