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Respeito: uma exigência do princípio responsabilidade

4 PRINCÍPIO RESPONSABILIDADE: UMA ANÁLISE APLICADA À GESTÃO

4.3 O PRINCÍPIO RESPONSABILIDADE APLICADO À DIMENSÃO INTERNA DA

4.3.4 Respeito: uma exigência do princípio responsabilidade

O princípio responsabilidade impõe um fim maior que reinivindica respeitar o homem como homem, e não tratá-lo como um mero objeto das ideologias de dominação. É preciso nesse sentido, que o empresário promova a consciência do empregado, de modo que ele possa através do dialogo consciente com aquele, achar o melhor modo de produção. Para Vares (1989, p .72), “o capitalismo moderno não trouxe a libertação, muito pelo contrário”.

Ser responsável significa aceitar ser tomado como refém por isto que existe de mais frágil e mais ameaçado. Queiramos ou não, somos os arquitetos da sociedade futura, visto que ela não nos pertence desde o mais originário progresso tecnológico, mesmo se nós o quiséssemos. Isto que nos pertence em contra partida, é a consciência de que somos reféns desde agora do futuro que fazemos existir. (GREISCH, apud ZANCANARO, 1998, p. 44)60.

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A produção de mercadorias e a inovação tecnológica aprisiona o homem e as relações de trabalho nas empresas socialmente irresponsáveis que tomam um rumo cuja distância entre o humano e sua própria humanização é cada vez maior. Obviamente, isso não ocorre em todas organizações empresariais. Já há uma boa parte de empresas atuando com consciência mais responsável, no entanto poucas utilizam-se da responsabilidade natural.

O saber do tipo atual aprisiona o homem em vez de libertá-lo. O homem faber está acima do homem sapiens. Jonas não aceita, ao contrário de Kant, que as leis da ação se condicionem à autoconcordância da razão consigo mesma. A ação, não condicionada a um fim supremo, pode colocar em cheque a humanidade. Mesmo que em favor da liberdade, não se pode colocar em risco um todo. Nesse contexto, a noção de responsabilidade implica a de respeito, sendo que o direito tradicional do indivíduo dá espaço ao bem coletivo.

Essa noção de respeito assume uma conotação discreta na teoria de Jonas:

Como se trata não apenas do destino do homem, mas também da imagem do homem, não apenas de sobrevivência física, mas também da integridade de sua essência, a ética que deve preservar ambas precisa ir além da sagacidade e tornar-se uma ética do respeito. (JONAS, 2006, p. 21)

Jonas com isso quer dizer que o conceito de respeito está intrínseco ao conceito de responsabilidade em sua teoria. No caso da empresa, acredita-se que essa noção de respeito associada ao princípio responsabilidade deve ser mais fortemente defendida. No meio coorporativo, o respeito é fundamental para que se estabeleça a noção de responsabilidade natural. O empresário é, numa economia de mercado livre, também livre, de certa forma, no uso de seus poderes, porém, o imperativo ontológico da vida lhe obriga a respeitar as outras formas de vida, pois a sua continuidade, implica a continuidade da humanidade. Assim, ele deve fazer com seus funcionários: respeitá-los acima de tudo. Mas o que é respeitar nesse sentido?

Utilizar-se-á um outro exemplo para explicar a noção de respeito da qual se fala. Consideremos uma empresa de uma nação subdesenvolvida, cuja tecnologia já não é tanta e a mão de obra humana é mais valorizada. Nessa empresa, todas as manhãs, o diretor reúne os funcionários no pátio e reza uma oração para abençoar o dia. Aos olhos de um estranho, independentemente do seu credo, parecerá uma atitude nobre e humana, pois sugere haver ali uma preocupação com o ser humano. No entanto, ao passar pela fábrica minutos depois do início da jornada do dia, o diretor observa um operário inexperiente realizando uma operação de maneira inadequada. Abruptamente, ele se dirige ao funcionário e, aos berros, toma-lhe a

ferramenta de trabalho para mostrar-lhe como a operação deve ser executada, humilhando-o perante os colegas. Os demais funcionários observam que o tratamento do empresário com o funcionário é infinitamente pior do que com seus cachorros de raça, tão bem tratados. Em seguida, ao passar por uma funcionária, a assedia de maneira totalmente constrangedora. E, assim, no decorrer do dia, inúmeras situações de abuso de poder se sucedem.

