2. FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICA
2.3. Capacidades Reflexivas
2.3.1 Reflexão com outros (RO)
A reflexão com outros é o processamento que o indivíduo ou os membros do grupo realizam de forma intencional, pensando sobre objetivos, estratégias e processos existentes e os adaptam para as circunstâncias endógenas ou ambientais atuais ou antecipadas (WEST, 1996, p. 559).
O processo de reflexão com outros abrange o indivíduo de forma a considerar estratégias alternadas para lidar com diferentes colegas ou companheiros de equipe. Durante este processo os indivíduos pensam e monitoram seus próprios processos cognitivos e, caso necessário, providenciam ajustes na busca dos objetivos, o conteúdo da reflexão varia dependendo dos objetivos de cada indivíduo (YANCEY, 1998).
Com o auxílio da reflexão com outros, o indivíduo pode retornar, recorrer para as anotações, entender e repensar o presente com o olhar no futuro e explicar para os outros indivíduos o que está sendo discutido. Mediante a reflexão com outros, o indivíduo reflete sobre os cursos de uma ação para atender aos requisitos da tarefa e de como executá-los (YANCEY, 1998).
Neste sentido, a reflexão com outros é similar à individual, entretanto, ela é amplificada de acordo com a escala do grupo, com o volume de comunicação verbal e não verbal entre os indivíduos, os quais, em muitas ocasiões, necessitam priorizar e focar em elementos específicos.
Em pesquisas realizadas sobre a reflexão com outros, alguns estudiosos denominaram este processo como reflexividade.
A reflexividade é a extensão em que os membros do grupo refletem e comunicam abertamente os objetivos, as estratégias (tomada de decisões) e os processos (comunicação entre os membros). Os processos de equipe são como processos de transição, assemelhando-se às ações que as equipes executam os diferentes momentos das atividades (MARKS; MATHIEU; ZACCARO, 2001).
A reflexividade se torna útil para o desempenho da equipe, na proporção em que pensar e comunicar sobre as realizações anteriores levarão a um melhor desempenho, ou seja, quando o indivíduo ou as equipes não estão se saindo bem, a reflexividade pode ajudar o grupo a mudar o rumo da ação (MARKS; MATHIEU; ZACCARO, 2001). Todos conversam e refletem, podendo desta forma melhorar o desempenho e subsequente, por sua vez, influenciar positivamente o desempenho futuro. Trata-se de um recurso que o indivíduo possui para refletir com outros indivíduos de forma coletiva, expondo os objetivos, as estratégias e os processos da equipe, bem como suas organizações em ambientes mais amplos, e sua adaptação de acordo com novos cenários.
Quando os indivíduos refletem em grupo, eles têm a oportunidade de aprender como os demais componentes, analisam um problema e constituem as estratégias de
resolução de problemas descritas por outros, facilitando seu próprio desempenho (SAWYER; BERSON, 2004).
O processo de reflexividade auxilia as equipes a se afastarem do problema e a encontrarem suas causas raízes, favorecendo a aprendizagem. As equipes cujo desempenho seja relativamente insatisfatório, há uma relação mais forte entre reflexividade e aprendizagem, pois nestes contextos ocorrem soluções criativas e inovadoras para os problemas, devido à busca da troca da base de conhecimento da equipe, a qual acaba desenvolvendo novas e melhores técnicas para aumentar o desempenho e o resultado da equipe, utilizando-se de ações como questionamento, planejamento, aprendizado exploratório, análise, explorações revisando eventos passados etc. (ILGEN et al., 2005).
Uma equipe reflexiva possui consciência das ações e de suas consequências, enquanto uma equipe não-reflexiva funciona sem a autoconsciência de suas ações, sendo mais provável que uma equipe reflexiva esteja monitorando continuamente ambos os ambientes internos e externos (ILGEN et al., 2005). A avaliação continuada possibilita que os componentes da equipe desenvolvam novos significados em relação às representações da equipe, permitindo que eles sejam proativos e capazes de se adaptar, conforme necessário, para as novas condições.
Existem três práticas reflexivas em grupo: (i) refletir sobre as experiências de trabalho diárias; (ii) compartilhamento de pensamentos reflexivos individuais e lições aprendidas; e (iii) evolução das melhores práticas por meio do acúmulo de aprendizado reflexivo da equipe (KNIPFER et al., 2013). A reflexão tem o potencial de levar a uma mudança e ao desenvolvimento, pois provoca insights nas práticas de trabalho e identifica onde as rotinas de trabalho precisam ser modificadas.
O processo de reflexão em grupo possibilita a reflexão retrospectiva, ou seja, de relembrar o que aconteceu, facilitando a reflexão. Os grupos habitualmente são mais capazes do que os indivíduos isolados para executar o processamento e armazenamento de um volume maior de informações, o que sugere que o grupo deve oferecer acesso a uma gama mais ampla de lições pertinentes as quais estariam disponíveis para indivíduos que refletem sozinho (HEFFRON; REYNOLDS; TALBOT, 2016).
O processo de reflexividade é concebida mediante a discussão dos problemas e as soluções potenciais para o coletivo, oferecendo aos participantes uma oportunidade de conhecer e experimentar dinâmicas de grupo, permitindo que eles
reflitam sobre o que estão sentindo e pensando, por exemplo, utilizando o
brainstorming, situação em que surgem ideias dos componentes do grupo, as quais podem estimular uma ideia em outra pessoa, que resulta em uma reação em cadeia que pode facilitar soluções mais otimizadas (HEFFRON; REYNOLDS; TALBOLT, 2016). Essas sessões são também importantes para que, por meio de dinâmicas de grupo, os indivíduos possam expor o que sentem e o que estão pensando.
A reflexividade envolve o pensar com outros indivíduos acerca da prática e do cotidiano, como um processo de construção e ação participativa dos envolvidos. A reflexão nestes espaços necessita ser interpessoal, dialogada e compartilhada. A reflexão com outros fica assim definida como o processo de valorizar as conexões interpessoais e o compartilhamento das ideias, proporcionando o crescimento e o desenvolvimento do processo criativo, realçando o processo de construção coletiva e apoiandoo processo cooperativo.
Trata-se de um processamento (individual ou em grupo) que instiga o indivíduo a considerar diferentes estratégias de forma aberta, a lidar com diferentes situações ou com colegas e/ou companheiros de equipe. O processamento é similar à individual, porém, amplificada de acordo com a escala do grupo que busca levar o indivíduo a pensar e comunicar sobre as realizações anteriores – o que resultará em um melhor desempenho do grupo (WEST, 1996; YANCEY, 1998; MARKS; MATHIEU; ZACCARO, 2001).
A Hipótese 3 é de que, ao refletir com outros, a reflexão é entendida como um processo de retrospectiva, no qual o grupo será mais capaz de pensar sobre o que estão sentindo e sobre o que estão pensando do que os indivíduos isolados; além disso, executam o processamento e o armazenamento de informações com maior facilidade, influenciando – de forma conjunta – a aprendizagem individual:
H3: RO influencia positivamente a aprendizagem individual.