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Reflexão sobre a Chancelaria da Rainha Consorte

No documento Leonor Teles, uma mulher de poder? (páginas 182-185)

1. Chancelaria da Rainha Consorte

1.1 Reflexão sobre a Chancelaria da Rainha Consorte

Julgamos que a esfera de actuação de Leonor Teles, na sua chancelaria, está limitada, durante a vida de seu marido, à gestão do seu património, ao contrário do que observámos, na Chancelaria de D. Fernando, onde diversos documentos registam a participação da Rainha em matérias que transcendem os seus senhorios. Alvitramos, por isso, que Leonor só conseguia intervir nos assuntos do reino, indirectamente, através da mão do rei, como comprova a carta para o Mosteiro de Alcobaça que o casal outorgara a 23 de Julho de 1374, acima explicitada, e as demais doações conjuntas que Fernando e Leonor entregaram e que analisámos, no capítulo “Leonor Teles, na Chancelaria de D. Fernando”. Ana Maria Rodrigues diz mesmo que quando as Rainhas consortes procuravam intervir nos assuntos do reino “in a direction that conflicted with their husbands’ or their in-laws’ interests, they found no support in the men and funs they needed to stand against them save in their own estates and then not even in all of those.”732 Tavez por esta razão e à excepção da crítica ao desastre de Saltes, Leonor nunca enfrentou o marido, traçando, antes, junto dele uma política de cumplicidade. Esta estratégia permitia-lhe participar e opinar, no governo de D. Fernando, sem que ele se opusesse, oferecendo a imagem de ser o rei o único decisor. Assim, as Rainhas consortes eram donatárias ricas e poderosas, mas o seu poder estava, de facto, teoricamente, limitado às suas terras. “This meant that in Portugal queen consorts did not enjoy personal authority nor any sort of charisma of their own but derived all their power from the specific concessions that the Kings made to them.”733

O estudo da Chancelaria da Rainha Consorte permitiu-nos constatar, também, que o clero é o único grupo social agraciado pela Rainha e, dentro dele, as ordens monásticas como a dos Cónegos Regrantes de Santo Agostinho, no Mosteiro de S. Vicente de Fora; a Ordem de Cister (também conhecida pela de S. Bento), no Mosteiro de S. Dinis de Odivelas e no Mosteiro de Alcobaça; e a Ordem de Santiago, no Mosteiro de Santos-o-Novo. De facto, nos diplomas analisados, os beneficiados são estes Mosteiros. Entendemos que esta preferência não se devia a nenhum fervor religioso particular, que Leonor pudesse sentir pelas regras que os conventos seguiam (tanto mais que estas comunidades, no séc. XIV, estavam já muito afastadas dos ideais de rigor e de austeridade que nortearam a sua fundação). Provavelmente, razões mais

732 Ana Maria Rodrigues, “The Queen Consort in Late-Medieval Portugal”, p. 145. 733 Ana Maria Rodrigues, “The Queen Consort in Late-Medieval Portugal”, p. 145.

prosaicas ajudarão a perceber estas benesses. É preciso não esquecer que as terras da Rainha estavam inseridas em conjuntos territoriais e administrativos que chocavam com as possessões e jurisdições dos Mosteiros, direitos estes muito anteriores aos de Leonor Teles, pois provinham de doações e privilégios outorgados, alguns (como verificámos), desde D. Afonso Henriques, D. Dinis ou D. Pedro, a essas ditas instituições. Não podemos, igualmente, negligenciar a informação de que a igreja era detentora de vastos senhorios, fortuna que se justifica pela acumulação de terras recebidas, como recompensa pelos esforços desenvolvidos, na guerra da reconquista, no povoamento e na defesa do reino734. Além destas doações régias, o clero recebia, ainda, outros bens imobiliários provenientes dos leigos, pouco ou muito endinheirados. Este património eclesiástico, à luz do direito canónico, não podia ser alienado, o que fazia com que “todas as propriedades caídas nas suas mãos não mais voltavam a sair delas.”735 Francisco da Fonseca Benevides explica que a importância que o clero teve, na Idade Média, se deveu muito à ligação que, cedo, estabeleceu com o poder temporal. Depois de converter os bárbaros do norte, que invadiram o império romano, o clero, a única classe instruída da época, “chamou a si as pessoas que se haviam mostrado mais notáveis por qualquer forma, dando inclusivamente aos seculares ingresso em seus concílios. |…| por justa reciprocidade o clero tomou ingerência nos negócios temporais. Foi principalmente no século VI que, durante o reinado do rei godo Recarredo, o clero começou a ter grande influência no poder temporal.” 736

Voltando às benesses que a Rainha teve para com a igreja, importa perceber que Leonor Teles tinha, pois, de saber lidar com este poderoso vizinho que ela não pretendia afrontar, tendo em conta que respondeu, sempre, favoravelmente às suas reclamações, mesmo que para isso, tivesse de lesar os interesses municipais das suas vilas e lugares. Fernão Lopes considera que esta política estava de acordo com o projecto da Rainha de querer conquistar a simpatia dos grandes do reino, já que dos pequenos, ela não era bem querida737. Esta postura aproximava a Rainha da mentalidade senhorial738 que imperou

734 “Graças à liberalidade e devoção dos soberanos e dos particulares, os bens do clero foram augmentando de tal modo, que em 1581 os seus prédios rústicos formavam quasi a quarta parte da região arável do paíz.” Francisco da Fonseca Benevides, As Rainhas de Portugal, Tomo I, p. 14.