Uma contradição, para quem até poucos minutos atrás estava orando juntamente com seus funcionários. Essa empresa cumpre com suas obrigações, paga seus salários em dia e, além de tudo contribui financeiramente com a paróquia da comunidade. Pergunta-se: essa empresa é responsável socialmente? Pode até ser perante os olhos da sociedade. Mas, seu diretor coloca tudo a perder ao tratar mal os funcionários, desrespeitar o gerente da área, ignorando a hierarquia estabelecida. Seria menos desrespeitoso do diretor tratar seu

subordinado direto daquela forma, mas não o subordinado do seu subordinado. Enfim,

aproveita-se do poder que tem e o usa da pior maneira possível, desrespeitando a condição humana e a liberdade de cada um. Atitudes como essa não tem nada a ver com a responsabilidade social que se quer defender aqui, e muito menos com o princípio responsabilidade de Jonas. Muitos funcionários aceitam tal comportamento, pois não têm opção ao precisarem do emprego.

Essas atitudes, com o tempo, tornam-se banais devido ao excesso de repetição, e os funcionários passam a aceitar esse comportamento como normal, sendo que muitos o copiam, assumindo as mesmas atitudes em sua vida cotidiana, no contexto social e até na família, como se aquilo fosse normal e sinônimo de poder. Ou seja, a relação causa-efeito pode se extender muito além dos efeitos objetivos e instantâneos do ato.

Para a natureza, o fim é a vida; o fim último é o homem. A vida autêntica, onde o homem se reconhece como tal. A natureza reclama a vida e o homem deve respeitar esse apelo. O bem é um valor e objeto de responsabilidade.

A prudência, em relação aos fins imediatos; a utilização utilitarista; a sedução do enriquecimento rápido; sem levar em conta a existência futura da humanidade, não corresponderiam a ações responsáveis. A responsabilidade tem a ver com o futuro. Por isso, se a ética implica num agir responsável em relação à natureza extra-humana e humana, então, revela-se uma complementaridade necessária entre ambas. “A causa torna-se minha, o poder é meu porque existe precisamente um liame causal. O poder, nesse caso, torna-se efetivamente responsável”.

A ética da responsabilidade de Hans Jonas determina um princípio no qual os deveres do homem devem se pautar. O princípio geral é que toda norma válida deve satisfazer

a condição de que as consequências e efeitos colaterais que previsivelmente resultariam de sua aplicação devem ser aceitos por todos os afetados. Ele não discorda de Kant na totalidade, apenas especifica que deve haver mais um critério além da universalização da ação, pois ela tem que estar em concordância com a perpetuação física da espécie humana, de maneira que o homem não perca sua essência.

Para Pena e Castro (2010, p. 152), “a empresa ética tem como pressuposto filosófico a sua compreensão de responsabilidades e leva a considerar que o presente está a serviço do futuro”. É essa preocupação e essa noção de responsabilidade em relação às gerações futuras e ao meio ambiente que deve ser incorporada pela empresa ética. Mais especificamente, como abordado por Jonas, é preciso haver uma preocupação com a essência do ser humano para além de sua existência e integridade físicas. O empresário, assim como o político, deve exercer o seu poder para o outro e não sobre o outro. Ninguém pode, sob o olhar da ética, colocar em perigo o futuro dos outros em prol de benefícios próprios.

A responsabilidade, para Jonas, implica no desenvolvimento do hábito de tomar decisões que venham ao encontro dos interesses de toda a comunidade e não apenas de alguns. Assim, um aspecto importante da responsabilidade empresarial deve se revelar na extensão comunitária, à medida que participa do “bem comum”. Surge a verdadeira responsabilidade social, autêntica, natural e livre. Nesse sentido, ter poder significa ter responsabilidade com o coletivo, o que exige transcender o interesse pessoal. É preciso um cuidado com o bem dos semelhantes, acima de qualquer vontade pessoal, trazendo assim os excluídos para o diálogo e acima de tudo, respeitá-los.