2 A RESPONSABILIDADE SOCIAL EMPRESARIAL
2.4 REFLEXÕES ACERCA DO CONCEITO DE RESPONSABILIDADE SOCIAL
Observou-se nesta pesquisa que, embora seja grande a quantidade de autores que abordam o tema responsabilidade social empresarial, há carência de uma abordagem mais profunda e fundamentada sobre o assunto. Nesse sentido, quais argumentos poderiam dar suporte a uma definição mais fundamentada? Segundo Pena e Castro (2010, p. 74), fica claro que, na evolução do conceito, a dimensão ética do conceito de responsabilidade social
empresarial deveria ser pauta da ética dos negócios:
A revisão da literatura empreendida por Ashley nos permite concluir que a evolução do conceito de responsabilidade social aponta para dois aspectos complementares. Primeiro: a ampliação progressiva dos stakeholders até a sua organização em rede, o que leva a ideia de sociedade sustentável. Segundo: a incorporação do referencial ético normativo à compreensão de responsabilidade social. O primeiro aspecto constitui-se em forte e importante ponto de agenda das pesquisas e estudos sobre responsabilidade social. O segundo aspecto, entretanto, ficaria mais bem compreendido se incorporado à agenda da Ética dos Negócios, visto que o conceito de responsabilidade social se despersonaliza quando é ampliado para além do que é capaz de abarcar.
A questão torna-se mais complexa na medida em que se coloca a pergunta: a
responsabilidade social empresarial deve ser algo que tem de ser buscado conforme a
orientação de um manual de instruções embasado em um determinado conceito, ou é algo que tem de ser naturalmente assumido, pela própria noção de responsabilidade com o próximo, aliada à noção de ética e moral? Se a empresa atender a todas as prerrogativas exigidas pelos conceitos vistos até aqui, estará sendo socialmente responsável?
A contar pelo histórico resumido de alguns fatos marcantes, tratados neste primeiro capítulo, da evolução da formação da sociedade, o que se pode observar é que as relações entre o Estado, as instituições privadas e a sociedade sempre foram marcadas pelas disputas de poder e dominação e, por que não dizer, pelas tentativas de todos em eximir-se de responsabilidades que cada um, teoricamente, deveria ser portador.
As funções de cada um desses sujeitos nunca ficaram bem claras, o que tem levado as instituições a uma permanente reestruturação das suas funções. Nesse movimento histórico
dialético, lentamente, a sociedade, mesmo sob conturbada ordem social, foi tentando se
organizar na medida em que um foi pressionando o outro e todos foram percebendo que, na luta pelo poder, a relação ganha/ganha é a mais interessante, para que se possa continuar progredindo em busca de uma sociedade ideal37. Nesse processo, os movimentos e as organizações sociais mobilizam-se e, de uma forma ou de outra, conseguem aos poucos estabelecer códigos de conduta (leis e normas), intervindo junto ao Estado, para que ele possa, pelo uso do seu poder, homologá-los, transformando-os em leis e, a partir daí, coibir e penalizar as ações daqueles que demonstram não ter nenhuma preocupação em respeitá-los.
Mas, e o que não está estabelecido nesses códigos (ou na lei) ainda? E o que está estabelecido, mas não é cumprido? E o que não é cumprido e não é penalizado? Como esperar de uma empresa que ela tenha uma conduta socialmente responsável, independentemente daquilo que está, ou do que ainda falta, nos códigos? Por que a exigência de uma referência normativa ética aparece no processo de evolução do conceito de responsabilidade social empresarial?