735 Ana Maria Rodrigues, Torres Vedras, a Vila e o Termo nos Finais da Idade Média, Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian, Junta Nacional de Investigação Científica e Tecnológica, 1995, p. 371.

736 Francisco da Fonseca Benevides, As Rainhas de Portugal, Tomo I, 1879, p. 14.

737 “E porquanto ella era certa que nom prazia aas gentes meudas de ella seer rainha, segundo se mostrara em Lixboa e em outros logares |…| trabalhou-sse de aver da sua parte todollos moores do rreino per casamentos e grandes officios e fortellezas de logares que lhes fez dar |...|”. Fernão Lopes, D. Fernando, cap. LXV, p. 227.

na monarquia dos primeiros reinados739 e afastava-a do centralismo régio que o marido procurava consertar, ainda que o fizesse com alguns recuos, como já constatámos, no capítulo da “Leonor Teles na Chancelaria de D. Fernando”. Amélia Pereira Hutchinson defende que o perfil feudal de Leonor impediu-a de reconhecer os ventos da mudança que sopravam o poder para as mãos da burguesia de Lisboa e do Porto.740 No entanto, é importante não esquecer que a política de favorecimento ao clero que Leonor seguiu, vinha na linha de D. Fernando, como atrás salientámos, observando-se nos diplomas dos dois monarcas estudados, uma acção de continuidade e uma confirmação de atitudes.

Os nove documentos analisados têm todos a mesma autora, que é a Rainha. A sua assinatura só não é mencionada no diploma de 1376, entregue ao Mosteiro de S. Dinis de Odivelas e nos três documentos referentes ao Mosteiro de Santos. Com o Mosteiro de Odivelas, na carta de 1376, surge a assinatura de Vicente Roiz, que não é nem o ouvidor, nem o escriba deste privilégio. Com o Mosteiro de Santos, convém salientar que dois dos documentos mencionados (1378, 1381) são traslados dos textos originais. Só a carta de 1376 constitui o original da Rainha, tendo preso a este, um selo com as insígnias régias de Leonor e o registo de um ou dois sinais de tabelião741. A autora de todas estas cartas mostra-se conhecedora e prudente nos juízos que faz. Os diplomas revelam que foi uma senhoria atenta aos problemas expostos e com capacidades decisórias firmes e fundamentadas.742 Consideramos, igualmente, que a máquina burocrática que superintendia o património da Rainha funcionava bem743, mas 738 “Leonor`s mentality appears to be typically feudal, based on the sacred ties between vassal and suzerain, perhaps because only that structure was capable of giving her the desired protection and access to the power she craved.” Amélia Pereira Hutchinson, “Appendix 3”, ob. cit., p. 288.

739 “Em pagamento dos serviços feitos pelos chefes dos seus homens de guerra, os monarchas concediam em doações terras e propriedades; a pouco e pouco a nobreza foi adquirindo grandes riquezas e notável influência |…|”. Francisco da Fonseca Benevides, As Rainhas de Portugal, Tomo I, 1879, p. 15.

740 “Leonor also failed in her ultimate bid for power and authority because she had a politically feudal mentality, failing to recognise the winds of change and the power of the new commercial bourgeoisie, mainly of the cities of Lisbon and Oporto” (Amélia Pereira Hutchinson, ob. cit., p. 160). Nesta nova sociedade mercantil, de qualquer maneira, Leonor, também, não teria lugar, pois o poder girava à volta do rei e dos seus burocratas que separavam o domínio privado (onde estavam as Rainhas) do domínio público (poder político). Amélia Pereira Hutchinson, ob. cit., p. 160.

741 Ver “Apêndice”: “Chancelaria da Rainha Consorte”, s.f.f.

742 “Conservam-se uns poucos documentos da Rainha D. Leonor, que a mostram activa e interveniente no governo de suas terras e rendas.” Rita Costa Gomes, D. Fernando, p. 83.

743 A escolha dos oficiais para a sua casa e terras era atributo das Rainhas. “As the full jurisdiction of these territories also belonged to them, they chose the local judges and had a superior magistrate («corregedor») for judging the appeals coming from the local courts of justice. Other justice officials – including enquirers, jailers, porters – and the public notaries («tabeliães») were also nominated by the queens. As patrons of the local churches they could present their respective appointees to the bishop for confirmation. |…| some queens even received the right to nominate the governors of the local castels («alcaides»), but these had to be approved by the King and swear allegiance to him.” No entanto é importante reter que a maior parte dos oficiais da Rainha provinham da casa do rei, podendo servir os

reconhecia que a última palavra competia a Leonor. É por essa razão que, quando ocorreu um litígio entre o concelho de Almada, vila de Leonor, e o Mosteiro de Santos, relativamente, às confrontações do lugar de Coina, a Rainha é chamada a intervir, como última instância, depois do juiz da sua vila ter proclamado a sua sentença. Tal como nas terras do rei, a Rainha detém, nos seus senhorios, a justiça maior, podendo as partes (como foi o caso em Almada) apelar para ela, recorrendo, assim, das decisões tomadas pelas entidades jurídicas municipais. Efectivamente, como comprova a carta de “arras” dada a Leonor, em 1372, o rei concede-lhe vastos territórios que compreendem, entre outras coisas, os “padroados d eigreias e de moesteiros E com todo senhorio alto e baixo E com toda jurdiçam crime e ciuel e correyçom mayor e com mero e mixto jmperio e plena jurdiçom E com toda sujeeçom e execuçom assy nas pesoas como nos beens assy e tam compridamente como osnos auemos e de derreito deuemos d auer”. 744

No documento Leonor Teles, uma mulher de poder? (páginas 182-185)