8. REFLEXÃO SOBRE OS INDICADORES
8.9. Refletindo sobre Solidariedade
Segundo D’Ambrosio (2001), a solidariedade é essencial para a paz social, e embora inclua um viés material, implica também na comunhão emocional que se estabelece com o compartilhamento das alegrias e das tristezas, em uma vivência de unidade dos sentimentos, pois pode ser cômodo dar esmola ou fazer uma doação financeira e sentir alívio na consciência, sem que haja maior envolvimento no ato. O conjunto de questionamentos a seguir tentou encontrar sinais de atitudes que remetessem ao indicador.
Incialmente, perguntou-se como o entrevistado encararia conviver com moradores de rua na vizinhança. Canopus não convive com tais problemas, quase inexistentes na sua cidade, e falou que talvez chamasse uma ambulância. Hamal observou que o problema está na família, e não adianta culpar esse ou aquele governante. Acrux observou que se a presença de moradores de
rua fosse permanente providenciaria contato com as autoridades para atendimento. Regulus é o único que conviveu com tal vizinhança e afirmou que sentia mais medo do que qualquer outro sentimento. Pollux afirmou que nada poderia fazer pelos moradores de rua. Somente Regulus passou por uma situação concreta de ter a presença de pessoas morando na via pública nas proximidades de sua casa, e teve uma sensação de medo, provavelmente por viver em uma cidade grande, sob o estigma da violência e da insegurança. De acordo com Costa (2014) os moradores de rua são estigmatizados pela população em geral, e para superar o preconceito vigente no imaginário social deve haver mais debates que esclareçam as condições das pessoas que ocupam o espaço público. Canopus, Hamal, Regulus e Pollux também não compreendem a situação da população das ruas.
A próxima pergunta é sobre um hipotético aluno, cujo pai tenha falecido durante o final de semana. Como os entrevistados lidariam com o fato? Canopus esperaria o aluno para tentar consolá-lo. Hamal observou que não haveria problema em justificar a falta ou marcar uma segunda oportunidade, caso fosse dia de prova. Acrux acha que seria uma situação difícil para o estudante, no entanto evitaria qualquer comentário e só abordaria o assunto se o aluno falasse algo sobre o falecimento. Regulus supõe que uma estratégia conjunta dos professores e da escola seria a melhor solução para motivar o estudante, e Pollux tentaria uma aproximação sem tocar no assunto da morte, para perceber a situação emocional do aluno. Canopus, Regulus e Pollux se mostraram solidários e disseram que agiriam para tentar provocar uma reação positiva no aluno. Acrux também deu mostras de sentir-se solidário com o fato, porém, respeitaria a vontade do aluno de comentar ou não comentar o fato. Hamal parece se esquecer de que está falando de um ser humano, e preocupa-se apenas com aspectos burocráticos relacionados à ausência do aluno.
A terceira pergunta é a questão que encerra o bloco e questiona a participação de alguns professores em esquemas para conseguirem certificados para mudanças de nível e classe. Canopus disse ter aversão a tais práticas, e evitou responder se falaria para um superior sobre o assunto. Hamal observou que muitas vezes os professores fazem uso de expedientes ilícitos devido a uma situação desesperadora, pois precisam muito dos aumentos salariais proporcionados pelos cursos. Acrux falou que o professor que participa desses cursos está estagnado, desvaloriza sua profissão e não está preocupado em melhorar sua atuação. Regulus não comentou a ética envolvida no assunto, focando sua resposta na lealdade ao grupo, afirmando que não falaria nada para seu superior. Pollux afirmou que não sabe nada sobre tais práticas de cursos de fachada e
não comentou o assunto. Segundo os PCNs (PCNs, ÉTICA, 1997), o contexto referente à solidariedade deve ser o da generosidade e da partilha, pois membros de associações criminosas, como os integrantes da Yakuza36 são solidários uns com os outros, mas suas práticas passam longe da aprovação ética. Há solidariedade nos discursos de Hamal e Regulus, porém não levam em conta outros aspectos envolvidos. Pollux e Canopus evitaram responder, deixando dúvidas sobre se falariam ou não com os superiores, enquanto Acrux abordou a falta de valorização da profissão praticada por quem participa de tais procedimentos, um enfoque bem diferente do que o dos outros entrevistados.
Tanto Acrux quanto Regulus apresentaram evidências do indicador “Solidariedade” durante as observações, pois Acrux esteve sempre envolvido em conversas com colegas buscando ajudá-los e Regulus sempre está pronto para prestar ajuda aos outros professores.
Segundo Vieira (2012) há solidariedade quando um interlocutor emite a sua opinião com justiça e sem agressividade, com a intenção de promover um aperfeiçoamento do outro, e uma postura ética possível no caso apresentado seria estimular os colegas para que participem de cursos que efetivamente contribuam para melhorar sua atuação. Para Moraes (2010) as atividades educacionais devem ser pautadas pela ética e pela solidariedade, sendo, portanto, impraticável separar uma da outra. Viana e Oliveira (2011) afirmam que ser solidário deve transcender o limite do material e atingir esferas espirituais e emocionais, condição que leva a pensar no aluno que teria perdido o pai, e que deve ser visto em toda a sua dimensão como ser humano. Assim, considera-se que Hamal não atinge o indicador, pois não considera toda a carga emocional e espiritual que a morte de um pai envolveria. Acrux apresenta evidências do indicador, e os outros apresentam em parte, pois Canopus e Pollux não responderam propositadamente uma questão, e Regulus utilizou a lógica da defesa do grupo para não falar sobre os colegas para um superior.