Nesse sentido, apoia-se, aqui, a ideia proposta por Pena e Castro (2010, p. 75) de que a dimensão ética deve ser incorporada ao conceito de responsabilidade social empresarial à luz de um modelo teórico referencial de ética nos negócios e não a partir de uma nova construção do conceito. De acordo com Lozano (apud PENA; CASTRO, 2010, p. 76), é importante ressaltar que, atualmente, “uma empresa tida como socialmente responsável não significa que a mesma seja capaz de articular ética e negócios [...]”. De maneira que, se uma empresa estiver honrando com seus compromissos legais, apresentar o seu balanço social, trabalhar bem o seu marketing social, realizar ações de filantropia ou projetos sociais, ainda
37 Na opinião do autor desta dissertação, não se sabe ainda o que é uma sociedade ideal, mas supõe-se que seja
aquela onde há uma convivência harmônica e pacífica, em que as relações de troca sejam equilibradas e que todos tenham uma satisfação igualitária, sentindo-se devidamente recompensados pelos esforços que realizam em prol do todo. Ou seja, a sociedade ideal seria aquela em que houvesse a sensação unânime de justiça social, ou aquela em que não houvesse nenhuma sensação de injustiça social por parte dos membros que a compõem.
assim, pode ser uma empresa não isenta de atitudes ou comportamentos antiéticos. Desde esse ponto de vista, o fato de a empresa ser considerada socialmente responsável, não nos dá nenhuma garantia de que suas atividades sejam todas corretas e a favor do desenvolvimento sustentável. Muitas vezes, a empresa
[...]demonstra sua preocupação social, capitaliza essa inversão junto à comunidade favorecida e à sociedade como um todo, mas sua dinâmica de funcionamento, as condições de trabalho e as metas de resultados não mudam nada, como se uma coisa não tivesse relação com a outra. (PENA; CASTRO, 2010, p. 180)
Esse julgamento, na prática, não é algo que seja fácil de ser feito, mas o que Pena e Castro salientam é que, na realidade, algumas empresas consideradas socialmente responsáveis, não necessariamente tenham que ser éticas na íntegra. Nota-se que existe dificuldade de se conceituar responsabilidade social empresarial, de maneira que haja unanimidade sobre seu significado, principalmente no que tange à sua relação com a ética.
É importante se observar ainda que, no caso da responsabilidade social empresarial, a existência do objeto precede o seu conceito. O conceito foi se formando historicamente, após as primeiras práticas, relacionadas à responsabilidade social empresarial, já existirem. Nesse sentido, o pressuposto ético não era tão levado em conta no seu conceito inicial. Porém, ao analisar a evolução do significado do termo, pôde-se verificar um incremento de condições que vão se sobrepondo, de modo que, para uma empresa ser dita socialmente responsável, a dimensão ética deveria se associar mais fortemente à sua compreensão.
Nesse processo, o conceito evolui para um novo sentido, com base em um fundamento filosófico, no qual a ética e a responsabilidade social passam a ser indissociáveis, de modo que uma empresa já não pode ser reconhecida como socialmente responsável sem que um comportamento ético seja assumido pela mesma. Mas, que comportamento ético é esse? A partir de que critério ou princípio pode-se classificar uma empresa como sendo ética? A partir desses questionamentos, fez-se uma reflexão na busca por um fundamento filosófico que pudesse qualificar esse comportamento como sendo ético.
Antes, porém, diante de tudo que foi discutido até o momento, arrisca-se aqui uma síntese conceitual para o termo responsabilidade social empresarial, mesmo que inacabada: Compromisso ético da empresa de evitar que sua atuação coloque em risco as condições presentes e futuras do bem-estar social e ambiental, garantindo um desenvolvimento sustentável.
Para finalizar este capítulo, cita-se Zancanaro fazendo referência ao pensamento de Jonas:
O embate entre o que é melhor numa sociedade capitalista, socialista, democrática, autoritária etc., embora real no plano ideológico, é uma questão secundária. O que importa não é a questão ideológica ou a concepção de mundo, mas a existência da humanidade. Por isso, o fato de tomar em nossas mãos esse processo inteiramente novo significa assumir a responsabilidade pelo que há de vir, preservando o “bem
substancial”. (1998, p. 147).
Essa citação abre as portas para as reflexões desenvolvidas nos capítulos dois e três, em que se pretende chegar a uma nova visão conceitual do termo responsabilidade social
empresarial através da análise de o princípio responsabilidade de Hans Jonas, como